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Manifestantes protestam durante a Marcha pela Vida, do Bairro Alto à Assembleia da República, em Lisboa, 21 de março de 2026. A Marcha pela Vida é a nova designação da Caminhada pela Vida em Lisboa, uma iniciativa pública que se realiza anualmente desde 2012, continuando uma tradição que remonta a 1998. É a principal manifestação pública pró-vida em Portugal. ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA
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ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

O ódio pela "burguesia podre", o sentimento de "revolta" e o cocktail molotov preparado em casa. Autor de ataque acusado de dez crimes

MP acusa Nelson Vassalo de crimes de infração terrorista. Defesa diz que foi um "ato irrefletido" e que não vai requerer abertura de instrução.

Quando, ao fim da manhã de 21 de março, Nelson Vassalo se apresentou ao balcão de uma bomba de gasolina com o seu cantil de plástico cheio de combustível, alegou que era para a mota — que não possuía. Na altura, os 1,02 litros custaram-lhe dois euros.

Chegado a casa, verteu a gasolina para uma garrafa de vidro que tapou com um tecido inflamável e guardou-a num tote bag. Preparou-se então para a primeira manifestação do dia, em que não usaria o cocktail molotov: trocou para um casaco preto com capuz e guardou uma gola. No tote bag, colocou também um isqueiro.

Horas mais tarde, na Marcha pela Vida e com a gola a tapar a cara, lançaria o engenho cuja chama, “por razões alheias à vontade do arguido”, se apagou antes de se propagar à gasolina, relata a procuradora Cláudia Porto, do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), no despacho de acusação a que o Observador teve acesso.

O Ministério Público defende que, a ter deflagrado, o cocktail molotov teria causado “lesões graves ou mesmo a morte a pessoas atingidas ou expostas à sua ação”, motivada por ódio: as vítimas faziam “parte da que referia ser burguesia podre, filhos das elites dos sistemas ou betos, os mais favorecidos à nascença, que associava à direita conservadora e religiosa, aos capitalistas, proprietários, senhorios e fascistas que odiava”. Apesar de ter sido detido e ficado em liberdade num primeiro momento, Nelson Vassalo foi preso preventivamente menos de um mês depois. Foi acusado pelo Ministério Público de dez crimes de infração terrorista.

Terrorismo. O filme do ataque com cocktail molotov contra manifestantes pró-vida em frente à AR

Nelson Vassalo estudou multidão durante oito minutos. Mulher ficou encharcada de gasolina ao proteger bebé

A investigação determinou que a radicalização de Nelson Vassalo, iniciada em 2021, culminou no arremesso do cocktail molotov. Foi motivado “unicamente pela convicção político-ideológica de extrema-esquerda, visando a luta política armada violenta, através do uso do fogo, deliberada e exclusivamente contra aqueles manifestantes que odiava e que considerava que defendiam ideias opostas às suas, enquadrando-os no espectro político do que considera ser direita conservadora, capitalismo, extrema-direita ou fascismo”.

O designer gráfico era “ativista em relação ao tema da habitação e ao Movimento Okupa” e, no seu computador, guardava um manual de guerrilha urbana que definia os cocktails molotov como “essenciais” para atuações terroristas. Em mensagens trocadas com amigos e familiares, que como outras células ativistas “alimentaram e validaram fortemente o seu extremismo”, segundo o MP, mencionou estes engenhos pela primeira vez quatro anos antes do ataque à Marcha pela Vida. “Traz os molotov”, respondeu a uma amiga quando se preparavam para um protesto em 2022.

Professor, designer, “muito ativista” e militante do PS (agora suspenso). Nelson, detido por atirar cocktail molotov na Marcha pela Vida

No dia da Marcha pela Vida, saiu de casa para primeiro marcar presença na manifestação Já não Dá!, organizada por movimentos defensores do direito à Habitação. Esteve lá até às 17h28, hora a que decidiu ir buscar uma bicicleta Gira à Praça da Figueira e rumou à Calçada da Estrela, onde chegou menos de 15 minutos depois.

Segundo o Ministério Público, sentou-se num muro, ao lado de um cipreste, durante oito minutos.

Vítimas faziam "parte da que referia ser burguesia podre, filhos das elites dos sistemas ou betos, os mais favorecidos à nascença, que associava à direita conservadora e religiosa, aos capitalistas, proprietários, senhorios e fascistas que odiava"
Despacho de acusação do Ministério Público

Estudou a multidão, composta por cerca de 390 pessoas que “defendiam o que entendiam ser a dignidade da vida humana desde a conceção até à morte natural, manifestando-se contra práticas como o aborto, a eutanásia e o suicídio medicamente assistido”. Além de adultos, estavam na marcha jovens, crianças e bebés, que tinham t-shirts e cartazes na mão. E decidiu.

Nelson Vassalo cobriu a cara com a gola, ateou fogo ao saco impregnado com gasolina onde estava o cocktail molotov e atirou-o. Uma manifestante apercebeu-se do que ia fazer e correu na direção dele, mas foi travada por outra pessoa que a tentava proteger. O saco voou cerca de dez metros na direção de pelo menos oito manifestantes, parados a três metros do primeiro degrau da escadaria da Assembleia da República.

“Naquele momento, o arguido reafirmou a sua intenção de assustá-los, de impor, pela força e pelo terror, as suas convicções e a sua ideologia, e condicionar, pelo uso da violência, do fogo e do terror que queria provocar, a expressão e manifestação livre e democrática de ideias por aqueles manifestantes e por todos os outros, ausentes, que as defendessem ou viessem a defender no futuro”, lê-se na acusação.

Nelson Vassalo alega que levou cocktail molotov para atingir escadaria do Parlamento. Defesa contesta motivação “ideológica”

O cocktail molotov só não explodiu por ter batido no braço de uma manifestante — que se preparava para acender um cigarro — e nas costas de outra, que se virou para proteger o bebé de quatro meses que tinha ao colo. Foi amortecido e a garrafa não se partiu, mas deixou as mulheres cheias de gasolina: uma delas ficou com as costas e o cabelo a escorrer combustível.

Segundos depois, Nelson Vassalo foi placado e pontapeado por um manifestante, e a PSP deteve-o pouco depois. Avaliado no hospital, não apresentou alterações psicopatológicas.

Nelson Vassalo foi motivado “unicamente pela convicção político-ideológica de extrema-esquerda, visando a luta política armada violenta, através do uso do fogo, deliberada e exclusivamente contra aqueles manifestantes que odiava e que considerava que defendiam ideias opostas às suas, enquadrando-os no espectro político do que considera ser direita conservadora, capitalismo, extrema-direita ou fascismo”
Despacho de acusação do Ministério Público

O manifesto escrito para o PS e os estatutos do novo partido escritos com ChatGPT

O ódio pela “burguesia podre” remonta, segundo a acusação, à perceção do acusado de que a sua origem familiar tinha sido “marcada por recursos económicos limitados, o tinha obrigado a enfrentar maiores dificuldades e a realizar um esforço superior ao de pessoas de meios mais favorecidos, para alcançar o sucesso académico e profissional”, o que alimentou um “crescente sentimento de revolta pela injustiça perante as desigualdades socioeconómicas”. Foi no ensino superior, que frequentou através de bolsas de estudo, que mais “teve consciência de que era pobre” quando comparado com os outros alunos.

“Um ato irrefletido”. Autor de ataque contra marcha pró-vida faz mea culpa mas nega que tenha atirado cocktail molotov de forma intencional

Militante do PS desde 2024, nesse mesmo ano escreveu um manifesto em que se definia como “convicto social-democrata, progressista e desenvolvimentista”, criado numa família monoparental de classe média-baixa e relatava ter visto, “na escola pública e no estado social, as ferramentas necessárias e justas ao seu desenvolvimento e à ascensão social tão desejada por quem passava por privações materiais”.

Tendo terminado o mestrado em Nova Iorque através de uma bolsa Fullbright, Nelson Vassalo dizia acreditar “profundamente na função do elevador social”, mas considerava-se “à distância de um azar” para regredir. No seu manifesto, pedia ao PS que tomasse uma posição “necessariamente mais hostil à propriedade”.

Cocktail molotov na AR. MP acusa autor do ataque de infração terrorista, tentativa de homicídio, posse de arma proibida e incêndio

Este não foi o único documento político que redigiu. A outra amiga, contou que “ia criar o seu partido”, e, com vista a esse objetivo, “precisava de bué ajuda para elaborar os estatutos e organização e estava a usar o ChatGPT”.

A acusação não indica se alguma vez enviou o manifesto ao PS mas, meses mais tarde, escreveu numa mensagem que não tinha sido contactado por nenhum partido depois de uma interrupção de um discurso de Carlos Moedas. Já o partido suspendeu-o após a sua identidade ter sido divulgada.

"A radicalização do arguido foi alimentada (...) por um crescente sentimento de revolta pela injustiça perante as desigualdades socioeconómicas, associado à percepção de que a sua origem familiar, marcada por recursos económicos limitados, o tinha obrigado a enfrentar maiores dificuldades"
Despacho de acusação do Ministério Público

“Quem quer ir pegar fogos a instituições comigo?”

Ligado a vários coletivos pela causa da habitação e contra o alojamento local, Nelson Vassalo criou a app Devolutos, que servia para identificar casas ou prédios vazios. No dia 1 de outubro de 2024, foi a uma conferência sobre habitação na biblioteca municipal Palácio Galveias, em Lisboa, e onde marcava presença Carlos Moedas, presidente da Câmara.

“A certa altura, quando o Presidente da Câmara Carlos Moedas estava a falar, o arguido, em alta voz e de forma intempestiva, interrompeu e interpelou o Presidente da Câmara e disse-lhe: ‘Mentiroso, Estás a matar a cidade, Só ajudas os especuladores, Estás a expulsar as pessoas. Só vais ao TikTok e fazer cocktails, cala-te’”, lê-se na acusação. O autarca respondeu que gostaria de falar com Nelson Vassalo, que acabou por ser retirado da sala e, numa mensagem, disse logo a uma amiga estar a “lidar com os 15 minutos de fama” — afinal, a conferência estava a ser transmitida em direto.

“E olha que pensei em coisas piores, que davam mesmo prisão. Tou orgulhoso de ter sido mais racional que emocional que o meu objetivo primeiro era muito mais marcante e perigoso”, afirmou. No início de 2026, a sua conta de X seria suspensa após ter postado a seguinte mensagem: “Tou em Lisboa em Fevereiro, quem quer ir pegar fogos a instituições comigo?”

Comprou gasolina na manhã do ataque, viu na net como fazer cocktail molotov e avançou para o Parlamento. Defesa recorre de prisão preventiva

Depois de a acusação ter sido divulgada, Ricardo Sá Fernandes, o advogado que representa Nelson Vassalo, enviou um comunicado às redações em que diz que o seu cliente “tem consciência de que praticou um ato irrefletido e irresponsável, de que está profundamente arrependido”. Garante que não teve a intenção de “ferir ou magoar alguém”, sustentando-se num “registo da videovigilância”: “Nelson Vassalo é um ativista pela causa da habitação, mas não acredita que a violência seja um meio para obter quaisquer resultados.”

O processo seguirá para julgamento logo que possível: Ricardo Sá Fernandes também fez saber que não vai requerer a abertura de instrução.

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