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Paul Allen e Bill Gates no teleimpressor, na Lakeside School
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Paul Allen, de óculos, e Bill Gates, com o tele impressor na escola de Lakeside, em 1968. Em 1975, fundaram a Microsoft

Arquivo da Lakeside School

Paul Allen, de óculos, e Bill Gates, com o tele impressor na escola de Lakeside, em 1968. Em 1975, fundaram a Microsoft

Arquivo da Lakeside School

O “palhaço da turma” inteligente mas desinteressado que criou o império Microsoft. As memórias da juventude de Bill Gates

À beira dos 70 anos, Bill Gates rende-se a um exercício que evitava: a autorreflexão. Em “Código-fonte”, admite que traumatizou a mãe com um feitio difícil e relata a paixão pela programação.

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Este ano traz duas marcas redondas à vida de Bill Gates. Em outubro completará 70 anos de vida. Antes disso, em abril, a Microsoft, a tecnológica que criou com o amigo Paul Allen, chegará à marca dos 50 anos. Gates já tem uma mão cheia de livros publicados no currículo, mas em 2025 estreia-se num estilo diferente: a autobiografia.

Código-fonte — o meu começo (Ideias de Ler) é o primeiro de três livros sobre a vida de um dos homens mais ricos da tecnologia, com um património estimado em 165 mil milhões de dólares. Segundo a Bloomberg, é o sétimo homem mais rico do mundo, num top 10 com fortunas feitas maioritariamente no mundo da tecnologia. O primeiro livro centra-se na infância e adolescência e culmina num dos pontos mais importantes da vida de Gates, a criação da então Micro-soft (o hífen ficou pelo caminho logo nos primeiros anos).

Os restantes livros, ainda sem data de publicação, vão focar-se em fases diferentes. O segundo volume acompanhará toda a saga da Microsoft até se tornar numa das empresas mais conhecidas do mundo. O terceiro abordará as atividades filantrópicas de Gates, às quais se tem dedicado com mais afinco desde que saiu da liderança da Microsoft, em 2008.

No livro, publicado esta semana, Bill Gates fala sobre a infância num bairro de Seattle, recorda a exigência da mãe, que chegava a adiantar os relógios oito minutos para garantir que todos andavam no seu compasso, e admite que chegou a estar “em guerra” com os pais, ainda antes da adolescência. Não lhes respondia quando achava que as perguntas não tinham lógica e recusava-se a obedecer a tarefas básicas, levando a família a procurar aconselhamento para saber como lidar com o filho do meio.

“Terno” , o complexo filho do meio

William Henry Gates III nasceu a 28 de outubro de 1955, o segundo de três filhos. Foi a bisavó materna Ida Thompson (1881–1961), conhecida por Lala, quem definiu a alcunha que ainda hoje é usada pela família e amigos mais próximos de Gates: “Terno” (Trey, no original), o três de cartas, por ser o terceiro Bill Gates da família. Na verdade, é o quarto, mas durante anos o pai, o verdadeiro Bill Gates III, usou o nome Bill Gates Jr.

A alcunha tem inspiração no mundo das cartas, uma tradição das mulheres da família. Lala fazia frente às dificuldades financeiras a jogar bridge com a elite de Enumclaw, na zona rural de Washington. Passou o talento das cartas à filha, Adelle Thompson (1902 – 1987), a avó/Gami de Bill Gates. O pequeno Bill teve a iniciação nesta invulgar doutrina familiar com a Gami, que passou anos a treinar os netos em pensamento lógico. Começou pelo peixinho e só conseguiu vencer a avó quando tinha oito anos.

“Terno” era diferente: era mais fechado do que a irmã mais velha, Kristi, e tinha problemas de socialização, apesar dos esforços da mãe. Mary Maxwell Gates esforçava-se por inscrever o filho em desportos de grupo, como o basebol ou o futebol americano, mas nada fazia os olhos de Bill brilhar como a matemática e, mais tarde, os computadores e a programação. Durante algum tempo, Gates chegou a fugir de casa durante a noite para passar mais tempo a escrever código. Afinal, dormir era um desperdício.

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A infância entre as cartadas com a avó e a exigente vida social dos Gates. “O meu privilégio foi absoluto”

O casal Gates conheceu-se ainda na faculdade, em Washington. Eram bastante diferentes, mas completavam-se. Enquanto Bill Gates Sr (1925-2020) vinha de uma família liderada por um pai com uma visão “tacanha” do mundo, Mary Maxwell (1929-1994) nasceu numa família de banqueiros, onde era o avô quem ditava as regras da família.

Bill, um “gigante meigo de dois metros”, e a sociável Mary conheceram-se na universidade de Washington e casaram em 1951. Bill Gates Sr tornou-se advogado e Mary Maxwell Gates professora — sempre rejeitou a ideia de ser dona de casa, apostando na carreira. Durante os primeiros anos de casamento viveram num subúrbio de Washington; meses após Bill Gates nascer, fixaram-se em View Ridge, no norte de Seattle. Mais tarde, mudariam novamente de casa, quando nasceu a terceira filha do casal, Libby.

A família Gates levava uma vida confortável: viviam num subúrbio com empresários, médicos, engenheiros e advogados, e faziam férias durante duas semanas em Cheerio, no canal Hood, perto de Washington. Era um conjunto de bungalows e as férias eram passadas com outras nove famílias. O pai de Bill Gates era o “presidente da Câmara” durante aquelas duas semanas e presidia à cerimónia de abertura das Olímpiadas de Cheerio, uma competição séria entre as dez famílias.

“Independentemente da prova, eu dava o máximo para chegar ao pódio, tinha pouca destreza, mas imenso empenho”, recorda Gates para sublinhar o seu espírito competitivo. Ainda hoje, o canal Hood é a base de férias da família do milionário, onde agora existe um complexo familiar, apelidado de “Gateaway”, que é ocupado pelos três filhos e vários netos de Gates.

O pai de Bill Gates transformou-se num advogado de empresas bem-sucedido, um “bulldog em tribunal”, mas que abdicou do sonho da carreira na magistratura para não atrapalhar a carreira da mulher. Mary Maxwell Gates, que morreu em 1994 com um cancro da mama, era uma líder por natureza e foi a primeira mulher a ser nomeada para o conselho de administração da United Way of America, uma rede de organizações sem fins lucrativos. Gates atribui à mãe a consciência de “retribuir à comunidade”, lamentando “que não tenha vivido tempo suficiente para ver o quão plenamente” o filho tenta responder a essa expectativa. O fundador da Microsoft avançou à BBC que já doou pelo menos 100 mil milhões de dólares da sua fortuna.

Ao longo do livro, Bill Gates rejeita a ideia de que os casos de sucesso se possam resumir só com os estereótipos de “rapaz-maravilha” e “engenheiro genial”. No seu caso, confessa o espanto “com o conjunto de circunstâncias únicas”, a maior parte fora do seu controlo, que lhe deram alguma vantagem. “O meu privilégio foi absoluto. Nascer num país rico como os Estados Unidos pesa muito na lotaria do nascimento, tal como nascer branco e do sexo masculino numa sociedade que privilegia o homem branco.”

Além disso, admite que a sua “sorte também foi temporal”: o facto de a sua obsessão por programação ter coincidido com uma altura de amplo desenvolvimento da indústria de semicondutores foi uma vantagem.

Bill Gates, que este ano completa 70 anos, confessa o espanto “com o conjunto de circunstâncias únicas”, a maior parte fora do seu controlo, que lhe deram alguma vantagem na vida. “O meu privilégio foi absoluto."

“Se fosse hoje, provavelmente teria um diagnóstico de transtorno de espectro autista”

Desde pequeno que Bill Gates era uma criança diferente. Nos primeiros anos de vida, era o “menino feliz”, com um cabelo de um louro quase branco. Mas cedo começou a mostrar outros traços, como uma “espécie de excesso de energia”. Também oscilava de um lado para outro — o balançar ainda hoje é “o metrónomo do cérebro” de Gates.

No infantário, a mãe avisava que era uma “criança agressiva e rebelde”, especialmente a comparar com a irmã 21 meses mais velha, um exemplo de bom comportamento. “Terno” gostava de cantar e fazer “viagens imaginárias”, mas não tinha problemas em mostrar o seu desinteresse por qualquer contacto social. Quando aprendeu a ler, centrou-se na leitura e era capaz de isolar-se por completo.

Apesar da inteligência e avidez por informação, na escola os resultados eram irregulares — tudo dependia do interesse que tinha a determinada hora do dia. Era inseguro, não queria mostrar todo o seu esforço por aprender, e tinha uma “voz estridente”, que o levou à terapia da fala. Com medo da imagem de “marrão”, adotou a postura de “palhaço da turma”, que só resultou durante algum tempo.

Bill Gates, juventude

"Na minha incipiente visão do mundo, existia uma hierarquia da inteligência: se fôssemos bons a Matemática, também poderíamos ser noutras disciplinas – Biologia, Química, História ou até línguas"

Bill Gates Archive

Porém, o homem que se tornou no rosto da Microsoft conseguia ficar obcecado com alguns projetos escolares — como o relatório de 177 páginas sobre o estado do Delaware, que fez quando ainda estava no sexto ano. “Absorvi tudo o que consegui encontrar sobre o Delaware”, apresentando um calhamaço de informação envolto numa capa de madeira, com informação sobre a história e o turismo do pequeno estado, mas também biografias fictícias de um pescador de ostras e de um mineiro de granito.

Bill Gates tinha um apreço particular pela matemática e processava a informação de forma diferente das outras crianças. Também não percebia os sinais da socialização e podia ser malcriado ou desagradável sem dar conta do efeito nas outras pessoas. Por isso, acredita que se fosse hoje teria “recebido um diagnóstico de transtorno do espectro autista”.

Hoje em dia, reconhece as dificuldades que os pais tiveram em lidar com as suas características, numa altura em que não havia “manuais” de instruções da parentalidade. “O meu desinteresse pela maior parte das interações sociais era particularmente preocupante para a minha mãe”, admite Bill Gates. Para estimular o lado social do filho do meio durante as férias em Cheerio, Mary Maxwell Gates inventou os jantares em que as crianças mudavam de casa, passando a jantar com adultos diferentes. Gates habituou-se a falar com adultos, algo que deu jeito na hora de lançar a Microsoft.

Mas a relação entre Bill e a mãe continuava a ser particularmente difícil. O filho do meio recusava-se a cumprir ordens simples, como arrumar o quarto ou sentar-se à mesa. Se os pais estavam perdidos, as terapeutas escolares ainda mais. Se num ano era recomendado que avançasse no ano de escolaridade, no seguinte outro terapeuta aconselhava Bill a repetir o quinto ano, com um rótulo de “‘atrasado’, um termo que hoje é considerado datado e insultuoso”, escreve. Mesmo com dúvidas, os pais optaram por não seguir as recomendações.

Mas era notório que precisavam de ajuda. Primeiro, exploraram o Programa de Intervenção Parental da igreja que frequentavam. Mais tarde, procuraram a ajuda do Dr. Charles Cressey, um assistente social que tinha uma clínica de terapia. “A família foi em peso à primeira consulta, mas toda a gente sabia que estávamos lá por minha causa”, confessa Bill Gates no livro.

Gates não percebia os sinais da socialização e podia ser malcriado ou desagradável sem dar conta do efeito nas outras pessoas. Por isso, acredita que se fosse hoje teria “recebido um diagnóstico de transtorno do espectro autista”.

Na altura, não mediu as palavras. “Estou em guerra contra os meus pais”, declarou no primeiro encontro da família com o clínico. A relação difícil entre Bill Gates e a mãe alterou-se quando o jovem percebeu que, “em vez de gastar energia a lutar” contra os pais, devia “canalizá-la para adquirir as competências de que necessitaria no mundo”. Do lado da mãe, também houve uma viragem, principalmente depois de o psicólogo avisar os pais que Bill Gates ia “ganhar” a tal guerra e que era preferível terem calma e dar-lhe espaço.

Um exemplo desse espaço era a participação de Gates em intrépidas caminhadas, que poderiam deixá-lo até sete dias fora de casa, sem qualquer contacto com a família. Começou pelos Escoteiros, mas depressa evoluiu para caminhadas mais longas e perigosas.

O primeiro contacto com um computador que estava a 1500 km de distância

No sétimo ano de escolaridade, Bill Gates entra na escola privada Lakeside, fundada em 1919 como uma escola de elite para os filhos das famílias mais ricas de Seattle. A família Gates conseguia pagar as propinas do filho, mas Gates faz questão de esclarecer que não eram tão abastados como algumas famílias dos colegas, que até tinham iates.

Ser o “palhaço da turma” não funcionou na escola privada. Gates ficou particularmente furioso quando alguns professores o colocaram no grupo dos alunos com mais dificuldades a acompanhar a matéria — o espírito competitivo estava sempre lá. “Chamavam-me solitário, totó e um bocadinho desagradável”, diz as partir de descrições dos colegas.

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Mas havia uma novidade em Lakeside que lhe mudou a vida. Num dos edifícios, ouvia-se um “tchuque-tchuque-tchuque que parecia um comboio”, mas afinal assemelhava-se mais a uma “máquina de escrever com um disco de telefone num dos lados”. Era um teleimpressor, que podia ser usado para os alunos se ligarem a um computador para jogar ou escrever programas. Era 1968 e o computador nem sequer estava na escola: na verdade, ficava na Califórnia, a mais de 1500 quilómetros de distância.

Era um método conhecido como tempo partilhado: permitia que várias pessoas se ligassem ao computador, através de uma linha telefónica e o acesso era pago a peso de ouro. Na verdade, Lakeside só tinha o terminal graças a uma angariação de fundos organizada pelas mães dos estudantes. Em três dias, juntaram cerca de 3 mil dólares (hoje em dia o equivalente a mais de 27 mil dólares) o suficiente para alugar um teleimpressor, o ASR-33, e pagar o tempo de ligação para arrancar com o projeto.

Gates, então com 13 anos, ficou fascinado. Já havia uma linguagem de programação, chamada BASIC (Beginners’ All-purpose Symbolic Instruction Code), que permitia usar comandos para escrever pequenos programas. Quando inseriu o primeiro programa, Gates teve uma “resposta instantânea como um choque elétrico”. Algum tempo depois estava a escrever o seu primeiro programa, um jogo do galo.

“O computador obrigava-me a pensar e eu adorava”, escreve no livro. Em conjunto com outros colegas, passou horas na sala onde estava o teleimpressor. Um “bando de adolescentes frenéticos” estava a aprender quase ao mesmo tempo que os professores o básico da informática. Com o passar do tempo, os “miúdos” formaram o Grupo de Programação de Lakeside. E até chegaram a dar aulas aos mais novos.

Mas continuava a existir o problema do preço dos minutos passados no computador, com contas de milhares de dólares. Até que mãe de um dos alunos resolveu o problema. Monique Rona estava a montar uma das primeiras empresas de partilha de computadores do país, em Seattle, a Computer Center Corp (CCC) e precisava de jovens programadores para testar o acesso aos computadores, fazer os chamados testes de fiabilidade. Em troca de minutos de acesso gratuitos ao computador, os miúdos tinham só de reportar quando encontravam algum erro. Era um jackpot.

Bill Gates e companhia passaram horas na CCC, a que preferiram chamar C-Cubed, para sublinhar a sua obsessão com a matemática. Gates começou a fugir de casa à noite para ir à empresa — acredita até hoje que os pais sabiam mas que preferiam não repreendê-lo. A C-Cubed faliu algum tempo depois, mas deu tempo aos jovens para treinarem as capacidades de programação e desenvolver software, que era praticamente inexistente na altura. Foram contratados por uma empresa para desenvolver uma forma de agilizar os registos de pagamento de salários e, anos mais tarde, até por Lakeside — criaram um programa para resolver os conflitos de horários escolares.

A relação nem sempre fácil com Paul Allen, o parceiro que escolheu para fundar a Microsoft

Paul Allen era dois anos mais velho que Bill Gates, mas a programação e as muitas horas passadas junto do teleimpressor de Lakeside aproximaram-nos. Enquanto Allen tinha uma barba farta e patilhas que lhe davam um ar adulto, apesar de ter só 15 anos, Bill Gates era um adolescente magro e com uma voz fina, que sempre pareceu mais novo. “[O Paul] (…) achava-se muito mais fixe. Tinha construído uma imagem de polímata: era tão capaz de dizer o tamanho de uma ogiva de um míssil balístico intercontinental como de identificar os acordes de uma canção de Jimi Hendrix”, descreve Gates no livro.

Também admite que não era normal haver convivência entre colegas de anos diferentes, mas que Allen sabia como obter uma resposta de Gates. “Bill, já que te achas tão esperto, resolve lá isto” era o gatilho para desafiar o jovem Bill a acelerar a programação.

As primeiras experiências de Bill Gates com álcool e drogas foram com Paul Allen, alguns anos mais tarde. Primeiro, com um whisky escocês “rasca” na sala do computador na escola, durante um verão em que ficaram a trabalhar num software para fazer os horários dos estudantes. “Fiquei tão bêbado que vomitei e passei a noite na sala dos professores”, conta o empresário. Dias depois, o primeiro charro. Allen tentou também que Gates experimentasse LSD, mas o jovem não aceitou. Pelo menos dessa vez — teve a primeira trip sem Allen, algum tempo depois, na viagem de finalistas do secundário, já em 1973. A experiência não correu bem e Gates lembra-se até hoje de como foi ao dentista “pedrado”, sem saber distinguir o que era real e alucinação.

“A dinâmica entre nós tinha sido sempre complicada, uma mistura de afeto e rivalidade semelhante à de alguns irmãos”, diz Gates sobre a relação com Paul Allen, com quem cofundou a Microsoft em 1975.

“Descobrimos que os nossos estilos de trabalho se complementavam”, explica Gates no livro, justificando a escolha do parceiro de negócios. Enquanto Bill tinha uma abordagem “rápida e direta”, Allen era “mais tranquilo, mais calmo”, ponderava as coisas e tinha “uma inteligência paciente”. Se Gates olhava para o lado do software, Allen era fascinado pelo hardware e sorvia informação sobre as descobertas na área. Estava atento ao desenvolvimento dos circuitos integrados e ao surgimento de uma empresa, a Intel.

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Allen convenceu Gates a comprar um microprocessador por 360 dólares, o equivalente hoje a 2.400 dólares. “(…) foi o acontecimento mais significativo da minha vida profissional. Sem ele, não teria havido Microsoft”, sublinha o empresário.

Mas a relação entre os dois, um “totó de 16 anos e o seu compincha tecno-hippie de 19”, foi marcada por altos e baixos. “A dinâmica entre nós tinha sido sempre complicada, uma mistura de afeto e rivalidade semelhante à de alguns irmãos”, descreve Gates. Durante um verão, chegaram mesmo a afastar-se. A tensão esteve sempre presente, inclusive nos anos de sucesso da tecnológica, quando Gates tentou reduzir a participação de Allen na empresa.

Paul Allen morreu em 2018, aos 65 anos, devido a complicações causadas por um linfoma não-Hodgkin. Bill Gates descreve-o como o “amigo, parceiro e incentivador”, garantindo que a sua “vida não teria evoluído como evoluiu sem o Paul Allen”.

Morreu Paul Allen, um dos co-fundadores da Microsoft

A quase expulsão da faculdade e o impulso final para lançar a tecnológica

Ainda que tivesse passado o verão antes da faculdade a trabalhar com afinco em programas de computador, nas candidaturas ao ensino superior Gates surpreendeu. Assumia as competências de informática e programação e dava destaque aos bons resultados em Olimpíadas de Matemática, mas disse que pretendia seguir uma carreira na área do Direito ou da Gestão.

Foi pelo menos isso que reportou a Harvard, onde ingressou no outono de 1973, apesar de também ter entrado em Princeton. Teve dificuldades de adaptação no primeiro ano, que terminou com uma colite ulcerosa. Fez as aulas de Matemática 55, uma das mais avançadas, e teve um C a Química, a pior nota do percurso académico. Ainda hoje assume a nota com alguma vergonha.

Em Harvard, passava mais tempo no laboratório Aiken, que tinha um computador, do que nas aulas ou mesmo a dormir. Estava a trabalhar em software BASIC para um micro-computador desenvolvido pela tecnológica MITS, que queria colocar um dispositivo em cada secretária. Acumulou muitas horas no laboratório, que era pouco supervisionado.

Bill Gates e Paul Allen em 1975, quando foi fundada a Microsoft

Bill Gates e Paul Allen em abril de 1975, quando foi criada a então Micro-soft (o hífen desapareceu com os anos)

Barry Wong/The Seattle Times

Foi isso que quase lhe valeu a expulsão de Harvard. Tudo porque o computador foi cedido pelo Estado norte-americano a Harvard e tinha um contrato com a DARPA, a Agência para Investigação de Projetos de Defesa Avançados, que não ficaria feliz por saber que o computador estava a ser usado para fins comerciais. Foi uma das poucas vezes em que Bill Gates pediu ajuda ao pai, advogado, para se safar de um contratempo.

Conseguiu evitar a expulsão, em parte por uma carta que escreveu à administração a assumir a culpa. Foi o início do afastamento de Gates. Primeiro, tirou uma licença de um semestre para trabalhar em Albuquerque, onde ficava a sede da MITS, que entretanto contratou Paul Allen. No tempo livre, Allen trabalhava com Gates no desenvolvimento de software para o Altair 8800, o tal micro-computador, para garantir que os equipamentos não eram apenas pisa-papéis de secretária com luzes e alavancas que eram vendidos aos clientes.

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O primeiro plano de negócios da tecnológica foi escrito em sete páginas de papel de fotocópia, onde era ponto assente “o princípio de não dar saltos maiores do que as pernas”. Paul Allen, Bill Gates e Ric Weiland (1953 – 2006), também vindo do grupo de programação de Lakeside, acordaram que cada um ganharia nove dólares à hora. A Micro-soft ia ser a prioridade dos três nos dois anos seguintes. Ric Weiland aguentou a pressão durante algum tempo, até decidir abandonar a parceria.

No verão de 1976, a Businessweek colocava na capa o título “Os micro-computadores estão para ficar”. Gates fez uma promessa aos pais: “Se a Microsoft não resultar, volto para a universidade.” Nunca chegou a acabar o curso.

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