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Uma rixa entre dois imigrantes ocorreu precisamente quando a campanha do Chega em Albufeira fazia uma arruada
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▲Uma rixa entre dois imigrantes ocorreu precisamente quando a campanha do Chega em Albufeira fazia uma arruada

▲Uma rixa entre dois imigrantes ocorreu precisamente quando a campanha do Chega em Albufeira fazia uma arruada

No Algarve “abandonado”, o Chega vai conseguir chegar ao poder?

Chega venceu distrito de Faro nas últimas duas legislativas, e procura agora chegar ao poder local. Partidos tradicionais reconhecem desgaste da população, mas apelam à "resistência".

Quando, em 2021, o PSD venceu as Câmaras Municipais de Faro e Albufeira, ainda o sistema bipartidário vivia tempos de aparente normalidade. André Ventura era popular, sim, mas o Chega tinha apenas um deputado no Parlamento. Poucos podiam imaginar que quatro anos depois, e à beira de novas eleições autárquicas, o cenário se fosse inverter desta maneira. São agora mais de 60 os deputados do Chega, e o partido foi mesmo o mais votado no distrito de Faro nas eleições legislativas de 2024 e 2025. Motivo para alarme para os partidos tradicionais? Na corrida à liderança das autarquias destes dois concelhos, muitos garantem que não. Mas os sinais de cansaço são evidentes.

Os bons resultados do Chega no Algarve ajudaram a consolidar o partido, mas falta dar o passo para começar a transformar a região num verdadeiro bastião: ter uma votação expressiva nas eleições autárquicas que permita governar, no mínimo, em alguns concelhos. Isso mesmo é admitido pelos próprios dirigentes do partido. Ao Observador, Pedro Pinto, que além de candidato à Câmara Municipal de Faro é também líder parlamentar, explica que “no dia que o Chega tiver poder autárquico”, se torna “um partido de poder”.  “Podemos ter 60 deputados, ser a segunda força política, mas se não tivermos força nas autarquias para mudarmos, mesmo próximos às populações,  as coisas tornam-se mais difíceis”.

Falta agora perceber se os bons resultados nas legislativas se vão traduzir nas autárquicas. A resposta a essa questão é imprevisível, no mínimo no volume dessa eventual vitória. Por um lado, vários dirigentes do PSD e PS há muito que avisam que a realidade local é diferente da nacional, e que as autárquicas têm uma dimensão de proximidade que não pode ser comparada às eleições para a Assembleia da República, mais centrada no líder do partido do que nos cabeças-de-lista por cada distrito. Ou seja: os munícipes conhecem melhor quem lidera a Câmara Municipal do respetivo concelho do que quem os representa no Parlamento.

Além disso, há um fator histórico que pode servir para acautelar euforias. Em 1985, o Partido Renovador Democrático (partido criado pelo Presidente Ramalho Eanes) teve um resultado histórico nas legislativas (18% dos votos, 45 deputados eleitos) e meses depois ficou-se pelos 5% nas eleições autárquicas, conquistando apenas 3 autarquias. Se parece certo que o Chega vai ter um resultado superior a esse, e que a realidade do partido fundado por André Ventura já é bastante diferente da do PRD, o exemplo serve para mostrar que nem sempre os eleitores se comportam da mesma forma quando o motivo da ida às urnas é diferente.

A pouco mais de uma semana das eleições, tanto em Faro como em Albufeira, o Chega parece ter reais hipóteses de ficar em primeiro lugar, e governar pela primeira vez. A relação dos munícipes com o fenómeno da imigração (maioritariamente, com a que é proveniente do Indostão) é um fator importante para explicar esta subida de um partido que há quatro anos não chegava a 1.500 votos em nenhum destes concelhos. Mas não só. Entre questões como a habitação ou a segurança, o diagnóstico vai mais longe, e centra-se num conceito que funciona como acendalha antes de ir votar: o sentimento de abandono.

▲ Pedro Pinto, numa ação de campanha no Núcleo de Faro da Liga dos Combatentes

O “paraquedista” que quer mostrar que não é “fake”

Em Faro, o equilíbrio de forças leva a uma situação altamente imprevisível: há três candidatos com verdadeiras hipóteses de vencer, como mostram as sondagens. E todos acreditam que vão lá chegar.

O Chega apostou no líder parlamentar Pedro Pinto para conquistar a capital do Algarve, mas a escolha não agrada a todos. “Foi a primeira asneira” que Ventura cometeu, acredita Narciso, habitante de Patacão. “O que é que vem alguém de Lisboa fazer para aqui?”, pergunta o homem de 54 anos, mesmo acreditando que “as coisas têm de mudar” e que os partidos tradicionais “vão levar um grande abanão” no dia 12 de outubro.

A desconfiança pela escolha de uma figura que não é natural do Algarve é comum entre os munícipes, mesmo entre aqueles que admitem votar no Chega. Armando tem 63 anos, e é presença assídua num café perto do Jardim da Alameda João de Deus. No dia em que falou com o Observador, Pedro Pinto veio de Lisboa para entrar na campanha oficial pela primeira vez. Armando lamenta apenas conhecer o candidato da televisão, mas também vaticina “um grande rombo” tanto para PSD como para PS. “No outro dia estava em Sintra, noutro estava em Viseu”, lembra Henrique André, presidente do núcleo de Faro da Liga dos Combatentes ao Observador, antes de uma visita por parte da candidatura do Chega. “As pessoas não acreditam que ele queira vir para Faro, tem sido um fator de afastamento”, explica. No final de contas, considera que Pedro Pinto não se livrará do rótulo de “paraquedista”, mas acredita que a vitória pode mesmo acabar por chegar. Afinal, existe “um sentimento de grande abandono do poder central, que só vem cá de férias”: “Isso gera um grande revolta”.

▲ Henrique André, presidente do Núcleo de Faro da Liga dos Combatentes

Entrevistado pelo Observador, Pedro Pinto defende-se das críticas. Mais: lembra que é o líder parlamentar do partido da segunda maior força política. “É uma grande aposta”, garante. Lembra que já ouve estes comentários desde que foi cabeça-de-lista por Faro nas eleições legislativas de 2022, e que desde então o Chega tem falado dos problemas da região “como nunca se falou no Parlamento”. “Repare que não é por acaso que quer o PS, quer o PSD, vieram iniciar as suas campanhas eleitorais ao Algarve”, nota. “Onde é que isto acontecia nas últimas campanhas eleitorais? Não acontecia porque eles não davam importância ao Algarve”.

“A mim não me incomoda nada eu não ser de cá”, continua Pedro Pinto. “Acho sinceramente que não implica nada, as pessoas já estão muito mais evoluídas do que isso”. Hugo Soares, secretário-geral do PSD, criticou os “candidatos fake” do Chega, por não conhecerem bem os concelhos que se propõem representar. Pedro Pinto devolve a questão: “Por esse prisma, o Hugo Soares só podia fazer política em Braga, não é?”

Junto à Casa do Benfica de Faro, o candidato do Chega ouviu uma senhora dizer-lhe que gosta do partido, mas prefere que continue como força de oposição. Carla Morgadinho é técnica de contabilidade, e acredita que a candidatura perde força por não ter André Ventura no boletim. Pedro Pinto nega: “O Chega já não é um partido de um homem só. É um partido de um homem único, que é o André Ventura, mas depois tem 60 deputados, vai ter centenas de vereadores, vai ter dezenas de Presidentes de Câmara.”

No geral, o candidato do Chega a Faro tem uma certeza: a votação que obtiver, seja ela qual for, já não pode ser vista como um voto de protesto, mesmo admitindo que em tempos o possa ter sido. Agora, garante, a expressão dos bons resultados do partido mostra que a população está alinhada com as propostas e com as preocupações que vão sendo demonstradas.

O socialista tem a receita para responder ao desgaste dos partidos tradicionais: resistir. “Mudar o modelo era passarmos para um modelo populista e de apregoar que iremos fazer tudo e prometer o impossível”.

“Temos de resistir”. O autarca de Olhão que quer dar o salto para Faro

António Miguel Pina liderou a autarquia de Olhão nos últimos 12 anos e é agora candidato pelo PS à Câmara Municipal de Faro. Nas últimas sondagens, aparece com ligeira vantagem face a PSD e Chega. Na rua, há quem olhe com desconfiança para quem quer “saltar” de uma terra para a outra, mas o candidato não vê a questão da mesma maneira. “Diria que cada vez mais vou sentindo essa esperança de alguém que já demonstrou que sabe dirigir uma autarquia, que tem trabalho feito”, diz ao Observador. Aliás, acredita que, se houver desconfiança, será em relação aos dois grandes adversários: Pedro Pinto, que “veio apenas fazer um serviço ao partido”, e Cristóvão Norte, candidato pela coligação PSD/CDS/IL/PAN/MPT, “que ainda há seis meses dizia que jamais seria candidato a presidente da Câmara”.

O socialista não tem dúvidas: a vitória vai acabar por chegar. Vai mais longe e assegura que “a única dúvida é saber se conseguimos ter maioria ou não”. Acredita que esse cenário está próximo, mas mesmo que não aconteça e governe em minoria na Câmara, não acredita que seja preciso fazer qualquer coligação. Lembrando que no passado, em Olhão, já esteve nessa situação, explica a receita para manter a estabilidade: “Trabalhar em conjunto, caso a caso”.

O socialista tem a receita para responder ao desgaste dos partidos tradicionais: resistir. “Mudar o modelo era passarmos para um modelo populista e de apregoar que iremos fazer tudo e prometer o impossível”. Uns minutos mais tarde, um eleitor vai dar-lhe razão, pedindo-lhe que “não prometa muito e faça pouco”.

▲ António Miguel Pina, candidato pelo PS a Faro, numa ação de campanha em Patacão

Com a convicção de quem tem trabalho para apresentar, António Miguel Pina é rápido a identificar o primeiro problema “dramático” que está por resolver: a habitação. Para isso, propõe a construção de mais mil casas. “É mentira, não vão conseguir construir mil casas. É utópico”, diz o candidato do Chega, que também protesta contra a proposta de Cristóvão Norte, que se fica por construir mais 500 habitações. Para o candidato do PSD, é essencial garantir habitação acessível, “para que as pessoas não tenham de fazer um esforço tão significativo e que as obrigam a escolher entre aquilo que comem e a renda da casa. A ideia de Pedro Pinto é diferente: quer reaproveitar casas devolutas no centro de Faro.

Outro dos problemas identificados pelos três candidatos é o cuidado com o espaço público, em especial os passeios. Em campanha na zona do Patacão, António Miguel Pina lamenta o estado das ruas, e garante que “todos se queixam da falta de cuidado que há na cidade e nas suas vilas”. A isso, Cristóvão Norte acrescenta que é preciso repensar os passeios também para quem tem a mobilidade reduzida. “Bairro a bairro”, quer criar um corredor que garanta “um acesso pedonal que seja mais convidativo e com menos risco para as pessoas”. “Para mim, um degrau não é um obstáculo”, explica, “mas para uma pessoa que esteja numa cadeira de rodas, um degrau é como um prédio”. Também Pedro Pinto lamenta o estado do espaço público em Faro: “Os passeios não estão arranjados, as ruas estão sujas, os jardins não têm espaços verdes”.

Mas serão estas principais preocupações dos habitantes da cidade? Sim e não. Por um lado, todos se queixam da subida dos preços das casas. Mas Henrique André, por exemplo, considera que as promessas de habitação acessível de PSD e PS já estão a ter uma consequência direta: o aumento da população cigana no concelho. Carla Morgadinho, que até gosta do papel de oposição do Chega, considera que isso só vai gerar mais confusão. E concorda que os ciganos têm de ser obrigados a trabalhar, apesar de assumir que dificilmente irão conseguir arranjar alguém que lhes dê emprego. Nem Henrique nem Carla sentem insegurança nas ruas, mas Narciso, mais longe do centro de Faro, não pode dizer o mesmo. “Qualquer dia não podemos sair à rua à noite”, sublinha. Aponta para o outro lado da rua, e identifica o responsável por essa situação: “Os indianos”.

Essa responsabilização, que é proferida por muitos em tom mais baixo, é comum um pouco por toda a cidade. E quando Narciso o diz, quem o rodeia no café acena em sinal de concordância. Seja quais forem os problemas que a população sente, a palavra “abandono” surge em praticamente todas as respostas. Abandono do espaço público, abandono da classe política, “que só vem passar férias no verão”, ou abandono em relação a quem vem de fora, e parece ter a vida mais facilitada do que quem sempre viveu em Faro.

O combate à imigração ilegal é precisamente um dos pontos em que Pedro Pinto, candidato do Chega, se mostra mais à vontade. Tal como a nível nacional, defende que “há muitos imigrantes que se percebe claramente que não estão a trabalhar, que não estão a fazer nada”. E tal como vários eleitores, não hesita em ligar o problema à perceção de insegurança.

Sobre o tema, o social-democrata Cristóvão Norte cita Duarte Baltazar, candidato da CDU a Faro. “Ele disse num debate e tem razão, é a frase da campanha: “Faro não é Gotham City” [cidade fictícia oriunda das bandas desenhadas do Batman, reconhecida pela violência]”. Ou seja, a sensação de insegurança até pode existir, mas as taxas de criminalidade apontam o contrário. De qualquer forma, essa perceção deve ser combatida, e por isso a coligação que lidera quer mais iluminação pública, mais videovigilância e mais Polícia Municipal nas ruas para efeitos de dissuasão. Mas estará esta questão ligada à imigração? “Se andarmos numa rua escura, eu acho que a grande preocupação das pessoas não é ser imigrante, é a rua escura ponto final parágrafo. Agora, admito que mudanças significativas de pessoas num mosaico social com pessoas que não compreendem a língua, que não se consegue falar com elas, tragam algumas angústias que eu creio que são compreensíveis”.

Já António Miguel Pina, candidato do PS, concede que o problema existe em alguns pontos do concelho de Faro, como Patacão, mas insiste que o foco tem de estar em trabalhar com as juntas de freguesia para apostar nos programas de integração, para “o ensino da língua”, e para “ensinar os nossos valores, a nossa forma de estar”. Uma maneira de o fazer, acredita, passa por levar o Governo a legislar para condicionar o número excessivo de pessoas por habitação. Esses excessos “trazem esse sentimento de insegurança, quando 20, 30 pessoas vivem no mesmo apartamento”.

Nem Henrique nem Carla sentem insegurança nas ruas, mas Narciso, mais longe do centro de Faro, não pode dizer o mesmo. “Qualquer dia não podemos sair à rua à noite”, sublinha. Aponta para o outro lado da rua, e identifica o responsável por essa situação: “os indianos”.

O filho de Faro que cita o Special One e quer manter o PSD no poder

“Se as coisas correrem dentro do normal, nós vamos ganhar. Mas se correrem fora do normal, também vamos ganhar”. A frase é de José Mourinho, mas é usada por Cristóvão Norte em resposta à curiosidade de um eleitor que o encontra na rua. Na conversa que teve com o Observador, num passeio pelo centro de Faro, o candidato da coligação liderada pelo PSD é muitas vezes abordado por quem o conhece. Desejam-lhe sorte e perguntam como está a correr a campanha. O social-democrata acredita que esse é um trunfo que tem a seu favor. Cresceu em Faro e por lá todos o conhecem. E, questionado sobre candidatos que vêm de fora, como Pedro Pinto, é taxativo: “Eu não tenho nada contra. Mas eu nunca seria candidato lá na terra deles”.

▲ Cristóvão Norte, candidato pela coligação Faro, Capital de Confiança

Também Cristóvão Norte compreende a descrença que domina grande parte do eleitorado. Não só em Faro, mas no Algarve em geral, “têm sentido orfandade política”, garante o candidato. Queixa-se da falta de investimento público significativo em matérias fundamentais. Um dos exemplos usados é o do Hospital Central do Algarve, um sonho antigo da região que deve ser cumprido até ao fim do ano. Explica que o arrastar destes processos leva a uma “terrível ideia de abandono”.

Por isso mesmo, sublinha que não faz um diagnóstico diferente da população, nem acredita que os algarvios sejam racistas ou xenófobos por terem decidido votar no Chega nos últimos anos. A diferença entre ele próprio e os eleitores está na solução para essa inquietude: “Eu acredito que é possível convencer o poder central naquilo que diz respeito e eu acredito que aqui na minha autarquia é possível lançar bases para um futuro melhor”.

Alguns acreditam na capacidade de Cristóvão Norte, outros nem tanto. Carla Morgadinho sublinha que poucos deputados trouxeram os problemas do Algarve ao Parlamento como ele. Mas Henrique André acredita que o social-democrata, não deixando de ser um grande tribuno, mas sem grande experiência governativa para demonstrar que consegue cumprir.

Rua da Oura: paraíso para ingleses e ou sinal de abandono para os albufeirenses?

Se a mudança se efetivar em Albufeira, não será por falta de aviso. Quem anda pelas ruas da cidade e fala com os seus habitantes não demora muito a percebê-lo. Nesta terra, onde há cinco meses o Chega venceu com larga distância para a AD (39% contra 26%), praticamente todos acreditam que 12 de outubro pode ser mesmo o dia em que o PSD cai do poder passado mais de duas décadas.

Luís, taxista de 43 anos, nasceu e foi criado em Albufeira, e assistiu ao desenvolvimento do setor turístico que cada vez mais põe a cidade no mapa, nem sempre pelas melhores razões. Não precisou de acabar de ouvir a pergunta – ouviu “eleições”, respondeu “André Ventura”. O seu voto irá para o Chega, independentemente do candidato, para que seja desta data que os farenses conseguem “sair da cepa torta”.

Os problemas diagnosticados são parecidos com os de Faro – a habitação, a imigração, a mobilidade ou o cuidado do espaço público – mas aqui há uma variante: o turismo. Os já conhecidos problemas na Rua da Oura (desordem, violência, destruição e alcoolismo até altas horas da noite, maioritariamente por parte de turistas vindos do Reino Unido) voltaram a ser tema este verão. Ao Observador, o presidente da câmara e recandidato José Carlos Rolo garante que as novas regras impostas pela autarquia resultaram. Mas os comerciantes da rua garantem que não.

Mesmo ainda sem ter o sentido de voto definido, já disse à família que “se calhar, este ano vai mesmo ser no Chega”. Porquê? Mais uma vez, a palavra-chave: o abandono. “Eles esqueceram-se de nós. Só pensam no turismo, não pensam em nós. E deviam cuidar de quem cá vive há tantos anos”.

Maria José é empregada de uma loja de souvenirs na Rua da Oura, e uma das mais antigas a trabalhar nesta zona. Viu o comércio crescer e tornar-se naquilo que é hoje. E não tem dúvidas: a situação piorou nos últimos três a quatro anos. “Nós fechamos à meia-noite, mas antigamente havia dias que saía daqui às duas da manhã. Era só clientes a entrar com os filhos. Agora já não vem ninguém a partir de certa hora. Como é que vêm se aqui ao lado estão homens nus a saltar em cima das mesas?” Não tem dúvidas que a situação chegou logo demais, o que já levou a uma consequência: este vai ser o último ano em atividade daquela loja. Provavelmente, vaticina, o espaço irá dar lugar a mais um bar.

“Estou convencida que este ano é a mudança”, garante. Mesmo ainda sem ter o sentido de voto definido, já disse à família que “se calhar, este ano vai mesmo ser no Chega”. Porquê? Mais uma vez, a palavra-chave: o abandono. “Eles esqueceram-se de nós. Só pensam no turismo, não pensam em nós. E deviam cuidar de quem cá vive há tantos anos”. Garante que todos os que conhece estão na mesma situação, e que a subida na votação do Chega aconteceu como chamada de atenção aos políticos.

Para o autarca José Carlos Rolo, foi criado um estigma na Rua da Oura, e a situação “empolada” não corresponde à realidade do que se passa no concelho, mesmo que “muita gente queira fazer crer que sim”. O social-democrata, que procura a reeleição, garante que as coisas no verão funcionaram “muito bem”. Reconhece que houve mais turistas, mas lembra que não é a autarquia que anda a vender “pacotes de viagens para jovens no estrangeiro”. “Há coisas que surgem de um momento para o outro sem que nós consigamos perceber como”, justifica, antes de lembrar que foi feito um trabalho de contenção e segurança em conjunto com várias autoridades.

Mas o problema não são só os ingleses. Tal como em tantas outras regiões do sul do país, há incómodo com o número de imigrantes indostânicos. E também isso, garante a comerciante daquela loja, dá uma sensação de insegurança, não só para ela como para os jovens. “Eu nem sou muito, mas acho que a malta nova agora é mais racista”.

Uns metros ao lado, Sandra trabalha numa loja de desporto, e não hesita em dizer que espera pela mudança, “finalmente”. É preciso “mão mais forte com os ingleses”, mas também uma resposta para os indianos. “Eles estão por todo o lado, seja verão ou inverno”.

“Nada contra a imigração, mas eles também aceitam condições muito más, e isso é mau para nós. Quem é que consegue pagar uma renda a mil euros aqui? Só eles, porque dividem a conta por dez. Estão a fazer com que os preços subam e os salários desçam.”

Nesta loja, trabalha também um imigrante brasileiro, residente em Portugal há três anos, que não se quis identificar. Ainda não pode votar, mas os amigos já podem. Alguns brasileiros, a maioria portugueses: todos vão votar Chega.

Jogar na lotaria ou jogar pela certa. As contas em Albufeira

Rui Cristina saiu do PSD para o Chega há pouco mais de um ano, e avança agora como candidato do partido à Câmara Municipal de Albufeira. Nas ruas, sente que a vontade de mudança é uma “evidência”, e também ataca o problema do turismo. “É um município que está mais virado para o negócio, para os turistas, do que para os próprios albufeirenses. É claro que o turismo faz falta, como nós sabemos, é o motor deste grande concelho, mas nós temos de virar esta cidade para quem cá vive.”

▲ Rui Cristina, candidato pelo Chega a Albufeira, num longo "porta a porta"

O candidato não tem dúvidas que a subida vertiginosa do Chega é também uma resposta ao poder central e local: “Este que é dos municípios mais ricos do Algarve está no estado em que está. O abandono sente-se no setor da mobilidade, setor da saúde, e falta de habitação nós sofremos imenso no Algarve com a falta de habitação também. É gritante, a habitação é caríssima.”

José Carlos Rolo não concorda com as críticas, e garante que as suas preocupações vão muito para lá do bem-estar dos turistas, e dá alguns exemplos: “Nós temos proposto um seguro de saúde para pessoas com mais de 75 anos para ajudar a colmatar a falta de médicos de família. Temos proposto o transporte de giro para promover o transporte público gratuito para todos os residentes de Albufeira. Isto são medidas não para os turistas, é para os residentes de Albufeira.”

Ainda assim, defende também a aposta no turismo. Lembra que Albufeira é considerado o segundo concelho mais dinâmico do país, e que o setor é quem “move”, “alimenta” e dá dinâmica ao concelho.

No final de contas, e apesar de reconhecer que o Chega está em crescimento, José Carlos Rolo lembra que nas autárquicas se joga um jogo diferente, e apela ao voto no que é seguro: “Não podemos estar aqui a jogar na lotaria, a deixar algumas dúvidas sobre aquilo que são, o que fazem, o que fizeram, o que não fizeram. Acho que é melhor jogar pela certa, conforme diz o povo”.

Caso isolado ou não, Rui Cristina garante que lhe chegam relatos idênticos praticamente todos os dias, e que o caso mostra como a falta de meios da Polícia Municipal gera insegurança na rua. “Não tem sido valorizada. Se nós realmente queremos evitar aquele tipo de situações, temos de triplicar o corpo da Polícia Municipal. Temos de ter 30 a 40 Polícias Municipais.”

“Albufeira todos os dias”. A rixa entre imigrantes que interrompeu a arruada do Chega

“Vê? Foi por isto que eu virei para o Chega. Isto não pode continuar.” A confissão é feita por uma das pessoas que integra a campanha de Rui Cristina, assim que a arruada do candidato do Chega é obrigada a parar para testemunhar uma rixa em plena luz do dia.

Depois de mais de uma hora e meia de contacto com a população na Baixa de Albufeira, os membros da comitiva, liderados por Rui Cristina já faziam o caminho de volta quando se depararam com dois imigrantes, um de origem brasileira, outro indostânica, à luta no meio da rua. Para muitos, este é um exemplo de muitos dos problemas para que o Chega tem alertado. E não faltaram militantes do partido a defender que aquilo que ali se viveu “é Albufeira todos os dias”.

O que é facto é que em cerca de dez minutos de altercações entre os dois imigrantes (que até tiveram de ser separados por membros do Chega), as autoridades não apareceram, e a situação podia ter escalado.

Rui Cristina garante que lhe chegam relatos idênticos praticamente todos os dias, e que o caso mostra como a falta de meios da Polícia Municipal gera insegurança na rua. “Não tem sido valorizada. Se nós realmente queremos evitar aquele tipo de situações, temos de triplicar o corpo da Polícia Municipal. Temos de ter 30 a 40 Polícias Municipais.”

No início deste porta-a-porta, que começou e acabou junto à Câmara Municipal e em que praticamente ninguém se mostrou hostil às bandeiras do Chega – antes pelo contrário –,  o candidato ouviu uma senhora dizer-lhe que iria votar nele por “ser contra os indianos”. Logo depois, Rui Cristina quis esclarecer que  “as coisas não são bem assim”, que “apenas ouviu a senhora” e não defende ideias “extremistas”. Aproveitou para pôr água na fervura: “As coisas têm de ser ponderadas e vem avaliadas”.

Na altura em que o Observador falou com José Carlos Rolo, a rixa ainda não tinha acontecido. O recandidato social-democrata defende, ainda assim – e tal como Cristóvão Norte, em Faro – que parte dos problemas com a imigração se irão começar a resolver com as alterações à lei de estrangeiros aprovadas na Assembleia da República. De qualquer forma, lembra que é difícil controlar a origem de quem entra em Portugal. Defende regulação, sim, mas assegura que não é possível, em nenhum país, garantir quotas de nacionalidade para controlar a chegada dos imigrantes.

Um apoio de peso: o “Cristiano Ronaldo da política” no Algarve

Ao quarto dia de campanha, André Ventura escolheu precisamente Albufeira e Algarve como ponto de passagem na volta autárquica. O líder do Chega goza de uma popularidade ímpar nas ruas, incomparável a qualquer outro dos líderes políticos. As pessoas aguardam-no ao sol durante mais de uma hora, se for preciso (e os atrasos até são habituais).

Em Albufeira, no Mercado Municipal dos Caliços, juntou-se mais de uma centena de apoiantes para o poder ver presencialmente. “Faltei à aula de Biologia”, confessa um dos muitos jovens que ali esperou para ver Ventura. Como o rapaz, outras dezenas faltaram à escola para aproveitarem a oportunidade, e até perguntaram ao líder do Chega se estava disponível para lhes justificar as faltas.

O presidente do Chega, André Ventura (C), acompanhado pelo candidato do Chega à Câmara Municipal de Albufeira, Rui Cristina (C-E), durante uma ação de campanha para as eleições autárquicas esta manhã em Albufeira, 3 de outubro de 2025. MIGUEL A. LOPES/LUSA

▲ André Ventura ao lado de Rui Cristina, recebido em euforia em Albufeira

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Lá dentro, no mercado, o presidente do partido é recebido como celebridade. Um dos comerciantes chama-lhe o Cristiano Ronaldo da política, segundos antes de Ventura voltar a ser engolido no meio da multidão. Mais do que uma estrela de futebol, o líder do Chega é recebido como Messias em pleno Domingo de Ramos.

Já em Faro, encontrou novamente uma multidão para o acompanhar numa arruada na Rua de Santo António, ao lado do candidato Pedro Pinto. Veio para ajudar a garantir a vitória nestes dois concelhos, garante, e está disposto a perder o presidente do Grupo Parlamentar para obter um bom resultado. “Se o Pedro Pinto vencer, perdemos um grande líder parlamentar, mas ganhamos um grande Presidente de Câmara”. À passagem de Ventura, nenhum dos dois candidatos teve a palavra, nem aos microfones da comunicação social, nem aos microfones para se dirigir ao público. Pouco interessa a quem por ali passa. Vieram ver Ventura, mais ninguém. E a receção do líder, tanto numa região como na outra, além das ações de campanha que decorrem sem ele, fazem antever que os ventos de mudança podem mesmo começar a soprar a sul, e a empurrar o Chega para a estreia no poder local.

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