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PEDRO ARMESTRE

PEDRO ARMESTRE

O PSOE elege um novo líder. Mudança?

Os socialistas espanhóis vão a votos este domingo, tentando virar uma página. A corrida lembra outras, como a portuguesa. Há diferenças e semelhanças. O Observador foi tentar perceber quais.

Parece que já ouvimos isto em qualquer lado: “O PSOE já não é o que era”.

“O último líder forte do socialismo foi Felipe Gonzalez, já lá vão 17 anos”. A frase não será um facto, é uma opinião, a de Oriol Bartomeus, politólogo e professor de Ciência Política na Universidade Autónoma de Barcelona. Mas tem sido repetida em Espanha à exaustão.

Em Espanha, como em muitos países da Europa, o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) está em crise. Desde que Mariano Rajoy chegou ao poder, há mais de três anos, que o partido não descola nas sondagens. Nem a crise financeira, nem o semi-resgate a que Espanha foi sujeita, nem as medidas de austeridade que o Governo de direita teve de cumprir chegaram para dar um impulso.

Em Espanha, como em Portugal, as europeias precipitaram uma crise interna. Com uma diferença relevante – duas, na verdade. Primeiro: por lá, o líder demitiu-se; segundo: por cá, o PS venceu a direita nas eleições de maio, mas foi desafiado perante o resultado tímido.

uma viagem para lá da fronteira

A política espanhola está a viver dias complicados. “É uma grande mudança”, explica Oriol Bartomeus. O sistema político pós-franquismo da década de 70 “está a desintegrar-se”. Prova disso é a recente “abdicação do Rei Juan Carlos e toda a crise institucional que se tem vindo a impor. A par da corrupção e da falta de credibilidade das forças políticas”. Algo tem de mudar.

"Há-de nascer um sistema novo", profetiza o analista de Barcelona ao Observador.

Enquanto o Partido Popular (PP) de Mariano Rajoy se aguenta no Governo com uma maioria absoluta, alguma coisa começa a mudar no outro partido do arco da governação. “Zapatero não era forte e não tinha a aura de Felipe [Gonzalez]”, diz Bartomeus. Rubalcaba, o líder demissionário, estava demasiado ligado a Zapatero, por isso também não. Na verdade, “acho que mais ninguém voltará a ter a aura de Felipe daqui para a frente”, diz o politólogo. Mas façamos um breve flashback, para perceber como se chegou aqui.

Novembro de 2011. Afredo Pérez Rubalcaba, então secretário-geral do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) concorria às eleições legislativas e, derrotado, ficava com o currículo manchado pelo pior resultado de sempre do PSOE em eleições gerais (28,8%). Mariano Rajoy conseguia desta forma chegar ao Executivo espanhol, depois de duas tentativas anteriores de roubar o lugar ao socialista José Luiz Rodríguez Zapatero, no Governo desde 2004.

“Perdemos claramente”, resumia Rubalcaba durante a noite eleitoral depois de ter perdido 59 lugares no Parlamento e ter visto evaporarem-se cerca de quatro milhões de votos em relação às eleições anteriores, de 2008. Ainda assim, a derrota esmagadora não foi o suficiente para atirar a toalha ao chão. Estava fresca na memória a governação de Zapatero, em plena crise das dívidas soberanas, e a fortíssima ameaça para que Espanha pedisse um resgate. Rubalcaba aguentava, o partido não teve soluções alternativas.

Durante três anos, o líder fez o que podia. Contestou quase todas as medidas de austeridade, reclamou mudanças na Europa, enviou diplomas para o constitucional espanhol, juntou-se aos sindicatos nas manifestações contra Rajoy e as políticas de direita. Numa breve síntese, foi assim até às europeias.

Maio de 2014. O terramoto dos partidos insurgentes rebentava na Europa derrubando as estruturas dos maiores partidos um pouco por todo o lado. Aconteceu em França, com a vitória da extrema-direita de Marine Le Pen, aconteceu no Reino Unido, com a vitória do UKIP de Nigel Farage, como aconteceu em Espanha, mesmo não sendo Madrid o epicentro do terramoto.

Mas foi dura, a derrota. A ascensão da Esquerda Unida e a surpresa do Podemos, o partido que com apenas três meses de idade conseguiu quase 8% dos votos, o PSOE ressentiu-se e não esteve à altura. Foi segundo, atrás do PP. Teve apenas 23% dos votos. O caso foi dramático para o tal “arco da governação”: juntos, PSOE e PP caíram drasticamente face às eleições anteriores e na pedra ficou gravado o pior resultado de sempre e um recado do eleitorado contra o bipartidarismo. Perceberam a ideia?

Alfredo Pérez Rubalcaba percebeu. “Há que assumir a responsabilidade política pelos maus resultados”, disse naquela noite eleitoral o líder socialista, anunciando a demissão, para dar espaço a alguém novo a tempo das legislativas do próximo ano. “Não conseguimos recuperar a confiança dos cidadãos e não temos legitimidade para organizar as primárias abertas. As pessoas lembram-se de que isto [a crise] começou quando nós estávamos no Governo e por isso temos de mudar a forma de fazer política”, atirou Rubalcaba, uma cara muito conhecida do anterior Governo socialista, de Zapatero, onde foi ministro do Interior e já no fim vice-primeiro-ministro.

O resto foi consequência: o PSOE anteciparia o Congresso e marcava eleições para a liderança. A campanha decorre até amanhã e as diretas (processo novo em Espanha, com eleição do secretário-geral pelos quase 200.000 militantes) estão marcadas para domingo. Mas o processo pode não acabar aqui: em novembro devem realizar-se eleições primárias, abertas a simpatizantes, que confirmarão quem vai ser o candidato a chefe de Governo. Lembra o PS, sim. Mas a ordem é a inversa, com a mesma justificação. “O processo de renovação e abertura do partido deve ser feito a partir da opinião da sociedade e não do aparelho partidário e de um congresso, como sempre”, defendia Eduardo Madina, um dos nomes promissores para entrar na corrida.

Rubalcaba muda calendário: Congresso antecipado para o fim de julho e eleições diretas no domingo

Quem é quem?

A campanha arrancou a 13 de junho com o primeiro teste à união do partido. Era a corrida às assinaturas e foi o primeiro momento de disputa interna. Quinze dias e muitas conversas de bastidores depois, nomes que eram dados como prováveis de avançar – como é o caso de Susana Díaz, a respeitada líder da federação de Andaluzia, a mais forte do partido, – deixaram-se ficar para trás em favor de outros. Feitas as contas, sobraram três quase desconhecidos da generalidade dos eleitores: Pedro Sánchez, que conseguiu um total de 45 mil apoios, com uma avalanche de votos vindos da Andaluzia e de Valência (duas das maiores federações), Eduardo Madina, que reuniu 26.400, contando com o apoio das importantes regiões da Catalunha e Astúrias, e José António Pérez Tapias, que, à tangente, conseguiu conquistar o apoio mínimo de 5% da militância.

AFP/Getty Images

Pedro Sánchez, 42 anos, madrileno e doutorado em Economia. Apresentou-se como o candidato “humilde”, que já foi afectado pelo desemprego jovem, e um “militante das bases”. Percorreu o país para conhecer as bases do partido e recolher apoios, mas é o mais inexperiente dos três. Apresentado como o mais telegénico, serve-se da ideia de que até há pouco mais de ano e meio não estava sequer na política, numa tentativa de se afastar dos erros do partido no passado. Foi vereador da Câmara de Madrid e depois deputado até 2011, mas o fraco resultado do PSOE nas últimas legislativas não lhe permitiu sentar-se numa cadeira no Parlamento e só em janeiro deste ano voltou àquelas funções – após demissão de uma deputada. “Sou um de vocês” é a palavra de ordem do candidato que diz que a desejada lavagem de cara do partido tem de ser feita “a partir de baixo”.

AFP/Getty Images

Eduardo Madina, 38 anos, oriundo da comunidade autónoma do País Basco, está no partido desde os 17 anos, na Juventude Socialista, e está há cinco anos na direção do grupo parlamentar. “Espanha precisa de um choque de modernidade”, defende, ao mesmo tempo que faz uso da sua longa experiência de estrada (em contraste com a sua tenra idade), que, diz, lhe permitiu conhecer “as ideias e os valores do socialismo”. Perdeu na corrida pelas assinaturas no partido, o que dá favoritismo ao seu mais direto adversário, mas é o mais próximo do aparelho partidário. Sobreviveu a um atentado terrorista da ETA em 2002, que lhe custou uma perna.

AFP/Getty Images

José António Pérez Tapias, 56 anos, é professor universitário e reitor da Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Granada. É o mais velho dos três e o de discurso mais virado à esquerda. Por não ter tido tantas assinaturas, é a voz mais distante do aparelho partidário. E a mais radical. Federalista convicto, é o único que já assomiu que não irá concorrer às primárias caso seja eleito secretário-geral.

São jovens ou de pouca experiência política – ou ambas as coisas. “Esta eleição pressupõe uma mudança profunda de gerações com o objetivo de renovar o partido”, sem os vícios do passado ou marcas de governações anteriores, explica ao Observador José Manuel Ruano, politólogo da Universidade Complutense, de Madrid. No domingo, uma coisa é certa: quem quer que ganhe dirá que o PSOE mudou.

José Manuel Ruano diz que há quem não esteja muito contente no partido: os barões do PSOE, que estão “habituados à velha cultura oligárquica e vêem com desconfiança o processo de eleições diretas”, onde todos são chamados a votar.

Caras em vez de ideias

Nestas semanas de campanha, o ambiente foi de fair play entre os três candidatos. Nem a pressão do sprint final, para convencer os “camaradas” eleitores, desfez o clima de relativa união. Ali ao lado não se repete a dura batalha dos Antónios que já se vê em Portugal. “A campanha tem-se desenrolado com uma notável dose de fair play, diz ao Observador o investigador Carlos Flores Juberías, professor de Ciência Política e Direito Constitucional na Universidade de Valência. “Era o que se esperava dos candidatos que, no fim das contas, pertencem ao mesmo partido e partilham os mesmos princípios”, justifica.

Será, então, que se discutiram propostas, alternativas, ideias?

“O debate centra-se sobretudo no perfil pessoal, na trajetória dos candidatos e nas possíveis decisões sobre a organização interna do partido, e não nas diferenças ideológicas de fundo”, diz-nos José Manuel Ruano, para quem as divergências só acentuariam o risco de fractura interna. Como passar uma imagem de união numa altura de disputa interna é a pergunta para um milhão de euros. O investigador faz uma aposta: quem quer que seja eleito secretário-geral deve incluir na direção as “diferentes famílias dos candidatos derrotados”.

Na segunda-feira, os três estiveram na sede do PSOE em Madrid para um debate televisivo – o único permitido durante a campanha. Debate? “Não, de todo”, escrevia a jornalista Lucía Méndez numa artigo de opinião no jornal espanhol El Mundo. “O que ali se passou foi um intercâmbio de pareceres, uma sucessão de opiniões e uma tertúlia entre companheiros e companheiras”, disse.

Mais do que uma conversa entre amigos, o debate foi disciplinado, sem interrupções nem atropelamentos. No fundo, o objetivo dos três era o mesmo: recuperar a credibilidade do partido e conquistar a confiança das pessoas. De todo o modo, como ainda não estão em campanha para as legislativas de 2015, a operação de charme dirigida aos militantes obriga-os “a serem mais cautelosos na hora de apresentar propostas” – para não afastar uns e outros, explica Ruano.

Trocaram ideias e percorreram à superfície questões de forma, como a organização interna do partido, a realização de primárias abertas para eleger o candidato a primeiro-ministro depois da eleição do secretário-geral, o combate à corrupção, a monarquia e a república, o referendo da Catalunha, e os erros do passado, onde a antítese de Zapatero serve de bandeira a todos. Em todas as questões houve acordo, apenas com uma ou outra nuance. Tapias, o candidato com escassas possibilidade de ganhar, foi o mais radical, admitindo mesmo um referendo não vinculativo à independência na Catalunha. Sánchez e Madina andaram lado a lado, a tentarem sobrepor-se na retórica e no protagonismo, mas não no conteúdo. Sobre medidas de crescimento económico e de combate ao desemprego – que ainda é o maior flagelo da economia espanhola – nem uma palavra.

No fim quem ganhou? Nenhum. Ou todos. “Ganhou o PSOE”, escrevia o El País em editorial. Na véspera do debate, a 6 de julho, o mesmo jornal publicava uma sondagem sobre as preferências dos cidadãos – não dos militantes – e, à semelhança do que foi toda a campanha, Madina e Sánchez surgiram quase empatados. O deputado basco com ligeira vantagem (40%), face aos 37% do madrileno.

"Debate foi mais um intercâmbio de pareceres, uma sucessão de opiniões e uma tertúlia entre companheiros e companheiras"
Lucía Méndez

“É um dos momentos de profunda crise institucional, mais do que económica, onde é essencial que os dois principais partidos preservem um certo sentido de Estado, capacidade de entendimento e responsabilidade institucional”, diz Carlos Juberías aos Observador. Mas sem Rubalcaba, que o próprio Mariano Rajoy definia como um político “com sentido de Estado”, resta saber se o novo líder inexperiente (qualquer que ele seja) vai pender para mais para a esquerda ou mais ao centro – porque até a mensagem que os cidadãos quiseram mostrar nas europeias pode ter várias leituras.

É que depois da eleição do secretário-geral, e das primárias abertas que em princípio deverão nomear o líder do partido como candidato às eleições gerais, segue-se um ano de desafios eleitorais: autárquicas, em maio de 2015, e legislativas, em dezembro.

Para já, a primeira batalha é a afluência dos militantes às urnas no domingo. Se a participação for inferior ou rondar os 80 mil votos (total de assinaturas conseguidas pelos três) o secretário-geral “nasce raquítico”. Esse, sim, será um mau começo para o renovado partido socialista. O maior desafio, porém, está no resto que falta: um programa.

 

P.S. Para lá da passagem de Rubalcaba pelo PSOE como um dos líderes menos bem sucedidos, que esteve quase mas nunca chegou a ser primeiro-ministro, fica a marca que deixou no Congresso, onde foi deputado durante mais de 21 anos. Em setembro afasta-se de vez e volta para a universidade, para leccionar. O adeus foi emocionado e mereceu uma ovação, de pé e durante quase um minuto, num reconhecimento unânime e transversal do seu trabalho enquanto figura do parlamentarismo e do Estado espanhol. Rubalcaba “deu categoria e altura ao trabalho de deputado”, sintetizou o presidente do Parlamento Jesús Posada, no discurso da despedida.

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