Os New England Patriots e o Seattle Seahawks vão disputar, na noite deste domingo, uma finalíssima da liga de futebol americano que é uma reedição daquela que foi jogada em fevereiro de 2015 e cujo final eletrizante fez dessa Super Bowl uma das mais memoráveis dos últimos anos. Isso foi noutra era, porém: a dupla formada pelo quarterback Tom Brady, talvez o melhor de sempre, e o treinador Bill Belichick há muito deixou New England, e os Seattle Seahawks, depois de alguns anos na irrelevância, voltaram a ter sucesso depois de contratarem aquele que poderá ser o treinador mais talentoso da nova geração, Mike MacDonald, que tem apenas 38 anos.
Mais do que é comum, esta Super Bowl será um confronto entre dois treinadores com perfil bem diferente mas que conseguiram, sem grandes estrelas nos respetivos plantéis, chegar à finalíssima numa temporada em que as equipas que têm sido favoritas nos últimos anos – como os Chiefs, os Eagles, os Ravens ou os Bills – foram eliminadas cedo ou nem sequer chegaram aos playoffs. Nesta Super Bowl que parecia que ninguém queria ganhar, os Seahawks são favoritos à vitória, mas do outro lado está Mike Vrabel, o treinador que pode tornar-se o primeiro da história da NFL a ganhar um Super Bowl primeiro como jogador e depois como treinador na mesma equipa.
Vrabel, um durão que na década de 2000 foi um esteio defensivo (como linebacker) dos New England Patriots, passou os últimos anos como treinador principal dos Tennessee Titans. Embora sem conseguir ter sucesso de forma consistente, os Titans encorparam o estilo de jogo físico e agressivo pelo qual Vrabel ganhou fama como jogador. Faltou-lhe, no entanto, um management que o apoiasse a 100% e, também, faltou-lhe um quarterback capaz de atenuar a dependência extrema que os Titans tinham do seu running back de então, o “trator” Derrick Henry (agora ao serviço dos Baltimore Ravens).
▲ Mike Vrabel é um durão que jogou como "linebacker" nos Patriots na década de 2000 e, agora, tem oportunidade de vencer outra finalíssima com a mesma equipa.
Getty Images
Já os Patriots, “órfãos” de Tom Brady e de Bill Belichick (dupla que ganhou seis campeonatos), passaram os últimos anos a tentar uma reconstrução que não estava a correr nada bem. Tanto na época de 2023 como na de 2024 a equipa de New England terminou com apenas quatro vitórias e 13 derrotas – e o antigo treinador, Jerod Mayo, outro ex-jogador dos “Pats”, acabou despedido no final de 2024.
Os maus resultados dessas duas épocas deram aos Patriots, porém, uma vantagem: tiveram oportunidade de ser dos primeiros a escolher os novos jogadores saídos da faculdade. É assim que funciona o draft na NFL: quanto pior foi a pontuação na época anterior, melhor será a posição em que se escolhe os novos atletas, nas sucessivas rondas de seleção. Nem sempre isso é garantia de sucesso, pelo contrário, mas ajuda – e permitiu aos Patriots, por exemplo, escolher o atual quarterback, Drake Maye, com a terceira escolha no draft de 2024.
Depois de um primeiro ano muito difícil, com Jerod Mayo ainda como treinador, Drake Maye deu um “salto” importante neste segundo ano da carreira e dá por si, subitamente, a disputar a Super Bowl. Mike Vrabel trouxe um estilo de jogo mais simples, mais acessível para um quarterback ainda tão jovem, e com isso foi capaz de virar a equipa do avesso: os Patriots passaram diretamente de fechar a época de 2024 (e 2023) com o tal registo de quatro vitórias e 13 derrotas para, em 2025, conseguirem o inverso, 13 vitórias e apenas quatro derrotas.
▲ Drake Maye (à direita), tem no "wide receiver" Stefon Diggs (à esquerda) a sua principal arma no jogo de passe.
Getty Images
Quando entrou na NFL, vindo do college football, Maye teve de entrar numa equipa em reconstrução – o que não é raro porque, como já se referiu, tendem a ser as equipas em pior situação aquelas que têm a oportunidade de escolher os quarterbacks mais promissores. Com a experiência conseguida ao serviço dos Titans, em que Mike Vrabel chegou a ter um quarterback promissor mas que ficou sempre aquém do potencial que lhe atribuíram (Ryan Tannehill), o treinador adotou, agora, uma abordagem mais paciente com Drake Maye.
Neste segundo ano, o jovem quarterback mostrou alguns flashes de talento acima da média, com um braço forte, excelente capacidade de improviso e, acima de tudo, poucos erros quando nos momentos em que está a ser mais pressionado pela defesa adversária. Essa é uma característica muito importante que, regra geral, traça a diferença entre os quarterbacks medianos e aqueles que, após alguns anos de habituação à National Football League (NFL), “explodem” na terceira ou na quarta época da carreira.
Além disso, os bons drafts nos últimos anos permitiram selecionar atletas menos mediáticos mas que são decisivos para garantir o sucesso de uma equipa, como o left tackle Will Campbell, que ocupa aquela que é, provavelmente, a segunda posição mais importante em campo porque é o membro da linha ofensiva que protege o “lado cego” do quarterback. Drake Maye conta, também, com um dos melhores wide receivers da atualidade, Stefon Diggs, que só na época regular recebeu 85 passes e obteve mais de 1.000 jardas.
“Não exijo perfeição, mas exijo precisão“, afirmou Vrabel, numa frase que resume bem o seu estilo disciplinado mas, ao mesmo tempo, emotivo e agressivo – era assim como jogador e, agora, encontrou o local ideal para o ser como treinador. E, tal como nos ensinou a história do Feiticeiro de Oz, esse local ideal era, afinal, a sua própria “casa”, os New England Patriots.
Dois quarterbacks escolhidos na terceira posição do respetivo draft
Se Drake Maye foi escolhido cedo no draft por uma equipa que passava anos difíceis, mas que facilmente se adivinhava que poderia recuperar em pouco tempo, o quarterback que vai estar do outro lado nesta Super Bowl teve muito menos sorte. Sam Darnold foi, por coincidência, também escolhido com a terceira escolha do seu draft, em 2018, mas quem o recrutou foram os New York Jets, um dos franchises cronicamente mais disfuncionais da NFL.
Quando um jovem quarterback chega a uma equipa em dificuldades, escolhido logo no início do draft como um dos atletas mais promissores do ano, inevitavelmente vai gerar-se entre os fãs algum messianismo, uma crença de que aquele miúdo irá resolver todos os problemas da equipa. E foi isso que aconteceu com Sam Darnold: com 21 anos, foi imediatamente atirado aos leões no primeiro jogo, porque o veterano, que deveria ter aguentado o barco pelo menos algumas jornadas (Josh McCown), lesionou-se num jogo da pré-época.
Não correu bem, no início. Logo no primeiro passe que fez como profissional na NFL, Darnold errou e deixou a defesa intercetar a bola, devolvendo-a para um touchdown defensivo. Acabou, ainda assim, por ganhar esse primeiro jogo – mas não ganhou muitos mais: os Jets acabariam essa época com apenas quatro vitórias, sobretudo porque lhes faltava uma linha ofensiva capaz de fomentar o jogo de corrida e de proteger o quarterback, que invariavelmente passava boa parte do jogo em modo de sobrevivência.
A época seguinte, a de 2019, foi ainda mais azarada. Logo no início da temporada, Sam Darnold foi diagnosticado com mononucleose, uma doença infeciosa viral que normalmente causa fadiga extrema e dificuldades respiratórias, ao longo de semanas ou meses. O jovem quarterback só falhou três jogos por causa da doença e esse foi, na verdade, o problema: apressou a recuperação e, quando voltou, não era o mesmo.
Teve um jogo péssimo contra, precisamente, os New England Patriots, em que colocou a bola várias vezes na mão da defesa. E, pior, mostrou-se completamente incapaz de ler as jogadas feitas pelos colegas que, mesmo quando estavam desmarcados, Darnold tinha medo de lhes passar a bola. O quarterback “via fantasmas”, disseram alguns comentadores, numa analogia que acabaria por se colar a ele durante vários anos.
▲ Sam Darnold não teve um bom início de carreira, em Nova Iorque, mas encontrou o sucesso, finalmente, na costa oeste dos EUA, com os Seattle Seahawks
Getty Images
A rutura, ao cabo de apenas dois anos, foi inevitável. Em 2020/2021, Darnold foi recambiados pelos NY Jets para os Carolina Panthers, outra equipa instável onde o quarterback também não teve grande sucesso. A partir daí, passou para São Francisco onde serviu como suplente nos 49ers e, depois, foi recrutado pelo Minnesota Vikings, numa altura em que muitos acreditavam que nunca seria outra coisa, em toda a sua carreira, do que um suplente bonzinho – péssimo resultado para alguém que fora escolhido com a terceira escolha do seu draft, à frente de vedetas como Josh Allen e Lamar Jackson (que jogam na mesma posição e entraram na liga no mesmo ano que Darnold).
Mas em Minnesota a sorte de Darnold virou. Foi recrutado para ser o veterano que jogaria até estar pronto para ser titular J.J. McCarthy, o jovem que os Vikings tinham acabado de selecionar no draft. Mas McCarthy teve uma lesão grave no joelho logo na sua primeira pré-epoca e Darnold assumiu o comando da equipa com enorme sucesso. Tanto que, na offseason seguinte, assinou um contrato lucrativo de vários anos com os Seahawks — desta vez, não dececionou.
Como titular indiscutível, o quarterback teve uma temporada muito forte, com mais de 4.000 jardas e 25 touchdowns, incluindo um jogo magnífico nos playoffs contra os Los Angeles Rams, que era uma das equipas favoritas à conquista do troféu.
Mas o sucesso dos Seahawks não se deve apenas a este “Sam Darnold renascido”. Na verdade, um ano antes de o quarterback chegar a Seattle, já lá morava Mike MacDonald, um dos melhores – senão mesmo o melhor – treinador da nova geração na NFL.
MacDonald ganhou fama como treinador da defesa dos Baltimore Ravens, nos anos anteriores, onde teve enorme sucesso. Quando tinha apenas 36 anos, ficou claro que estava pronto para dar o passo seguinte: ser o head coach de uma equipa. Para os Ravens, esse momento chegou demasiado cedo: o “chefe” de MacDonald, John Harbaugh, experiente treinador que fez 18 épocas consecutivas em Baltimore, manteve-se no comando técnico da equipa após a época de 2023 e MacDonald aceitou o desafio de ir para Seattle.
Curiosamente, os Ravens continuariam mais dois anos com John Harbaugh, duas épocas dececionantes que culminaram com a sua dispensa, há poucas semanas. Mas agora era tarde para promover Mike MacDonald, porque este já tinha abandonado o edifício há quase dois anos e estava a ter, por contraste, um enorme sucesso em Seattle. Apesar de não ter conseguido ir aos playoffs na primeira época, conseguiu 10 vitórias, um registo muito positivo para um treinador que chega a uma nova equipa.
▲ Mike MacDonald tem um estilo sereno, tímido – é oposto de Vrabel, o outro "Mike" que vai estar do outro lado do campo, a liderar os Patriots.
Getty Images
Apesar de partilhar o primeiro nome com Mike Vrabel, que neste domingo vai estar do outro lado do campo como treinador dos Patriots, Mike MacDonald tem um estilo completamente diferente: discreto, tímido e meticuloso na sua análise das equipas adversárias. A melhor característica de MacDonald, no entanto, diz quem trabalha com ele, é que é o oposto de um micro-manager: dá autonomia aos coordenadores ofensivo e defensivo e, também, aos jogadores – o que os responsabiliza mas, também, os motiva.
E isso, até agora, fez com que Sam Darnold deixasse de ser conhecido como o “fracasso” que “via fantasmas”. E arrisca-se a ser ele a levantar a Super Bowl, no final desta noite.