Os portugueses que a Marvel não deixou escapar

25 Abril 20151.443

Começaram por ser três, mas hoje são pelo menos meia dúzia. Desde 2007 que a Marvel, uma das maiores editoras de BD do mundo, vem a Portugal buscar alguns dos seus ilustradores.

“Não me lembro de não desenhar. É das memórias mais antigas que tenho”, admitiu João Lemos. Desde miúdo que “fazia coisas”, só não se lembra de quando começou a sequenciá-las, “a fazer quadradinhos”. Mas já na altura os desenhos que faziam eram como uma prancha de banda desenhada. Havia “uma narrativa, uma cronologia qualquer congelada ali, naquela imagem”.

Sempre quis contar histórias, porque as histórias também podiam ser desenhos. Histórias como as que via nos desenhos animados e na banda desenhada que colecionava em criança — as primeiras paixões que ainda hoje lhe servem de inspiração.

“No meio da escassez de certos recursos que marcaram a nossa geração, havia algumas coisas que eram muito boas e que, a maioria das vezes, não são celebradas”, confessou. O Vasco Granja era uma dessas coisas, mas os comics também. “Tínhamos um bocadinho de tudo”, admitiu, desde os comics de super-heróis que a editora Abril publicava, com um “delay descomunal”, às histórias do Tio Patinhas. “Acabavam por nos dar um leque de inspirações que se calhar era mais vasto do que muitos miúdos tinham, por exemplo, nos Estados Unidos da América, onde aqueles comics eram feitos mas não eram impressos”.

© Lara Soares Silva

Mas os bonecos da televisão e da banda desenhada não eram suficientes. Precisava de mais. De ver, de colecionar. “Sempre gostei de tralha antiga e obscura”, contou, daquela que se encontra escondida entre os livros poeirentos dos alfarrabistas lisboetas. “Fui colecionando, desde gravuras do século XIX a estampas japonesas que apareciam de vez em quando a um preço simpático. Fui devorando tudo isso”.

Quando chegou a altura de se matricular no ensino secundário, a decisão não poderia ter sido mais fácil. “Tive um secundário sortudo”, confessou, “porque foi na António Arroio”, em Lisboa. Da escola de artes, uma das poucas do país, falou com saudades. “Estive no curso geral de artes, o que é atípico para quem seguiu ilustração. A maioria ia para artes gráficas”. Mas não se arrepende, porque fez “um pouco de tudo”, desde operar uma câmara de vídeo a pintar azulejos. Nem a ourivesaria escapou. “Claro que eram pequenas amostras” mas, “da caixa de areia do recreio, era onde estavam mais brinquedos”.

"Por mais que gostasse que me pagassem para falar sobre livros, tinham mais vontade de os criar".
João Lemos

Depois de terminar o secundário, trabalhou como livreiro. “Fui livreiro durante uns anos, mas sempre com aquela coisa de que, por mais que gostasse que me pagassem para falar sobre livros, tinham mais vontade de os criar”. Nunca deixou de desenhar, mas a hipótese de o fazer profissionalmente só acabaria por chegar alguns anos depois.

Uma aventura chamada Marvel

A grande oportunidade de João chegaria em 2005, depois de uma viagem a França. Consigo estavam Nuno Plati, Ricardo Tércio e Ricardo Venâncio, ilustradores e amigos de longa data dos tempos da escola. A viagem, uma das muitas que fizeram ao Angoulême, o maior festival de banda desenhada do mundo, haveria de ser diferente. Seria o começo de tudo.

“Tudo isto começou com uma viagem que fizemos, numa das vezes que fomos ao Angoulême”, recordou. “Eu andava por lá a passear e encontrei o Joe Quesada”, um dos editores da Marvel. “Enchi-me de coragem e passei-lhe uma cópia do meu portfólio para a mão e pedi-lhe que, quando tivesse tempo, me enviasse uma ou duas linhas por email“. Não como editor, “mas uma opinião pessoal”.

© João M. P. Lemos

Pouco tempo depois, recebeu um email de C.B. Cebulski, um outro editor. “Mandou-me um email a perguntar-me se queria colaborar com a Marvel”. Para João e para os amigos “foi o início de tudo”. “Ao estabelecer uma relação com o Cebulski, que até se tornou de amizade, partilhei o trabalho das pessoas com quem partilhava estúdio na altura”.

Foi graças a isso que Ricardo Tércio acabou a trabalhar para a Marvel, muito antes de João. A colaboração aconteceu em 2007 para a série Marvel Fairy Tales, uma adaptação de contos tradicionais com as personagens tradicionais da Marvel, como o Homem-Aranha ou os X-Men. Tércio estreou-se com o primeiro número de Spider-Man Fairy Tales e João com número um de Avengers Fairy Tales, no início de 2008.

“Originalmente o meu ia sair primeiro, mas a Marvel e a Sony estavam a fazer os filmes do Homem-Aranha e tentaram colar a publicação da mini-série ao filme. Então, foi antecipada”, explicou. No mês seguinte, saiu o segundo número de Avengers, desenhado por Nuno Plati.

"Havia todo um mito urbano de que era impossível, de que eles só recrutavam de determinados países. Isso para mim nunca fez sentido".
João Lemos

De repente, “houve este momento surreal em que de repente passamos de não ter ninguém na Marvel para termos uma mini-série de três números desenhados por portugueses. Isso foi uma grande reviravolta”, lembrou. “Havia todo um mito urbano de que era impossível, de que eles só recrutavam de determinados países. Isso para mim nunca fez sentido”.

João acredita que o que atraiu C.B. Cebulski foi, acima de tudo, a originalidade. “Basta ver uma fotografia do nosso grupo para se perceber que somos todos pessoas muito, muito diferentes. Foi isso que, em parte, atraiu o Cebulski — o facto de um grupo de amigos em Portugal ter uma diversidade tão grande”, uma característica que a maior parte dos estúdios norte-americanos não tem. Para o ilustrador, nestes costuma existir “um ou dois elementos dominantes” e o “resto são desenhadores” que lhes seguem o estilo. E isso nunca lhes interessou. “Não é a busca pela originalidade em si, mas há uma atitude de tentar ser o mais genuínos possível em relação àquilo que nos apetece fazer“.

Desde então, já teve oportunidade de escrever e desenhar para a Marvel. Mas nunca as duas coisas. “Na Marvel ainda está por aparecer a oportunidade de poder escrever e desenhar ao mesmo tempo”, confessou. “Acabou por ser a concorrência a dar-me essa opção”.

A “concorrência” foi a Vertigo, o lado mais indie da DC Comics, para a qual criou uma história curta no ano passado. “Até as cores pude fazer”, uma oportunidade rara, porque “nos Estados Unidos essas funções são todas compartimentadas, até para garantir que os comics saem a tempo e horas”. “É um espírito muito diferente das coisas com que crescemos, como o Tintin e o Asterix onde, na maior parte das vezes, havia uma ou duas pessoas a fazer tudo”, explicou.

Um ano depois, Filipe Andrade juntou-se ao grupo. Outro amigo dos tempos de escola, Filipe conheceu C.B. Cebulski durante um dos seus ChesterQuest, um concurso de talentos internacional. Em 2009 deu-se a estreia, com Iron-Man Tintanium. Em 2010, seria a vez de André Lima Araújo.

© André Lima Araújo

André Lima Araújo, de Ponte de Lima, entrou para a Marvel pouco tempo depois de ter concluído o curso de arquitetura, na Universidade do Mundo. Na altura, “o país estava mergulhado numa profunda crise e o emprego para arquitetos simplesmente não existia”, admitiu ao Observador. Apesar disso, André não se resignou. Em vez disso, aproveitou a oportunidade para se dedicar àquilo de que realmente gostava — banda desenhada.

“Sempre quis trabalhar na área mais do que qualquer outra coisa a nível profissional”. Aproveitei então a oportunidade para começar a tentar publicar livros meus e a expor o meu trabalho de uma forma mais ativa”, online e em convenções. A grande oportunidade chegaria pouco tempo depois. “Logo que terminei o curso e comecei a tentar expor o meu trabalho, soube que estaria em Lisboa, no Amadora BD, um editor da Marvel”.

O “editor da Marvel” era nada mais nada menos do que C. B. Cebulski, o mesmo Cebulski que, anos antes, tinha contratado João Lemos. “Mostrei-lhe o meu trabalho ficamos em contacto desde aí. Ainda viria a trabalhar um ano como arquiteto, mas a porta para a BD estava agora aberta e eu estava decidido a entrar”.

"Ainda viria a trabalhar um ano como arquiteto, mas a porta para a BD estava agora aberta e eu estava decidido a entrar".
André Lima Araújo

A primeira colaboração viria a acontecer no ano seguinte, em 2010, com o número 22 da série FF. Seguiram-se participações em vários números dos X-Treme X-Men e nos Avengers A.I., de que foi co-autor e ilustrador. A seu cargo, tem ainda a série Spider-Verse.

“A experiência tem sido ótima”, confessou. “Tive sorte de começar a minha carreira na maior editora de BD dos Estados Unidos e isso tem ajudado muito no meu crescimento”. Para além disso, o ambiente profissional, repleto de “gente empenhada e apaixonada”, fazem da Marvel o sítio “ideal para se trabalhar a todos os níveis”. Mas, fazer parte de uma das maiores editoras de comics do mundo também traz outros benefícios.

“É um ótimo cartão-de-visita em qualquer circunstância, quer seja para promover as minhas histórias de autor junto de outras editoras, quer seja para continuar a fazer crescer a minha audiência”. Foi essa abertura que deu a André a possibilidade de publicar a sua primeira história original — Man Plus –, que deverá sair ainda este ano pela Titan Comics.

E então eram seis

Jorge Coelho chegou à Marvel em 2012. Foi o último português a entrar para a editora norte-americana. Aos 37 anos, lembra os tempos de escola com saudades — a primária passada a ler histórias aos quadradinhos, o secundário na António Arroio onde lhe ensinaram a pegar num lápis como deve ser.

"Foi quando descobri que as pessoas é que faziam os bonecos das bandas desenhadas. Foi nessa altura que soube que era aquilo que queria fazer”.
Jorge Coelho

A banda desenhada, diz, foi o primeiro amor. Foi com ela que aprendeu a ler e a desenhar. “Quando fui para a primeira classe, para além dos livros obrigatórios, o que lia era banda desenhada”, recordou. O Homem-Aranha, o Capitão América, o Batman e o Super-Homem. Leu-os a todos, e nunca se esqueceu.

Foi nesses primeiros anos de escola que descobriu o que queria ser quando fosse grande. “Foi quando descobri que as pessoas é que faziam os bonecos das bandas desenhadas. Foi nessa altura que soube que era aquilo que queria fazer”, contou ao Observador.

Jorge Coelho no seu estúdio, em Lisboa © Lara Soares Silva

No secundário, foi colega de João Lemos e Ricardo Venâncio na António Arroio, a “escola do coração”. “Foi lá que me sentei pela primeira vez num estirador como deve ser e me ensinaram o que era a proporção, por exemplo”. Sonha em um dia poder voltar a sentar-se num daqueles estiradores “como deve ser”. Não como aluno, mas com professor. “A António Arroio foi, e continua a ser, um sítio pelo qual tenho muito amor. Seria um sonho de vida um dia dar lá aulas, fechar o círculo”.

Na escola de artes, estudou artes gráficas e comunicação, “no fundo, a raiz da imagem gráfica, desde fontes, tipo de letra, a composições gráficas, equilíbrios, cores fotografias”. Tudo, “menos computadores”, disse entre risos. “Na altura só queria aprender a fazer as coisas à mão”. Os computadores vieram depois, “na vida real”.

A ilustração veio “por aproximação”, “sempre por aproximação”. “Havia a área de artes, então fui para artes. Dentro das artes não havia ilustração. Não havia cartoon, não havia coisas mais de acordo com o meu gosto pessoal. Então fui para design gráfico”.

Foi o design que lhe deu a possibilidade de, depois da escola, puder trabalhar em revistas. Trabalhou na Motor Press Lisboa, onde aprendeu “como se fazia uma revista”, numa agência de comunicação e fez trabalhos de animação. Depois, dedicou-se intensamente à ilustração para publicidade.

A banda desenhada só chegou depois, “já tarde”, admitiu, quando começou a ter algum tempo livre para se dedicar à ilustração, alguma estabilidade profissional e alguma procura. “Então começou a haver aquela fome de fazer algo criativo, de fazer algo meu”.

© Jorge Coelho

Isso aconteceu em 2004, altura em que começou a desenvolver algumas colaborações. “Foi um fio até 2012, quando finalmente consegui entrar para a Marvel e comecei a ser pago”, o que tornou tudo efetivo. “Ser pago torna a coisa profissional. É importante para continuares a trabalhar. Por mais satisfação criativa que tragas de outro projeto, se não vier com algum retorno não tens capacidade para manteres novos projetos”, afirmou. “Daí um primeiro trabalho profissional fazer toda a diferença”.

A entrada para a Marvel aconteceu depois de uma viagem a Lucca, em Itália, onde se realiza o segundo maior festival europeu de banda desenhada. Jorge foi a convite da editora Passenger Press, que na altura tinha publicado um dos seus trabalhos, e o “C.B. Cebulski estava lá”.

Jorge já o conhecia de outras convenções e, também, por causa dos amigos da António Arroio. “Andava a mostrar-lhe o trabalho regularmente. Aproveitei que ele estava lá e mostrei-lhe o trabalho que tina naquela altura, o trabalho fresco”. O feedback não podia ter sido mais positivo. “Ele achou que, de alguma maneira, eu estava preparado. Viu uma evolução”. E foi assim que tudo começou.

Desde então, desenhou os números 40, 41 e 42 da série Venom e, mais recentemente, um número de Loki. “Só fiz vilões”, disse divertido. “É um filão!”.

Mas o trabalho é duro. “Há quem chegue a trabalhar 12 ou 14 horas por dia”, admitiu. Alguns chegam mesmo a fazer um jantar de despedida com os amigos, antes de se deixarem absorver pelo trabalho. Outros fecham-se em casa durante meses, só vendo a luz do dia quando a ilustração está finalmente acabada. Jorge prefere o sossego do estúdio — o Lisbon Studio –, que partilha em Lisboa com outros artistas.

“Estou a começar tarde, por isso tenho de mostrar trabalho”, confessou. “É importante continuar a por coisas cá fora e a fazer com que o trabalho chegue às pessoas. Pode ser só um fenómeno, posso desaparecer”.

Mais recentemente, tem trabalhado sobretudo para a Boom. “A Boom sacou-me e agora só consigo trabalhar com a Marvel muito esporadicamente”. A editora de banda desenhada de Los Angeles tem-lhe dado mais trabalho e mais projetos. Mas nada teria sido possível sem a Marvel.

"É importante continuar a por coisas cá fora e a fazer com que o trabalho chegue às pessoas. Pode ser só um fenómeno, posso desaparecer”.
Jorge Coelho

“A Marvel traz muita visibilidade”, admitiu. Apesar de se dizer “que o trabalho é que conta”, Jorge garante que foi essa colaboração que lhe trouxe muitas das ilustrações que já fez. E não podia estar mais feliz com isso.

 

Texto: Rita Cipriano

Fotografia: Lara Soares Silva

Nota: A referência a Ricardo Tércio como o primeiro português a trabalhar para a Marvel foi retirada. 

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