Um ano e meio depois da primeira vitória, segundo match point pelo título. O crescendo da competitividade dos McLaren na última temporada, deitando por terra essa ideia de que só a Mercedes ou a Ferrari poderiam um dia colocar em xeque o domínio da Red Bull de Max Verstappen, abria a porta a uma nova luta no sempre exigente mundo da Fórmula 1. Após o advento do australiano Oscar Piastri, que chegou a liderar por largas semanas o Mundial de 2025, Lando Norris aproveitou a janela de oportunidade, recuperou aqueles velhos tempos em que liderava as lutas particulares com o adversário e amigo neerlandês e escreveu em Abu Dhabi o último capítulo de um filme que todos sabiam que ia acontecer mas ninguém previa que chegasse tão cedo. Aos 26 anos, tornou-se um dos dez campeões mais novos de sempre num ano marcado pelos recordes.
Recordes de velocidade, como quando conseguiu em maio tornar-se o primeiro piloto de sempre a fazer uma volta no mítico circuito citadino do Mónaco em menos de 70 segundos. Recordes da McLaren, como ainda agora acabou de acontecer no traçado de Lusail ao cumprir a 151.º corrida pela formação britânica que lhe permitiu superar o registo de David Coulthard (150) num ranking que conta ainda com nomes como Jenson Button, Mika Hakkinen, Lewis Hamilton, Alain Prost, Ayrton Senna, Fernando Alonso ou Kimi Räikkönen no top 10. Recordes da própria Fórmula 1, como cumprira este ano em São Paulo ao tornar-se o primeiro piloto da história a somar as primeiras 11 vitórias noutros tantos circuitos à frente de… Michael Schumacher. No entanto, o recorde que sempre teve na cabeça era outro – o “recorde” de sagrar-se campeão como muitos outros contra quem compete, incluindo o adversário que parecia intransponível. “Com o Max e a Red Bull, tenho um dos concorrentes mais difíceis que a Fórmula 1 já conheceu”, dissera. Foi a esse que ganhou.
Quando no ano passado uma quinta posição bastou para Max ser tetracampeão em Las Vegas, numa corrida em que Lando não foi além do sexto posto depois de duas vitórias e 12 pódios nas 21 provas anteriores, houve uma frase que ficou entre o marco histórico: “O que lhe disse? Disse ‘A tua hora também vai chegar um dia, só precisas de ter paciência’. Mesmo durante os tempos mais complicados na McLaren, sabia que ele podia e era capaz de ganhar títulos”. Agora, no regresso ao circuito norte-americano que acabou por reabrir a luta pelo título pela desqualificação dos McLaren após a vitória de Verstappen, o piloto da Red Bull recordou essa mesma conversa. “Os fins de semana têm estado a correr-lhe bem. Todos os anos aprendemos com os erros do passado e isso aplica-se a todos, não apenas ao Lando. Não menti no ano passado, está bem claro agora. Às vezes só precisamos de ser um pouco pacientes e esperar pelo nosso momento”, frisou.
LANDO NORRIS IS THE 2025 FORMULA 1 WORLD CHAMPION!!!! ????#F1 #AbuDhabiGP pic.twitter.com/Rg4cc4OwlU
— Formula 1 (@F1) December 7, 2025
Se ao longo da época Oscar Piastri foi o grande opositor na luta pelo título apesar de não deixar de ser o seu companheiro de equipa, o amigo Max acabou por ser em grande parte o combustível para ir mais longe e ser capaz de bater o adversário Verstappen. Turning point? Aquilo que se passou no Grande Prémio da Áustria em 2024, quando Lando Norris ficou fora da corrida depois de um toque com Max Verstappen que ficou para trás e acabou no quinto lugar. O britânico ficou particularmente irritado com o neerlandês, o neerlandês fez questão de dizer que não tinha de pedir desculpa ao britânico, tudo acabou depois por acalmar entre ambos. O que mudou? Os tempos de comparação em pista entre ambos, com vantagem da papaia.
▲ Colisão com Verstappen no Grande Prémio da Áustria em 2024 obrigou Lando Norris a desistir. Daí para cá, britânico foi melhor do que o neerlandês
JURE MAKOVEC
Apesar das dúvidas que muitos foram colocando sobre a capacidade de continuar a haver uma boa relação de amizade tendo um título pelo meio em disputa, sobraram declarações a apontar no sentido inverso. “Está tudo bem entre nós, estamos ansiosos por mais disputas. Não acho que seremos apenas nós, haverão outros envolvidos, o que tornará tudo mais emocionante. Serão batalhas difíceis, algumas não terminarão como eu queria, outros não terminarão como o Max queria, mas somos pilotos de corrida. Damo-nos bem e temos grande respeito um pelo o outro”, referiu Lando no arranque deste Mundial. “É um relacionamento terrível. Não nos damos bem, chegou no limite. Grande drama, grandes problemas”, ironizou Verstappen, antes de o britânico prolongar esse momento e dizer que tiveram de ser separados e escoltados… de um bar.
Hugs from Max and Oscar ????#F1 #AbuDhabiGP pic.twitter.com/cv1i4rvik8
— Formula 1 (@F1) December 7, 2025
As férias fizeram bem a ambos, depois de uma fase em que a relação estaria abalada e Lando Norris parecia quase querer emancipar-se da sombra do “amiguismo” e bom companheirismo que todos lhe colavam como se fosse um impeditivo de querer mais e alcançar mais. “Toda a gente acha que somos mais amigos do que na verdade somos, tenho outras pessoas que são os meus verdadeiros amigos. É alguém com quem me dou bem fora das pistas mas consigo manter as coisas separadas. Se alguém me tratar mal em pista, não significa que vá tratá-lo mal fora dela”, referira em novembro, já com o título entregue. Tudo radicava desse toque no Red Bull Ring, em Spielberg. Foi a partir daí que o filme mudou: se até esse momento Max Verstappen ia com sete vitórias só em 2024 contra apenas uma de Lando em Miami (a primeira da carreira), as contas a partir daí caíram para o britânico: 19-16 em provas em que foi melhor, 10-8 nos triunfos em corrida. Tão ou mais importante, se no final do Mundial de 2024 o neerlandês fez a festa, agora o britânico acabou coroado.
Three emerged as contenders.
Now, one stands alone. Lando Norris.#F1 #AbuDhabiGP pic.twitter.com/UCSli3urHe
— Formula 1 (@F1) December 7, 2025
Aos 26 anos, o último passo está dado. Após a estreia pela McLaren em 2019, só em 2022 não houve sinais de progresso num trajeto ascensional que teve dois sextos lugares, um sétimo posto, uma nona posição e o 11.º lugar no início até ao vice-campeonato de 2024 e ao triunfo de 2025. Ponto comum ao longo desse trajeto: a série “Drive to Survive” da Netflix, que teve os primeiros dez episódios da temporada 1 em 2019 e que foi muito criticada este ano por Lando Norris… pela forma como mostrou a relação que tem com Verstappen. “Precisam mostrar mais a verdade sobre as pessoas. Não sou fã de coisas falsas, quero factos e não roteiros inventados ou fabricados. A representação de como eu e o Max estávamos um contra o outro… Não é preciso criar esse drama, podem só mostrar os factos. De certa forma é mentir. Estão a afastar-se em demasia da realidade”, comentou o britânico, que só aparece numa sinopse… a partir da temporada 3.
Mesmo com menos pole positions do que na época anterior (8-7) e o mesmo número de voltas mais rápidas (seis), Lando Norris conseguiu quase o dobro de vitórias (7-4) e mais pódios (17-13) para passar da ficção para a realidade e tornar-se o terceiro campeão desta nova era “Drive to Survive” depois dos três títulos de Lewis Hamilton para chegar ao sete no total e dos quatro campeonatos seguidos de Verstappen que tiveram início no (polémico) Grande Prémio de Abu Dhabi, onde admitiu rever-se mais… no neerlandês.
▲ McLaren passou do quarto para o primeiro lugar do Mundial de Construtores em 2024. Agora, Lando Norris chegou ao título nos pilotos
O ídolo Valentino Rossi, os recordes na McLaren e a metamorfose de uma equipa num ano
Nascido em Bristol, o piloto ficou com um nome que nada tem a ver com o Lando Calrissian da Guerra das Estrelas (apesar de ter respondido várias vezes a essa dúvida ao longo do anos) mas nasceu numa família que conjugava vários astros para que acabasse no mundo dos motores. O pai, Adam Norris, um antigo gestor de pensões inglês co-proprietário da Hargreaves Lansdown que entretanto criou um negócio de sucesso com motos elétricas, sempre teve essa paixão mesmo que mais numa vertente de hobbie, ao passo que a mãe, Cisca Wauman, que nasceu na Bélgica, foi a sua maior entusiasta desde os primeiros passos. Dele e dos irmãos, claro: Oliver teve uma carreira com algum sucesso no karting antes de se retirar em 2014, Flo faz várias provas internacionais de equestre entre dressage, concurso completo ou equitação clássica e Cisca, a mais nova, partilha também das mesmas paixões. Lando, com o tempo, ganhou um outro “estatuto”.
A childhood dream come true ????#F1 #AbuDhabiGP pic.twitter.com/fcQOAPRbdz
— Formula 1 (@F1) December 7, 2025
O trajeto do novo campeão mundial de Fórmula 1 começou nos karts mas teve antes passagens pelo equestre, pelas moto-quatro e pelas motas – ou não fosse Il Dottore, Valentino Rossi, o primeiro ídolo grande ídolo no mundo do desporto. A crescer em Somerset, para onde a família se mudou, tudo começou a ganhar “forma” quando foi com o pai assistir ao Campeonato Nacional Britânico de Karting. Em 2013, com apenas 14 anos, conseguiu o seu primeiro grande título da carreira com o Mundial de Karting, que lhe valeu uma entrada na Fórmula 4 Series Britânica via Carlin Motorsport em 2015. Sagrou-se campeão com oito vitórias, dez pole positions e 14 pódios nesse ano, ganhou três títulos de seguida em 2016: Toyota Racing Series na Nova Zelândia, Formula Renault 2.0 Eurocup e Formula Renault 2.0 NEC. Era tempo de novo passo, era tempo de novas vitórias – neste caso o Campeonato da Europa de Fórmula 3, quando já deixara a escola sem fazer os exames de saída mas mantendo a ligação aos estudos de Física e Matemática através de um tutor.
Hug fest ????
Andrea Stella, Fernando, Oscar and Max line up to congratulate Lando ????#F1 #AbuDhabiGP pic.twitter.com/nUBVdZO6uU
— Formula 1 (@F1) December 7, 2025
A tal conjugação cósmica para entrar no mundo dos motores chegou depois de forma natural à própria nova equipa. Lando Norris sempre olhou para Lewis Hamilton como um “grande condutor, capaz de andar rápido” e gostava também do estilo de Fernando Alonso mas era a McLaren, formação britânica que quando estava a começar dava “cartas” que depois foi perdendo com o tempo, que mais o atraía. “Cresci a ver o Lewis e o Fernando mas era o carro que mais me fascinava, aquele McLaren cromado que tinha os detalhes em laranja fluorescente”, contou em entrevista. Em 2018, já como piloto de testes da escuderia da Fórmula 1, falhou o único grande título da carreira na Fórmula 2 depois de um fim de semana para esquecer em Sochi, onde não terminou nenhuma das duas corridas e estendeu a passadeira ao triunfo de George Russell. Ainda assim, apesar dessa segunda posição, foi aposta para render Fernando Alonso e juntar-se a Carlos Sainz.
▲ Lando Norris começou cedo a ganhar títulos nas várias categorias por onde foi passando antes de assinar pela McLaren em 2017 e entrar na Fórmula 1 dois anos depois
Gruppe C GmbH
O recorde de piloto mais novo a chegar ao principal escalão não foi batido porque antes havia um Verstappen a fazer a estreia com apenas 17 anos mas o duelo que tantas vezes tinha acontecido em escalões mais baixos apesar dos dois anos de diferença na idade estava de regresso – primeiro a níveis diferentes, depois na luta pelo título. Contudo, houve outros obstáculos, neste caso um que se tornou conhecido só mais tarde, durante a pandemia, numa entrevista à ITV. Aí, o piloto britânico assumiu que sofreu de problemas de saúde mental no primeiro ano que fez na Fórmula 1 pela pressão que o circo do Mundial envolvia, causando uma ansiedade, uma pressão e uma incapacidade de confiar em si próprio com que nunca se tinha deparado.
Esse primeiro ano teve um sexto lugar na Áustria como momento mais alto, terminando o Mundial na 11.ª posição com 49 pontos, longe dos 96 do companheiro Carlos Sainz Jr. que conseguiu um pódio no Brasil e acabou em sexto. Em 2020, num Mundial marcado pela pandemia que acabou com menos corridas e ainda sem público, o nono posto no final chegou com apenas menos oito pontos do que o espanhol (105-97) e um primeiro pódio na Fórmula 1 de novo no Grande Prémio da Áustria. De seguida, novo passo em frente com um sexto lugar no Mundial à frente do companheiro de equipa, Daniel Ricciardo, que substituíra Sainz após a saída para a Ferrari. A ascensão teve um pequeno travão em 2022, quando os McLaren ficaram mais longe da concorrência e Lando Norris não foi além da sétima posição com mais um pódio (Emília-Romanha).
Em 2023, já com o rookie Oscar Piastri no lugar de Ricciardo, tudo mudou de vez. Apesar do sexto lugar, o britânico assumiu-se como número 1 da McLaren e acabou em sexto a menos de 30 pontos do pódio, tendo acabado seis vezes na segunda posição entre sete pódios (Grã-Bretanha, Hungria, Singapura, Japão, Qatar, EUA e São Paulo) que só não valeram mais pelas dificuldades sentidas pela equipa nas corridas iniciais, com várias desistências do britânico e do australiano. Estava montada a base para outro tipo de competitividade que deixou Lando Norris na segunda posição com quatro vitórias (Miami, Países Baixos, Singapura e Abu Dhabi) e 13 pódios, Oscar Piastri a chegar também aos dois primeiros triunfos (Hungria e Azerbaijão) e a McLaren a passar de quarto para primeiro no Mundial de Construtores com o dobro dos pontos.
Como em quase tudo na carreira de Lando Norris, o ano de 2025 teve também os seus pontos de viragem a tempo de mudar e alcançar a superação. O início de temporada foi equilibrado numa luta a três com destaque para a McLaren, o britânico foi dividindo triunfos com Oscar Piastri e Max Verstappen, mas o Grande Prémio do Canadá começou a criar um fosso que parecia demasiado grande para recuperar na sequência de um toque com o companheiro de equipa australiano a poucas voltas do final. Lando reconheceu o erro, fez um pedido de desculpa à equipa, aprendeu com esse passo em falso e inverteu o rumo no resto do Mundial, tendo apenas uma desistência dolorosa nos Países Baixos por problemas mecânicos com a vitória no “bolso”.
▲ Lando Norris tornou-se o piloto com mais provas realizadas pela McLaren no Qatar, batendo o recorde de David Coulthard
EPA
Alguns falaram na “maldição do hambúrguer”, outros apontaram para a incapacidade de lidar com maior pressão mas a melhoria de rendimento de Lando Norris coincidiu com a quebra de Piastri, que nas últimas sete corridas fez sempre pior do que o companheiro de equipa (à exceção de Las Vegas, em que ambos foram desqualificados). Max Verstappen ainda deu sinais de querer reentrar na luta com os três triunfos em Itália, Azerbaijão e EUA, antes do sucesso em Las Vegas, mas era demasiado tarde para mudar uma história que o próprio dizia estar há muito escrita para o britânico de 26 anos, que também assumiu este ano a relação com a atriz e modelo Margarida Couceiro depois do namoro de dois anos com Luisinha Oliveira.
A day they'll all remember forever ????#F1 #AbuDhabiGP pic.twitter.com/H5z6c7E0pj
— Formula 1 (@F1) December 7, 2025
“O seu potencial era evidente para todos e o prazer que sentia ao volante foi o catalisador para o que estava para vir”, destaca o site oficial do piloto que gosta também de jogar golfe e padel, que acompanha futebol, que chegou a aprender música (guitarra, piano e bateria) com Josh Devine e que sempre teve um particular fascínio pela tecnologia, seguindo de forma atenta a parte da engenharia e dos dados de simulação para perceber como podia potenciar o rendimento em pista. Agora, entre as suas equipas de karting (LN Racing) e de e-sports (Quadrant, criada por altura da pandemia), o piloto britânico mais novo de sempre na Fórmula 1 chegou ao objetivo que norteou toda uma carreira – e contra aquele com quem fez grande parte da carreira.
Lando's crowning moment ???? #F1 #AbuDhabiGP pic.twitter.com/gprvQEdFFw
— Formula 1 (@F1) December 7, 2025
“Se estivesse a conduzir um McLaren, não estaríamos a falar de um campeonato. Já teria ganho, facilmente. Basta ver que eles ganharam o campeonato de construtores tão cedo que sim, já podes imaginar…”, tinha referido Verstappen antes da prova no Qatar, a “provocar” Lando. “O Max pode dizer tudo o que quiser, para ser sincero. Conquistou esse direito, ganhou quatro Mundiais seguidos. Tenho muito respeito por ele e acho que isso lhe dá muito crédito. Conquistou coisas incríveis, mais do que qualquer pessoa sonha em conquistar. Mas também há muitas coisas sobre as quais não tem noção. É a forma como a Red Bull lida com as coisas, esse tipo de natureza agressiva e, muitas vezes, a dizer disparates…”, respondeu o britânico. Mais uma vez, o amigo Max foi o combustível para derrotar o adversário Verstappen, com Lando Norris a segurar o último lugar que lhe dava título a depender apenas de si para fazer a maior das festas em Abu Dhabi contra um neerlandês que passara toda a pressão para a McLaren (“Os meus pais nem vieram cá…”, chegou mesmo a dizer) mas que acabou as últimas voltas de 2025 a perguntar se Leclerc ainda podia chegar a terceiro…