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Os vencedores
Luís Montenegro
Luís Montenegro conseguiu uma maioria (relativa) maior, mas que não lhe garante quatro anos de mandato. Aliás, nem sequer lhe garante que o programa de Governo ou o Orçamento do Estado para 2026 passam no Parlamento. Ainda assim, teve mais votos, mais deputados, aumentou a distância para o segundo lugar e viu o seu histórico adversário (o PS) ficar em farrapos. Conseguiu forçar (com o resultado) o líder da oposição a demitir-se e assegurou que será nomeado primeiro-ministro pelo Presidente da República. É verdade que Montenegro não conseguiu uma maioria absoluta — só aí se poderia considerar a vitória brilhante — mas conseguiu reforçar a bancada da AD após estar três meses debaixo de fogo com o caso Spinumviva. Com sorte, Montenegro ainda pode alimentar a esperança de que o novo líder do PS – que terá de se reinventar para poder voltar ao poder – lhe assegure a estabilidade durante alguns anos. Ainda que de forma sofrida, como escreviam vários militantes da AD nas redes sociais, Montenegro sagrou-se bicampeão em legislativas.
André Ventura
O líder do Chega diz, desde que é deputado único, que trabalha para ser primeiro-ministro. Não chegou lá, mas aquilo que parecia, na altura, uma piada ou wishful thinking de um fanfarrão tornou-se num caso sério da política portuguesa. André Ventura conseguiu, agora sim, furar o que chama de “bipartidarismo”. Ainda não conseguiu, como sonha, acabar com a liderança alternada de governos entre PSD e PS, mas já morde os calcanhares a ambos. Não apenas porque pode mesmo ser a segunda força no Parlamento, mas porque PSD e PS, juntos, já não têm dois terços do Parlamento. Isso destrói a possibilidade de o centrão fazer pactos de regime, por exemplo, para uma revisão constitucional. Com 1,34 milhões de votos (e a menos de 600 mil do vencedor) ninguém pode garantir que Ventura não possa, no futuro, ficar em primeiro lugar (mesmo que nunca seja primeiro-ministro, que isso são contas de outro rosário). Ventura colocou o Chega ao nível de PS e PSD e, num partido praticamente unipessoal, o mérito é, naturalmente, todo dele. Nesta noite eleitoral, fez, como o próprio registou, a “azia” passar para outros partidos.
Rui Tavares
O Livre passou de quatro para seis deputados numa eleição em que o PS foi humilhado, o PCP foi muito humilhado e o BE foi profundamente humilhado. Por isso, é incontestavelmente um vencedor — à esquerda e não só. Mas, apesar disso, convinha que não se limitasse a contemplar o umbigo. Numa noite como esta, Rui Tavares proclamou: “Este é o início da reviravolta” — ficando a dúvida legítima sobre que “reviravolta” é esta num país que se se virou para algum lado foi para a direita. Além disso, apresentou-se como o líder incontestado de “listas progressistas” nas autárquicas e como “o centro da eleição” de um novo Presidente da República à esquerda, esquecendo que o PS está ferido mas não está morto. Rui Tavares devia ter cuidado com a húbris.
Filipe Sousa
Os irmãos Sousa, Filipe e Élvio, começaram por conquistar uma freguesia (Gaula), depois um município (Santa Cruz) e seguiram à conquista da Assembleia Legislativa Regional da Madeira até se afirmarem como segundo partido nas regionais de março deste ano, à frente do PS. Mas os irmãos, conhecidos como irredutíveis gauleses (pela cidade onde cresceram e pela resistência que iniciaram ao imperador Jardim), sempre quiseram ter uma face nacional. Agora – como se adivinhava pelo resultado das regionais – “Filipix”, como foi chamado numa referência ao Astérix, conseguiu a eleição após fazer as pazes com o irmão Élvio. Depois de atingir o limite de mandatos em Santa Cruz, Filipe Sousa prossegue com a carreira política na Assembleia da República. O JPP dá mais um passo na sua afirmação, mesmo que dificilmente deixe de ser visto como um partido regional.
Inês Sousa Real
Foi mesmo no limite, mas foi: ainda que perdendo mais de 37 mil votos, Inês Sousa Real conseguiu ser eleita. Falhou o objetivo de voltar a ter um grupo parlamentar, mas, na verdade, isso sempre foi uma miragem: manter-se no Parlamento já seria um pequeno milagre. O PAN reduziu a sua campanha a duas bandeiras: os direitos dos animais (o tema de sempre) e os direitos das mulheres (um tema novo). Foi suficiente por agora, mas o PAN tem de pensar melhor na vida para não correr o risco de, como se disse em tempos sobre outro partido, andar de vitória em vitória até à derrota final.
José Luís Carneiro
Com Pedro Nuno Santos KO, estendido no ringue, José Luís Carneiro parte à frente na corrida à sucessão. Nunca desfez verdadeiramente a máquina de campanha da anterior eleição interna e isso foi bem pensado — deve ter percebido logo que Pedro Nuno Santos, que o derrotou, não ia lá. Agora, pode reclamar o direito a tentar ele. A ala dos “jovens turcos”, de onde veio Pedro Nuno Santos, está exaurida — falharam todos. Por isso, será difícil encontrar uma alternativa que concorra contra José Luís Carneiro. Ela seguramente existirá, porque a esquerda do PS quererá mostrar que existe para lá da noite de hoje — mas terá pouca força se ainda restar alguns instinto de sobrevivência entre os socialistas. Depois, teremos de perceber se José Luís Carneiro tem um plano viável para ressuscitar o PS.
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Os vencidos
Mariana Mortágua
A própria Mariana Mortágua não podia ter classificado melhor o que aconteceu ao partido: “Uma grande derrota”. Na verdade, até podia: foi um autêntico desastre. O Bloco de Esquerda passou de 5 deputados para apenas um. Foi o partido menos votado da esquerda (com 2%), deixou de ser um grupo parlamentar, terá metade dos deputados do CDS, um terço dos deputados da CDU e um sexto dos do Livre. Será deputada única, com a mesma representação, imagine-se, que o PAN. E isto acontece a um partido que, há cinco anos e meio, tinha 19 deputados. A campanha escondida, em espaços fechados, porta-a-porta, já fazia prever o pior. O Bloco mobiliza pouco ou nada. Por exemplo: a forma absolutamente desastrosa como lidou com o despedimento de lactantes abriu feridas insanáveis junto de um eleitorado que via no Bloco um partido chave na defesa dos direitos das mulheres. Outra das forças do BE era ser um partido fresco, novo, irreverente. Num ato de desespero, o Bloco foi recuperar fundadores retirados do ativo, deixando os jovens utópicos, os ativistas urbanos e até a esquerda caviar a desejar procurar outro porto de abrigo. O Livre agradeceu a simpatia.
Paulo Raimundo
Alguém sabe explicar o que aconteceu a Paulo Raimundo na noite de domingo? Num momento cataclísmico para toda a esquerda, o líder do PCP decidiu começar o seu discurso com uma piada futebolística: “Peço desculpa pela voz rouca, garanto que não foi dos festejos de ontem à noite”. A seguir, “saudou” o seu parceiro de coligação, o partido ecologista Os Verdes, que, apesar dessa enfática saudação, voltou a não conseguir eleger um deputado. Logo depois, anunciou: “Tudo indica que manteremos o mesmo número de deputados na Assembleia da República”. Não manteve — perdeu um e teve menos 21 mil votos. Segundo Paulo Raimundo, a campanha da CDU “foi uma notável jornada em defesa de um novo rumo para o país” — só que o “novo rumo” é outro. Mais e pior: a aposta do partido na juventude “teve frutos no presente e vai ter frutos no futuro” — só se for no futuro. Na cabeça de Paulo Raimundo, qualquer contratempo que o PCP possa, eventualmente, ter tido é “inseparável de fatores objetivos e subjetivos” — o que quer que isso queira dizer.
Rui Rocha
A Iniciativa Liberal teve mais votos e mais um deputado do que no ano passado. Mas Rui Rocha sabe perfeitamente que isso não serve de nada. No final da noite, admitiu: “Queríamos ter crescido mais. Não foi possível. Fizemos tudo o que pudemos”. E insistiu: “O caminho às vezes faz-se mais devagar do que gostaríamos”. Incrivelmente, depois de admitir isto, afirmou, com o peito cheio: “Eu não teria feito nada diferente”. Não teria feito nada diferente? Perdeu dias e dias de campanha a planear a sua entrada no governo, esfumou-se em debates que não interessam aos eleitores e, mesmo assim, “não teria feito nada de diferente”? No mesmo discurso, Rui Rocha pôs a Iniciativa Liberal de fora de qualquer hipótese de governo (“Parece que estamos isentos dessa responsabilidade”). É verdade que a AD não precisa da IL para nada — porque sozinha já tem mais mandatos do que a esquerda; e juntos não chegam à maioria absoluta. Mas Rui Rocha nem quer tentar uma aliança que aumentasse o apoio social do governo, preferindo manter a pureza ideológica do partido. Mais uma vez, uns milhares de eleitores terão votado na Iniciativa Liberal a achar que estavam a votar numa solução de governo e acabaram a apoiar mais um partido de oposição. Um dia, esses eleitores cansam-se.
E o humilhado
Pedro Nuno Santos
Pedro Nuno Santos inventou o pedronunismo muito antes de ser líder e conseguiu matá-lo em menos de um ano e meio como secretário-geral. É possível e provável (após os resultados dos círculos da emigração) que o PS passe a ser a terceira bancada na Assembleia da República, o que nunca aconteceu na história da democracia.
Pedro Nuno Santos quis tanto afastar-se de António Costa que destruiu não só o legado, como também o capital de votos que o antecessor acumulou. Embora não seja o único culpado, a maioria absoluta de 2022 transformou-se agora num tremido segundo lugar e o PS vê-se despromovido a terceira força parlamentar. Pedro Nuno deixa o PS muito pior do que o encontrou e com muita dificuldade em reerguer-se. Em política morre-se (e ressuscita-se) muitas vezes, mas é pouco provável que Pedro Nuno Santos tenha uma nova oportunidade para ser primeiro-ministro, mesmo que tenha dito “até já”. Em 2024 teve uma derrota honrosa, mas não conseguiu perceber que ir a votos agora o atiraria para o abismo.
Sai pela porta pequena após sujeitar o PS a uma humilhação que não se via desde os tempos do PRD. Há três anos, António Costa dizia a Ventura na cara: “Comigo, não passará”. Nesta noite eleitoral, enquanto Pedro Nuno ainda falava, as televisões foram para o discurso de Ventura, onde os apoiantes do Chega cantavam: “Já passámos, já passámos”. Pedro Nuno acabou a noite, desesperado, a olhar para Carlos César a pedir para ir embora quanto antes: “Se pudesse deixar de ser secretário-geral, era já”. Muitos militantes do PS pensarão, hoje, ao olhar para os resultados eleitorais, que ontem já era tarde.