O alarme foi-se multiplicando na noite de terça-feira. Proteção Civil e autarquias tentavam demonstrar: a depressão Kristin estava a caminho como um “fenómeno complexo” com “potencial destrutivo muito significativo”. Vários autarcas pediram que se evitassem deslocações desnecessárias, mas nem todos o conseguiam cumprir. Foi o caso de um homem, com cerca de 45 anos, que se tornou na primeira de quatro vítimas mortais diretamente relacionadas com o temporal, segundo a contabilização (até ao momento) da Proteção Civil. Além destas quatro pessoas, ao longo do dia a câmara da Marinha Grande viria a anunciar a morte de mais uma pessoa e em Silves também se verificou a morte de uma mulher que pode estar relacionada com o mau tempo.
O homem com cerca de 45 anos tinha saído ainda de madrugada da Amadora, onde residia, para ir trabalhar. De origem asiática, fazia distribuição de pão numa carrinha Opel de cor vermelha, passando por vários locais, sobretudo Vila Franca de Xira — desde uma charcutaria no centro do município a um mercado nos arredores, apurou o Observador. Estava a circular na Estrada Nacional 1, na freguesia de Povos, quando um cedro caiu e destruiu o carro. “Temos o registo de um morto em Povos, em Vila Franca de Xira. O acidente ocorreu de madrugada”, disse à agência Lusa Paulo Santos, da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC).
O socorro no local foi rápido, mas o distribuidor de pão não resistiu e o óbito foi declarado no local. A fonte consultada pelo Observador adianta que, até ao momento, não foi possível encontrar familiares da vítima em Portugal, mas é possível adiantar que, além de estar a trabalhar, teria a sua situação regularizada em território nacional.
Quando confirmou esta morte em Vila Franca de Xira, Paulo Santos realçou: “A situação está a ser muito difícil no distrito de Leiria”. As horas seguintes confirmaram essa dificuldade. Das quatro mortes confirmadas pela Proteção Civil ao longo desta quarta-feira, três aconteceram no município de Leiria.
Mais tarde, e depois de alguns avanços e recuos por parte de Gonçalo Lopes, presidente da Câmara de Leiria, o número de mortes diretamente relacionados com o temporal fixou-se em três, como confirmou o Observador com a PSP e a GNR — as duas forças policiais, com áreas territoriais distintas, coexistem no município; esta quarta-feira a PSP chegou a acionar um reforço extraordinário de 30 agentes para ajudar a responder às várias ocorrências.
O Observador confirmou duas vítimas mortais em Carvide, Leiria. Uma cidadã moçambicana de 28 anos que estaria em Portugal há apenas 15 dias e um homem, dez anos mais velho, que também foi apanhado nessa freguesia pelo temporal. Ricardo Teodósio, que cresceu na região, deixa um filho.
Mais tarde, fontes policiais confirmaram a terceira e última vítima mortal no município. Outro homem, de 59 anos, que estava em Fonte de Oleiro. Os números reconhecidos pela Proteção Civil encerram-se nesta cifra, mas ao longo do dia o próprio Presidente da Câmara Municipal de Leiria assumiu que o valor era superior, para depois retificar: a morte nada teria a ver com o temporal. Também a autarquia da Marinha Grande anunciou um morto, através de uma publicação no Facebook, tendo mais tarde eliminado a referência a uma vítima mortal na mesma publicação.
Imagem divulgada pela autarquia de Vila Franca de Xira da carrinha do distribuidor de pão
Autarca de Leiria revelou mortes que depois retificou
Ainda se contavam os reais danos às ocorrências quando, às 13 horas e em conferência de imprensa, Gonçalo Lopes anunciou quatro mortos no Município de Leiria — o que elevaria para cinco o número de vítimas devido ao mau tempo em todo o País. Lançou, logo aí, um apelo ao Governo para que equacionasse de imediato o estado de calamidade para “podermos acudir a todos os prejuízos e recolher, na nossa região, os meios necessários para recuperar a vida normal do nosso concelho”, adiantou.
Das quatro mortes, duas teriam sido provocadas diretamente pela depressão (Ricardo e a cidadã moçambicana) e outras duas fruto de paragens cardiorrespiratórias. Duas horas depois, chegou a primeira retificação. Eram, afinal, “três vítimas mortais relacionadas com o fenómeno”, todas em Carvide, “relacionadas com desabamento de telhados e anexos” — o outro seria um colaborador de uma estação de painéis fotovoltaicos.
Nessa conferência de imprensa, admitiu “outras ocorrências não diretamente relacionadas”, cujas causas ainda teriam de ser apuradas para perceber a existência, ou não, de mais vítimas relacionadas com a passagem da tempestade Kristin — por isso, o número poderia aumentar. Apesar dos números adiantados pelo autarca, a Proteção Civil manteve, até ao final do dia: em Leiria, dois mortos em Carvide e um em Fonte de Oleiro; e em Vila Franca de Xira, um morto.
Mulher foi arrastada pela água em Silves. Câmara da Marinha Grande alterou contagem (duas vezes)
Não entrou para a contagem da Proteção Civil a morte de uma mulher holandesa de 85 anos em Silves, esta quarta-feira, quando o carro em que seguia foi arrastado por um curso de água que transbordou com a chuva. O alerta foi recebido pelas equipas de socorro pelas 11h50, a dar conta de uma mulher a precisar de socorro depois de ter tido um acidente. Começaram as buscas assim que chegaram ao local, mas o carro só foi localizado três horas e meia depois, com a vítima mortal no interior.
A mulher ainda terá contactado o marido “a dizer que tinha tido um acidente e que estava dentro do carro a ser arrastado no ribeiro” e este ligou para o 112, tendo sido enviados para o local meios dos corpos bombeiros e da GNR, com apoio de mergulhadores e uma embarcação, revelou fonte da Proteção Civil à agência Lusa.
A confusão do número de vítimas teve ainda outro episódio na Marinha Grande. Pelas 17h30, a autarquia enviou uma nota à Lusa a dar conta da morte de um homem de 34 anos na sequência do mau tempo. O comunicado (que pode ser consultado nas imagens das publicações de Facebook reproduzidas pelo Observador) foi posteriormente retificado, passando a fazer referência a “uma dezena de feridos ligeiros, cerca de meia centena de desalojados e uma situação de destruição por todo o território”.
Ao Observador, fonte da câmara adiou explicações sobre esta correção. “Faremos [uma nota informativa] quando tivermos a certeza das circunstâncias em que ocorreu”. Poucos minutos depois de ter transmitido esta mensagem, a autarquia voltou, novamente, atrás: “Confirma-se o falecimento de um homem, de 34 anos, em resultado da depressão”.
Ao fim desta quarta-feira e considerando as informações prestadas pela Proteção Civil (três mortes no município de Leiria e uma em Vila Franca de Xira), há ainda a indicação de uma morte na Marinha Grande (segundo a autarquia) e outra em Silves (de acordo com fonte da Proteção Civil à agência Lusa). Ao todo, seis pessoas perderam a vida.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Presidente da Câmara de Leiria pede entreajuda entre moradores e consumo “cuidado” de alimentos
Ao final do dia, o presidente da Câmara de Leiria pediu à população para manter a calma e evitar ao máximo as deslocações, numa fase em que decorrem os trabalhos de limpeza das muitas ruas afetadas. Apelou a um consumo “cuidado” de alimentos e pediu entreajuda entre os moradores. “Este fenómeno vai atingir a vida de Leiria nos próximos meses, não só na reposição do que é o estado normal da cidade, mas sobretudo a convivência nas zonas escolares, económicas”.
“Estamos a falar de um momento de crise, temos de ser fortes para ultrapassar esses problemas com muita tranquilidade”, disse. “Muitos estabelecimentos comerciais industrias foram totalmente destruídos”.
Em entrevista à RTP, o presidente da Autoridade Nacional de Emergência Proteção Civil garantiu que foram tomadas todas as medidas de prevenção necessárias face à aproximação da tempestade Kristin. “Não havia como a travar”.
Ao início da noite, Marcelo Rebelo de Sousa lamentou “as mortes”, sem precisar um número concreto de vítimas mortais. O Presidente da República esteve reunido com a direção da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil na companhia da ministra da Administração Interna. O Chefe de Estado inteirou-se “do ponto da situação provocada pela tempestade Kristin, das medidas em curso para recuperar as redes de fornecimento de água, energia e telecomunicações, bem como das consequências das quedas de árvores, estruturas e outras destruições de bens”.
É expectável que ao longo das próximas horas a Proteção Civil revele novos dados sobre as vítimas mortais, que só deverão ser definitivos quando estiverem concluídas todas as operações no terreno.
[Nota: ao contrário do que foi avançado pelo Observador neste artigo, citando fonte policial, a vítima de 28 anos é uma cidadã moçambicana e não são-tomense, como retificou ao Observador a mesma fonte, fonte dos bombeiros e fonte hospitalar — o texto foi atualizado com essa informação às 11h42]
[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]