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CETI

Fábio Monteiro

CETI

Fábio Monteiro

Pendurados num sonho - parte III

Quando os imigrantes chegam a Melilha e são acolhidos no CETI, nem tudo corre bem. A adaptação é difícil. O futuro assustador. Falta dar um último passo: ir para o continente europeu.

Esta reportagem faz parte de uma série sobre Melilha. Clique nas imagens abaixo para ler os outros capítulos.

(Última parte da série de reportagens “Pendurados num sonho”.)

Duas crianças sírias esborracham as bochechas nas grades que vedam o Centro de Acolhimento Temporário de Imigrantes (CETI), em Melilha. Sorriem. Pedem para lhes tirar fotografias. O Observador pediu, por várias vezes, autorização para visitar o interior do CETI, mas os pedidos foram recusados. As razões são óbvias: o espaço que foi pensado para alojar 480 pessoas, dá abrigo a 1200. Nos meses de junho e julho, viveram ali 2400 pessoas.

Do lado esquerdo do centro, o espaçamento entre as grades permite ver o interior. Um espaço que se denuncia sobrelotado, com muitas tendas da Cruz Vermelha espalhadas. Uma estava aberta e dava para ver o interior: beliches de três andares e cobertores, um refúgio de aspeto desolador, impessoal. Mas que serve de abrigo a 27 pessoas. Na maioria das tendas dormem refugiados sírios. Nos edifícios de tijolo os “subsarianos”, dizem alguns imigrantes, apesar de não ser uma “regra” cumprida na totalidade.

Tendas da Cruz Vermelha no interior do CETI.

Fábio Monteiro

Passados poucos minutos, aparece o pai de uma das crianças. Jamal, 56 anos, sírio de Aleppo, conta que a sua família está há 45 dias em Melilha. Tem umas olheiras fundas, ainda veste o pijama. “As moscas comem-nos”, diz, pedindo ao jornalista para olhar ao seu redor. Em volta do CETI, está formada uma espécie de auréola de lixo; cheira a podre. Quando chove, forma-se um lamaçal. “Como porcos”, diz, “é assim que a administração do CETI nos trata. Não somos pessoas.”

O sírio Khaled Alal, 27 anos, junta-se à conversa. “Durante a noite, roubaram-me o telemóvel”, queixa-se. Perdeu todos os contactos de toda a família, que está espalhada por vários sítios: Turquia, Jordânia e Itália. “O CETI é tipo um bunker: forte por fora, mas caótico por dentro”, diz. A cidade de Melilha tem algumas parecenças.

Melilha espanhola

A forma geométrica da cidade é peculiar. Melilha é o somatório de várias esferas concêntricas, a partir da rotunda da praça de Espanha. À medida que nos afastamos do centro, o nível de organização vai diminuindo. A arquitetura altera-se.

Por vezes, dá a sensação que Melilha tem mais polícias que habitantes, uma espécie de exército que pretende defender um dos últimos redutos do colonialismo espanhol em África.

Perto do centro da cidade, existe o parque Ernandez. Um local de convívio familiar, muito frequentado pelos habitantes da cidade. Também é fácil encontrar imigrantes “subsarianos” nos seus arredores.

Mori Fofana arruma carros para juntar dinheiro.

Fábio Monteiro

Mori Fofana, 19 anos, estaciona carros, num dos lados do parque, durante a semana. Nas mãos tem uma espécie de cassetete de esferovite que usa para dar indicações nas manobras dos carros. Visto de perto, dá-lhe um ar infantil. Parece uma criança que anda a brincar com algo que encontrou na rua. Está há três meses em Melilha.

Partiu da Guiné-Conacri por causa de problemas de família. “Quando chegou a segunda esposa do meu pai, a minha mãe deixou de poder dar-me de comer. Ela não conseguia fazer nada, por mim”, conta. Passados três anos, já pouco se lembra de casa.

Por que é que ele faz aquilo? Pega com dois dedos na sweatshirt e puxa-a. “Não tenho roupa. Visto todos os dias a mesma coisa”, diz, a olhar para o chão, envergonhado. Por dia, faz três ou quatro euros. Quando os taxistas locais pedem para lhes lavar o carro chega aos cinco euros. “Pensar que me pediram 400 euros para passar de barco [o mediterrâneo]”, lembra, ao fazer as contas a quanto vale cada coisa.

Ao falar, agarra-se à grade que delimita o parque, como se no seu inconsciente ainda tivesse o medo de ser puxado para algum lado e ser devolvido a Marrocos. Olha para as mãos e diz: “Ainda sinto o frio do metal das vedações.” Mori Fofana sonha em partir para Málaga ou “qualquer sítio de Espanha”, para estudar mecânica. Voltar para casa está fora de questão: “A minha mãe mandava-me matar”, diz, a rir.

Sonhos mortos

Não existe nenhuma referência ou placa, em Melilha, que indique a localização do Centro de Acolhimento Temporário de Imigrantes (CETI). Mas é visível um rasto de lixo, nas suas proximidades. As razões não são claras.

A pouco menos de 500 metros do CETI, Ignacio Fernandez, 57 anos, é dono de uma das poucas mercearias na zona. Os imigrantes alojados no Centro frequentam o espaço comercial muitas vezes. “África vai ficar vazia daqui a pouco”, diz, com uma expressão facial que denuncia o seu desagrado. “Têm saltado cada vez mais”, acrescenta.

Apesar de Ignacio conviver com esta situação diariamente, afirma que não se trata de um problema “exclusivamente espanhol”. “É complicado para França e Itália, também”, diz. Para o merceeiro, o principal dilema está na “capacidade de absorver todos”, “não quer dizer eles sejam más pessoas”. “Com a crise, não temos emprego para todos. Não existe forma de absorver tantas pessoas. Muito menos aqui em Melilha, que é uma cidade tão pequena”, diz.

Entrada do Centro de Acolhimento Temporário de Imigrantes (CETI).

Fábio Monteiro

Partindo da mercearia de Ignacio, chegar ao CETI é rápido. Atravessa-se uma pequena ponte e temos diante de nós um campo de golfe cortado por uma estrada de alcatrão e o Centro de Acolhimento Temporário de Imigrantes. Debaixo da ponte, está um grupo de jovens – espanhóis, marroquinos e imigrantes do CETI – juntos a rappar. Cheira a urina.

Rodam um cigarro de haxixe e bebem cerveja Amstel. As pupilas estão dilatas e os olhos vermelhos. Hliou Hamidou, 27 anos, nigeriano, faz de porta voz do grupo. “Bem-vindo à liberdade, bem-vindo”, diz, com os braços no ar. Tem uma boina cinzenta na cabeça, um anel de brilhantes na mão esquerda.

Hliou sonha em ir para a Holanda, mas não pode. Depois de saltar para Melilha foi-lhe diagnosticada uma doença que não quis revelar. Todos os imigrantes doentes ficam a ser tratados em Melilha e não são enviados para outro centro de apoio na Europa. Hliou está frustrado. “Quando olho para o mediterrâneo penso que o meu sonho vai concretizar-se”, diz, como quem recita uma profecia que sabe que não se vai concretizar. Esteve três anos e meio a tentar entrar e agora “isto”. Isto é a imobilidade e o travo amargo que os sonhos criaram.

“Esqueceram o futuro. Só bebem, fumam. Mas não os posso julgar. Depois de tudo o que passamos, aquela é a forma de eles sentirem um pouco de liberdade”, diz Georges Noah.

No meio daquele grupo, existe uma pessoa que destoa. Está deslocado. Georges Noah, 28 anos, nascido nos Camarões, veste uma t-shirt cinzenta lisa colada ao corpo e uns calções beges. Quando diz que é designer gráfico torna-se ainda mais intrigante. Fala inglês e francês na perfeição, ao contrário da grande maioria dos imigrantes. É o único que não dá umas “passas” no charro de haxixe. Está sentado a olhar para aquele grupo de pessoas e a única coisa que faz é ouvir. Parece estar a tentar capturar alguma coisa, mas não é claro.

Georges faz um pequeno brinde com Hliou. Promete falar com o jornalista, mas quando recebe uma mensagem fica com ar preocupado. “Tenho de ir”, diz, ao despedir-se à pressa. Mais tarde, descobrimos porquê.

A viagem definitiva

Faltam menos de três horas para o barco que faz a viagem durante a noite para Málaga partir. Georges Noah aparece no café do porto, do nada. “Recebi uma mensagem a dizer que podias ser um polícia da Guarda Civil”, explica, ao jornalista, quando se senta ao lado dele.

Georges Noah e mais 34 imigrantes iam naquela noite apanhar o mesmo barco que o jornalista para Málaga, para serem acolhidos num centro da Cruz Vermelha na cidade. Nunca nenhum pisou o continente europeu.

Circulam pela estação de barcos. Tiram fotografias. Parece que vão de férias. Sobem e descem as escadas rolantes, como crianças num parque de diversões. Para muitos é a primeira vez que experienciam aquilo. Foram enviados para Málaga sem dinheiro ou jantar.

Na televisão de um café do porto de Melilha, passa um anúncio com efeitos 3D de uma marca de champôs. “Eu faço aquilo”, diz Georges, a apontar para a televisão. Bebe uma coca-cola. Foram os sírios que lhe deram dinheiro. “Conseguem ser genuinamente bons, depois de viverem uma guerra”, diz.

Georges Noah é cru. Não existe qualquer efabulação na forma como fala. “Desculpa, mas a realidade é que quando não se tem dinheiro, não se vive”, diz. Os pais de Georges morreram por não terem dinheiro para pagar tratamento médico. “É este tipo de coisas que acontece no meu país”, acrescenta. Fugiu de lá por ser idealista. Trabalhava numa organização de direitos humanos que descobriu ser corrupta. “Não hesitei, e fiz a denúncia”, conta.

Durante três meses viveu no monte Gurugu. “É o frio, é o sofrimento”, diz, lembrando o que passou. A situação no CETI não é melhor que a de Marrocos, diz. Estar lá demasiado tempo “faz mal à cabeça”. “Pensamos todos os dias: vão nos mandar para casa”, conta, como um doente que sofre de stress pós-traumático.

Por isso é que não julga os amigos que passam os dias debaixo da ponte a fumar e a beber. Estão “descompensados”. “Esqueceram o futuro. Só bebem, fumam. Mas não os posso julgar. Depois de tudo o que passamos, aquela é a forma de eles sentirem um pouco de liberdade”, diz, contando que aquele brinde a que o Observador assistiu foi o primeiro em dois anos e meio. “Para comemorar.”

Georges soube que ia partir para Málaga no dia anterior, através de uma lista que foi afixada no CETI. Deram-lhe o bilhete para a mão na manhã do dia que ia partir.

Os passageiros são chamados para embarcar. Georges levanta-se rapidamente, como pronto para alguma corrida. Quando são chamados a entrar no barco, os imigrantes são postos numa fila à parte, onde vão passar por um protocolo de segurança. Dá para perceber que vestem a melhor roupa. Óculos de sol na cabeça, brincos brilhantes nas orelhas. Querem dar boa impressão quando chegarem à Europa.

Quando os guardas fronteiriços lhes pedem os cartões de identificação do CETI ficam desconfiados. Estão a perder o único documento que lhes dava segurança. Mesmo ao lado, um grupo de espanhóis está a discutir o prognóstico para o confronto futebolístico entre o Real Madrid e o Barcelona.

“Quando olho para o mediterrâneo, penso que o meu sonho vai concretizar-se”, diz, como quem recita uma profecia que sabe que não se vai concretizar.

Antes de tentar saltar para Melilha, Georges passou quatro meses nas florestas, nos arredores de Tanger. Esteve quase para passar de barco. Deu um, dois, três, quatro passos. E pensou: “Se Deus não existe, vou morrer hoje.” Olhou para o zodiac – barco insuflável – e sentiu que algo o impedia de avançar. “Dei um, dois, três, quatro passos para trás. Algo estava a rebentar dentro de mim e eu não podia ir naquele barco”, conta. O pressentimento de Georges tornou-se realidade: “morreram 62 imigrantes afogados naquela viagem. Fui salvo.”

Georges entra no barco e vai para o convés. Senta-se numa mesa num canto, com vista para tudo. Dormir não é possibilidade. “Esperei por isto tanto tempo. Dormir é que não”, diz. Um primo que mora em Bilbao telefona-lhe. Quando a chamada acaba, Georges fica a sismar. O primo disse-lhe: “Esta é a vida nova. Tens uma vida nova.”

Georges pára para pensar e faz-se silêncio durante alguns segundos. “É uma vida nova. Tenho que fazer algo com a minha vida. É uma vida nova”, acrescenta. Cruza os braços e contempla o que que se está a passar. “Isto é um sonho”, diz. Vai buscar um café e bebe-o ao longo de 30 minutos. Empasta-o de açúcar. Velhos hábitos da montanha, que ficaram entranhados.

A noite passa rapidamente: entre passeios no convés, assistir séries na televisão do bar e conversas de grupo. São poucos os imigrantes que dormem. Quando o barco se aproxima de Málaga, Georges é o primeiro a ir buscar a mala. E o primeiro a sair.

Georges (veste o casaco branco) depois de sair do barco, em direção à zona de controlo de passaportes.

Sai num passo rápido, ganhando balanço com os braços como um maratonista. A ansiedade apoderou-se dele. “Vejo a Europa como o desconhecido. E o desconhecido é bom…”. Todos os imigrantes são, novamente, postos numa fila à parte, depois de saírem do barco. Georges está sorridente, pela primeira vez, agarrado à sua mala.

Do nada, aparece um pardal a voar dentro da zona de controlo de passaportes. Não é possível saber de onde veio. Começa a ir contra o vidro, ao tentar sair daquele ambiente fechado. Tenta voar dali para fora, mas desiste. E acaba por pousar no ombro de um imigrante.

Este agarra-o com uma mão. Com um dedo, toca-lhe no bico, de forma carinhosa. Sorri-lhe. Antes de o meter no bolso diz-lhe: “Já vais ser livre.”

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Pendurados num sonho – parte I

Pendurados num sonho – parte II

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