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JOSE COELHO/LUSA

JOSE COELHO/LUSA

Paulo José Miranda: “Manoel de Oliveira tinha dificuldade em distinguir o cinema da realidade” /premium

Nova biografia diz que o realizador procurava controlar toda a gente durante as filmagens. Só o filho mais velho de Oliveira falou com o biógrafo.

Há dias, no café da Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, Paulo José Miranda sentou-se a conversar com o Observador sobre o seu novo livro, A Morte Não é Prioritária, uma biografia de Manoel de Oliveira (1908-2015) com quase 600 páginas e destacou o que aprendeu nos dois anos que lhe demorou a escrita: que o realizador contornou sempre as dificuldades para se concentrar apenas naquilo que queria fazer, e isso pode explicar a sua longevidade.

Uma das novidades do livro está no relato inédito da zanga entre Oliveira e Paulo Branco, produtor dos seus filmes entre 1981 e 2004. Foi por causa de um brinde a Oliveira que o então primeiro-ministro Durão Barroso propôs durante um jantar em 2002. Também presente, Catherine Deneuve acrescentou o nome de Paulo Branco ao brinde e Oliveira não gostou. Discutiu com a atriz francesa e com o produtor e lentamente afastaram-se – sem nunca terem falado em público sobre o sucedido. “Acredito que a nossa separação tenha contribuído para uma nova vitalidade do Manoel, ele deve ter sentido vontade de provar que não precisava de mim para nada”, diz agora Paulo Branco na biografia.

O realizador nasceu no Porto, viveu até aos 106 anos e fez quase toda a obra depois dos 60, deixando um conjunto histórico de filmes como “Aniki-Bobó” (1942), “Amor de Perdição” (1978), “Vale Abraão” (1993) ou “O Princípio da Incerteza” (2002), o que o coloca “nos antípodas do convencional, não só no tocante à vida, mas também no que respeita à obra”, diz o biógrafo.

Além da consulta de arquivos, do visionamento de filmes e da leitura de vários livros, Paulo José Miranda reconstitui o percurso pessoal e profissional de Oliveira através de entrevistas com várias pessoas que o conheceram – mas deixou de lado aspetos íntimos e apenas a um membro da família aceitou falar, o filho Manuel Casimiro.

A Morte Não é Prioritária é o segundo volume da coleção Grandes Figuras da Cultura Portuguesa Contemporânea, da editora Contraponto (grupo Bertrand/Círculo de Leitores). O primeiro foi O Poço e a Estrada, de Isabel Rio Novo, sobre Agustina Bessa-Luís, e em breve surgirão as biografias de Amália Rodrigues, José Cardoso Pires, Herberto Helder e Natália Correia.

Além de Oliveira, Paulo José Miranda abordou outros temas nesta entrevista. Em discurso torrencial e disperso, falou da própria vida literária, dos 15 anos fora de Portugal, de momentos de extrema dificuldade no Brasil e do regressou em 2015 para retomar um percurso profissional que ameaçava ruir.

Nascido há 54 anos em Paio Pires, Seixal, é autor da novela Natureza Morta, distinguida com o primeiro Prémio José Saramago, em 1999, e de livros que o meio poético valorizou, como A Voz que Nos Trai (1997) ou Exercícios de Humano (2015).

A capa de “A Morte Não é Prioritária”, a biografia de Manoel de Oliveira, assinada por Paulo José Miranda

O título A Morte Não é Prioritária parece apontar para a famosa longevidade de Manoel de Oliveira.
Sem dúvida. Quando aceitei o desafio do Rui Couceiro [editor], no início de 2017, fui ver um documentário sobre o Manoel de Oliveira, feito pelo jornalista Sérgio C. Andrade, e aí aparece a Júlia Buisel, colaboradora do Oliveira desde 1980 e amiga dele e da mulher, Maria Isabel de Almeida Carvalhais [1918-2019]. A Júlia Buisel diz que ele tem a relação com a morte muito bem resolvida e que a morte não é prioritária. Pensei logo: ainda não tenho nada, mas já tenho título. Durante os dois anos em que escrevi o livro fiz outros propostas de título ao editor, mas ele preferiu sempre aquele.

Uma das novidades do livro é o relato da zanga entre Oliveira e Paulo Branco. Preocupou-se em ir à procura de revelações?
Sobretudo, quis fixar uma história de vida, tendo sempre a obra como referência. Não me coibi de mostrar coisas novas que me foram aparecendo, mas não foi isso que me moveu. Nas conversas com o Paulo Branco, com a Júlia Buisel e com a Leonor Silveira apareceram, de facto, coisas novas. A Leonor Silveira falou-me de algo mais ou menos conhecido, mas pouco pormenorizado até hoje, que foi a relação dela com o Oliveira durante as filmagens de “Vale Abraão” [1993]. Todos somos levados a pensar que ela teria gostado muito do filme, por ser uma das obras icónicas do Oliveira e uma grande representação da própria atriz, mas não. No “plateau” as relações entre ambos foram muito complexas. Para o Oliveira, quando estava a filmar, tudo era cinema e as próprias pessoas eram vistas por ele não como atores mas como as personagens que estavam a interpretar. Ele, aliás, tratava-as pelo nome das personagens mesmo sem as câmaras ligadas. Isso não agradou à Leonor, não agradava a ninguém.

Isso diz-nos o quê sobre o Oliveira?
Uma obsessão contínua pelo cinema. Quando estava a filmar, ficava de tal modo mergulhado no cinema que tinha dificuldade em distinguir o cinema da realidade. Ele estava com uma atenção tremenda a tudo, respirava cinema, fazia as “découpages” [anotação de cenas e planos] com grande detalhe, levava tudo planificado, mas depois no “plateau” alterava as coisas. Isso só era possível precisamente por estar tudo bem planeado. As alterações não eram dispersões. Planeava, mas mudava os planos, porque estava totalmente aberto a que a criação acontecesse no momento de filmar. Era como um músico de jazz a improvisar em palco.

Conhecia bem a obra e o realizador antes de escrever a biografia?
Tinha uma admiração vaga, gostava da obra e da pessoa, mas não sabia muito, a não ser o que a maioria sabe.

Conheceu-o pessoalmente?
Na verdade, sim, porque trabalhei num filme dele, aos 24 anos. Fui figurante de “Non ou a Vã Glória de Mandar” [1990] durante 15 dias em Alcochete. Era outubro, mas estava um calor tremendo, até houve problemas de insolação. Estávamos a filmar a batalha de Alcácer-Quibir e primeiro que se alinhasse os exércitos todos, havia pessoas à espera durante horas. Era tremendo, havia atrasos, as pessoas não tinham comida. Ele tinha 80 anos e para mim, com 24, era velhíssimo.

"Como dizia a Agustina Bessa-Luís, ele sempre teve muito do seu. Soube gerir isso. O que descobri, e me surpreendeu, foi o talento enorme que tinha para a vida, para lá do aspeto material. Todas as contrariedades, ele contornava-as. Não batia, contornava. Não se lamentava, saltava por cima das contrariedades."

Como descreve o antes e o depois da escrita deste livro?
Pude ficar com uma grande admiração por ele. Note-se uma coisa: ele tinha um “savoir faire” enorme, soube muito bem balancear a parte material, o que nem sempre é fácil no caso de pessoas criativas, de grandes artistas.

Nunca foi o artista falido.
Nunca, nunca, era um empresário. Durante 14 anos foi agricultor, no fim dos anos 40. Como dizia a Agustina Bessa-Luís, ele sempre teve muito do seu. Soube gerir isso. O que descobri, e me surpreendeu, foi o talento enorme que tinha para a vida, para lá do aspeto material. Todas as contrariedades, ele contornava-as. Não batia, contornava. Não se lamentava, saltava por cima das contrariedades, arranjava novas soluções e depois colhia melhores frutos. É uma atitude muito difícil de ter na vida.

Essa atitude é da fase madura?
Já a tinha desde o início e acentuou-a a partir de certa altura, claro. Depois do primeiro filme, “Douro, Faina Fluvial” [1931], que foi pateado, mal recebido, ele conseguiu um financiamento para fazer um filme para a Casa do Vinho do Porto. Por vários motivos, acabam por não querer que ele faça o filme e decidem indemnizá-lo, mas ele recusa. Propõe, sim, filmar alguns minutos, para eles verem como seria, e se no fim continuassem a não querer ele não se importava de perder o dinheiro da indemnização. Em vez do dinheiro, dão-lhe um carro, um Fiat Balilla. E o que é que ele faz com o carro? Entra em corridas de automóveis e ganha a primeira corrida. A partir daí, entusiasma-se, compra outro carro, mete-se com a Ford, entra no Circuito da Gávea, no Rio de Janeiro, que se considera o circuito na génese da Fórmula 1. Ele foi um 007, pilotou carros de corrida e aviões, foi campeão de salto à vara, fazia trapézio voador. Isto até aos 20 e tal anos.

Ou seja, sempre teve o cinema como objetivo, mas viveu com uma grande abertura de espírito.
Exatamente. Claro, quando se é jovem tem-se tempo para tudo e mais alguma coisa e não há contrariedades que nos parem. Aliás, durante as corridas de automóveis continuou a filmar, fez um filme muito importante para o modo como o Estado Novo passou a olhar para ele. Para o Estado Novo, ele era uma pessoa um pouco problemática. Tinha dinheiro, era empresário, mas não era partidário do regime, não era alinhado.

Na introdução do livro escreve que Oliveira “nunca fez qualquer aproximação a Salazar, mais por questões estéticas do que políticas”. Ou seja, parece sugerir o contrário do que disse agora.
Não tinha qualquer proximidade a Salazar, mas não fazia nenhuma atividade política contra. Amigos dele, sim. Por exemplo, o Adolfo Casais Monteiro e o Rodrigo de Freitas foram presos e ele foi visitá-los muitas vezes à prisão e levava-lhes coisas.

Para o Estado Novo, ele era uma pessoa um pouco problemática. Tinha dinheiro, era empresário, mas não era partidário do regime, não era alinhado", diz Paulo José Miranda

AFP/Getty Images

Porque é que preferiu centrar-se na pessoa pública e deixar de lado aspetos da vida pessoal e íntima?
Porque isso não tem grande interesse. Primeiro, o Oliveira tinha duas atitudes diferentes: na vida familiar, em que era um conservador, e na vida como cineasta. Estou a biografá-lo devido a ter sido um grande cineasta e não ao que fez na vida particular, até porque ele nunca revelou esses aspetos íntimos. Aquilo que era importante para perceber melhor o homem e a sua obra, eu pus. Por exemplo, os problemas com a Leonor Silveira ou a Catherine Deneuve, porque não são episódios sensacionalistas, mostram a relação que ele tinha com o cinema, com os atores, o modo de ver, a diferença entre a pessoa e o cineasta.

Qual era a grande diferença?
A Isabel Ruth falou-me dessa diferença, de quando passaram uns dias numa ilha junto a Nápoles, num festival de cinema, já ele tinha 96 anos. Aí, ela conseguiu falar com o Oliveira de uma maneira que até então não tinha conseguido, conseguiu transmitir-lhes as suas visões do mundo. Não estavam a filmar e ele estava descontraído. A filmar, era um homem muito concentrado, tentava controlar tudo, sem dar espaço a um outro lado que tinha, de que a Isabel Ruth fala, que era a capacidade de escuta e de aprendizagem. O José Roque de Pinho, um grande amigo do filho mais velho do Oliveira, o artista plástico Manuel Casimiro, também referiu isso. Em vários almoços e jantares na casa do Oliveira, com a Agustina e o José Régio, a pessoa que menos falava era o Oliveira. Estava sempre a escutar. A grande aprendizagem dele era a escuta.

Os dois anos de pesquisa e de escrita foram tempo bastante?
Conseguiu fazer em dois anos e estou satisfeito. Evidente, se tivesse mais tempo… Desde o início, percebi uma coisa. Teria de fazer com a vida do Manoel de Oliveira aquilo que os realizadores de cinema fazem com os romances: fazer um guião. Os realizadores fazem um guião de um livro e depois as pessoas dizem que o livro é melhor. Aqui, claro, a vida é melhor do que a biografia, mas eu tinha de fazer um bom guião, deixando de lado alguns aspetos. Não é possível pôr uma vida dentro de um livro de 600 páginas, precisaria de 60 mil. Deixei de fora algumas pessoas que em alguns momentos foram importantes para ele, porque isso me dispersaria do guião eficaz que procurei. Era fundamental que a obra dele estivesse toda, e está.

Porque é que os familiares não quiseram falar consigo, à exceção do filho mais velho?
Logo no início, o editor ligou para a Adelaide [Trêpa], uma das filhas e uma espécie de secretária do pai no fim da vida, e ela disse que não tinham nada contra a biografia, que até iriam ler quando saísse, mas preferiam não participar, porque essa era a vontade do pai, que tinha sempre dito que não era contra biografias, mas não participaria nelas. Entretanto, o Manuel Casimiro soube que eu estava a preparar a biografia e eu soube, através do Roque de Pinho, que ele ficou muito irritado e achou que deveríamos tê-lo contacto desde o início. Acabei por ir ao Porto falar com ele.

Como poeta e ficcionista, que dificuldades encontrou no registo biográfico?
A maior dificuldade foi entrevistar as pessoas que o conheceram, que é algo próprio do jornalismo. Não tenho essa habilidade, não estou habituado. As pessoas podem ser evasivas ou dizer coisas que não viveram ou pensaram. Não tenho esse treino da parte humana, do contacto para entrevistas.

"Somos um meio pequeno e há sempre o constrangimento de falar dos outros, de expor os outros. É mais fácil, neste particular, fazer uma biografia de alguém do século XVIII do que de alguém que acabou de morrer. É muito fácil alguém usar o biógrafo para se vingar, destilando meias-verdades ou coisas pouco importantes que acabam por conduzir o biógrafo por caminhos que não vale a pena."

Porque é que o género biográfico é raro em Portugal?
Diz-se que há casos de biografias muito impressionistas.

Com factos inventados?
Sim. Isso por um lado. Por outro, somos um meio pequeno e há sempre o constrangimento de falar dos outros, de expor os outros. É mais fácil, neste particular, fazer uma biografia de alguém do século XVIII do que de alguém que acabou de morrer. É muito fácil alguém usar o biógrafo para se vingar, destilando meias-verdades ou coisas pouco importantes que acabam por conduzir o biógrafo por caminhos que não vale a pena. Claro, o biógrafo pode citar, fica a afirmação atribuída a alguém, mas no fim podemos ter uma biografia pouco relevante. Fala-se de alguns casos de biografias de portugueses sobre portugueses em que essas vinganças terão aparecido, mas não sei se é verdade. Outras das razões para a escassez de biografias, facto referido pelo [crítico] Pedro Mexia, é que a academia tem pouco respeito pelas biografias.

Porque não seguem os mesmos métodos da investigação académica?
Acham que as biografias não são relevantes no estudo de um autor. Sem dúvida, o que importa num autor é a obra, mas, por vezes, a obra pode ser iluminada por determinados factos da vida.

Falemos então de factos da vida, mas da sua vida. O Paulo escreve no jornal “Hoje Macau” e na nota biográfica que acompanha os seus textos lê-se: “De escritor-promessa a ‘persona non grata’ no meio literário”. Porquê?
Não sei, foram eles que escreveram isso, não me revejo. É uma interpretação que fazem. Não me vejo como “persona non grata”.

Nunca sentiu hostilidade do chamado meio literário?
Nunca, não sinto animosidade. Eu já estava fora quando recebi o Prémio Saramago, em 1999. O primeiro livro é de 1997 e em 1998 publiquei quatro livros.

Quando se fala de si, o desaparecimento de cena durante muitos anos é o facto mais destacado. O que é que se passou?
Quando saio para a Turquia, em 1999, é por causa de uma mulher, que conheço em Espanha. Tinha ido representar Portugal, a convite da Gulbenkian, nuns encontros de cultura mediterrânica em Toledo, durante 15 dias. Foi aí que conheci uma cineasta e socióloga turca e fui com ela para Istambul, esta é a história resumida. Na altura tinha também uma bolsa de criação literária do Governo e tanto podia estar aqui em Portugal ou na Turquia a escrever. Foi lá que soube que tinha recebido o Prémio José Saramago. Vim receber o prémio e regressei a Istambul.

Paulo José Miranda: "A vida é melhor do que a biografia, mas eu tinha de fazer um bom guião. Não é possível pôr uma vida dentro de um livro de 600 páginas, precisaria de 60 mil"

Pedro Granadeiro / Global Imagens

Depois esteve em Macau?
Foram três meses, mas a base era Istambul.

E o Brasil?
Isso foram 10 anos, de 2005 a 2015. Apaixonei-me por outra mulher e fui para o Rio de Janeiro. Depois estive em São Paulo, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

O que é que o Brasil lhe ensinou?
Senti um desamparo na vida como nunca tinha sentido em lugar nenhum. O Brasil é duro, muito duro, a vida é difícil. Apesar de tudo, a Turquia é aqui ao lado de Portugal. O Brasil, não. A corrupção é tremenda, pedem-te dinheiro para tudo. Se não tens documentos, estás completamente perdido. Fiquei lá tanto tempo que os documentos caducaram. Primeiro, fiquei sem visto. Na Turquia, saía de três em três meses, o que me fazia visitar muitos países ali à volta, e ia renovando o visto. No Brasil, não. Da primeira vez, fui a Buenos Aires e depois voltei. A seguir, não houve mais. Teria de sair, ficar um ano fora e só então me davam novo visto. Eu estava apaixonado, não ia ficar um ano fora. Fiquei a tentar resolver, perdi o visto, deixei de poder viajar. Cheguei a ponto de até para entrar num autocarro precisar de passaporte. Como era estrangeiro, dizia que tinha deixado o passaporte no hotel, mas tinha de ter alguém que se responsabilizasse por mim. O passaporte expira, bilhete de identidade já não tinha, fico sem nada. Tudo no Brasil é muito complicado.

Se não tinha documentos, não podia trabalhar.
Sim, claro. Não foram 10 anos assim, mas houve uma fase difícil e uma outra completamente alucinada, os três anos de Florianópolis, em que tive oportunidade formar uma escola de música, porque sei música, e ensinar crianças de 12 a 15 anos. Entretanto, tinha-me casado, depois divorciei-me.

Quer dar exemplos dessa fase alucinada?
Prefiro reservar, mas foi uma coisa de excessos. Estive 15 anos fora, mas entre os anos de Istambul e a ida para o Brasil passei um ano em Portugal.

Continuou a escrever e a publicar, mas muita gente sentiu que tinha desaparecido.
É natural. Se as pessoas não estão, são completamente esquecidas. Cheguei a publicar cá durante a fase do Brasil, mas não estava presente para promover os livros, é claro que passaram despercebidos. Tinha um contrato da Quetzal que foi para as nuvens, porque eu não estava cá.

Arrepende-se?
Não, mas tenho a certeza de que estive anos a mais no Brasil. Aprendi bastante e conheci pessoas únicas e extraordinárias, tanto boas como más. A certa altura, percebi que teria de regressar a Portugal para dar continuidade à vida como escritor. Agora estou a tentar recuperar, a ideia é essa. Não foi tempo perdido, mas quero tentar, acima de tudo, voltar a uma atividade que tenha a ver com a leitura e com a escrita, de que me afastei por algum tempo.

"[A lusofonia] É uma ilusão. No Brasil não nos leem. Aliás, não se leem a eles próprios. O Brasil são vários Brasis. Há escritores tremendos no Rio Grande do Sul, que conheci e que ninguém sabe quem são em São Paulo ou no Rio. Os nossos filmes são legendados no Brasil, caso contrário, ninguém entende nada."

Uma vez que esteve em Macau e no Brasil, que ideia tem hoje de lusofonia?
É uma ilusão. No Brasil não nos leem. Aliás, não se leem a eles próprios. O Brasil são vários Brasis. Há escritores tremendos no Rio Grande do Sul, que conheci e que ninguém sabe quem são em São Paulo ou no Rio. Os nossos filmes são legendados no Brasil, caso contrário, ninguém entende nada. Em primeiro lugar, a lusofonia é a capacidade de todos os que falam português se entenderem uns aos outros. Não quer dizer que daqui por umas décadas não haja lusofonia, mas por enquanto é uma ilusão.

Não há laços simbólicos e culturais a unir os falantes de português, para lá da língua?
No Brasil, de modo geral, acha-se que os portugueses foram apenas colonizadores e exploradores. Não gostam dos portugueses, senti isso na pele. Não estou a falar de racismo, de xenofobia, as pessoas são polidas, mas não há, em geral, esse laço que se imagina entre portugueses e brasileiros. Claro, o Brasil é tão grande que facilmente temos 25 milhões que gostam muito de Portugal, mas a larga maioria não gosta. Por exemplo, há um movimento enorme no Brasil para que a língua se chame língua brasileira e não portuguesa.

Provavelmente, os brasileiros que vivem em Portugal sentem o mesmo.
Houve períodos diferentes. Lembro-me ainda de quando os brasileiros chegaram a Portugal como heróis. Depois, houve tantos emigrantes que começou a haver grande hostilidade. Hoje penso que as coisas estão melhor.

Quando é que volta a publicar?
Tenho um romance que comecei antes desta biografia, mas não sei sequer se o quero publicar. Entretanto, retomei a escrita de poesia e talvez saia no próximo ano.

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