De um lado a metalomecânica, do outro o peixe congelado. Duas indústrias que não têm nada em comum a não ser, neste caso, quem as gere. Sérgio Silva é o CEO do grupo trofense Vigent, que integra a Metalogalva, uma empresa de estruturas metálicas com mais de 50 anos, e a Brasmar, que se dedica à transformação e comércio de pescado congelado. Em 2024, as duas juntas faturaram quase 900 milhões de euros.
Sérgio Silva, filho e sobrinho dos fundadores da Metalogalva, assumiu o grupo em 2010, mesmo antes de Portugal ser intervencionado pela troika. “Foi o maior desafio da minha vida”, confessa ao Observador. Nessa altura, as empresas do grupo exportavam 7% do que vendiam. Uma realidade que em nada se assemelha à atual, em que Portugal concentra apenas uma pequena parte dos negócios tanto da Metalogalva como da Brasmar. Hoje, tem mais de 15 fábricas espalhadas em países como Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e até na Ucrânia, uma unidade que, mesmo com a guerra, só esteve parada durante um mês.
A aposta mais recente são os Estados Unidos. A Metalogalva abriu em 2023, em Memphis, uma fábrica que produz estruturas metálicas para a indústria fotovoltaica. E nem as tarifas de Trump fazem Sérgio Silva repensar o investimento. Pelo contrário. O CEO do grupo Vigent garante que nos próximos anos, com ou sem tarifas, a aposta do grupo passará mesmo por mais fábricas no país, através de aquisições — uma estratégia que Sérgio Silva adotou há mais de 20 anos nos dois principais negócios do grupo. Aliás, para o CEO do grupo Vigent, as tarifas de Trump são um problema menor comparado com a taxa de 25% que a União Europeia impõe ao aço importado e que terá custado à Metalogalva 40 milhões de euros só em 2024. “Se explicarmos a uma criança que se aplicarmos tarifas vamos perder competitividade, uma criança entende isto, mas infelizmente os nossos políticos têm alguma dificuldade”, critica.
https://observador.pt/programas/sob-escuta/manter-fabrica-na-ucrania-e-questao-humanista/
Abriram uma fábrica da Metalogalva nos Estados Unidos há dois anos, quando ainda não se sonhava com a imposição de tarifas nem com uma guerra comercial. Como é que está a correr essa operação?
A operação está a correr muito bem. Abrimos a fábrica há cerca de dois anos e meio, fruto também do Inflation Reduction Act (IRA) lançado por Biden para captar indústrias e produtos que consideram estratégicos para os Estados Unidos.
Foi isso que vos levou aos Estados Unidos?
Sim. A fábrica faz estruturas metálicas para parques solares. Nós tínhamos um grande cliente nos Estados Unidos e percebemos, na altura, com essa medida que ia ser tomada pelo Biden, que teríamos de deslocalizar uma das unidades que tínhamos em Portugal, em Famalicão, para os Estados Unidos, porque senão iríamos perder completamente o cliente e a possibilidade de continuar numa área em grande expansão, que é a área solar. Tomámos a decisão.
Fecharam a unidade de Famalicão?
Não, mas a atividade reduziu-se drasticamente. E reduziu-se ainda mais nestes últimos dois anos… não só pela deslocalização da fábrica para os Estados Unidos. Ela está a funcionar, está a funcionar bem, é uma fábrica lucrativa, mas, face ao potencial que tinha, foi muito reduzido, não só por esta deslocalização da fábrica para os EUA, mas também pelo facto de, neste momento, a União Europeia estar a aplicar tarifas às matérias-primas, vindas de vários países, e isso sim causa-nos um constrangimento muito grande, porque as tarifas da União Europeia só são aplicadas às matérias-primas e não aos produtos de valor acrescentado…
De que matérias-primas estamos a falar?
Estamos a falar de aço e de taxas de 25%, o que retira completamente a nossa competitividade para vender produtos dentro da Europa. Nós deixámos de ser competitivos para exportar para os Estados Unidos nos produtos solares, que é um produto muito mais competitivo e de grande volume, mas nas estruturas solares deixámos de ser competitivos. Primeiro, para os Estados Unidos tivemos de deslocalizar a fábrica por via do protecionismo americano, mas por outro lado também a União Europeia, ao proteger só a siderurgia, e esquecendo-se dos produtos de valor acrescentado que são produzidos pelo aço na Europa, penalizou-nos em 25%, e neste momento perdemos competitividade na própria União Europeia porque o produto que vem acabado tem, logo à partida, uma mais-valia para quem exporta, neste caso da China, da Turquia, de outros países, de onde a matéria-prima vem mais barata em 25%.
No que é que essa perda de competitividade vai resultar? O que vão ter de fazer?
Ou deslocamos agora, criamos uma fábrica, por exemplo na Turquia, ou, neste tipo de produtos, deixamos de ter competitividade. Fala-se muito nas tarifas do Trump, e isso preocupa-nos a todos, e realmente esta instabilidade que se criou é muito forte, mas na questão do aço em concreto estou mais preocupado com estas tarifas que a União Europeia impôs há cerca de um ano e meio e que devem perdurar até o próximo ano. Por muito esforço que estejamos a tentar fazer no sentido de sensibilizar a União Europeia e os nossos políticos para este problema… toda a indústria de aço na Europa, ou seja que utiliza o aço para acrescentar valor nos seus produtos, é neste momento altamente penalizada com estas tarifas.
Mas podiam ter o mercado europeu como destino, ou não?
E tínhamos. Só que, nesse produto em concreto, estamos a ser bombardeados por produtos chineses, turcos e de outras proveniências porque deixámos de ter competitividade. Ao comprarmos o aço com mais 25% [leva a que] as empresas chinesas ou turcas, que transformam o aço e exportam, tenham conquistado uma competitividade imediata de 25%. Porque não são sujeitas às tarifas de 25% no produto. Se explicarmos a uma criança que se aplicarmos tarifas vamos perder competitividade, uma criança entende isto, mas infelizmente os nossos políticos têm alguma dificuldade. Há um lobby muito forte na indústria do aço, na parte da siderurgia, mas que acaba [também] por perder porque, no final, eles próprios vão ter menos clientes dentro da Europa para o próprio aço.
A Metalogalva vendia para que países?
Dentro da Europa. Da fábrica, na parte solar deslocalizámos para os Estados Unidos, mas aquilo que fazemos dentro da Europa nesse produto praticamente deixámos de trabalhar.
Mencionou a hipótese de abrir uma fábrica na Turquia. Isso está em cima da mesa?
Sim, está em cima da mesa. Neste momento também estamos à espera de perceber um bocadinho, porque a União Europeia vai, à partida, ser obrigada a acabar com estas tarifas no próximo ano. Mas tendo em conta todo este protecionismo que neste momento está em vigor no mundo, nos Estados Unidos, com esta guerra comercial, a própria União Europeia também já vinha a aplicar estas tarifas, no próximo ano isto tem que acabar mas provavelmente a União Europeia vai arranjar uma forma de aplicar de outra forma este tipo de tarifas. E vamos ver. Até lá, vamos estar um ano e tal numa indefinição à espera que a União Europeia tome uma decisão em relação a isto. Ontem tive uma reunião na Associação, na AIMMAP (Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal), e estamos a fazer um esforço muito grande no sentido de sensibilizar os políticos, a União Europeia, temos falado com deputados europeus sobre estas questões.
O que ouve de resposta?
Para já há um desconhecimento da classe política. Para o bem e para o mal a União Europeia trouxe-nos muitas coisas boas. Não há dúvida nisso. Portugal cresceu nos últimos anos e tornou-se num país muito mais próspero com a entrada na União Europeia. Mas os governos nacionais, nomeadamente o governo português, em termos de política económica, os governos não têm quase nenhuma ou têm muito pouca influência porque realmente a política económica é definida toda em Bruxelas. E muitas vezes chegar a Bruxelas e fazer entender os problemas de cada país e que eles percebam a dinâmica dos países e dos setores é muito complicado porque são políticos com uma capacidade de ação muito grande sobretudo na Europa e muitas vezes não estão preparados nem sensibilizados para estas questões. E nem têm experiência sequer de trabalho para lidar com estes problemas que lhes permita perceber que isto é uma questão grave. A Europa tem que ter siderurgias e temos que defender a indústria siderúrgica europeia, mas não podemos penalizar tudo o resto, o valor acrescentado que se produz com o aço, a população que trabalha nessa área que é imensamente superior àquilo que é só a siderurgia.
Essa perda de competitividade traduz-se em números de volume de negócios?
Na Europa perdemos cerca de 40 milhões de euros de faturação neste produto. Nos outros produtos que fabricamos acabamos por conseguir ter maior valor acrescentado e conseguimos proteger-nos. Estamos mais protegidos porque tem outro grau de especialização do produto. Mas nos produtos solares, em que estamos a falar de grandes parques solares que levam quantidades brutais de aço, seria interessante para nós, porque estamos a falar de margens menores mas em volumes muito maiores, o que para nós também seria interessante, deixámos de ser competitivos e não temos hipótese para competir neste momento com a China ou com a Índia, o que já de si já é difícil mas com uma tarifa destas torna-se completamente impossível.
Esses produtos que vêm da China e da Índia também têm tarifas.
Não, no aço não. A tarifa é só aplicada à matéria-prima. Não é aplicada ao produto com valor acrescentado. E essa é a grande questão. Ao aplicarmos só à matéria-prima, e não aplicarmos a um produto transformado, nesse produto transformado, à partida, quem exporta tem uma vantagem competitiva logo muito grande. São 25% de mais valia só na matéria-prima. Para além de todos os custos que nós temos de sustentabilidade, de qualidade, de taxas de carbono para tudo, hoje em dia a União Europeia é completamente assoberbada por custos, taxinhas e custos de contexto enormes. Para além disso ainda temos este custo, também efetivo, de tarifa.
Mas dentro do mercado europeu não há taxas.
Ao taxar a matéria-prima, o que é que acontece ao aço europeu. Automaticamente sobe 25%, sobe de preço.
Vocês compram a matéria-prima primordialmente a quem?
Independente de nós comprarmos na Europa ou fora da Europa, a matéria-prima subiu 25%. Porque a taxa faz com que a indústria europeia siderúrgica possa subir os preços em 25%. Só que isso tira-nos a competitividade toda.
Compram a que siderurgias?
Compramos em todo o mundo. Nós temos um volume de aço brutal e compramos em todo o lado. Claro que compramos na Europa também, mas compramos em todos os países. E depois, hoje em dia, há quotas, o sistema de compra aço neste momento está altamente complexo e burocratizado. A União Europeia, neste momento, impõe-nos um nível de burocracia nas compras, absolutamente…
Porquê?
Estão a preparar também o CBAM (Carbon Border Adjustment Mechanism), mecanismo para as taxas de carbono. A União Europeia está a recolher toda a informação acerca da pegada de carbono que esses países que nos enviam matéria-prima estão a ter nos seus produtos. Cada importação que nós fazemos de um país obriga-nos a preencher centenas de folhas de Excel. E não estou a exagerar. E enviar essa informação toda para a União Europeia. E é mais uma carga administrativa e burocrática que nós temos. Tudo isto pesa no custo do produto e depois dizem que a indústria europeia não é competitiva. Não é competitiva, porque, para além de toda esta burocracia, esta regulamentação toda, ainda temos este custo que nos sobe a matéria-prima, artificialmente…
Fala-se muito agora das tarifas de Trump…
Neste caso, na área da metalomecânica, estou muito mais preocupado com as tarifas da União Europeia.
40 milhões perdidos na Europa e compensados nos EUA. Potencial é “muito maior”
Há pouco, quando estava a explicar porque é que tinha ido para os Estados Unidos, explicou que foi por causa do IRA [Inflation Reduction Act de 2022]. Que incentivos é que receberam na altura?
Há um conjunto de incentivos locais, a nível estadual, mas são pequenos, não são muito relevantes. O grande incentivo é que por cada 1 euro de aço vendido há 50 cêntimos de apoio direto do Estado à produção local.
Ainda não foi revogado?
Não, continua. Este incentivo não é para nós, é para incentivar o cliente final a comprar americano. O cliente final é que vai ser o beneficiário desta mais-valia, mas isto faz com que o aço tenha que ser comprado nos Estados Unidos e fabricado nos Estados Unidos. E daí nós termos tido que deslocalizar a fábrica. Este ano vamos fazer uma faturação de cerca de 70 milhões de euros nos Estados Unidos. A nossa perspetiva para o ano é passar os 100 milhões de euros de faturação.
Só para vendas nos Estados Unidos?
Só para vendas nos Estados Unidos.
Não exportam nada dessa fábrica?
Não. Tudo local.
Têm vários clientes?
Sim. Neste momento, os Estados Unidos é a aposta. Nós sentimos que podemos acrescentar valor. É interessante que é um mercado que, em alguns aspetos, naquilo que é o nosso setor, percebemos que, em termos de conhecimento de produto, em termos de fabricação, temos aqui uma mais-valia interessante. E é um país onde nos vamos focar e vamos tentar também fazer outro tipo de produtos que fazemos aqui em Portugal para o mercado americano. Já era interessante, mas com a proteção que existe neste momento, ainda mais com esta situação do Trump…
Focar no mercado americano quer dizer o quê? Mais fábricas?
Sim, sim. O nosso foco vai passar pelos Estados Unidos. Este ano estamos a fazer uma paragem em termos de aquisições, porque fizemos um conjunto de aquisições nos últimos anos e precisamos agora de 2025 para estabilizar a situação das empresas, para as equipas também conseguirem absorver tudo das aquisições que temos feito. Mas, a partir de 2026, iremos começar a estar atentos ao mercado americano, no sentido de podermos encontrar empresas dentro do nosso negócio. Na Metalogalva, a nossa prioridade vai ser os Estados Unidos.
Com potencial também para adquirir empresas nos Estados Unidos? Têm privilegiado muito esse crescimento por aquisição…
Temos feito as duas coisas, temos feito crescimento orgânico e temos feito crescimento por aquisições, sobretudo aqui na Europa, fizemos bastantes. E nos Estados Unidos também vai ser uma prioridade e iremos tentar encontrar empresas…
Neste momento, quantas fábricas têm na Europa?
Em Portugal, temos umas nove, 10. Depois em França temos uma, na Alemanha temos duas, na Polónia temos duas, na Inglaterra também temos uma.
Essa aposta dos Estados Unidos vai obrigar a fechar fábricas aqui na Europa?
Não, de forma nenhuma. Todo este investimento que fizemos aqui na Europa centrou-se muito na área de iluminação pública, onde nós somos hoje em dia líderes europeus, e fizemos uma grande aposta nesse produto. E, provavelmente, nos Estados Unidos também vai ser uma área em que vamos querer apostar. Iluminação pública e transporte de energia vão ser as áreas em que vamos querer apostar, à semelhança daquilo que fazemos na Europa
Quanto é que investiram já nos Estados Unidos?
Nos Estados Unidos devemos ter feito um investimento de cerca de 25 milhões de euros.
O que fazem agora são as tais estruturas para a indústria fotovoltaica. Neste ambiente da administração Trump parece haver uma regressão na aposta das renováveis. Acha que isso pode vir a ter impacto nessa operação em específico?
Na área solar, não. Mas na eólica, sobretudo offshore, sim. Tenho conhecimento que na área offshore os Estados Unidos vão suspender os apoios. Mas na área solar, neste momento, temos informação que tudo vai continuar. Aliás, os Estados Unidos são o maior investidor em área solar do mundo. O volume de investimento solar nos Estados Unidos é absolutamente gigantesco.
E não tem sinal nenhum de que isso vá ter alguma retração agora?
Não, neste momento, a administração Trump aquilo que tem em vista é manter tudo o que estava previsto. Não quer dizer que não mude. Com Trump tudo é possível, de um momento para o outro tudo muda.
Para essa fábrica nos Estados Unidos compram matérias-primas ao exterior?
Não, não, é tudo matéria-prima local. A matéria-prima, o aço, é todo americano.
Essa é então a operação que, neste momento, vos descansa mais, porque estão a fazer tudo em casa, a vender para casa…
Não. Na Europa, a área de transmissão de energia é um produto em que não há mãos a medir, há um volume gigantesco nessa área na Europa. E também estamos tranquilos, porque aí a questão da matéria-prima não é um fator tão preponderante. Há outros fatores que são importantes, o serviço, a capacidade de resposta — um produto que demora 4 ou 5 meses a vir da China já não é tão competitivo pelo tempo que demora. Já no caso em projetos de solares, em que é possível pensar mais a longo prazo e planear mais, aí é que nós temos perdemos. Mas, por um lado, também ganhámos nos Estados Unidos. E acabámos por compensar.
Dá para compensar?
Sim, os Estados Unidos compensam bastante.
Esses 40 milhões que perdeu na Europa…
Compensámos nos Estados Unidos porque ganhámos um volume também muito maior nos Estados Unidos com um potencial também de crescimento muito maior lá.
A desvalorização do dólar que está a acontecer, inclusivamente por receios de recessão, tem impacto?
Não tem efeito. Não tem efeito porque o mercado é interno. Compramos em dólares e vendemos localmente, em dólares. Nós compramos matéria-prima americana e vendemos produtos acabados dentro dos Estados Unidos. Por isso a questão do dólar é só mais ao nível do investimento que lá fizemos.
E repatriar lucros? Já tiraram lucros?
Não, neste momento, estamos numa fase de investimento e iremos continuar… Mas a questão do dólar a não ser que vá para 1,30 ou 1,40… esta flutuação neste momento ainda não é relevante.
Qual é a vossa maior dificuldade nos Estados Unidos? Mão de obra?
A mão de obra foi um tema crítico, mas também é um tema crítico em todo o lado. Custou-nos mais um bocadinho porque foi uma operação que nasceu do zero, em que só temos dois elementos expatriados a partir de Portugal. Dois portugueses estão lá, dois engenheiros, mas toda a estrutura foi montada com colaboradores locais. No início tivemos que ter alguns portugueses a ir lá para dar apoio. Temos sempre um vai e vem de colaboradores entre Portugal e os Estados Unidos, mas a operação como também está a crescer e nós vemos potencial, já começámos a procurar o tipo de potencial lá em termos de produtos para onde queremos crescer e fazer coisas novas.
Nessa parte da mão de obra, sentiram algum impacto e alguma dificuldade por causa do fechamento pelas políticas de Trump, nomeadamente à imigração?
Nós estamos em Memphis, no estado do Tennessee. Nós fomos para Memphis por duas razões principais. Era um local estratégico para nós porque em termos de investimento sabíamos que naquela zona ia haver muito investimento e para nós a questão da logística e do transporte era importante. Depois também o fator da mão de obra porque sabíamos que ali, naquela zona de Memphis, havia mais mão de obra disponível. Memphis não é uma cidade típica americana, ficou um bocadinho parada no tempo. Neste momento nota-se que há um esforço de reconverter a cidade e de atualizá-la. É uma cidade até de certa forma violenta, é uma das cidades mais violentas dos Estados Unidos. Mas na questão da mão de obra tivemos dificuldade em construir a base que temos hoje, já temos lá cerca de 120 pessoas a trabalhar, tivemos algum conflito entre americanos e mexicanos.
Que tipo de conflito?
Entre os trabalhadores. Por exemplo, tínhamos um turno de dia e um turno de noite. O turno de dia era americano e o turno de noite era mexicano.
Agora já depois das eleições?
Não, antes das eleições. Já no tempo da anterior administração. E um certo conflito. Mas depois as coisas vão estabilizando e neste momento temos uma operação completamente normal. E para já até o momento não tivemos ainda nenhum caso de polícia.
Esses trabalhadores mexicanos continuaram a comparecer ao trabalho e não tiveram medo, não saíram do país?
Continuaram. [O problema] não foi agora. Foi no início, há cerca de dois anos. Neste momento a operação está completamente normalizada e estabilizada do ponto de vista das pessoas.
Mas na expansão que fizerem vão ter em conta a questão da mão de obra? Ver onde pode haver mais dificuldades?
Sim, esse é um tema importante. Mas concretamente naquele estado nós não sentimos tanto essa questão da mão de obra. Eu conheço bem os Estados Unidos, viajo muito para os Estados Unidos. Se formos à Califórnia é dramático. Se formos à zona de Nova Iorque também. Mas aquele centro dos Estados Unidos, e também se calhar por ser aí a base do Trump, estava um bocadinho mais esquecido. Também tem havido um esforço de reindustrializar aquela zona para conseguirem dar mais postos de trabalho. Aí sente-se realmente que havia uma América mais esquecida, digamos assim.
Manter fábrica na Ucrânia “é uma questão mais humanista da nossa parte”
Não estão só nos Estados Unidos, estão em vários países, cerca de 15. Mas também tem uma operação na Ucrânia. Esta operação ainda funciona? E como é que está a operação no momento em que decorre a guerra? Onde é que é?
É a cerca de uma hora e meia de Kiev. Durante todo este período de guerra, estivemos só parados um mês. No início da guerra só estivemos parados um mês. A operação tem trabalhado. A operação é pequena, não é uma operação com relevância para nós.
Quantas pessoas é que têm a trabalhar?
Cerca de 40 pessoas a trabalhar.
A unidade é industrial?
Sim, industrial. Muito focada para o mercado local. Neste momento temos, de certa forma, ajudado a fábrica com algum trabalho de forma a que ela se possa manter ativa.
Mas reconverteram o tipo de produto que faziam?
Não, é igual. Só que estamos a colocar algum produto lá, enquanto antigamente a fábrica, antes da guerra, era para produto local. Neste momento estamos a tentar ajudar a fabricar para a Europa.
É uma fábrica rentável, que trabalha com normalidade?
Sim, neste momento com dificuldades. É uma questão também mais humanista da nossa parte em manter a unidade do que propriamente por economicamente ser viável. Nós, enquanto pessoas, enquanto grupo, mantemos a unidade de trabalhar para ajudar as pessoas que lá estão e tentamos manter a fábrica a trabalhar.
Nunca consideraram sair?
Não, nunca considerámos sair. Mesmo neste período de guerra, nunca considerámos sair. E vamos continuar. E acreditamos que a Ucrânia é um país com muito potencial e que, quando a guerra terminar, possa ser uma unidade que possa crescer bastante, conforme o que tínhamos previsto quando lá nos instalámos.
Houve muitas empresas que reconverteram, especialmente no início de guerra, a sua produção para ferramentas de defesa, de guerra. Nunca vos passou esse tipo de reconversão pela perspetiva?
Não, não.
Os trabalhadores não foram mobilizados para a guerra?
Sim, sim. Tivemos trabalhadores que foram chamados, depois voltam. Neste momento a operação também está bastante mais reduzida. Nunca tivemos nenhum foco de guerra na nossa zona, por isso estamos, nesse aspeto, completamente tranquilos, não temos tido problema nenhum, e a empresa tem trabalhado normalmente, dentro das limitações, que é uma economia de guerra.
Um grupo de quase mil milhões de faturação
Tinham algumas metas definidas de faturação para 2024. Conseguiram atingir? Quanto é que foi a faturação?
Nós em 2024 tivemos 500 milhões de euros de faturação da Metalogalva. Neste ano, 2025, não prevemos crescer. A nossa prioridade, neste momento, é estabilizar a empresa, solidificar, consolidar as aquisições que fizemos nos últimos dois/três anos, e preparar-nos, também financeiramente, ter mais capacidade financeira, para em 2026 podermos voltar ao mercado e nos Estados Unidos tentar encontrar alguma coisa que se encaixe dentro daquilo que é a nossa estratégia.
Enquanto grupo, qual foi a faturação do Vigent?
No ano passado na Metalogalva fizemos praticamente 500 milhões de euros…
A perspetiva não era de 700 milhões?
Nós quisemos crescer, mas, fruto da parte do solar não ter crescido na Europa, também abrandámos um bocadinho. Na Brasmar fizemos 350 milhões e este ano iremos fazer muito perto dos 400. O grupo em termos de faturação anda perto dos 900 milhões de euros, está perto dos mil milhões.
E é tudo vosso? Também têm minoritários, por isso não consolidam os 900 milhões…
A Metalogalva é 100% da Vigent e a Brasmar é 50% da Vigent, temos um fundo de private equity que está na Brasmar, com quem fizemos uma parceria em 2016. As coisas correm muito bem, a empresa está a crescer. Este ano estamos a analisar um conjunto de empresas para fazer aquisições. Ao contrário da Metalogalva, em que vamos estar parados, na Brasmar vamos estar ativos à procura de empresas, e a expectativa é que nos próximos dois anos possamos passar também os 500 milhões de euros de faturação.
Tarifas dos EUA nos produtos alimentares? “O grande esforço tem que ser deles”
Que mercados estão a estudar na Brasmar?
Na Brasmar é sobretudo o mercado europeu, queremos continuar a crescer no mercado europeu. Depois temos presença nos Estados Unidos e no Brasil, onde estamos a crescer. As operações estão a correr muito bem mas são operações mais pequenas. Nós no Brasil faturamos cerca de 30 milhões de euros, e nos Estados Unidos cerca de 20 milhões. Mas a prioridade, ao nível da alimentação, vai continuar na Europa, em crescer na Europa, e consolidar operações também por aqui.
No Brasil e nos Estados Unidos não têm unidades industriais?
Não, só logística e comercial. A Brasmar tem fábricas em Portugal, em Espanha e uma na Noruega. Nós temos duas fábricas [em Espanha], comprámos duas fábricas, a da Balinesa, onde fazemos o salmão fumado, e a da Foncasal, que é uma fábrica só dedicada a fazer cozimento de polvo. As duas empresas cresceram muito, estão com níveis de rentabilidade muito bons, e o mercado espanhol vai continuar a ser uma prioridade, onde queremos tentar encontrar outras empresas para comprar, e para crescer.
Dentro dos mesmos segmentos de negócio ou vão escalar para outro tipo de negócios dentro da Brasmar, como a aquacultura?
Não, nós fazemos e queremos ir à procura daquilo que sabemos fazer, daquilo que dominamos, daquilo que percebemos, e a nossa prioridade e a nossa estratégia vai ser exatamente dentro daquilo que estamos a fazer, porque acreditamos que há muito para fazer, e estamos a crescer. Nós crescemos todos os anos, posso dizer que estamos com um crescimento orgânico de 10%, até estávamos com 11%, o que é muito bom, por isso continuamos a conseguir crescer organicamente.
Mas por haver mais consumo?
Não é que o consumo seja maior…
Foi o aumento de preços?
O aumento de preços também ajudou um bocadinho. Mas estou a falar de quantidades vendidas, de crescimento. O mercado português já só conta cerca de 25%, daquilo que faturamos. Temos uma presença muito forte, em Portugal, em Espanha, em França, também comprámos uma empresa em Inglaterra, no Reino Unido, estamos também muito fortes em Itália, onde temos uma empresa. Temos um conjunto de mercados onde temos equipas comerciais, fábricas, uma implantação muito forte. Continuamos a ter muito potencial para crescer, e esta diversificação de mercados, de clientes, permite-nos continuar a encarar isto com um potencial de crescimento grande. Sobretudo nas áreas do polvo, onde acreditamos que há muito para fazer, e onde temos crescido também muito.
Nesta área alimentar, exportam para os Estados Unidos?
Sim.
E, aqui, poderão estar expostos à pressão das tarifas?
Sim, já estamos a levar com 10% neste momento. Aliás, o polvo é o principal produto que exportamos para os Estados Unidos. Temos um cliente que é a Costco, em que o único polvo cozido que lá está é o nosso. Vendemos para a Costco de quase todo o mundo a partir de Espanha, porque a fábrica é de Espanha. Neste momento, estamos sujeitos aos 10%, temos que perceber se a dinâmica de consumo se mantém, face ao aumento previsível do produto no consumidor. Mas neste momento ainda não tenho dados. Da parte do cliente, manteve tudo o que estava previsto.
Mesmo os preços?
Nós vendemos para muitos clientes, mas a Costco tem um peso grande.
Não anteciparam encomendas?
Não, nem deu tempo. À partida penso que poderá haver uma ligeira retração, mas não será significativa e depois também temos que esperar para ver como é que vai ser esta negociação entre a União Europeia e os Estados Unidos.
Nessas encomendas que têm para a frente, foi-vos exigida alguma descida do preço para compensar a tarifa?
Pediram-nos um esforçozinho para tentar ajudar, mas nós fizemos uma coisa mínima.
Não reduziu em 10% para compensar a tarifa?
Não, nem pensar. Nem tínhamos margem para isso, mas tentámos dar uma demonstração de que estávamos a tentar ajudar, mas o grande esforço tem que ser deles, porque não somos nós que estamos a impor tarifas, são eles, por isso eles é que têm que participar. É óbvio que acabará sempre por penalizar algo, esperemos é que não seja relevante, eu estou convencido que não será, e espero que dentro de alguns meses que isto tudo esteja novamente normal, e espero que a União Europeia acabe por fazer um acordo.
Acredita que vai haver acordo?
Eu acho que tem que haver, de alguma forma. Vamos ver. Foi tudo muito abrupto. As notícias quase que mudavam de hora a hora, ninguém estava à espera disto. Eu percebia, com o contacto que tinha nos Estados Unidos com as pessoas, que as pessoas queriam uma mudança, os americanos queriam uma mudança, e isso refletiu-se nas eleições. Agora, acho que mesmo muitos dos americanos que votaram Trump, neste momento se calhar estão um bocadinho desiludidos, ou um bocadinho frustrados, porque acho que ninguém estava à espera numa situação destas. E acho que o principal prejudicado até vai ser o próprio consumidor americano. As tarifas são uma taxa direta ao povo americano. Ao contrário do que Trump nos faz pensar, que quem paga somos nós, não, quem paga é o povo americano. Isto vai provocar inflação, vai provocar aumento de preços, vai provocar também perda da competitividade da economia americana. Acredito que isto possa ser um instrumento de negociação dele, mas neste momento até já nem sei muito no que acredito, porque realmente isto é de tal forma abrupto da parte da administração Trump que não dá para perceber muito bem qual é o rumo que querem seguir.
A estratégia: “não queremos risco de estarmos na mão de um cliente”
A vossa empresa já passou por várias crises. Tomou conta do grupo em 2010, em plena crise de dívida soberana e pré-intervenção da troika em Portugal. O que é que uma empresa de ferro tem a ver com uma empresa de pescado?
Não tem nada. Quando somos gestores estamos a gerir coisas diferentes, neste caso estou a gerir coisas diferentes, mas a forma e a cultura é igual, só temos que nos adaptar ao negócio em si. Eu já tinha começado com a empresa da Brasmar em 2001 e depois em 2013 é que realmente a empresa começou de facto, com mais atividade. Eu já vinha com essa experiência toda, fruto de ter começado com a empresa da Brasmar. O negócio começou pelo facto de eu ter a família no Brasil e o meu pai e meus tios no Brasil terem uma empresa de aquacultura, de camarão, que entretanto já não temos. E a empresa começou por aí, a trazer o camarão do Brasil e a vender em Portugal. Mais tarde começámos a trabalhar com todos os produtos do mar. Em 2010, a família percebeu que era preciso mudar. A Metalogalva estava muito focada no mercado interno, nós na altura faturávamos cerca de 45 milhões, 50 milhões de euros, e só 7% era para o mercado da exportação.
E depois diversificou-se e agora leva com medidas protecionistas.
Mas para mim foi mais difícil esse período do que agora, em termos pessoais. Porque eu na altura sabia que a empresa dependia de mim e das decisões que eu tomasse para ultrapassar, para poder voltar a crescer e aproveitar o potencial que ela tinha que não estava totalmente aproveitado. Mas, à semelhança do que aconteceu na Covid, em que foi uma altura em que, por muito que eu quisesse ou que as minhas equipas se esforçassem, nós não podíamos fazer mais do que o que fizemos, porque não estava nas nossas mãos, neste momento também não está nas nossas mãos. Temos de esperar para ver… Esta situação das tarifas do aço na Europa é uma questão mais crítica e que também não depende de nós, mas nós tentamos fazer um esforço no sentido de sensibilizar as entidades de que isto é um problema. Mas são coisas que estão muito menos nas nossas mãos do que no passado, em 2010. Em 2010 realmente foi o maior desafio da minha vida, foi pegar na Metalogalva e transformá-la naquilo que é hoje. Na Brasmar, desde o início, a prioridade foi sempre ter o maior número de clientes, o maior número de mercados, o maior número de produtos, de forma a não estar dependente. O nosso maior cliente tem um peso de 2% das nossas vendas. No caso da Metalogalva é exatamente igual. Queremos diversificação do produto, dentro de uma área que nós fabricamos, também não queremos fazer mais, somos especialistas naquilo que fazemos e queremos continuar. Diversidade de mercados, de clientes, não queremos risco de crédito, não queremos risco de estarmos na mão de clientes.
O grupo é lucrativo?
Sim. Eu nem olho muito para o resultado, olho sempre mais para o EBITDA. Nós no ano passado tivemos cerca de 80 milhões de euros de EBITDA nas nossas empresas, e este ano iremos fazer mais. Apesar da faturação da Metalogalva não crescer muito, este ano provavelmente irá ser mais ou menos a mesma coisa que o ano passado, mas na Basmar vamos crescer bastante, o EBITDA vai crescer, até mais do que o crescimento da faturação.
Descida do IRC é “interessante”. “Mas eu preferia que o governo descesse o IRS”
A instabilidade política em Portugal tem obrigado a repensar investimentos? A recalendarizar, por exemplo?
Neste momento temos um grande investimento em Portugal, estamos a fazer uma galvanização nova, é um investimento de 25 milhões de euros, e esse é o nosso maior investimento em Portugal, e que vamos manter. Mas o nosso foco está nas nossas empresas lá fora, neste momento, em crescer lá fora. Grande parte da nossa capacidade de geração de dinheiro disponível para investimento vai ser canalizado para os Estados Unidos, nos próximos anos.
O Governo anunciou entretanto um pacote de apoio às empresas no âmbito das tarifas. Pareceu-lhe suficiente?
Neste momento não sei se é suficiente ou se não é. Nós neste momento ainda não temos necessidade de nenhum tipo de apoio, e acredito que possa haver um outro setor que possa necessitar, mas eu acho que neste momento, com base nestas tarifas de 10%, acho que ainda é muito cedo para tirarmos conclusões. Mas os 10% são agora, porque há 15 dias eram 20%, e com 20% tem uma dinâmica completamente diferente do que 10%. Mas eu acho que temos de esperar…
Foi extemporâneo o anúncio do Governo? Acha que foi eleitoralista?
Eu acho que quando foi anunciado, provavelmente, ainda estariam com os 20%, e face os 20% realmente podia ser dramático. Para os 10% não é tão mau, mas acredito que para uma ou outra empresa possa também ser dramático. Não é o nosso caso.
Entre fornecedores vossos, parceiros, já se sente empresas com dificuldades?
Neste momento, dentro do nosso setor, não. Da metalomecânica e da alimentar, não. Mas acredito que no setor do vinho, por exemplo, que isso possa ser um problema maior. O mercado americano é um mercado com bastante impacto. O vinho já está a atravessar um período difícil e com o mercado americano mais restrito… Nos meus setores em específico ainda não sinto isso, mas acredito que noutros setores possa ser um drama.
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Como é que estes miniciclos eleitorais ou legislativos interferem na atividade de uma empresa?
Eu tento abster-me… Tento que a questão política não tenha muita influência na minha atividade e no meu dia a dia. Tem sempre alguma. O impacto de Portugal para nós não é tão relevante. Estou mais preocupado com as decisões que a União Europeia toma, ou com as que a administração americana toma do que propriamente com as medidas que o governo português toma. Apesar de fazermos produtos que têm que ver com investimento público, nós fazemos transmissão de energia, iluminação pública, telecomunicações, área solar, autoestradas…
E isto não trava quando há estes ciclos eleitorais?
Trava, mas… Curiosamente, por exemplo, o que acontece na Alemanha? Sentimos uma aceleração da economia. Neste momento, na Alemanha, este ano está a ser muito interessante.
E cá?
Neste tipo de produção que fazemos o ciclo é um bocadinho mais longo. Porque estamos a falar de investimento público, que não se toma a decisão do dia para a noite. Por isso, as coisas foram tomadas, estão a ocorrer, e ninguém vai cancelar agora uma obra pública que está a decorrer. Aquilo que está a decorrer, para nós, não tem efeito. Mas sentimos, por exemplo, que a Alemanha tem uma capacidade de lançar projetos públicos, de forma a fomentar a economia, que Portugal não tem. Nós em Portugal discutimos se Portugal consegue ou não gastar o dinheiro do PRR. Na Alemanha essas questões não se põem, porque a Alemanha tem sempre projetos preparados, de forma a que, se houver necessidade, o país possa imediatamente lançá-los a investimento e a colocar o país mais rápido a andar. Em Portugal, não. Em Portugal as decisões são tardias, demoradas, os projetos estão na gaveta. E quando é necessário temos que ir a correr preparar as coisas. Estes ciclos de investimento público demoram dois, três anos, quatro.
Não sentiu nenhum impulso com o PRR?
Sentimos. Mas não foi no momento em que tomaram a decisão do PRR.
Só está a chegar agora?
Só começa a chegar dois anos depois da decisão.
Há medidas dos governos que vos afetam, obviamente. A descida do IRC numa expressão maior, como quer a AD, é importante para vocês?
Sim, eu acho que o IRC é uma medida que é interessante. Mas eu preferia que o governo descesse o IRS dos meus colaboradores.
E a taxa social única?
Não, o IRS. Mas também pode ser através da taxa social única, desde que permita às empresas e ao trabalhador ter uma remuneração líquida maior do que a que tem hoje e pagar menos impostos.
Para não terem de aumentar tanto o trabalhador?
Não, não tem a ver com isso. Nós estamos sempre a dizer que em Portugal o salário mínimo é baixo, mas o problema hoje em dia, para mim, não está nos salários baixos. Nós não temos problemas em subir o salário, que o salário mínimo suba como tem subido.
Mas vocês têm trabalhadores com salários mínimos, não têm?
Não temos, pagamos acima do salário mínimo, mas temos também trabalhadores indiferenciados que ganham salários mais baixos, mas sempre acima do salário mínimo. Mas a questão, para mim, até mais grave ao nível dos salários, é nos salários da mão de obra especializada, que nós temos, técnica, em que um trabalhador que ganha 1.500, 2.000 e 2.500 euros, tem logo uma taxa de IRS que lapida o salário que ele levaria para casa. E isso é que nos está a tirar competitividade, porque se nós formos a Espanha, um trabalhador em Espanha, paga menos IRS para o mesmo salário. É mais competitivo neste momento lançar fábricas em Espanha com níveis de qualificação médios e altos do que em Portugal. Um país que quer crescer e que quer melhores salários está a penalizar precisamente aqueles que nós queremos manter e promover. Por isso é que a mão de obra qualificada sai de Portugal. Por isso é que os jovens saem de Portugal. Porque um jovem, se começar a ganhar 1.500 euros, já é taxado como se fosse rico.
Têm perdido mão de obra qualificada?
Sim, perdemos. Mesmo pagando acima da média a quadros técnicos, pagando mais, acaba por ser interessante para o jovem, o técnico, ir para a Alemanha, ir para a França, ir para a Bélgica, ir para a Espanha. Basta mudar-se para a Espanha que passa a ser mais interessante. E nós hoje em dia estamos aqui a competir ao nível de mão de obra qualificada também com Espanha.
Não sentiram que o IRS Jovem tenha retido cá jovens?
Ainda não temos… A medida é muito recente para termos ainda noção de que isso possa ter impacto. Eu acredito que ajude, mas também não pode ser só os jovens, tem que ser em todo o espectro de colaboradores, porque senão também ficamos muito limitados.
Enquanto empresário do setor alimentar, uma medida como o IVA zero faz sentido nesta altura?
Isso é capaz de ser político demais. Acho que é capaz de ajudar ao consumo, mas não acho que isso seja o mais importante neste momento.
E vão recorrer à via verde para a imigração?
Ontem numa reunião da Associação estávamos a falar sobre esse tema da via verde e os meus colegas estavam a dar opiniões sobre isso. Eu acho que ainda é muito cedo, porque ainda não sabemos muito bem como é que vai funcionar a parte prática. E só quando chegar à parte prática é que poderei ter uma opinião mais formada sobre isso, porque neste momento ainda é tudo muito conceptual e ainda não conseguimos ter uma perceção da prática. Nas nossas fábricas nós temos muitos imigrantes.
Qual é a percentagem?
Deve andar na ordem dos 25%.
E quantos trabalhadores têm no total?
Aqui em Portugal devemos ter cerca de 2.000, 2.500. Temos muita mão de obra vinda do exterior, mas não sabemos ainda muito bem como é que vai ser. Nós precisamos dos imigrantes, mas também considero que é importante haver um maior controle e sobretudo também que venha uma mão de obra mais especializada e mais de acordo com aquilo que as empresas precisam. Eu acredito que para o setor do turismo seja interessante, porque não depende tanto de mão de obra qualificada, mas na indústria nós queremos mão de obra mais qualificada e pessoas já com outro nível de qualificação. Eu acho que pode ser interessante nós conseguirmos trazer mão de obra já qualificada desses países de uma forma mais transparente e mais clara.