“É um jogador que está disposto a pôr o FC Porto acima de tudo e de todos, acima dele próprio. Claro que todos nós temos ambição pessoal, mas tens de perceber que os teus objetivos pessoais só os consegues se coletivamente tiveres sucesso. Quando se fala de ‘jogador à Porto’, isso existe… Pelo menos na minha altura existia.”
As palavras são de Jorge Costa, em 2020 e numa entrevista ao jornal Expresso, e serviam para explicar o que é um “jogador à Porto”. Jorge, que gelou uma tórrida terça-feira de agosto ao morrer vítima de uma paragem cardiorrespiratória com apenas 53 anos, foi talvez o maior arquétipo do “jogador à Porto”. Jorge, que tantas vezes colocou os objetivos coletivos à frente das ambições pessoais, deixou o FC Porto órfão de uma das últimas referências que sabia elencar as características de um verdadeiro “jogador à Porto”.
Jorge Costa nasceu em outubro de 1971 no Porto, o mais novo de cinco irmãos e o único alto e de olhos claros. Cresceu no Bairro da Previdência, um bairro social na Pasteleira, e repetiu em dezenas de entrevistas que nunca lhe faltou nada. “Tinha o que comer, tinha bicicleta, tinha acima dos mínimos. Hoje tenho consciência dos sacrifícios que os meus pais fizeram para que não me faltasse nada. Foi uma infância feliz”, disse na mesma entrevista ao Expresso, recordando os anos rodeado de amigos da mesma idade, com futeboladas na rua e passeios de bicicleta até que o sol desaparecesse.
▲ O central foi capitão dos dragões nos anos 90, ainda antes de ser emprestado ao Charlton, e já com José Mourinho
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A paixão pelo futebol, segundo o que sempre contou, nasceu com ele. Não tinha ninguém ligado ao futebol na família — só um pai fanático pelo FC Porto que lhe transmitiu a paixão pelo clube que defendeu até ao fim dos dias, mesmo quando não o representava. Mas antes, ainda antes de decidir que iria ser jogador de futebol profissional, Jorge Costa poderia ter-se tornado uma referência de outra modalidade.
“Quando era pequenino começámos a fazer campismo em Cortegaça e havia ali muita gente ligada ao voleibol. Eu jogava lá voleibol, futebol, fazia gincanas de bicicleta, fazia tudo. E tinha uma paixão enorme por voleibol. Cheguei a jogar voleibol no Fluvial”, recordou em tempos, lembrando que é amigo de infância de Miguel Maia, um dos mais importantes jogadores de voleibol portugueses que conheceu precisamente nessas férias em Cortegaça.
Quis o destino, porém, que um acidente o atirasse de forma definitiva para o futebol. A um mês de começar o Campeonato ao serviço do Fluvial, quando tinha apenas 13 anos, Jorge Costa foi atropelado e partiu a clavícula, acabando por ser submetido a duas cirurgias e motivando o abandono do voleibol. Nunca perdeu a paixão pela modalidade, que sempre acompanhou até para seguir a bem-sucedida carreira do amigo Miguel Maia, mas estava prestes a começar uma carreira como poucas na realidade nacional das últimas décadas.
▲ Jorge Costa formou uma dupla de sucesso com Fernando Couto tanto no FC Porto como na Seleção Nacional
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Deu os primeiros pontapés na bola no Futebol Clube da Foz, onde entrou depois de aparecer nas captações com os amigos do bairro, e bastou-lhe um ano para atrair o interesse de Leixões, Boavista e FC Porto. Era o número 10 apesar de já jogar a central, por ser o craque da equipa, e não teve dúvidas quando teve de escolher para onde ia na temporada seguinte — queria representar o FC Porto, o clube do coração, mesmo que o presidente do Foz o tivesse aconselhado a seguir uma opção mais segura.
Caiu nas mãos de Eduardo Costa Soares, mítico treinador da formação do FC Porto que é ainda o técnico com mais títulos nas camadas jovens do futebol português, e começou a construir a personagem que acabaria por conquistar os corações dos adeptos do clube. Com 16 anos e no final dos anos 80, foi aconselhado pelo mesmo Costa Soares a cortar o cabelo à Elvis que usava na altura e aproveitou o facto de nunca ter gostado de saídas à noite ou bebedeiras para se afirmar como um dos talentos mais proeminentes da juventude dos dragões. No segundo ano de júnior, quando Artur Jorge treinava o FC Porto, foi chamado à equipa principal pela primeira vez — e treinou ao lado dos ídolos João Pinto, Fernando Gomes e Rabah Madjer.
Na mesma altura, com os mesmos 16 anos, foi convocado pela primeira vez para representar Portugal. Fez parte da geração moldada por Carlos Queiroz e cresceu nos meandros das seleções jovens, conquistando o Mundial Sub-20 em 1991 e construindo amizades para a vida com João Vieira Pinto, Rui Costa e Fernando Brassard. Seguiram-se empréstimos ao Penafiel e ao Marítimo, com a passagem pela Madeira a servir para adquirir um gosto pela cozinha que manteve ao longo de toda a vida, chegando mesmo a considerar que as horas passadas a cozinhar para a família e para os amigos serviam como “terapia”.
▲ Jorge Costa passou um ano em Inglaterra ao serviço do Charlton, emprestado pelo FC Porto, antes de voltar aos dragões
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O penta, Weah, o Mundial 2002. E o capitão de Mourinho que levantou a Liga dos Campeões
Regressou ao FC Porto em 1992 e o jogo de estreia na equipa principal dos dragões foi marcante: Fernando Couto e Aloísio estavam castigados, foi titular ao lado de Zé Carlos e fez o golo da vitória. Não demorou a receber a alcunha de “Bicho”, cunhada precisamente por Fernando Couto, nome carinhoso que o acompanhou para sempre e pelo qual era tratado pelos amigos mais próximos. Entre a conquista de espaço no onze inicial e a conquista de troféus — campeão nacional logo em 1993, pentacampeão nacional entre 1995 e 1999 —, foi conquistando uma relevância no balneário que se tornou inegável.
“Tive de conquistar o meu espaço. O que me fizeram… Aprendi com isso, sofri e depois fiz aos outros”, chegou a contar, assumindo que era o responsável pelas praxes aos jogadores mais jovens que iam aparecendo, como Cândido Costa, Ivanildo ou Hélder Barbosa. “A liderança é algo natural, ou és líder ou não és líder. Hoje até há cursos e há seguramente técnicas de liderança, mas na altura não havia nada disso. E mesmo com esses cursos até podes melhorar, mas não és um líder nato. Ou és ou não és. E acho que as coisas comigo foram naturais”, acrescentou.
O fim da carreira de João Pinto deu-lhe a braçadeira de capitão e também o lugar cativo no autocarro — de que nunca abdicava, chegando a expulsar os recém-chegados que tinham a ousadia de se sentar no banco reservado. Figura crucial para o ainda inigualável pentacampeonato, sempre deu mais importância ao tri alcançado com António Oliveira logo em 1997 e nunca escondeu que foi aí e nesse ano que a imagem regional do FC Porto foi definitivamente alterada para uma convenção nacional e até europeia.
▲ O central representou a Seleção Nacional em 50 ocasiões e retirou-se do futebol internacional depois do Mundial 2002
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Pelo meio, deu-se o infame episódio com George Weah. Em 1996, numa eliminatória da Liga dos Campeões contra o AC Milan, Jorge Costa foi o natural responsável por marcar o avançado que tinha acabado de conquistar a Bola de Ouro. No primeiro jogo, pisou-lhe a mão e provocou uma fratura num dedo, algo que sempre garantiu ter sido acidental. No segundo, no túnel de acesso aos balneários, Weah deu uma cabeçada a Jorge Costa e partiu o nariz ao central português — acabando mesmo por ser detido pela PSP do Porto, sendo que nunca foi presente a tribunal por nunca ter sido notificado.
“Se me perguntarem se já o perdoei… Não sou ninguém para perdoar. Se esqueci? Nunca na vida irei esquecer, mas só quando me fazem a pergunta é que penso nisso. Se o cumprimento se o vir na rua? Provavelmente não, porque ele não teve a dignidade de assumir que errou e que foi cobarde. Bate e foge. Não deixa de ter tido um ato que o transformou num cobarde”, sublinhou há alguns anos.
Foi ao Campeonato da Europa de 2000 com a Seleção Nacional, onde perdeu com França na meia-final, e retirou-se do futebol internacional logo depois do Campeonato do Mundo de 2002 por autêntico e total desagrado. “Acaba o Mundial e escrevo uma carta à Federação a pedir dispensa da Seleção, porque não gostei do ambiente da equipa técnica e da direção, não gostei da preparação, não gostei de termos ido para Macau, não treinarmos e provavelmente termos ido atrás de dinheiro, não gostei da forma como foi organizado. Não gostei. Foi uma desilusão para mim, aquele Mundial”, explicou. Tinha 31 anos e 50 internacionalizações.
▲ Jorge Costa era capitão do FC Porto quando os dragões conquistaram a Liga dos Campeões em Gelsenkirchen, em 2004
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Nesse mesmo verão em que acabou por deixar a Seleção Nacional na sequência da eliminação na fase de grupos na Coreia do Sul, também decidiu regressar ao FC Porto depois de uma temporada de empréstimo no Charlton— para onde foi após choque frontal com Octávio Machado, então treinador dos dragões. Nunca se arrependeu de ter experimentado Inglaterra e o futebol inglês, onde acreditava que encaixava na perfeição, mas só precisou de um telefonema de José Mourinho para voltar.
“Eu já conhecia o Mourinho e quando ele me liga disse-lhe: ‘Zé, conheces-me bem, sabes a minha vida, sabes que é o que eu quero, sabes o que sinto pelo FC Porto e vou, mas não vou passar pelo que passei. Se for para isso, deixa-me ficar em Inglaterra que estou bem. Vou, mas quero ser tratado de forma imparcial’. Ele garantiu-me que queria que eu fosse. E fui. Perdi dinheiro, mais uma vez, porque o contrato que me ofereciam no Charlton era claramente superior. Mas o coração, como sempre, falou mais alto”, confidenciou em entrevista há alguns anos.
Voltou ao FC Porto para recuperar de imediato a braçadeira de capitão, apesar de ter chegado a garantir que nunca tomou uma decisão sem consultar Vítor Baía, e juntou-se a Derlei, Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Deco, Costinha, Maniche e todos os outros para se tornar o líder de uma geração que fez história: conquistou a Taça UEFA em 2003 e a Liga dos Campeões em 2004, sendo ainda o último capitão da última equipa portuguesa a sagrar-se campeã europeia. Era a extensão de José Mourinho em campo, o líder nato que nunca foi silencioso e raramente se importou com isso, e tem no intervalo de um jogo contra o Belenenses a maior expressão da importância indelével que tinha dentro do plantel.
▲ Com Maniche, de quem era amigo próximo, durante um treino do FC Porto
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“Era uma fase importante do Campeonato e nós estávamos a perder. Sabem aquele jogo em que entram as camisolas e os jogadores não estão lá? Em que nada sai bem e parece que estamos todos a dormir? Eu estava revoltadíssimo, porque era um jogo importante numa fase crucial. Fui o primeiro a chegar ao balneário no intervalo e não me contive, rebentei, estava de tal forma revoltado… E o Mourinho seguramente ouviu-me a falar e pensou: ‘O Bicho está a fazer aquilo que eu iria fazer e bem, portanto deixa-o fazer’. Eu lá me calei, ele entrou e limitou-se a dizer o que íamos fazer do ponto de vista tático. E depois lá está, tive a sorte e a felicidade de fazer dois golos nesse jogo. Mais uma vez, nada acontece por acaso”, recordou.
Tudo mudou com a saída de José Mourinho e Jorge Costa acabou por terminar a carreira depois de uma temporada no Standard Liège da Bélgica, muito por influência do então amigo Sérgio Conceição, em 2006. Foi campeão nacional em oito ocasiões no FC Porto mas arrependeu-se de ali não ter feito o último jogo, chegando a dizer que foi “burro”. Quis o futuro que ainda voltasse a representar os dragões noutras funções.
O telefonema de Jorge Mendes que começou uma carreira e o regresso a casa
Comprou um barco depois de acabar a carreira. Queria aproveitar uma vida com férias mais prolongadas, com feriados e dias santos, sem a vertigem do jogo ao domingo e à quarta-feira e a certeza do fim de semana tranquilo. Durou pouco. Já com dois filhos e prestes a ser pai do terceiro, atendeu uma chamada de Jorge Mendes e aceitou o convite para ir ser adjunto de Rogério Gonçalves no Sp. Braga. Estávamos em 2006/07 e a decisão de António Salvador de despedir o mesmo Rogério Gonçalves em fevereiro levou-o até à primeira experiência como treinador principal. Ainda orientou João Vieira Pinto, um dos melhores amigos, e levou os minhotos até ao quarto lugar do Campeonato, vencendo uma luta com o Belenenses de Jorge Jesus que foi até à última jornada.
▲ A última aventura como treinador principal, antes de integrar a estrutura do FC Porto, foi no AVS
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A segunda temporada no Minho não correu tão bem e Jorge Costa acabou despedido a meio da época, mudando-se para o Olhanense. No Algarve, conquistou a Segunda Liga e levou a equipa de Olhão à subida de divisão, naquele que acabou mesmo por ser o período mais bem-sucedido da carreira de treinador. Chegou à Académica em 2010 e saiu ainda no mesmo ano, por motivos que sempre disse serem pessoais e que nunca quis abordar, e mudou-se para o Cluj para ser campeão da Roménia — e despedido apesar disso, para que não tivesse de receber o prémio chorudo que estava previsto no contrato.
A partir daí, tornou-se um autêntico globetrotter. Treinou AEL Limassol (Chipre), Anorthosis (Chipre), P. Ferreira, Gabão, Sfaxien (Tunísia), Arouca, Tours (França), Mumbai City (Índia), Gaz Metan Medias (Roménia), Farense, Académico de Viseu e AVS no espaço de pouco mais de uma década e nunca escondeu que a passagem pela seleção nacional gabonesa, onde alcançou o apuramento para duas CAN sem quaisquer derrotas na qualificação, foi das mais felizes.
“O Gabão para mim foi ótimo, em várias vertentes. Quando cheguei estranhei muito e equacionei, sofri um pouco, não me apetecia. África, poucas condições, clima diferente, não tinha um trabalho diário. Depois foi um desafio enorme, um trabalho constante de reestruturação, organizar tudo, mesmo o Campeonato local. A ver as coisas a acontecer. Foram quase três anos de muita felicidade. É um país grande, tem a segunda maior selva do mundo. Cada vez que íamos para a selva tínhamos contacto com os animais. Elefantes, tartarugas, havia espécies de 900 quilos”, contou em entrevista à revista Sábado, sendo que acabou mesmo por casar pela segunda vez no Gabão e com uma portuguesa que trabalhava no país.
▲ O antigo capitão do FC Porto marcou presença no funeral de Jorge Nuno Pinto da Costa no passado mês de fevereiro
IGOR MARTINS / OBSERVADOR
Sofreu um primeiro enfarte em 2022 e foi submetido a um cateterismo, deixando de fumar e passando a ter mais cuidado com uma alimentação que nunca tinha sido propriamente regrada. Em 2024, quando ainda era o treinador do AVS e antes de garantir a subida dos avenses à Primeira Liga, foi o nome proposto por André Villas-Boas para diretor do futebol quando este se candidatou e acabou por vencer Jorge Nuno Pinto da Costa na corrida à presidência do FC Porto. Tornou-se o homem-forte do futebol dos dragões, a par do entretanto dispensado Andoni Zubizarreta, e foi o grande impulsionador da contratação de Martín Anselmi na sequência do despedimento de Vítor Bruno.
O facto de ter surgido ao lado de André Villas-Boas beliscou ainda mais a amizade com Sérgio Conceição, que já estava tremida devido a uma zanga anos antes, e tornou-o persona non grata para um Pinto da Costa que outrora o elevou como exemplo maior do que é representar o FC Porto. Ainda assim, não deixou de marcar presença no funeral do antigo presidente dos dragões, em fevereiro, numa entrada que ainda motivou discussões entre os elementos dos Super Dragões que estavam à porta da Igreja das Antas.
Com Jorge Costa, para além do jogador, do internacional, do treinador e do dirigente, parte a ideia do que é o verdadeiro “jogador à Porto”. Jorge Costa, mais do que capitão, foi um soldado às ordens daqueles que considerava serem os homens certos para seguir. Pelo meio, nunca deixou de ser o Bicho que chegou a dizer que a bola até podia passar, mas o homem não.