Os adjetivos são disparados em sentido único e constroem uma imagem que um dos companheiros de carreira resume numa única ideia: “Consensual.” Pedro Moura, superintendente da PSP, assume esta terça-feira a Direção Nacional da Polícia, sucedendo a Luís Carrilho no cargo. Chega num “momento difícil” e quando dezenas de agentes continuam a promover manifestações frente aos comandos regionais para não deixar cair a memória de que é preciso rever as condições dos elementos desta força de segurança.
Com uma “capacidade de trabalho” acima da média, coordenou a ação da PSP num dos trabalhos mais complexos, exigentes e sensíveis de que há memória nas últimas décadas em Portugal, a Jornada Mundial da Juventude que trouxe a Portugal largas centenas de milhares de jovens durante quase duas semanas. E, claro, o Papa Francisco. Nesses dias, quem se cruzou com Pedro Moura não se recorda de lhe ouvir uma palavra de desalento ou queixume. O café — que bebe em quantidades significativas — pode ter ajudado. “Homem de consensos”, que alguns podem ver como “obstinado”, o subintendente toma posse como diretor nacional num momento sensível para a PSP.
Em apenas três anos, esta força de segurança vai para o terceiro diretor nacional. Desta vez, a escolha foi o superintendente que, desde maio de 2024, assumia as funções de coordenador-geral da Unidade de Coordenação de Fronteiras e Estrangeiros. Foi aí, no rescaldo da extinção do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), que superou uma das suas maiores provas de fogo: entrou debaixo de um clima de desconfiança geral, mas acabou, em pouco tempo, por deixar “rendida” uma equipa que lhe “tinha torcido o nariz” e o “viu com olhos um bocadinho enviesados”.
O trajeto de Pedro Moura na PSP tem mais de três décadas e cruza várias áreas da instituição. Liderou o Departamento de Armas e Explosivos durante mais de seis anos, presidiu ao Grupo Europeu de Peritos em Armas de Fogo e assumiu o comando operacional da maior máquina de segurança já montada pela PSP: a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) — tudo a beber “cinco ou seis cafés até à hora do almoço” por nunca recusar uma conversa com algum camarada e sem esquecer o “saudosismo” dos tempos da esquadra de Abrantes, onde tudo começou.
Descrito por quem com ele trabalhou como um homem “dedicado”, “muito trabalhador” e “humano”, Pedro Moura construiu a reputação de ser um “fazedor de consensos”. É o tipo de oficial que “não foge aos problemas”, que grava reuniões para garantir que nenhuma resposta aos homens fica sem correção e que assume a direção nacional num “período difícil” para a PSP.
Desde os tempos de faculdade, Pedro Moura “tinha os ingredientes todos à partida”
Entrou em 1987 para a então Escola Superior de Polícia, agora Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna. “Recordo-me perfeitamente. Na Rua 1.º de Maio, n.º 13. Entrámos em 1987 e saímos em 92. Ficámos próximos no curso até porque éramos poucos, uns 25”, conta ao Observador um colega de curso do então futuro diretor nacional da PSP. Um dos colegas da faculdade de Pedro Moura diz ao Observador que não estranharia que o amigo vindo de Tomar chegasse longe: “Já nos anos do curso tinha essa ideia, pelas qualidades que o Moura sempre revelou, e que se manteve ao longo da vida.”
Apesar dos “momentos rebeldes próprios da idade, da juventude” — que os houve —, este oficial não se surpreende com o destino que esperava o então colega de curso que, por ser de fora de Lisboa, não saía do instituto às quartas-feiras como os que moravam mais perto. “Todos tínhamos essa ambição. Passava por todos um bocadinho o desejo de chegar um dia o mais longe possível na nossa carreira; não quer dizer que forçosamente todos consigamos chegar, só consegue chegar um [a diretor nacional]. Não ficaria surpreendido se fosse ele — como não fiquei.”
Pedro Moura ficou entre os melhores alunos do curso de 1987-1992. “Já como aluno, era daqueles em que dava para ver que, academicamente, era dos mais capacitados. Ficou em segundo lugar do curso, no final”, aponta outro colega naqueles anos. Conta que era um aluno “estudioso” e que “não deixava nenhum detalhe ao acaso”: “Em qualquer área que aborda, vai às vertentes todas, vai procurar informação em tudo, até às vezes em pequenos nichos dessa área.” Por isso, “tinha os ingredientes todos, à partida”, para chegar longe.
Além dos estudos, os dois antigos alunos confirmam que Pedro Moura era “daqueles colegas consensuais”, que se destacam pela “prestação académica”, sim, mas também “pelo seu companheirismo entre pares”. Na memória de um oficiais da Polícia ouvidos pelo Observador, os anos de formação foram também tempos “claustrofóbicos”. “Partilhávamos quartos. Não havia cá quartos individuais. Aliás, o mínimo era três por quarto”, recorda, sublinhando que a falta de espaço “tornava as coisas mais intensas”. Ainda assim, “acima de tudo, ficaram as risadas. Lembro-me de vários episódios onde a gente se ria, onde a gente brincava uns com os outros”, resume.
A Jornada Mundial da Juventude, a arte de “fazer consensos” e a “determinação” que pode ser confundida com “obstinação”
Das qualidades apontadas ao Observador por quem trabalhou com o superintendente, sobressai uma: ser “uma pessoa acessível, super terra a terra”. Para um dos operacionais da PSP que se cruzaram com Pedro Moura ao longo da carreira, a Jornada Mundial da Juventude “foi um exemplo claro disso, porque ele era a pessoa que estava, no fundo, a coordenar a ação toda da polícia, a nível nacional”.
“Foi um período intenso porque ele não fez só a jornada. Ele tinha todas as outras coisas paralelamente que não pararam de acontecer por causa da jornada”, explica ao Observador. Ainda assim, garante, “se alguma vez esteve cansado, não transparecia”. “A capacidade de trabalho que aquele homem tem é impressionante” — capacidade que “é o jeito dele, é a maneira de ele ser, não é uma coisa que seja esforçada”.
Também Bruno Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Oficiais de Polícia (SNOP), o classifica o novo diretor nacional da PSP como um “workaholic“, “sempre do lado da solução”.
Talvez para isso tenham ajudado — ou até sido necessários — os vários cafés que bebe ao longo do dia. “Gosta de beber muitos cafés. Como ele é muito social, as pessoas dizem-lhe para ir beber um café e ele não diz que não. E se calhar bebe cinco ou seis… até à hora do almoço”, diz ainda entre risos.
Um dos colegas da faculdade recorda este mesmo período: “A memória mais recente que tenho do Pedro Moura é a intervenção que ele teve na organização da Jornada Mundial da Juventude. Aí veio ao de cima um bocadinho daquilo que era a preocupação [do superintendente] com que a imagem da polícia saísse valorizada. Isto é, a própria imagem do país estava em causa. Mas sem deixar de ter em conta também o bem-estar dos profissionais, o proporcionar de condições possíveis, pelo menos.”
▲ A PSP montou a sua maior operação de sempre para a vinda do Papa na Jornada Mundial da Juventude
FILIPE AMORIM/OBSERVADOR
Os elogios não vêm apenas dos pares, mas também de um antigo alto dirigente da PSP, que sublinha a atuação de Moura na JMJ: “Ele teve um papel, não diria determinante, mas muito importante e, portanto, demonstrou também a capacidade de organizar, de coordenar, de interagir com várias entidades, com várias pessoas e, no fundo, gerir os conflitos que nessas circunstâncias vão acontecendo. Não tenho dúvidas absolutamente nenhumas de que as coisas correram genericamente bem e a sua forma de estar foi um valor acrescentado a todo esse processo.”
Durante toda a operação, que durou longos meses, veio ao de cima a apetência para “fazer consensos”, uma característica reconhecida por todos os polícias ouvidos pelo Observador. “É um homem trabalhador, é um homem muito responsável, é um homem que tem uma capacidade de falar com as pessoas, de criar consensos, uma pessoa muito próxima. E além disso tem naturalmente um espírito de missão e um foco ativo na Polícia e no superior interesse também dos polícias — não se esquecendo naturalmente também da sua condição de polícia.”
Um dos seus pares nota que a sua determinação pode, por vezes, ser confundida com “obstinação” — leitura que faz questão de ressalvar que não acompanha. No entanto, não tem dúvidas de que Pedro Moura é um “defensor acérrimo” das suas convicções. Mais, e “acima de tudo, é um homem que procura soluções para os problemas”. “Não foge aos problemas, aliás, gosta de os enfrentar.”
Do dossiê herdado do SEF aos que agora têm “pena” de o ver partir
E “uma boa prova disso são as atuais funções que [Pedro Moura] cessa”. “Ele herdou agora um dossiê recente, das fronteiras. É uma coisa nova para todos nós e o que ele conseguiu fazer para a sua equipa…”. A frase nem chega a ser terminada pelo antigo dirigente da PSP contactado pelo Observador.
“Aquilo era uma área que para ele era quase nova, ainda que ele tenha sido diretor do departamento de operações e que na altura tivesse também a questão aeroportuária, mas não tinha as fronteiras. O que eu sei é que ele é hoje muito bem visto e aceite pela equipa, quase toda ela herdada do SEF. E obviamente que o SEF ao início o viu com olhos um bocadinho enviesados, e agora estão totalmente rendidos“, afirma ao Observador outro oficial da PSP que acompanhou de perto o superintendente em vários momentos do seu longo trajeto profissional.
Aliás, o mesmo é referido por outro PSP: “O chefe é um homem que não percebia de fronteiras e de repente é reconhecido por todos, e todos têm pena de o ver ir embora. Já falei com vários deles e, sem perguntar, eles próprios chamam o tema. Portanto, é sinal de que é uma pessoa querida. Entre eles, quando ele iniciou, até tinha muita gente contra, por ter sido o nomeado, e agora vê-lo ir embora custa-lhes”.
Um dos colegas que passou por esta unidade confirma isso mesmo ao Observador: “É um excelente profissional, muito trabalhador”, além de ter “excelentes qualidades humanas e de liderança”. E acrescenta: “Vai chegar num momento particular para a PSP e acho que vai ser uma excelente opção para esta fase em que a polícia se encontra.”
A escolha certa de alguém com quem não se teme “caminhar em qualquer cenário”
Para um antigo alto dirigente da PSP, Pedro Moura era o seu “apoio” e “confidente”. “Para além de ser sempre um bom amigo. Um bom amigo, mesmo. Porque quis sempre que as coisas corressem bem na Polícia de Segurança Pública.”
Nas reuniões sem agenda em que os temas eram abertos à sala, o “risco” era evidente: “Era um bocado sem rede, mas ele [Pedro Moura] lá estava sempre ao meu lado. E depois começou a fazer uma coisa de que só me apercebi mais tarde: eu não tinha a noção de que ele gravava todas as minhas conversas para depois avaliar e perceber o que foi dito. E gravava numa lógica muito positiva, para depois tentar perceber se aqui ou ali eu teria dado a resposta adequada”, caso houvesse necessidade de corrigir alguma informação dada aos homens. “Porque há coisas que nos vão passando. E ele não deixava passar“, conta ao Observador.
Atos como este fizeram com que, “até ao último dia”, a confiança estivesse sempre presente. “Há pessoas com as quais não tememos a capacidade de caminhar, seja em que cenário for. E este Pedro Moura, para mim, é um desses homens.”
Já quanto a conflitos, a coisa ficava pelo campo. “A única coisa com que, às vezes, me chateava com ele era porque ele gosta muito quando o Benfica ganha e normalmente digo que gosto muito sempre que o Porto ganha e o Benfica perde”, brinca a mesma fonte. “Mas logo que começava o conflito, ato contínuo, estava sanado, nunca foi tema para nos incomodarmos. Afinal de contas, havia tantas coisas mais importantes para tratar e para resolver.”
A nomeação para a direção nacional acabou, por isso, por ser recebida com otimismo por este oficial da polícia: “Fiquei muito feliz pela escolha, porque é o homem certo numa organização que precisa tanto de pessoas com estas características. Estou convencido de que há condições para fazer coisas bonitas com a polícia, e acho que merecemos isso. E ele também merece.”
As declarações, sempre com o pedido para que o autor não seja identificado, são em sentido único. “É um tipo correto”, resume um dos oficiais ouvidos pelo Observador. “Quem é para mim o Pedro Moura? Essencialmente, é uma pessoa com valores, uma pessoa amiga dos seus amigos, determinado e trabalhador.”
[Annie conhece o ministro do Interior de Cuba há muito tempo, mas a paixão que os une é relativamente recente. É justamente nessa altura que Zé Manel, como ela lhe chama, vai ser implicado num dos maiores escândalos da liderança de Fidel Castro. O “Caso Ochoa” envolve droga, fuzilamento, prisão e o narcotraficante mais conhecido do mundo: Pablo Escobar. Já pode ouvir o quinto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]