A guerra intromete-se na vida, altera o percurso da narrativa. Os aviões que caíram, que foram atirados contra as torres gémeas, é mais correto dizer, levaram os Estados Unidos da América para um conflito no Afeganistão. Osama Bin Laden tornou-se, de um momento para o outro, o terrorista mais famoso do mundo, no século XXI.
Portugal participou desta caça ao homem e da missão de restabelecer o Afeganistão como um Estado democrático. Em dezembro, Barack Obama deu por concluída a retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão. Em 12 anos, mais de 3000 portugueses participaram na missão da Força Internacional de Apoio à Segurança (ISAF) no Afeganistão. Morreram dois.
O soldado paraquedista Sérgio Pedrosa e o Sargento João Pereira tiveram percursos de vida muito semelhantes. Parecem cópias do mesmo filme, escrito pelo mesmo argumentista, mas com desenlaces diferentes. Até o acaso os une.
A mãe de Sérgio Pedrosa, ainda hoje, não sabe com grande detalhe o que aconteceu na noite de 24 de novembro de 2007, quando o carro em que seguia o filho de Cabul para Kandahar capotou. Ainda existem perguntas por responder. Passados sete anos, vai todos os dias ao cemitério de Crestuma visitar a campa do filho, conversar com ele. Não o quer deixar cair no esquecimento.
Já o jazigo de João Pereira tornou-se quase um local de peregrinação. Companheiros, ou não, os Comandos que vão partir em missão, fazem-lhe visitas no cemitério. Deixam as boinas. Em 2005, Portugal entrou em catarse com a sua morte, acarinhou a famíla de várias formas. João deixou uma filha sem pai.
Vidas em paralelo
O primeiro campo em que Sérgio Pedrosa se destacou foi nos relvados. Estudou até ao nono ano e depois foi tirar um curso técnico de eletricista. Mas não encontrava “gosto” na escola. Foi no desporto, o desafio enfrentado em grupo, que Sérgio encontrou pela primeira vez o sentimento de pertença. Jogou a avançado e a médio ala pelo Crestuma, o clube da vila onde nasceu, mas não só. Numa capa de recortes de jornal e fotografias do filho, que a mãe guarda, encontramos uma notícia que falava do “craque local” que tinha marcado cinco golos em dois jogos. “Um jovem promissor.”
As redes que hoje vedam o campo de futebol do Crestuma, situado mesmo em frente da casa da família Pedrosa, estão rotas e abanam com a brisa que passa. O muro, que em tempos foi vermelho, agora é cor-de-rosa. O céu está pintado com nuvens em vários tons de cinzento. “Nem acredito que é só atravessar a estrada. Posso ir equipado de casa”, disse Sérgio um dia à mãe.
Hoje, o campo está abandonado.
▲ O antigo campo de futebol do Crestuma
© André Correia
“Ele tinha mais jeito [para o futebol] que eu”, diz José Pedrosa, irmão de Sérgio, sem se mostrar embaraçado com isso. Maria Rosa, a mãe, e José receberam o Observador em Crestuma. O pai de Sérgio está emigrado em Angola, e a irmã mais nova, Ana Isabel, 16 anos, não estava em casa, neste dia.
Tal como o irmão, José seguiu uma carreira militar. E até se voluntariou para partir na mesma missão que Sérgio para o Afeganistão. “Onde ia um, ia o outro”, conta a mãe, sentada à mesa. “O meu responsável, na época, não deu o meu nome para a listagem”, lembra José, sem explicar as razões.
Atrás dos dois membros da família Pedrosa está uma bandeira portuguesa pregada a um móvel. É a mesma que cobriu o caixão do Sérgio, no dia do funeral. Rosa olha para trás para explicar o porquê daquela bandeira ali e sorri como quem revê um velho amigo. Noutra parede da sala está outra homenagem ao filho: uma espécie de exposição de todas as fardas desportivas e militares que Sérgio vestiu, fotografias e medalhas. Existe uma estratégia delineada para lutar contra o esquecimento.
© André Correia
Por não encontrar trabalho, Sérgio optou por uma carreira militar. “Nem era pessoa que quisesse ir à tropa”, diz Rosa, 54 anos, lembrando que o filho chegou a ter conversas com o pai para encontrarem formas de escapar ao serviço militar obrigatório. Só que um dia chegou a casa e contou a todos que tinha entrado na carreira militar. “Do nada.” A mãe nunca gostou da ideia, dos riscos que o filho procurava. “O diabo está-te a chamar”, dizia-lhe. Mas isso nunca o demoveu. Partiu para o Afeganistão no dia 27 de agosto de 2007, para voltar “em quatro tábuas”, expressão que utilizava muitas vezes para brincar com a mãe.
Do outro lado do espelho, anos antes, no Alandroal, esteve a vida de João Pereira. Também o mais velho de três irmãos, João mostrou desde cedo que “tinha muitos objetivos”, nas palavras do irmão do meio, Nuno Pereira. Era uma pessoa do e, não do ou. João queria ser o melhor corredor. E o melhor militar. E o melhor pai.
Durante a adolescência, chegava a correr 30 a 40 quilómetros por dia. “Batendo os seus recordes”, conta Nuno. Praticava orientação e andava nos escoteiros. Era uma pessoa de “fardas”. Nos verões, antes de entrar para a carreira militar aos 18 anos, trabalhava como “pedreiro” ou “barman” para “juntar uns trocos”. Apesar deste ímpeto de superação permanente, João sempre “foi uma criança muito calma”, lembra Maria Conceição, a mãe, em poucas palavras.
▲ Maria da Conceição
© André Correia
Sérgio Pedrosa e João Pereira nasceram em famílias humildes. A casa da família Pereira em que João morou até se casar está situada na rua dos Combatentes da Grande Guerra, no Alandroal – quase um sinal premonitório da sua futura carreira. Tem uma decoração simples. Na sala, é possível ver várias fotografias de João, principalmente quando fardado.
Nuno Pereira, 37 anos, também foi militar durante nove anos e chegou a fazer parte do mesmo destacamento que o irmão. Mais uma vez, como já tinha acontecido com José Pedrosa, foi por pouco que Nuno não foi em missão para o Afeganistão com o irmão, conta. As expressões faciais de Nuno estão sempre a mudar, como que à procura do sentimento adequado a expressar, quando fala do irmão.
Em 2001 e 2004, João já tinha participado de duas missões internacionais em Timor, ambas com a duração de seis meses. O cenário que encontrou comoveu-o: a “pobreza” e as “crianças”. Nesses cenários, os militares, “homens duros”, tornam-se pessoas de “coração mole”, dizem os familiares reunidos à volta da mesa. “Chegou a levar caixotes de livros e roupa para Timor”, conta Gracinda, tia de João Pereira. O Afeganistão ia ser a última vez, tinha prometido. Tinha uma filha de dois anos para educar.
▲ Família do Sargento João Pereira
© André Correia
“Ele nunca se despedia”, diz a mãe, com o filho mais novo, José Pereira, a ampará-la nas costas. Quando está prestes a começar a chorar, José faz-lhe festas na face, de forma carinhosa. A família sabia que João ia partir para o Afeganistão, mas não sabia quando. No dia três de agosto de 2005, quando João ligou à mãe, já estava no aeroporto a embarcar.
Fazer-se homem
Antes de partir, Sérgio já tinha combinado com os amigos a sua festa de aniversário para quando regressasse. Estava “confiante”. A mãe pediu-lhe para não ir, mas o filho não cedeu. “Também sou homem, também vou”, respondeu. Ir para a guerra era como um ritual de passagem da mocidade para a vida adulta, para Sérgio. Fazer-se homem, “ser patriota”. No dia em que fez o juramento da bandeira de paraquedista e em que recebeu a boina verde que tanto queria, Rosa lembra-se da forma intensa como o filho estava a viver aquilo. “Parecia que ia comer a bandeira, tal era força com que a agarrava.”
No Afeganistão encontrou um cenário diferente daquele que tinha construído na sua cabeça. Menos negro, mais humano. “Dava água às crianças, quando ia em patrulha, contava-me ele. E eu ralhava-lhe, com medo que algum dos mais velhos o atacasse”, conta Rosa, orgulhosa da atitude do filho, o “craque” do Crestuma que já estava muito longe das suas origens. Falava com a família, todos os dias, pela internet. Queria ver a “filhinha”, a cadela Cira, de raça pitbull. “Bastava ela [a cadela] ouvi-lo falar para ficar maluquinha durante 10 minutos”, conta Rosa.
▲ Cira, a "filhinha" de Sérgio Pedrosa
© André Correia
Nélson Sousa, amigo de Sérgio que também participou na mesma missão no Afeganistão, nasceu numa aldeia ao lado de Crestuma. “Estava-se sempre a rir. Mesmo quando estava triste”, lembra. Durante uma patrulha no Afeganistão, em que Sérgio sentiu-se mal e teve de vomitar, Nélson lembra-se do espírito do amigo. “Mesmo assim, a vomitar, ria-se”, conta.
▲ Nélson Sousa
© André Correia
Depois de ter passado três meses em patrulhamento em Cabul, o contingente português ia ser transferido por via terrestre para a base de Kandahar, a principal frente de batalha no país, e ia ficar responsável por dar apoio aos norte-americanos lá estacionados.
“Patrulhas por Cabul e depois vais tirar lá em baixo [Kandahar] umas férias com os americanos e talibãs”, ironiza Nélson. Estes meses iam ser os mais tensos para as forças portuguesas no país – eram um procedimento comum. “Cabul é um passeio, quando comparado com Kandahar.” É nos arredores de Kandahar que se encontra o vale de Korengal, um dos principais redutos tabilãs, que foi retratado no filme documental Restrepo, que em 2010 chegou aos Óscares.
Foi durante esta viagem que ocorreu o acidente que matou Sérgio. “Nunca me vou esquecer daquele dia. Não posso. Era o meu dia de anos”, diz Nélson. Tem o corpo hirto, como que à espera de ser atacado, apesar de estar a falar de algo íntimo.
Nélson sabe que a guerra tem muitos riscos. No Afeganistão, existiam muitos sinais que passavam esta mensagem. Em 2007, na base portuguesa em Cabul, estava lá estacionado um veículo partido ao meio, “em bico”, lembra Nélson, ao mesmo tempo que faz com as mãos uma espécie pirâmide. O mesmo jipe onde morreu João Pereira.
“Eu acho que ele pressentiu que ia morrer”
O Sargento João Pereira não teve a mesma estranheza inicial à missão que Sérgio, quando chegou ao Afeganistão. Não era a primeira vez que estava numa situação daquelas e ocupava uma posição de comando. Tinha o discernimento da experiência. Quando telefonava para casa dizia que estava tudo bem, para não preocupar a família, apesar do ambiente tenso que tinha encontrado. Quase todos os dias haviam atentados às patrulhas que cobriam Cabul.
Três dias antes do atentado à bomba, João deu uma entrevista à SIC, em Cabul. “Ajudou-os a passar ao colo em algumas situações e disse-lhes como o perigo está sempre à espreita”, diz a mãe, orgulhosa. Gracinda, tia de João, compilou em dois DVD todas as reportagens televisivas em que João aparece no Afeganistão. Cristalizou memórias.
Maria da Conceição apercebe-se de que está a chegar o momento de falar da morte do filho, por isso toma as rédeas da conversa. “Eu acho que ele pressentiu que ia morrer”, diz, de repente. Dois dias antes do atentado, João ligou para a mãe a dizer que tinha enviado “umas encomendas”. Ao olhos da mãe, foi um presente de despedida.
As “encomendas” chegaram a Portugal dez dias depois da morte de João, já depois do seu funeral. O que eram? Gracinda e Maria da Conceição levantam-se e vão buscar. Regressam com embrulhos nas mãos. João tinha enviado lenços, iguais aos que as mulheres afegãs utilizam tradicionalmente. Os lenços estão preservados no papel de embrulho original. “Minha querida mãe”, lê-se, na prenda de Maria da Conceição. É a letra de João.
▲ Prenda que João enviou do Afeganistão para a mãe
© André Correia
No dia 18 de novembro de 2005, durante uma patrulha nos arredores de Cabul e quando estava prestes a regressar à base, um explosivo controlado à distância rebentou quando o veículo onde seguia o Sargento João Pereira passava. João teve morte instantânea. O jipe ficou “em bico” e foi levantado do chão “dois ou três metros”, descreve Nuno Pereira, de acordo com o relato que lhe foi passado. Num momento João estava vivo, noutro não. “Foi uma bofetada”, diz a mãe, contendo mais palavras para não se emocionar.
Neste ponto, as histórias de Sérgio e João voltam a parecer cópias. Sérgio e João morreram “por acaso”. Não era suposto eles estarem nos sítios onde estavam quando morreram.
Na madrugada do dia do atentado, João Pereira trocou com o amigo Sargento Carlos Barry a responsabilidade de comandar aquela patrulha. E na viagem para Kandahar, quando o jipe onde seguia o soldado paraquedista Sérgio Pedrosa capotou, não era suposto este estar na posição de apontador. Sérgio tinha trocado de lugar com um amigo que estava doente, dez minutos antes do acidente.
E ficaram perguntas por fazer…
O que aconteceu na noite do dia 24 de novembro de 2007 nunca foi bem explicado à família Pereira. Mãe e irmão não sabem ao certo se João morreu no local do acidente ou se faleceu depois de receber tratamento médico em Cabul. De alguma forma, isto assombra-os.
O condutor do jipe onde seguia João Pereira, conta o irmão, “viu uma sombra no caminho e pensou que era uma mina. Então, guinou o carro para o lado, para se desviar”. A estrada, contudo, pregou uma rasteira: tinha valetas profundas, tinha sido construída em altura para manter sempre o mesmo nível. O carro caiu na valeta e capotou, esmagando João.
▲ José Pedrosa, irmão de Sérgio Pedrosa
© André Correia
André Martins, amigo com quem João tinha trocado de lugar, contou um dia mais tarde à mãe que ainda lhe deu “a mão depois do acidente”. Mas o jovem amigo, que ficou “visivelmente afetado” não revelou mais detalhes. “Gostava de saber outras coisas”, confessa a mãe, ao descrever o comportamento do amigo como esquivo.
A guerra no Afeganistão subtraiu um filho a Rosa, o mais velho de todos, num acidente. Rosa eleva a mão esquerda à altura da cabeça e toca com um dedo pouco acima da orelha. “Não encaixou bem”, diz, com os olhos muito arregalados. Quando vê um programa na televisão que mostra imagens do Afeganistão, a mãe do soldado paraquedista Sérgio Pedrosa continua a procurar pelo filho. A morte de Sérgio “não encaixou bem”. “Sinto muito a falta dele. Tenho mais filhos, mas nenhum ocupa o lugar dos outro”, diz, em frente à entrada do cemitério da vila de Crestuma.
Fecha os olhos e limpa as lágrimas que lhe escorrem pela face. Passados mais de sete anos, Rosa ainda vai ao cemitério todos os dias visitar o filho que morreu no Afeganistão. Se sentir necessidade, vai mais que uma vez. “Falo para ele. E quando ele faz anos, canto-lhe os parabéns. Sinto-me bem assim”, diz, ao olhar para o jazigo. Rosa é uma das poucas visitas a Sérgio no cemitério. Depois do funeral, que “teve algum impacto nacional”, o nome de Sérgio foi pouco mais falado.
© André Correia
Ana Isabel, a irmã mais nova, também vem muitas vezes sozinha visitar o irmão. “Senta-se aqui, com as pernas cruzadas”, diz, ao apontar para o espaço vago do jazigo duplo, que pertence à junta de freguesia de Crestuma. Na época, “onde estivesse um, estava outro.” Rosa lembra-se que quando Sérgio jogava futebol, no intervalo, Ana invadia o campo e ia oferecer “duas florzinhas” ao irmão no banco de suplentes, como uma fã apaixonada. “Duas florzinhas”.
Quando o irmão faleceu, escreveu uns versos que hoje estão gravados numa placa em cima do jazigo. “Cada pessoa é como é. Mas se todos fossem como tu. O mundo era feito de anjos com belas e longas asas para voar. Bem alto, como tu voavas.”
A mãe olha para a campa com as mãos nos bolsos e de olhos aquosos. “Pensavam que éramos irmãos, pela forma como ele me tratava.” Na sua cabeça, Rosa ainda ouve Sérgio a chamá-la para sair de casa: “Vamos, vamos, Rosinha. Vamos Rosinha.” A morte foi “uma pancada muito grande”.
A cabeça de Rosa recusa-se a deixar morrer Sérgio no esquecimento. Pelo menos, na sua memória. Agita a cabeça para a esquerda e para a direita rapidamente, como que a chocalhar as ideias que se estão a formar lá dentro e diz: “É pena. Os grandes serão sempre grandes e os pequenos serão esquecidos.”
O último pedido do Sargento Roma Pereira
“Ainda hoje, é recorrente no Facebook publicarem fotografias dele”, diz Nuno Pereira, ao mostrar no telemóvel um exemplo de dezembro. João Pereira morreu em 2005, mas não foi esquecido, é certo. Muitos dos colegas, dos Comandos e não só, antes de partirem em missão ainda visitam o cemitério do Alandroal. Nem avisam a família que estão na cidade, vão diretos ao destino da peregrinação. “Vêm pedir a bênção, a proteção dele”, diz Nuno. Por “quatro ou cinco vezes”, algum membro da família chegou ao cemitério e encontrou lá uma boina dos comandos em cima do jazigo.
A rua onde João morava com a sua esposa e filha, antes de partir, tem hoje o nome de 1º Sargento Roma Pereira.
No dia do funeral “não havia onde estacionar o carro”, conta Gracinda. “Veio gente de todo o lado”, acrescenta. Numa fotografia que a família mostrou do dia seguinte ao enterro, eram tantas as coroas de flores que nem se via o jazigo. Receberam poemas de todo o país, de militares e de totais desconhecidos, em catarse do que tinha acontecido. Portugal comoveu-se.
A mãe pega em dois passe-partout com fotografias de João e limpa-lhes o pó que está acumulado no vidro, mas mais parece estar a fazer carícias à imagem do filho. Para a família, João será sempre o militar que “levava sempre bolachas Maria no bolso do camuflado”.
© André Correia
Aquela pequena sala, onde agora está reunida quase toda a família de João, tem uma certa neblina de nostalgia. “Ele dançava horas com a filha ao colo”, diz Gracinda, ao olhar para sala. Dança e rodava, e rodava. “Parece que não era deste planeta a serenidade dele. Parece que a vida dele não era terrena”, diz Gracinda, emocionada.
Quando João partiu para Afeganistão, no dia 3 de agosto de 2005, telefonou à mãe do aeroporto para se despedir. Mas isso não foi o único acontecimento importante que se passou naquele dia. Já tinha embarcado no avião, quando decidiu vir voltar atrás e deixar uma missão ao Sargento-mor Matias, o mesmo que viria a dar a notícia da sua morte à família. “Se me acontecer alguma coisa, diz à minha filha que eu a amei muito e explica-lhe quem foi o pai.” A família de João só soube disto no ano passado, na comemorações do nono aniversário da sua morte. A filha de João Pereira, hoje, tem 11 anos. Mas esta história ainda não terminou, “ainda não é este ano”, disse o Sargento-mor Matias, à família.