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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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O vento que “varreu tudo”, os telhados arrancados como “papel” e uma “grande mágoa”. Como a depressão Kristin devastou Leiria

Só no município, morreram três das seis vítimas mortais causadas pelo mau tempo. Milhares de casas ficaram sem eletricidade e água, e ninguém sabe quando voltam.

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De noite, o vento levou o telhado da casa de Edgar Rosa, em Leiria. “Passámos a noite acordados. Isto era um barulho que não se controlava. Sinto uma grande mágoa, mas tem que passar”, relata o polícia reformado de 66 anos. Foi às primeiras horas da noite que o vento se tornou mais intenso, mas só às quatro da manhã é que a chaminé da sua casa foi abaixo. “Fez um estrondo. Um estrondo mesmo. Aqui, ali, acolá. O telhado foi até ao outro lado”, conta, ao mesmo tempo que, com o genro e a filha, procura reparar os estragos.

“Se nós estivéssemos à espera de ajuda, estávamos desgraçados da vida”, diz o sexagenário, enquanto mostra o sótão agora completamente aberto. No quintal, uma casa de brincar das crianças desapareceu. “Voou. Não sei para onde.”

A região de Leiria foi uma das mais afetadas pela depressão Kristin, que só no município matou três pessoas. Milhares de casas ficaram sem eletricidade, água ou comunicações. Por toda a cidade, somam-se as árvores caídas, os postes no chão, os telhados arrancados e os carros destruídos. O presidente da Câmara, Gonçalo Lopes, descreveu o sucedido como um cenário de “horror”, comparável a um “mini tremor de terra”.

Da são-tomense recém-chegada ao entregador de pão. Quem são as vítimas mortais da depressão Kristin

Não foi só Edgar Rosa quem não pregou olho a noite toda: a mulher, o genro, a neta e a filha também tentaram desde cedo controlar os danos, “tudo sem luz, só com lanterna de telemóvel”. Pelo meio, a família acudiu uma vizinha, viúva, que gritava de pânico. “Fomos lá só ajudar a senhora, tentar acalmá-la. Nem conseguimos ver o que estava destruído”, confessa Débora, filha de Edgar.

O homem chamou o 112, mas ficou sempre em espera. “Proteção Civil, Guarda? Nada. É tanta coisa. Não dá para tomar tanta ocorrência”, lamenta.

“Não há 200 metros sem uma árvore caída. Não há uma rua intacta”. Leiria quase inacessível, com ruas e estradas cortadas e sem telefones

De manhã, Edgar encolhe os ombros, triste. Construiu a sua casa nos anos 80, num terreno que pertencia ao pai. “O que é que eu sinto? Uma grande mágoa. Mas isto tem que passar. Agora é voltar a pôr tudo em ordem”. O medo maior é a chuva que ainda pode chegar. “Se começar a chover, a água entra toda. É uma porcaria.”

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“O vento varreu tudo. Os muros e os portões rebentaram”

Dário Macedo e Grace Fernandes sentiram o vento “como um tornado”, mas a casa que arrendam há quatro anos sofreu menos danos. “O muro voou. Literalmente. E o pula-pula [trampolim] das crianças desapareceu, não sabemos onde foi parar”, assinala Grace.

Atrás da casa, uma árvore caiu e o muro acabou por atingir o carro de uma vizinha. “Foi horrível, horrível. Uma hora e meia de chuva e vento de todos os lados”, conta Grace, acrescentando que os três filhos acordaram assustados e ninguém dormiu até de manhã. Ainda assim, dentro de casa, “não entrou nada”. “Foi mais o medo”, afirma. Para o casal brasileiro, a sensação é de incredulidade, pois nunca tinham visto “nada assim”.

Em Gândara dos Olivais, às portas de Leiria e junto à Estrada Nacional 109, a depressão Kristin causou avultados prejuízos a Carlos Dinis, de 69 anos. Dono de três casas na zona, aponta em todas as direções: “Foi o vento. Varreu tudo. Os muros rebentaram, os portões rebentaram, os telhados estão todos arrombados.”

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Os estragos são “superiores a 50 mil euros” e, dentro de uma das casas, o cenário é caótico. “Olha para isto. Está tudo destruído”, repete ao Observador, abrindo portas e apontando para o tecto esventrado. Acordou às três e meia da manhã, mas nada pôde fazer sem eletricidade. As arcas onde guardava a carne desligaram-se, tudo se estragou e agora, como Edgar, Carlos teme a água. “Se começa a chover, cai tudo cá dentro. Depois tem que se pintar, arranjar… Isto é muito complicado”, explica.

Na mesma localidade, Mário Fernandes, de 51 anos, teve mais sorte. “Partiram-me mais de 12 telhas. O vidro da porta rebentou e a porta vai ter que ser nova”. As telhas que voaram da capela desta povoação bateram na sua casa, mas as várias que guardava em casa valeram-lhe para reparar o telhado: “Se não fosse isso, estava perdido”.

Acordou às seis da manhã mas só com a luz do dia percebeu a verdadeira dimensão dos estragos. Mário tem seguro, mas não sabe o que será coberto. O carro, estacionado na rua, também sofreu danos, mas mais do que os prejuízos, preocupa-o a falta de serviços básicos. “Sem água, sem luz, sem comunicações, como é que se governa?” Tentou comprar gasolina e bens essenciais, mas as bombas e supermercados estavam com o sistema em baixo. “Onde é que se mete combustível?”

“A cobertura do armazém foi arrancada como folhas de papel”

Na zona industrial de Leiria, a tempestade Kristin paralisou os negócios. Na Infordia, empresa de informática com 27 anos de atividade, o impacto foi imediato. Luís Toscano, de 51 anos, chegou ao edifício por volta das nove da manhã. “Deparámo-nos com um cenário gigantesco. A cobertura do armazém foi arrancada como se fossem folhas de papel. O portão caiu. Havia uma viatura cá dentro que levou com o portão em cima”, enumera o funcionário.

Os alertas meteorológicos não faziam prever aquela dimensão. “Tenho 51 anos e nunca assisti a uma situação destas. Não era minimamente expectável.” Ao longo do dia, uma equipa de 12 pessoas fez o levantamento dos danos, porque “as autoridades não têm capacidade para responder a tantas ocorrências”.

“Estamos a falar de muitas dezenas, se calhar centenas de milhares de euros” devido aos “vidros partidos, infraestruturas danificadas, calhas e estruturas alteradas”, ressalva. “Não é algo estético. É estrutural. Não é chegar aqui e montar um portão.”

Com uma dúzia de trabalhadores, a empresa está praticamente parada. Sem eletricidade, sem internet e sem telhado, não há como trabalhar nem ajudar clientes. A paragem da Infordia reflete um problema em cadeia: a empresa presta serviços maioritariamente a clientes da região de Leiria, precisamente os mais afetados. “O nosso trabalho é dar apoio às empresas que agora vão precisar ainda mais dos nossos serviços”, frisa Luís. Sem energia e sem rede, nem sequer o apoio remoto é possível. “Vai ter de ser tudo presencial. Mas, para isso, temos primeiro de nos pôr de pé.”

A recuperação será lenta. “Isto não vai ser resolvido em dois ou três dias. Nem em semanas” porque “as empresas de reconstrução vão estar todas sobrecarregadas e toda a gente vai dizer que o seu problema é mais urgente”. A Kristin atingiu a Infordia precisamente um ano depois de terem mudado de armazém. “Foi um bom presente de aniversário”, suspira Luís, com os olhos marejados.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Como é que eu lhe vou pedir que me pague isto?”

A norte de Leiria, situa-se Carvide, onde nenhuma casa parece ter resistido à força do vento: se umas só sofreram pequenos danos nas janelas ou em telhas, outras tiveram mesmo árvores de grande porte a rasgar-lhes os telhados. Aos estragos, junta-se o luto pelas duas pessoas que aqui morreram devido à depressão Kristin.

Bem cedo, ainda o resto do país se estava a aperceber da real dimensão dos estragos do mau tempo, Manuel estava, de braços cruzados e com voz tremida, a mirar a gigantesca árvore que quase derrubou a casa que a mãe, que morreu há um ano, lhe deixou e à irmã. “O meu vizinho vai ter de me ajudar com isto… estes pinheiros são dele”, atira Manuel para o ar, enquanto suga com força uma das milhares de pinhas caídas no chão. “Eu sempre me dei bem com ele, como é que eu agora lhe vou pedir que me pague isto?”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Na estrada que dá acesso à povoação, os bombeiros da Marinha Grande cortam com motosserras outras árvores de grande porte. Muitos automobilistas tiveram que circular em contramão para evitar os ramos nas vias, onde até os semáforos falharam. Sem eletricidade, água ou gás, a única luz provém dos letreiros dos supermercados e das bombas de gasolina que, ao final do dia, contam com filas de já centenas de metros de carros a quererem abastecer. A maior parte dos postos daquela região ficaram destruídos.

Nas prateleiras dos supermercados em Carvide escasseiam água, latas de atum e papel higiénico. Pelos intercomunicadores soa um aviso claro: “Avisamos os nossos clientes que devido ao mau tempo não temos quaisquer comunicações e que o pagamento terá de ser feito apenas em dinheiro.” Só a duas horas de distância é possível recuperar a rede móvel.

Afinal, foi bem perto de Carvide que, na Base Aérea de Monte Real, se registou a maior rajada de vento da última madrugada: 178 km/h. Parte da cerca desta base militar foi parar ao chão, o mesmo destino da placa vermelha com a frase “Área Militar”; mas a segurança foi mantida por dois militares de sentinela.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Leiria revive o apagão de abril. “Sem energia não se consegue trabalhar”

Sem eletricidade, sem água e sem rede móvel e fixa. Em Leiria, abundam ainda as bombas de combustível onde não é possível pagar com multibanco, os acessos rodoviários condicionados e as ruas onde caíram árvores ou cabos, o que obriga ao trânsito alternado. Por todo o lado, escutam-se as sirenes de bombeiros, da polícia e de viaturas da Proteção Civil.

Num dos poucos supermercados onde a luz elétrica se mantém graças a um gerador, a fila é grande. Cláudio Alfaiate, jurista, e Filipa Costa, administrativa, ambos com 30 anos, entraram apenas para comprar “uma Coca-Cola e umas bolachas para o pequeno-almoço”. Não lhes falta comida em casa, salientam ao Observador. “Acordámos por volta das 4h30. O barulho era enorme. Mas só de manhã percebemos mesmo o que tinha acontecido.” Na sua casa no centro da cidade de Leiria, os painéis solares “voaram literalmente”. Foi o único dano direto, avaliado em três a quatro mil euros, e que deverá ser coberto pelo seguro. “Há casas muito piores”, reconhecem.

Sem eletricidade, internet ou fogão elétrico, o casal passou o dia a verificar se os familiares estavam bem. “Fomos à casa dos pais, à casa dos sogros. Agora vamos ficar lá, porque têm fogão a gás”. A incerteza quanto ao regresso da energia ainda paira no ar: “Ouvimos na rádio que poderiam ser até 48 horas. O que se faz nessas 48 horas? Aprende-se”, concluem. “Sem net, sem eletricidade… hoje em dia, o que é que se faz? Nada.”

Baltasar Sousa, de 49 anos, fechou a sua churrasqueira logo pela manhã e agora empurra um carrinho cheio de compras para dois ou três dias. “Sem energia não se consegue trabalhar”, assinala. Às quatro da manhã, acordou e, mal o sol nasceu, juntou-se aos que procuraram ajudar: “Uns tinham gasolina, outros tinham motosserras. Andámos a cortar árvores, a desimpedir caminhos, para conseguir passar.”

Baltasar foi ainda até à Nazaré para verificar um barco. O caminho pela A8 foi lento, devido às árvores no meio da estrada que tornaram só uma via transitável. Centenas de árvores caídas em plena autoestrada fizeram com que alguns automobilistas tivessem de sair das suas viaturas para, eles próprios, começarem a partir os ramos das árvores para conseguirem passar.

“Lá [Nazaré] havia energia, deu para carregar os telemóveis. As bombas da A8 têm geradores. Comprámos 60 litros de gasolina.” Todos destinam-se ao gerador que tem em casa, e que lhe garante dois ou três dias de energia.

A comparação com o apagão surge naturalmente. “Acho que as pessoas não aprenderam muito. Chegam às bombas e querem pagar com cartão. Não dá.” Desde abril de 2025, “temos sempre algum dinheiro, água, combustível e comida, para aguentar dois ou três dias até que consigam repor a normalidade”. Ainda assim, sublinha, ninguém estava preparado para uma destruição desta escala.

Gonçalo Lopes, o presidente da Câmara Municipal de Leiria, destaca um cenário “dantesco” e de “pós-catástrofe”. Em declarações aos jornalistas, considerou que a cidade ficou “irreconhecível”, e comparável a um ambiente de guerra. “Longe de nós acordar de manhã e ver uma cidade destruída, equivalente a um mini tremor de terra. Estamos a falar de uma cidade em estado de sítio”, afirmou.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O levantamento do valor dos prejuízos ainda está em curso, mas o presidente admite que “é bastante elevado”. Mais do que os números, sublinhou o impacto na vida quotidiana: “É imprevisível calcular os danos que isto provoca na vida das pessoas. O impacto é semelhante ao que pode significar uma bomba dentro da nossa cidade”.

A situação energética é o principal bloqueio. As linhas de alta tensão foram “profundamente afetadas” e todas as subestações de Leiria ficaram inoperacionais. A reposição da energia será semelhante à do grande apagão, explicou. Ainda assim, o presidente admite que, nos próximos dias, grande parte da população continuará sem eletricidade e sem água. Por isso, deixou um apelo à população para que seja “racional e equilibrada” no consumo de bens essenciais.

Apagão em Leiria afeta água e telecomunicações. Abastecimento alimentar não estará em risco

Gonçalo Lopes pediu formalmente ao Governo que decrete o estado de calamidade, de forma a desbloquear apoios financeiros para as famílias e empresas, uma vez que “os prejuízos são enormes para o património das pessoas e para a economia local”. A recuperação, confessou, não será rápida e “a normalidade irá demorar muitos dias a regressar. E o plano de recuperação completo pode demorar mais de um ano”.

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

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