Seis candidatos, seis entrevistas separadas de meia hora, um único debate sempre no canal do clube. Se ao longo das últimas semanas a agenda de todas as candidaturas foi apontando para muitas entrevistas e ainda mais quilómetros de estrada, os dois últimos dias foram um desafio a todos as máquinas para prepararem um debate que deveria ter três horas mas acabou nas quatro. O que sobrou? Posicionamentos definidos de quatro candidatos e o duelo aceso (e direto) entre Rui Costa e Noronha Lopes a apimentar a noite.

Noronha ataca postura de Rui Costa sobre Proença. Na resposta, atual presidente do Benfica diz ao adversário para pedir opinião sobre líder da Liga a Nuno Gomes

Qual deles ganhou mais, só no sábado se saberá. Sobraram várias certezas: João Diogo Manteigas ganhou porque nunca deixou de manter a postura presidencialista que queria colocar no debate e foi mostrando que conhece bem aquilo que é o universo benfiquista às vezes mais invisível mas que se sente nas Assembleias Gerais, nas modalidades, nos fóruns ou nas Casas; Martim Mayer ganhou porque teve o espaço para poder apresentar aquilo que foram as fórmulas encontradas para resolver os problemas do presente e projetar o futuro; Luís Filipe Vieira ganhou porque, apesar de deixar de quando em vez a imagem de estar “saturado” com o passar do tempo, puxou dos galões por toda a obra feita sem nunca ter ouvido uma referência sobre os casos de Justiça. Sobre Rui Costa e Noronha Lopes, aí depende sempre do eleitorado. Mas, de forma mais ou menos consciente, ambos conseguiram colocar-se como grandes concorrentes para uma segunda volta pela forma como acabaram por bipolarizar uma corrida que ainda pode trazer algumas surpresas.

O sinal ficou aberto, o moderador Luís Costa Branco explicou as regras do jogo de uma forma simples (oito temas com duas perguntas para o futebol, dois minutos de resposta, um de repique no final da ronda), houve uma primeira ronda mais tranquila do que tudo o que se seguiria com todos os candidatos a tentarem testar a sua capacidade de síntese – sem sucesso, à exceção de Martim Mayer, o único capaz de cumprir o tempo. As atenções estavam mais centradas na forma como Rui Costa ia olhando para Luís Filipe Vieira neste regresso do antigo presidente dos encarnados à tribuna da Luz (num contexto diferente, entenda-se) e, mais tarde, para João Noronha Lopes, que fez questão de recordar a frase de Sven-Goran Eriksson quando disse que “no Benfica não existe o segundo lugar” a olhar para o lado esquerdo onde estava Rui Costa. O primeiro round foi quase de estudo, o segundo acabaria por aquecer tudo o resto e com Noronha Lopes a abrir hostilidades visando sempre o atual presidente dos encarnados a falar diretamente para o adversário.

“Toda a gente aqui quer ganhar, toda a gente aqui quer ganhar mais”, foi tentando “normalizar” Rui Costa. “Olhando para um plantel que teve 130 milhões de investimento e que ainda apresenta lacunas… Todos nós podemos cometer erros na gestão do futebol mas é preciso é aprender com os erros trabalhando muito mais em antecipação. Parece que o candidato Rui Costa critica o presidente Rui Costa que constituiu o plantel, tal como o presidente Rui Costa criticou antes o antigo vice e diretor desportivo Rui Costa quando disse que tinha herdado um plantel mais velho e com atletas a mais. Pergunto: quantos Costas há na Direção?”, questionou. Estava iniciado aquele que seria o principal ponto de destaque de uma noite onde os principais alvos de todos os candidatos acabou por ser o “incumbente”… e aquele que quer protagonizar a mudança.

João Diogo Manteigas quis depois dar o “toque” a Noronha Lopes, Cristóvão Carvalho foi agarrar em todos os programas para dizer as páginas em que falavam sobre o futebol sem objetivos concretos, Rui Costa teve de falar na forma como reformulou o plantel com “pinças”. “Hoje só temos seis jogadores acima dos 25 anos, o que estava antes estrategicamente não posso dizer que estava errado”, referiu a olhar para Luís Filipe Vieira, quase a passar a mensagem que não passava por ele o principal enfoque. “Devo dizer que aprendi desde cedo com oito anos nesta casa que não há vitórias morais. Em relação à estrutura, acho muito estranho que se prometa uma ampla estrutura que não se percebe muito bem quem vai comunicar com quem porque é muita gente. Uma estrutura altamente profissional com cargos onde nenhuma das pessoas executou, no passado, qualquer cargo desses. Não estão em causa as pessoas, mas nenhuma delas teve o cargo que o senhor está a meter neste momento no Benfica”, apontou a Noronha Lopes. “Se não sabe o que faz um vice e um diretor desportivo, fico surpreendido. Posso garantir que o Nuno Gomes e o Pedro Ferreira estão preparadíssimos. O seu diretor desportivo, ou diretor geral porque a definição das funções na sua estrutura foi opaca, mas quem esteve a tratar do futebol era comentador televisivo, por isso…”, respondeu o empresário.

Martim Mayer continuava a apontar para as soluções que Andries Jonker pode trazer a médio e longo prazo ao futebol dando o toque à realização para apontar para ele quando fazia interpelações, João Diogo Manteigas mantinha a postura mais “presidencial” pedindo elevação a todos os outros candidatos mas não deixando de soltar algumas “farpas” a Rui Costa (a esse propósito, sobre a renovação de Otamendi na última época mas não de António Silva) e Noronha Lopes, Luís Filipe Vieira continuava a ser muito conciso no que dizia quase que a dizer que o futebol é muito mais simples do que tinha sido referido. “Mas tínhamos grandes jogadores…”, atirou o antigo presidente. “Mas eu não fiz nenhuma crítica”, voltou a reforçar o atual líder do clube. Cristóvão Carvalho continuava a fazer a projeção europeia do Benfica sem ser “atacado”.

Chegava a parte da formação, chegava ao ponto onde acabou por ser todos contra Rui Costa. As ideias de cada uma das listas foram apresentadas para essa parte tão querida do clube, João Neves acabou por servir de arma de arremesso pela forma como saiu da Luz tão cedo ainda que antes tivesse sido campeão. “Quando for presidente do Benfica, vai perceber que as coisas não funcionam dessa maneira, é completamente diferente. E esqueça, João Neves não conseguia, não podia ficar no Benfica. Foi campeão nacional e saiu”, respondeu primeiro a Cristóvão Carvalho. “Rui Costa diz que não era possível segurar João Neves. Todos os jogadores um dia quererão sair mas os benfiquistas não percebem que João Neves, que não queria sair, tenha saído. Quem disse foi João Neves. O processo não foi resolvido na altura certa. Não pode ser João Neves a pagar os erros de gestão desta Direção. O João não saiu por estratégia, mas sim por urgência. Os jogadores da formação estão tapados por 130 milhões de investimento”, apontou Noronha Lopes.

Novamente visado, Rui Costa respondeu a João Diogo Manteigas e Noronha Lopes na mesma respostas. “Dar aos pais garantias que os jogadores vão jogar? É pior os pais do que os agentes… Os pais estão a ver o futuro dos seus filhos. E quando fazem isso, não vão convencer os filhos a deixar de ganhar o que podem ganhar lá fora ganhando em Portugal”, apontou. “Não me lembro de o ter visto em nenhuma reunião connosco, caro Noronha Lopes. Não me lembro de o ter visto em qualquer reunião para me estar a desmentir daquilo que foram as reuniões com João Neves. Não queria sair do Benfica, mas evidentemente não queria perder valor em relação ao que foi ganhar para Paris, que é incomportável para o Benfica”, acrescentou. Já Vieira foi quase “paternal”: “Ó Rui, nós na vida, às vezes não nos antecipamos quando temos de nos antecipar… Eu também cometi erros, como tu sabes. Mas lembra-te o que se passou com o Rúben Dias. Ele foi confrontado nos EUA com uma determinada situação para ser vendido e renovámos logo com ele”.

A entrada na parte das modalidades acabou por aliviar um pouco mais o ambiente. João Diogo Manteigas teve o “momento” quando anunciou ter feito um acordo para o Benfica voltar às estradas no ciclismo numa ideia que poderia passar a qualquer candidato que ganhasse (mais tarde daria uma dessas camisolas ao seu companheiro de debate ao lado esquerdo, Cristóvão Carvalho, questionando se iria caber ou não antes de ser devolvida na parte final do debate num espírito de fair play entre ambos), Vieira assumiu uma frase mais ousada ao assumir que é impossível lutar contra o Sporting no andebol “por ser uma das melhores equipas do mundo”, houve um pequeno choque com Rui Costa sobre a possibilidade de criar uma SAD autónoma para o futebol feminino, Noronha Lopes acabou por não “investir” tanto nesta fase. Estava a chegar a parte das finanças, com mais “protagonistas” a ganharem outro peso na conversa como foi o caso de Mayer.

“Pergunto como é possível termos quatro diretores financeiros em quatro anos. Domingos Soares de Oliveira que saiu, Luís Mendes que se demitiu, Jaime Antunes que se demitiu e agora Nuno Catarino. Não é surpreendente que o passivo tenha aumentado 100 milhões. Não é uma surpresa que os resultados correntes apresentem um resultado negativo todos os anos de 15 milhões. Ganhámos mais títulos? Modernizámos o estádio? Melhoramos o Seixal? Rui Costa, zero. Tem de haver rigor financeiro”, disse Noronha Lopes. “Não tive cinco diretores financeiros, tive três, terminando com o Nuno Catarino, que está a fazer um excelente trabalho. Se falarmos das pessoas que saíram, talvez o recorde seja seu: 58 dias. É uma coisa que está em ata”, respondeu Rui Costa. “Se contabilizarmos a dívida total do Benfica, hoje é de 241,5 milhões. Baixou, não aumentou. É verdade que aumentou a dívida líquida, estabilizámos e vimos até onde podia aumentar dentro de três pilares muito simples. A primeira parte é do Covid, e não é uma crítica, é uma constatação. Tem a ver com a reestruturação do futebol e tem a ver com as obras no estádio”, completou.

Vieira voltou a responder sem “espingardar” muito mas defendendo o seu legado. “Tenho de dizer uma coisa ao Rui, que é para repor as coisas certas. O passivo não tem nada a ver com o Covid. O Covid foi em 2019/20 e 2020/21. Graças aos quadros que o Benfica tinha, além de pagarmos a todos, conseguimos amortizar o empréstimo obrigacionista, porque é nesse período que vendemos o João Félix. Por isso é que o Benfica nunca teve a necessidade de aumentar a dívida nesse período. Nunca, nunca, nunca”, assegurou. “Rui Costa, concordo consigo. A dívida não é um problema. Quando for presidente, também emitirei obrigações. Se for preciso mais, emitirei. Temos o clube descontrolado financeiramente”, atirou Martim Mayer. “Ouve, onde é que tu estavas? Sabes sequer quanto é que o Benfica chegou a ter de dívida? 380 milhões. Sabes quanto é que tinha quando saí? 100 milhões e tinha tudo pago”, resumiu Vieira. “Rui Costa disse que o problema do passivo tinha a ver com o Covid. Digo-lhe com toda a amizade, nesta matéria o que diz não faz sentido. Eu li o seu programa e vê-se um conjunto de lugares comuns que não dizem nada sobre o futuro. Duplicar as receitas do digital. Como?”, respondeu Noronha. “O seu também não diz”, apontou Mayer.

“Acho graça à preocupação do lado de Noronha Lopes, que tem José Theotónio como grande símbolo para resolver os problemas financeiros, mas ao mesmo tempo ainda não conseguiu explicar se vai ficar a tempo inteiro ou em part time… Numa altura disse que ficaria a part time, noutra situação já a tempo inteiro. Tanta preocupação com a parte financeira e estamos à espera para saber se o seu CFO estará a tempo inteiro”, ainda “picou” Rui Costa. A resposta de Noronha Lopes iria quebrar de vez a ligação entre ambos.

– Rui Costa disse numa entrevista que o próximo exercício está feito. Como é que alguém com responsabilidade pode dizer uma coisa destas? Não sabe o que serão o resultado das vendas dos jogadores. Chego à conclusão, com toda a estima que tenho por si…
– Não diga que tem estima por mim e está a atacar-me há três meses…
– Há uma coisa que não faço que são críticas pessoais. Faço críticas relativamente ao seu mandato como presidente. Já disse que assina muitas vezes sem ler e agora chego à conclusão que não lê os jornais. José Theotónio disse o que vai fazer no Benfica: compromisso total.
– Mas o próprio não disse isso….
– Devia era estar satisfeito por alguém com o calibre profissional de José Theotónio se dedique ao Benfica. Rui Costa disse que estive 58 dias no Benfica. É mentira. Se ler a entrevista de Manuel Vilarinho, hoje ele disse que fui um suplente até ao último dia. Leia, informe-se…

Os outros candidatos reforçavam as ideias que já tinham sido apresentadas em relação às infraestruturas, entre os projetos “estudados, planeados e orçamentados” para o aumento do Estádio da Luz, o novo Campus das Modalidades e a extensão do Seixal de Martim Mayer e a ambição de Luís Filipe Vieira poder fazer uma grande Cidade Desportiva em 200 hectares que colocasse tudo junto de preferência em Lisboa, Noronha Lopes e Rui Costa aproveitavam todas as oportunidades para entrarem em despique pessoal.

– Tenho dificuldade em entender como a Direção que prometeu a Cidade das Modalidades que não saiu do papel quer fazer acreditar aos benfiquistas que vai fazer um projeto como o Benfica District…
– Não sei o que tem uma coisa a ver com a outra. Aqui estamos nos nossos terrenos. Percebo a sua aflição de fazer crescer o Estádio da Luz. Foi uma das coisas que o fez sair do Benfica.
– Ninguém acredita que a Direção tenha a capacidade de concretizar. Não vou fazer hotéis nem centros comerciais. Tem de se concentrar no Estádio da Luz e no Seixal. Tenho dúvidas em relação à Cidade das Modalidades. Não prometo aquilo que não posso cumprir. Mas por que diz que sabe por que saí do Benfica
– Eu li as atas. Era a favor deste estádio?
– Era.
– Então as atas estão enganadas…
– Tem as atas? Já sabíamos que Rui Costa não lia aquilo que assinava. Eu tenho a ata.

Foi aí que, quando Noronha Lopes apresentou a ata 39 da construção do Estádio da Luz, Vieira entrou em cena. “Deixa-me dizer a verdade, que isto que está aqui é falso. Manda esta ata fora. Isto está tudo rasurado. Vocês chumbaram o Estádio. Está a brincar, este… Ouve lá, não mostres isso a ninguém. O Benfica chumbou a construção do Estádio. Eu assumo isto. A ata ficou rasurada, eu tenho uma cópia. Essa não foi para a aprovação do Estádio, foi chumbada”, assegurou o antigo líder dos encarnados. Poucos minutos depois, um novo choque entre Vieira e… Manteigas. “Respeitem os sócios lá em casa”, disse o advogado pela forma como o duelo Noronha e Rui Costa crescia. “Estás aí a dar lições de moral mas está calado, pah. Sei muito bem o que fizeste na Assembleia Geral”, respondeu de imediato o antigo líder dos encarnados.

Mais um tema, mais um ponto de choque. Desta vez, em torno das Casas. “Só fazer aqui uma nota sobre as Casas do Benfica porque tenho visto nas redes sociais e têm espalhado por aí que o Benfica fechou 120 Casas neste mandato. O Benfica fechou três casas, Paris, Mira e Luxemburgo. E no Luxemburgo está para abrir de novo, há um grupo de sócios interessados. Abrimos quatro que estavam fechadas, Arganil, Foz Coa, Montreal e Ourém e fizemos obras em 29 Casas, além do modelo 2.0 em Santarém”, balizou Rui Costa. “Muitas Casas têm comissões administrativas que vão ficando com as pessoas porque ninguém as substitui. Recebi um SMS do líder da Casa do Benfica de Algueirão-Mem Martins, que não consegue pagar a conta da eletricidade…”, disse depois Noronha Lopes. “Eu estive lá e sei, eu falei com o presidente”, respondeu o atual presidente. “Se falou não está resolvido, mandou-me mensagem hoje”, continuou o empresário. “Já tem um gerador para resolver o problema no imediato”, garantiu Rui Costa, que teria depois uma “farpa” de… Vieira.

Também o apoio de Pedro Proença iria dividir os dois adversários diretos. “O Benfica quer ter as melhores relações institucionais. Mas para ser respeitado o Benfica tem de se dar ao respeito. Rui Costa disse que coloca o Benfica acima de tudo. Estou completamente de acordo mas não foi o que aconteceu com Pedro Proença. Votou em Proença porque não podia ir contra a corrente. Se tiver de ir contra a corrente, vou”, referiu Noronha Lopes. “Há aqui uma questão: sou sempre visado, Noronha Lopes sempre que começa a resposta, começa com Rui Costa. Vou só dar-lhe um exemplo flagrante. Sabe quem foi um dos apoiantes de Pedro Proença à Federação? O seu vice-presidente, Nuno Gomes. Pergunte-lhe se está de acordo com isto”, frisou Rui Costa. “Querer transformar Nuno Gomes como principal apoiante de Proença quando o presidente do Benfica o apoiou… está tudo dito. Nuno Gomes está alinhado com a minha visão”, respondeu.

“Rui, tu não deves estar bem informado sobre isso. Vou dar-te outros dados. Ganhaste as eleições há quatro anos. Nenhuma Casa tem a tua fotografia, ainda é a minha. Olha como aquilo anda ao Deus Dará. Ainda hoje, todas as Casas têm a minha fotografia. Eu quando fui presidente logo passado um mês o João Salgado andou logo a colocar aquilo tudo. Digo-te mais. Amanhã [Sexta-feira] vou ter uma reunião com os delegados às 18 horas e vou saber ao pormenor todas as que fecharam porque é real que hoje as Casas do Benfica estão todas desmotivadas”, assegurara Vieira. Iriam seguir-se mais questões institucionais, neste caso com mensagens mais viradas para o que tem sido dito em programas e entrevistas, antes de haver um espaço para a última mensagem dos candidatos. Quatro horas depois, o debate chegava ao fim e, quando Martim Mayer tentava ainda dizer algo, Vieira foi perentório: “Eh pá isto acabou, agora está na hora”.