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O rapper Mota Jr, a quem chegaram a comparar com Eminem

ANA MARTINGO/OBSERVADOR

O rapper Mota Jr, a quem chegaram a comparar com Eminem

ANA MARTINGO/OBSERVADOR

O mistério da morte de David Mota Jr, o rapper português que cantava em crioulo /premium

O telefonema da rapariga que a mãe atendeu, a rivalidade com outros rappers, as jóias e o dinheiro roubados são pistas que a PJ segue. Mas, para já, a única certeza é de que o músico foi assassinado.

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Não é costume deitar-se tão cedo, mas, naquele dia, Filomena estava já na cama quando o filho lhe entrou pelo quarto adentro para lhe perguntar porque estavam todos à janela a bater palmas. Era dia 14 de março, estabelecimentos de diversão noturna e escolas já tinham ordem para fechar por causa da pandemia e nas redes sociais tinha sido lançado o apelo dos aplausos em homenagem aos profissionais de saúde. Foi isso que a mãe explicou a David. Ele ter-lhe-á respondido: “Isto do coronavírus se calhar é mais grave do que se pensava”. Terão sido estas as últimas palavras à mãe. Nessa madrugada David Mota, um rapper de 28 anos conhecido pelos fãs como Mota Jr., desapareceu. O seu corpo só foi encontrado esta semana, dois meses depois, em Sesimbra, já em avançado estado de decomposição. Neste momento, apurou o Observador, a PJ está certa de que foi vítima de homicídio, mas ainda investiga as razões e os autores do crime.

Naquele sábado, segundo contou há um mês Filomena à TVI, não era um dia normal. Todos os fins de semana David tinha concertos e regressava a casa, muitas vezes, apenas no domingo. Mas tinha acabado de ser informado que tudo seria cancelado nos próximos tempos, por causa do novo coronavírus. E para agravar a preocupação, tinha já um investimento feito num álbum que seria lançado em abril e tinha que promovê-lo.

Um dos últimos post de David no Instagram

David acabou por não sair de casa. Um amigo foi visitá-lo e passaram a tarde no quarto “com as músicas deles”, como contou a mãe ainda antes de saber oficialmente que o filho estava morto, embora nos seus pensamentos mais profundos pudesse admitir essa hipótese. Só que preferia agarrar-se à esperança de um desfecho mais feliz. Lembra que os dois amigos saíram do quarto para jantar com ela. Pouco depois Filomena bateu à porta do quarto do filho para o informar que iria deitar-se. Às 22h00, foi então quando David lhe entrou no quarto a perguntar porque estavam todos a bater palmas à janela. Parecia impressionado. Depois de ouvir a explicação da mãe, foi para a janela captar imagens com o telemóvel.

A mãe de David ouviu a porta de casa bater às 23h30 e acordou depois às 2h00 com a vizinha a dizer-lhe que os chinelos e o boné do filho estavam na entrada do prédio. E que havia sangue.

Mas o dia não acabou ali. Às 23h30 Filomena, deitada na cama, ouviu a porta de casa bater. Pensou que era o amigo do filho que tinha ido embora e voltou a fechar os olhos. Acordaria pelas 2h00 da madrugada com um telefonema da vizinha a perguntar-lhe por David. A vizinha insistiu que fosse ao quarto confirmar se ele estaria lá. E ela foi.

David não estava no quarto e havia sangue no prédio

Quando abriu a porta do quarto, David não estava lá. Segundo Filomena, foi isso que disse à vizinha, que lhe pediu então que abrisse a porta de casa porque iria ter com ela. Foi já pessoalmente que a mulher lhe explicou que à entrada do prédio estavam os chinelos da Nike que David costumava usar, estava também o seu boné. Pior, havia pingas de sangue no chão. “Dava a sensação que tinham sido murros e que seriam pingos do nariz”, descreveu.

Filomena chamou imediatamente a PSP, que a lembrou que não sabia se aquele sangue seria de David ou de outra pessoa, com quem ele pudesse eventualmente ter entrado em confronto. Ainda assim permaneceram no local até à chegada da PJ. A mãe do rapper conta que a dada altura recebeu um telefonema no telemóvel de David, que ali tinha ficado. Era uma voz feminina, de alguém desconhecido, que dizia que tinha ido ter com o David a casa e que, nesse momento, ele fora abordado por dois homens encapuzados e armados que lhe apontaram uma arma e a mandaram embora, para “desaparecer”. “Ela diz que apanhou o Uber e que foi para casa. Disse que tinha que ir dormir porque estava muito ansiosa”, recorda.

Filomena esclareceu também que era frequente David receber pessoas em casa que lhe pediam camisolas ou CD autografados, acreditando que essa possa ter sido uma hipótese para a presença da rapariga. Mesmo àquela hora da madrugada.

Já depois das 2h00 o telemóvel de David tocou. A mãe atendeu. Era uma rapariga que dizia ter estado com ele à entrada de casa quando apareceram dois encapuzados que lhe apontaram uma arma e a mandaram embora.

A noite passou-a em branco, ao lado da filha Sara, com polícia a entrar e a sair e elas desesperadas sem saber o paradeiro de David. Eram já 10h00 quando foram levadas pela Polícia Judiciária para prestar depoimento. A mãe do rapper conta que foi uma viagem quase forçada, porque não queriam deixar o apartamento, em São Marcos, concelho de Sintra. É que, segundo ela, o rapper andava normalmente com uma bolsa à tiracolo onde teria guardadas as chaves de casa. E essa bolsa tinha desaparecido com ele.

Nesta entrevista à TVI, a mãe de David agarrava-se à hipótese de o filho ter sido vítima de um roubo, por dinheiro, ouro ou jóias que gostava de usar, ao qual resistiu e que acabou mal. Mas que poderia estar sob sequestro nalgum lado, ainda com vida. Há, segundo conta, imagens captadas num túnel do bairro que o mostram a ser violentamente espancado por dois homens. Mas depois de dois meses de buscas, a pior notícia chegaria esta segunda-feira: uma pessoa que passeava um cão em Sesimbra encontrara partes de um cadáver. E, segundo uma fonte da PJ, a avaliar por algumas características — como as tatuagens que tinha — o cadáver será mesmo o de David Mota.

Imagem retirada do Facebook do músico

Cadáver será identificado pela dentição

Ao Observador, a mesma fonte da PJ explica que o tempo que passou fez com que o corpo de David entrasse em deterioração. Esteve também à mercê de alguns animais. Já não estava completo e os inspetores da Judiciária recolheram as partes espalhadas pela zona.

Dado o estado de decomposição, não foi possível apurar a identidade de David através das impressões digitais, mas para já há partes de tatuagens e de roupa que indiciam que seja ele. Estes indicadores secundários são muitas vezes usados na identificação dos corpos, como aconteceu por exemplo nos grandes incêndios de 2017, em Pedrógão. No entanto, no caso de David, será possível confirmar a identificação com outros indicadores ditos primários, como os dentes e o ADN. Essa “identificação científica”, no entanto, pode ainda levar alguns dias.

D.R.

O português que cantava em crioulo

São vários os perfis associados a David Mota Júnior e com fotografias suas nas redes sociais. No Facebook  e no Instagram passam de uma mão cheia e era aí que o rapper exibia fotos em que aparece ora com drogas, ora com armas (que se desconhece se são verdadeiras), com maços de notas e em carros de alta cilindrada, à semelhança do estilo de vida e dos próprios videoclipes dos rappers norte-americanos. A maior partes destas imagens parecem ser apenas cenários montados para os seus vídeos que no Youtube atingiram milhões de visualizações. Em 2017, o videoclipe oficial da música “Passa Geral” chegou rapidamente a 1 milhão de visualizações em poucos dias.

Durante dois meses desaparecido, vários fãs lembraram rivalidades que David Mota tinha com outros rappers, especialmente por ser branco e cantar em crioulo. 

Naquele dia 14 de março, o último em que foi visto com vida, colocou duas publicações no Instagram. Numa mostra a produção de um possível videoclipe, noutra um concerto que deu em Cabo Verde. Aliás, Mota Jr. conseguiu mesmo encher um estádio na Guiné, onde tem uma legião de fãs.

Apesar de ter lançado o seu primeiro CD em 2014, David Mota deu a sua primeira entrevista televisiva à RTP África só em finais de dezembro de 2019. O entrevistador lança-lhe a pergunta que, aparentemente, muitos colocavam: “Mas esse branco vai cantar em crioulo porquê?” e David justificou-se. Cresceu num bairro em que a maior parte dos amigos eram cabo-verdianos e era assim que comunicavam. Foi com eles que partilhou muitos hábitos e experiências e que passou a ouvir música cabo-verdiana. Juntos começaram a fazer as primeiras batidas e improvisos. Por isso, quando se lançou a escrever a primeira música, sentiu-se mais à vontade para exprimir-se em crioulo.

“Não me inspiro em ninguém, eu é que escrevo, eu é que faço tudo“, disse, explicando que escrevia sobre a sua vida.

À data da entrevista, no entanto, o rapper assumiu que tinha feito uma pausa e que tinha em mão um projeto em português. Era a única forma de “chegar a alguns sítios” e progredir profissionalmente. E na música “Eu Sou”, lançada ainda nesse ano, o músico parece mesmo estar a dar um recado a alguém:

— E eu sou.. o mesmo bacano que tu conheceste há uns tempos atrás

— E eu vou.. atrás do meu sonho porque eu sou capaz

— E eu estou.. num bairro rodeado de inveja 

— E eu sei.. que não posso dormir senão passam-me a perna

O Eminem português e as invejas

Uma inveja de que falou também durante essa entrevista. David Mota assumiu que havia rivalidade com outros cantores e falou mesmo num problema que teve com outro rapper, cuja discussão acabou num bate boca nas redes sociais. David referia-se ao rapper Piruka, autor da música “Ca Bu Fla Ma Nau”, que acabou por atingir os 21 milhões de visualizações no Youtube e na qual David participou, em crioulo. David considerou sempre que o sucesso era devido à sua intervenção e que o contrato que ambos fizeram tinha sido apenas parcialmente cumprido. Ele tinha ganhado 13 mil euros, mas dizia que devia receber mais.

Ainda nessa entrevista à RTP África, David foi comparado — e aceitou a comparação — com Eminem, por ser um rapper branco. “Sim, estás a remar contra a maré… se não tiveres força de vontade…”, constatou.

David é o mais novo de três irmãos. Sara, a irmã, tem 33 anos e Pedro 35. A família toda chegou a ter que ir viver para Londres quando o pai — que ali vivia por ter encontrado um emprego melhor — teve um diagnóstico de leucemia. David tinha 15 anos e teve uma adaptação difícil à escola inglesa. Só depois voltaram ao bairro de São Marcos, em Sintra.

O cadáver de David Mota foi encontrado a 18 de maio em Sesimbra, numa zona de mato, por alguém que passeava o cão. O corpo estava em decomposição e sua dentição será usada para o reconhecimento científico.

A mãe de David descreve-o como alguém que gostava muito de “viver a vida” e que não se preocupava em gastar dinheiro para isso, desde que o tivesse.

Fonte da PJ disse ao Observador que neste momento a única certeza que existe é que David foi assassinado e todas as hipóteses que têm sido avançadas são para já apenas pistas em aberto: um ajuste contas?; um rapper rival?; um caso amoroso mal resolvido?; um roubo?. Tudo é possível.

Nas redes sociais há já amigos de David Mota a apontarem o dedo a um grupo com quem David lidava de perto, da Margem Sul. Há mesmo quem acuse um dos seus intervenientes, também rapper, de estar a exibir-se em imagens nas redes sociais com os bens roubados a David Mota. Mas, para já, a PJ não fez qualquer detenção e tudo não passam de suspeições.

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