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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Pedro Azevedo, programador do Musicbox: "Ter de levar com uma banda porque está nos tops? Não é isso que estou a promover" /premium

É ele que decide o que se ouve no Musicbox, clube do Cais do Sodré. Mas ele também é La Flama Blanca. Em entrevista, fala de Lisboa, da música portuguesa e do festival MIL que acontece por estes dias.

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O projeto de final de curso já indiciava o que aí vinha. Quando acabou a faculdade — estudou produção e marketing de eventos — Pedro Azevedo, programador e DJ português, fez a sua primeira produção de um espetáculo a sério: convenceu Kalaf (ex-Buraka Som Sistema), Sam The Kid e outros artistas a homenagearem o disco FMI, de José Mário Branco. Convencê-los não foi o mais difícil, o mais difícil foi convencer o próprio José Mário Branco, que tinha proibido anos antes a audição pública do álbum. Acabou por acontecer. No final de uma conversa com o Observador numa esplanada do largo de São Paulo, no Cais do Sodré, Pedro confessa mesmo que nunca se sentiu tão diminuído com outro músico ou figura pública que tenha conhecido — e faz o sinal de vénia para ilustrar a admiração.

Com 34 anos, acabado de ser pai e de comprar casa — “essas coisas que as pessoas quando chegam à minha idade fazem, deveriam fazer aos 24 mas só aos 34 é possível, é quando é possível” –, sentou-se com o Observador para uma conversa franca sobre o que é isso de escolher que concertos ouvimos. Programador do Musicbox, clube situado na rua cor-de-rosa do Cais do Sodré, em Lisboa — aberto todos os dias, de domingo a domingo, de janeiro a dezembro –, também com um projeto de DJing chamado La Flama Blanca, Pedro Azevedo é um dos grandes promotores culturais da cidade.

Ao Observador, falou de quase tudo: da infância no Funchal à vontade de ser cantor (o pai disse-lhe que não sabia cantar “e é verdade”), da vontade de ser manager (“o meu pai disse que era uma profissão para drogados, acabei por comprovar um bocadinho”) ao gosto pela “música azeiteira”, de ter visto um concerto de Tony Carreira quando tinha 13 ou 14 anos ao “piano bar” onde descobriu o Michael Bolton, do medo inicial de andar sozinho de metro por Lisboa, vindo do Funchal, à paixão por uma cidade que continua “a vender como o melhor sítio do mundo”.

O estado atual da música portuguesa e do seu potencial de afirmação no mundo não poderiam faltar entre os tópicos de conversa, até pelo arranque do festival de música MIL já esta quarta-feira, 27 de março. O festival dedica-se a apresentar artistas e bandas portuguesas a programadores (de concertos e festivais), agentes e editoras da restante lusofonia e da Europa. O objetivo é criar pontes entre Brasil, Portugal e restante Europa, num setor em que Portugal tem talento mas uma indústria ainda pouco consolidada, sobretudo na área da música independente (em que se move).

MIL: um festival que toma conta do Cais do Sodré

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Tem uma espécie de pré-arranque já esta quarta-feira, com uma noite de atuações e DJ sets no B.Leza (desde logo, da portuguesa Lula Pena e da brasileira Letrux). Depois prossegue, com duas noites (quinta-feira e sexta-feira, dias 28 e 29) de concertos em clubes, bares e salas de concerto do Cais do Sodré, nomeadamente Viking, Estúdios Time Out, Titanic Sur Mer, Sabotage, Musicbox, Tokyo, Lisboa Rio, Roterdão e Lounge.

Paralelamente aos concertos — de mais de 70 artistas e bandas — haverá uma secção destinada a profissionais com mais de 30 debates, conferências e workshops, promovidos por profissionais da indústria musical. Um dos mais sonantes é o jornalista, crítico e investigador britânico Simon Reynolds.

Este ano estão inscritos no festival mais de 400 profissionais deste setor de negócio cultural, portugueses e internacionais. São agentes, representantes de editoras e programadores de salas de concerto e festivais de vários pontos do mundo, que vêm a Lisboa à procura de conhecer talento e dar a conhecer o talento que promovem. Pode consultar toda a programação do MIL aqui.

A missão de fazer a música portuguesa impor-se cada vez mais em bloco no estrangeiro não era uma sonho, mas é uma missão que assumiu com entusiasmo. O mesmo entusiasmo que o leva a ouvir “música completamente fora da caixa da Indonésia, música eletrónica de Taiwan, rock psicadéico peruano, absolutamente de tudo”. A vida já foi de mais rock and roll, admite até que já tem “dores nas costas” e que a fase de DJ “bêbado” fá-lo hoje “gastar muito dinheiro com um osteopata incrível”, mas se o encontrarem no Cais do Sodré por certo não recusará uma cerveja. De preferência acompanhada de uma conversa sobre música.

O turismo e as notas de 50 euros que começam a aparecer “cada vez mais cedo no bar”

Falávamos antes da entrevista das mudanças que Lisboa tem tido nos últimos anos. Está numa posição que lhe permite assistir diariamente a essas mudanças, trabalhando diariamente numa zona como o Cais do Sodré. Que mudanças tem notado mais e que impacto é que as mudanças têm tido no Musicbox?
É uma pergunta difícil. Há muitas mudanças e sentimo-las todas, mais do que não seja chegar à época de fluxo turístico e começar a ver notas de 50 euros a aparecer no bar. Vê-las começar a aparecer significa que os estrangeiros estão a chegar. Isto é ridículo mas é mesmo assim e acho que todas as pessoas que têm espaços e discotecas em Lisboa podem comprová-lo. Acho que as notas de 50 euros começam a aparecer cada vez mais cedo.

As mudanças afetam o Musicbox na medida em que temos mais pessoas todos os dias da semana. O Musicbox está aberto de domingo a domingo há sete anos, dos 13 de existência, precisamente por causa dessas mudanças. Financeiramente é bom, obviamente. Para a programação, a faturação extra é um grande reforço para podermos programar aquilo que sentimos que a cidade e os seus habitantes precisam. Não programo para turistas, tirando as noites Erasmus que temos e que na verdade até são as nossas noites mais antigas. Agora, o turismo dá-nos um impulso financeiro para poder programar para Lisboa, indiscutivelmente.

Que altura do ano é essa em que já aparecem notas de 50 euros no bar?
Na verdade, neste momento essas notas já aparecem o ano inteiro. As coisas mudaram muito. O turismo em Lisboa e em particular no Cais do Sodré — que continua a ser uma zona super popular, como se vê pela quantidade de selfies que se tiram diariamente na rua cor-de-rosa com a ponte como fundo — já não é sazonal, não é exclusivo aos meses de verão. Obviamente, ganhamos todos com isso.

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Há alguma aposta num mercado musical — por exemplo o brasileiro, a que o Musicbox tem dado atenção — que tenha particular adesão de turistas?
Sim, mas há vários tipos de turismo. Há o turismo que não consome especialmente música, consome aquilo que a rádio mais popular lhe dá, e que entra no Musicbox como se estivesse a entrar no Povo, no Copenhaga ou o que for. Depois há o turista que é informado, que procura perceber a programação dos clubes da cidade a que vai. À partida, a maior parte das pessoas que vêm ao Musicbox sabem ao que vêm, sabem o que vêm ouvir. Pelo menos quero acreditar nisso. Agora se isso [turismo musical] ajuda a música que programamos, seja nacional ou internacional, a sair da fronteira de Lisboa e a expor-se a um público muito mais diverso? Sim, indiscutivelmente.

É difícil concorrer, se a palavra se adequa, com clubes e salas públicas, com financiamento do Estado?
A relação com o risco é vivida de forma mais asfixiante do que acontece com salas que são financiadas com dinheiro público. É óbvio. Porém, foco-me muito no que faço e no que acho que é o mais correto para a cidade. Espero que toda a gente o faça. Claro que às vezes é muito difícil partilhar artistas com salas públicas, as lotações não são assim tão diferentes mas posso ter de fazer um preço de bilhete a 12 euros e outra sala pode conseguir fazê-lo a 5. É difícil competir nesses casos mas também acontece pouco. Penso que não me está a perguntar se o dinheiro público é bem gasto ou não, aí acredito que sim, por aquilo que vejo de colegas programadores que estão a fazer um bom trabalho de Lisboa a Braga.

Desde o momento em que começou a programar o Musicbox, a ideia que tinha sobre o que é isto de fazer a programação musical de um clube mudou muito?
Muda sempre. É difícil dizer o que mudou mais, mas muda todos os anos. Quando comecei a programar não sabia sequer bem o que era programação, tirando que era fechar bandas de que gostava muito. Hoje em dia, passados 13 anos, tenho obviamente uma noção de programação muito mais real…

"Quando se programa um espaço que contrata cerca de mil artistas por ano, não posso fazer do Musicbox um clube de maradices, um clube de rock and roll ou um clube de techno, tem de ser um clube de tudo."

Da logística toda envolvida?
Sim. Estou constantemente a mudar porque as coisas também estão constantemente a mudar. Quando se programa um espaço que contrata cerca de mil artistas por ano, não posso fazer do Musicbox um clube de maradices, um clube de rock and roll ou um clube de techno, tem de ser um clube de tudo. Acabei por me especializar um bocadinho em tudo, o que é o mesmo que dizer que não me especializo em nada [sorri].

Continuo a funcionar muito à base do meu feeling. Por exemplo, vamos ter um espetáculo muito especial na próxima edição do [festival] Jameson Urban Routes que comecei a tentar alinhavar antes sequer da edição do ano passado começar. Não vou dizer qual é, mas é a reinterpretação de um disco antigo, que vi há dois que vai ser reeditado. É um disco de 1976, que nunca tinha tido reedição.

É um disco português?
Não, não, internacional. Há um pedaço de sorte sempre associado a isto, é preciso sentir como é que as coisas se estão a mover nacional e internacionalmente. De repente tropeças casualmente num disco e dizes: isto se calhar era interessante, com a roupagem musical deste artista e a abordagem de outro artista poderia dar uma projeto super interessante e pertinente em 2019. Três meses depois de passar de ideia a certeza, é anunciado que o disco vai ser reeditado. É um disco de nicho, mas grande dentro do nicho.

Acho que estes 13 anos de programação deram-me capacidade de leitura. Não faço futurologia, erro muitas vezes. É aliás muito mais o meu trabalho falhado do que o meu trabalho acertado. Não faço breakeven [não tendo lucro, conseguir não ter prejuízo] todas as noites com os concertos, como é óbvio, mas acho que tenho capacidade de interpretar sinais e de perceber o que vai resultar. Embora programando um espaço que tem lotação de 300 pessoas seja muito fácil convencermo-nos que o que achávamos que ia resultar, resultou. O meu espetro é pequeno, é de 300 pessoas, não estou a programar um festival para milhares de pessoas. À minha escala, acho que já consigo perceber o que vai resultar no futuro.

"A minha canção favorita de sempre continua a ser a 'Georgia On My Mind' pelo Michael Bolton e o Kenny G. As minhas referências são muito azeite porque gosto mesmo muito de música azeiteira."

O gosto musical muda por se ser programador?
Claro. Hoje em dia ouço J. Balvin e consigo dizer que o Primavera Sound — especialmente o de Barcelona — fez um grande trabalho na programação deste ano. Foi um grande trabalho por terem conseguido não ceder assim tanto no que acho que são os seus objetivos programáticos, não ignorando coisas que são tendência e têm qualidade. Sim, estou a dizer que o J. Balvin tem qualidade, aquilo é efetivamente muito bem produzido, o tipo tem um grande flow, tem ótimos convidados, o [último] disco é muito bom. Pode não se gostar de reggaeton ou desta nova vertente do reggaeton, mas há que reconhecer que será um grande show.

Curiosamente, um dos primeiros concertos que vi na minha vida foi do Tony Carreira. Deveria ter uns 13 ou 14 anos, na altura não sabia sequer quem era o Tony Carreira, e adorei. A sério. Lembro-me perfeitamente que na última malha do concerto ele cantou qualquer coisa do estilo “penso em ti, agora pensas em mim”. Aquilo estava tudo tão bem montado e tão bem feito que achei: porra, que fixe. Não foi o Tony Carreira que me fez querer ter a profissão que tenho [risos], até porque não é a área em que me movo, mas há que reconhecer quando uma coisa é bem feita. A minha canção favorita de sempre continua a ser a “Georgia On My Mind” pelo Michael Bolton e o Kenny G, acho que é o melhor azeite que alguma vez se fez. As minhas referências são muito azeite porque gosto mesmo muito de música azeiteira, lava-me os ouvidos de outras coisas que considero não azeiteiras e que amo de morte.

“Temos quase 400 profissionais de todo o mundo registados no MIL”

O momento em que o MIL aparece foi adequado?
O momento em que o MIL aparece é uma ótima forma de justificar a sua existência. O MIL acontece porque o Fernando Ladeira-Marques, um português que é diretor-geral do [festival-convenção parisiense] MaMA há dez anos, apareceu-nos no escritório em fevereiro ou março a dizer que gostava de fazer uma noite francesa no Musicbox, com o apoio da entidade que gere os direitos de autor em França, a SACEM. A ideia era ser uma mostra de bandas francesas e portuguesas, trazendo alguns agentes, programadores de festivais e publishers franceses, para estabelecer uma relação França-Portugal.

Naquela altura estava muito fresco o início da nossa participação na rede Liveurope. É uma rede de clubes que promove a circulação de bandas emergentes europeias, com dinheiro público europeu. Andávamos a fazer o circuito dos showcase festivals [festivais concebidos para apresentar  artistas a profissionais da indústria musical] e achávamos que aquilo era circunscrever um pouco as coisas. Se por um lado era interessante por estabelecer uma relação direta com portugueses [em França], por outro lado sentíamos que havia mais território para explorar, até por estarmos em Lisboa, uma cidade que ainda não tinha nenhum showcase festival. Há o Westway LAB, em Guimarães, mas tem um formato completamente diferente: o MIL tem concertos de 70 artistas e o Westway tem, sei lá, dez ou 15 atuações.

O Westway Lab é um encontro mais para conversas entre profissionais da indústria, é isso?
Também temos muitas conversas e palestras desse tipo, acabamos por ter um programa muito extenso nessa área. Mas apostamos muito também em atuações. Decidimos na altura avançar para um formato mais alargado, contactámos um parceiro no Brasil — o festival SIM São Paulo — para começar a estabelecer uma ligação no mundo lusófono. Faz muito sentido que se olhe também para o Brasil, para Cabo Verde, para Angola e para Moçambique como territórios para importação e exportação musical, até porque somos muitos a cantar em português. O Brasil tem um peso muito grande em relação a todos os países africanos, obviamente, porque tem uma indústria musical já desenvolvida, ao contrário de Angola que não tem uma indústria desenvolvida para este tipo de música alternativa, moderna, urbana.

"Só trabalho com export offices que me deixam escolher a música que acho que deve ser apresentada. Eles depois apoiam ou não, muitos não apoiam e está tudo bem, não há mal nenhum, eu é que não vou comer daquilo que eles me querem dar. Ter de levar com uma banda só porque está nos tops nacionais? Não é isso que estou a promover."

Com a rede europeia de contactos que temos e com o prestígio de que gozamos nos meios em que nos movemos, dizermos que estamos a fazer um showcase festival que pretende criar uma ponte entre Europa e América do Sul com foco especial em Lisboa e São Paulo é algo que cria bastante interesse. As coisas foram-se construindo e estamos num ponto muito interessante do MIL. Não há politiquices, tenho uma relação fantástica com os export offices [gabinetes de exportação musical de um país] porque geralmente eles dizem quais são as prioridades que têm para exportar no ano seguinte e eu faço o contrário, só trabalho com export offices que me deixam escolher a música que acho que deve ser apresentada. Eles depois apoiam ou não, muitos não apoiam e está tudo bem, não há mal nenhum, eu é que não vou comer daquilo que eles me querem dar.

Seria quase fazer outsourcing de programação, não?
Não é que não confie no gosto deles, é porque muitas vezes esses gabinetes de países olham para o que são as prioridades do seu mercado interno e não pensam no potencial que cada projeto tem para diferentes territórios. O meu potencial de exportação está muito focado na América do Sul, tenho consultores lá e sinto-me mais confortável em perguntar aos meus parceiros brasileiros se acham que como uma banda como PAUS tem potencial para resultar no Brasil. Eles depois respondem-me que sim ou que não, mas sinto-me mais confortável com isso do que com ter um export office a dizer-me: vais ter de levar com esta banda que já se viu 30 mil vezes porque está nos nossos tops nacionais. Não é isso que estou a promover.

Passados três anos, o MIL cresceu. Está numa fase de consolidação. Este ano vamos ter o maior número de profissionais registados de todas as edições, aliás já temos, já batemos o recorde, temos quase 400 profissionais de todo o mundo registados [inscritos no festival]. São profissionais que vêm desde São Paulo e Taiwan à Europa.

"Fizemos uma ação no festival SIM São Paulo. Foi a primeira vez que vi brasileiros realmente e genuinamente interessados em consumir música portuguesa, a ver Lavoisier, Filho da Mãe, Conan Osiris, Surma e a Selma Uamusse."

Isso é um sinal de sucesso?
Dá-me gozo perceber que é possível construir pontes. Não precisamos de construir uma ligação ao nível do Rock in Rio. A minha definição de sucesso não é alguém abrir um palco secundário ou sunset do Rock in Rio, é o resultado de uma ação como a que fizemos em dezembro passado no festival SIM São Paulo, em que promovemos showcases numa festa que foi de longe a que teve mais pessoas. Foi a primeira vez que vi brasileiros realmente e genuinamente interessados em consumir música portuguesa, a ver Lavoisier, Filho da Mãe, Conan Osiris, Surma e a Selma Uamusse. Foi a delegação musical portuguesa mais heterogénea das comitivas que foram ao Brasil e isso deixa-me super feliz, porque conseguiram-se efetivamente abrir portas e estas bandas e as pessoas conseguiram retirar proveitos da sua ida ao Brasil. A Selma vai lá voltar, o Filho da Mãe gravou umas colaboração, a Surma fez uma colaboração, há uma série de coisas que se desenvolveram.

Às vezes ainda me é difícil acordar e perceber que estou a fazer uma coisa como o MIL. Não vou mentir e dizer que sempre foi um sonho, não foi. Mas a partir de um momento em que comecei a ter contacto com a realidade e  a necessidade de exportação da música nacional — e a partir do momento em que comecei a ter ferramentas para ajudar a que isso acontecesse — aderi. Tem sido incrível perceber que realmente conseguimos ter resultados. Desde a primeira edição, temos uma lista com cerca de 130 resultados diretos. São aqueles que conseguimos monitorizar, há muita coisa que nos escapará ao alcance, mas temos 130 resultados benéficos diretos no MIL, entre concertos internacionais e acordos de publishing ou agenciamento internacional que decorreram do MIL. Isso dá um tesão do caraças.

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Há países que têm gabinetes de exportação musical estatais. Portugal tem a Why Portugal, que não é uma plataforma nascida na esfera do Estado. Têm tido apoios do Estado para o MIL, tem havido  esse reconhecimento?
Tem havido reconhecimento por parte da Audiogest e da Fundação GDA. A Fundação GDA tem sido super importante, ajudou por exemplo as bandas que convidámos a ir ao Brasil a poderem ir, financiando a ida. Temos tido bastante apoio da Câmara Municipal de Lisboa e também temos tido apoio internacional, desde logo da SACEM. Em geral temos recebido apoios de muitas entidades públicas nacionais e internacionais para que o MIL possa acontecer, porque reconhecem que há efetivamente mercado para a música portuguesa em qualquer parte do mundo. Nem gosto muito da definição de música portuguesa — é música.

Um exemplo de que há mercado para a música portuguesa no mundo: percebi numa reunião da Liveurope que o programador do Melkweg, que é um espaço incrível de música em Amesterdão, adorava Capitão Fausto. Ouvia e gostava daquilo sem perceber que o Tomás [Wallenstein] estava a dizer que amanhã estaria melhor porque ontem esteve na merda. É um exemplo de que a língua não é assim tão relevante, não o é mesmo.

Este ano o MIL passa a ter concertos nos Estúdios Time Out, que têm uma sala com lotação maior do que o Musicbox ou outros espaços utilizados anteriormente para concertos pelo MIL. É um crescimento idealizado desde início ou resultou de terem percebido que fazia sentido perante as edições anteriores?
O festival é um work in progress e espero bem que assim continue, porque se deixar de ser perde-se a piada de fazer as coisas. Acho que todas as atividades da CTL [Cultural Trend Lisbon] são um work in progress, em particular o Musicbox. Isso era algo que não estava pensado desde início, mas sabemos que é importante ter uma sala como os Estúdios Time Out, por ter as características que tem, com a capacidade de público que permite. O Cais do Sodré continua a ser a zona em Lisboa que mais espaços culturais e musicais tem por metro quadrado com programação de autor, era um bocado estúpido não termos uma sala com capacidade para mil pessoas. Termos essa sala aumenta desde logo a capacidade de venda de bilhetes do festival.

O MIL não quer ser um festival para milhares de pessoas, mas queremos ter 1500 pessoas a circular de forma fluída por todas as salas a conseguir ver concertos. Perguntámos à Time Out se estavam disponíveis e interessados em colaborar e foi o início de uma relação feliz. O Lisboa Rio é outro espaço novo para o festival e acho que pode ser uma surpresa este ano. É um espaço que está fechado, que funciona por aluguer, mas tem um potencial brutal. Fica do outro lado da estrada, perto do rio, o que descentraliza um festival que está muito centralizado na rua cor-de-rosa. Antes o B.Leza era o único espaço de concertos do outro lado da estrada, este ano temos o Titanic Sur Mer e o Lisboa Rio. Para nós é fantástico. Não temos concertos este ano no B.Leza e no Rive Rouge porque esses espaços já tinham programação fechada para esses dias. Obviamente está tudo ok, não mandamos em ninguém.

Olhando para um cartaz, há um nome que me causou especial curiosidade: a Blu Samu. Quem é?
Ninguém a conhece. Foi uma coisa que o export office belga me sugeriu. Disseram-me: tens de ouvir esta miúda, é portuguesa, vai ser uma das nossas apostas para o ano. Ouvi e fiquei completamente apaixonado pela miúda. Chama-se Salomé, é portuguesa, nasceu e viveu em Lisboa e nunca tocou cá. Foi para fora ainda nova, viveu na Antuérpia e vive agora em Bélgica. É um dos meus principais destaques, uma das coisas que mais quero ver no MIL, porque nunca tocou cá e é incrível. Se tivesse de dizer um artista que no próximo ano vai estar gigante na Europa, punha muitas fichas nela.

Que outros projetos destacaria entre aqueles que poderão ser descobertos no MIL?
Pessoalmente gostava de ver tudo [risos]. Quando programo o MIL penso no potencial de exportação para toda a rede Liveurope. Os programadores têm todos abordagens diferentes à programação. Para cada banda do MIL penso sempre numa coisa: que espaço europeu compraria um concerto daquela banda? É por causa disso que a programação é extremamente eclética.

É muito difícil particularizar, mas há algumas coisas que não quero mesmo perder. É o caso do João Pais Filipe, da Blu Samu e dos MDCIII, uma banda belga que descobri há muito pouco tempo e adoro. Gosto muito do Jaloo, acho que é um dos melhores produtos pop que está a aparecer no Brasil, estou convencido que vai ser gigante no próximo ano. O Edgar, também brasileiro, vale muito a pena, já está com uma atenção enorme no Brasil mas cá ainda não o descobrimos. Há outros, ainda: o Marc Meliá, que é um artista catalão que vive em Bruxelas e que conheço há muitos anos, o Scúru Fitchádu, que poderá ter no MIL uma porta de entrada para um circuito de clubes e festivais [europeus].

E a Bobbie Johnson?
Tem um potencial incrível, apesar de ter um problema: nasceu na terra do género de música que faz. Aquilo é UK bass, grime e spoken word, há milhares de pessoas a fazer aquele estilo de música no Reino Unido, embora não sejam iguais a ela porque acho que é mesmo muito particular. Tenho muita fé nela, acho apenas que o dia-a-dia da Bobbie Johnson é passado num mercado muito difícil para se afirmar. Ainda assim, é uma das artistas super apetecíveis para a rede Live Europe, indiscutivelmente. Pelo menos nesse circuito ela conseguirá entrar. Destacaria também os HYSJ, uns noruegueses que são uma espécie de Slade Bells, são incríveis, os Italia 90, uma banda de punk britânica cujo manager é português, e a M¥SS KETA, que é italiana. Uma série deles…

Há alguns meses vi a Pongo no festival BAM, em Barcelona, e a reação do público catalão foi impressionante.
Tenho muita curiosidade porque não a vejo desde o tempo dos Buraka Som Sistema. Gosto muito do disco dela [o EP, ou mini-álbum, Baia, de 2018]. Ela tem a particularidade de já ter uma carreira internacional, não direi consolidada mas bastante relevante. Não sei se a Pongo já tocou em Lisboa, mas de novembro para cá está farta de tocar na Europa — e muitos dos [programadores de] festivais que vêm cá já a levaram aos seus eventos, já atuou por exemplo no Les Rencontres Trans Musicales e no Eurosonic. Acho que a Pongo vai ter um grande ano.

Há uma banda de Taiwan que vai tocar no Tokyo que também me pareceu interessante.
Os 88BALAZ?

Exato.
Vi-os quando estive em Taiwan há dois anos num showcase festival, que também é nosso parceiro. Gostei muito deles.

A vitória do Salvador Sobral no Festival da Eurovisão teve impacto na forma como os músicos portugueses são vistos? Mesmo em circuitos de clubes e públicos menos pop?
Não consigo responder. O espaço europeu em que me movo é essencialmente a rede Liveurope. Se tivermos em conta que os clubes e salas de concertos são ótimos barómetros da música que se ouve nas cidades, acho que estou numa situação privilegiada porque o Liveurope reúne 14 dos principais espaços e clubes de concertos da Europa. O Ancienne Belgique, em Bruxelas, é o espaço europeu que mais bilhetes de espetáculos vende há cinco anos. É brutal, é uma sala com capacidade para 2000 pessoas.

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Há vários músicos belgas no MIL, já agora.
Há, porque para mim a Bélgica é neste momento um dos principais viveiros de música europeia. É incrível a diversidade que ali existe. Acontece também porque trabalho muito com o export office belga, porque há uma compreensão do lado deles do tipo de músicos que quero programar. É o único export office que me consegue fazer sugestões acertadas — sei lá, em dez sugestões que me fazem, há três que digo: fixe, não conhecia, adoro, bora marcar ou arranjar forma de ir ver o concerto. Aconteceu por exemplo com Monolithe Noir.

Também vem ao MIL.
Sim, sim. Disseram-me que tinha de os ver. Entretanto fui a um festival em Bruxelas a convite do export office belga, vi Monolithe e disse logo: fechado. Tenho de facto uma relação próxima com o gabinete de exportação de música belga, porque convidam-me para ver música e depois decido por mim.

Falávamos do Salvador Sobral e acho que ninguém, tirando o export office do Luxemburgo — por razões óbvias –, me falou do Salvador Sobral. Isso não quero dizer que não estão interessados nele por causa da Eurovisão, quer simplesmente dizer que o espaço que a música portuguesa tem no plano europeu e mundial ainda não é um espaço de destaque. Vamos ser pragmáticos: não estamos a produzir uma Rosalía, não a temos. A própria Espanha só tem a Rosalía. Não vamos tentar dar um passo maior que a perna: daí dizer que prefiro fazer uma noite no festival SIM São Paulo para 400 pessoas do que programar a primeira atuação do palco sunset do Rock in Rio [brasileiro] que se calhar é para 500 pessoas.

O Branko dizia-me há pouco tempo que acreditava que no futuro, talvez numa década, a música lusófona poderia ter um impacto no mundo semelhante ao que tem atualmente a música latina. Acha possível?
Acho que é possível, especialmente porque o mundo lusófono já não é exclusivo da lusofonia. Há por exemplo em Berlim um tipo chamado Daniel Haaksman que está, com a sua MAN Recordings, a produzir música que poderia muito bem ser produzida em Portugal, Luanda ou São Paulo, a colaborar com músicos dessas zonas. Há hoje um espectro mais alargado de produtores extra-lusófonos que olham para a nossa música e dizem: wow, isto é super fixe. Lembro-me de um produtor musical norueguês que se chama Dinamarca que tem um trabalho de zouk bass muito fixe, poderia tocar numa noite Príncipe, por exemplo. Acho que o Branko tem alguma razão, mas é preciso que a escala aumente, que não estagne, que haja muito mais produtores a fazer mais coisas com mais escala.

“Tinha medo de andar de metro sozinho, pensava que ia ser assaltado”

Nasceu no Funchal, na Madeira. Interessou-se logo por música em miúdo?
A música vem desde o início porque o meu pai geria uma discoteca no Funchal, que se chamava Under Rocks. Era um sítio debaixo de umas rochas, o mar quando estava agitado batia na fachada da discoteca. Lembro-me perfeitamente de estar ali durante o dia, com quatro ou cinco anos. Durante o dia o meu pai ia fazer as coisas dele e estavam lá os técnicos e o DJ, que acabou por morrer mais tarde de overdose. Pedia-lhe para desligarem as luzes e porem aquilo em modo discoteca, gostava de ver as luzes a piscar. Tenho uma memória forte de estar a ouvir música e ver o mar bater nas paredes de vidro. É uma imagem que me marcou muito, fez-me associar a dureza à música.

O tal DJ quando ia a Londres comprar cassetes fazia mixtapes e dava-me. Depois de morrer, os DJs seguintes também gravavam mixtapes e davam-me. Entretanto a discoteca do meu pai fechou para dar origem a um hotel. O meu pai começou a ser diretor do hotel, que tinha um piano bar. É no piano bar que aos oito ou nove anos descubro o Michael Bolton — e é a partir do Michael Bolton que percebo que não existe apenas música eletrónica, que existem mais coisas. A partir dali a música esteve sempre muito presente. Tenho família na Venezuela e na África do Sul e ouvia muito música que eles traziam quando vinham de férias no verão. Também trabalhei numa rádio.

Ainda no Funchal?
Ainda no Funchal. Era jornalista e dava notícias para oito rádios locais, das 12 que existiam. A rádio Girão por exemplo só passava música folclore, música rancheira à séria. A rádio Popular só passava música brega à séria, a rádio Clube era a alternativa. No meu mundinho que era a Madeira, num universo de 250 mil pessoas, tinha muita música diferente que me influenciava. Obviamente os grandes êxitos da música brega, da música alternativa — quando falo em alternativo estou a falar, sei lá, em Pearl Jam [risos] — deram-me uma abertura muito grande para gostar de muita coisa e a partir daí construir vários guarda-chuvas de coisas menos conhecidas e menos populares do que aquilo que os meus colegas da rádio passavam.

"Houve uma altura em que queria cantar mas o meu pai disse que não tinha jeito nenhum -- e é verdade. A certa altura disse-lhe que queria ser manager e o meu pai disse que isso era uma profissão para drogados. Realmente mais tarde acabei por comprovar um bocadinho isso [risos], não que seja drogado ou tenha sido mas um gajo dá em maluco muitas vezes."

A música esteve sempre muito presente. Houve uma altura em que queria cantar mas o meu pai disse que não tinha jeito nenhum — e é verdade. A certa altura disse-lhe que queria ser manager e o meu pai disse que isso era uma profissão para drogados. Realmente mais tarde acabei por comprovar um bocadinho isso [risos], não que seja drogado ou tenha sido mas um gajo dá em maluco muitas vezes. Acho que agora estou estabelecido a fazer exatamente aquilo que gosto e sempre quis fazer, só não sabia o que era. Tenho sorte, portanto.

Quando foi para Lisboa estudar produção e marketing de eventos, como foi a mudança? Com que primeira impressão ficou?
Era tão atado que tinha medo de andar de metro sozinho porque pensava que ia ser assaltado. Vivia em Picoas e lembro-me que nas primeiras duas ou três vezes em que fui para a escola, que ficava na Expo, consegui enganar um amigo meu, o Hugo, que é palhaço — efetivamente palhaço –, a levar-me até à Expo porque tinha medo de ir sozinho de metro. Dizia-lhe que achava que me ia perder se fosse sozinho, na verdade tinha era um bocado de medo. Estúpido, não é? Obviamente duas semanas depois isso já não existia, já achava que estava no melhor sítio do mundo.

Ainda hoje continuo a achar que estou no melhor sítio do mundo, continuo a vender Lisboa como o melhor sítio do mundo. Há poucos artistas, bandas, managers ou agentes internacionais que tenham trabalhado comigo e que tenham passado no Musicbox a quem não venda Lisboa como sítio muito feliz, porque para mim é-o. A minha vida mudou muito agora porque fui pai, comprei casa, essas coisas que as pessoas quando chegam à minha idade fazem.

"Quando achamos que Lisboa já está completamente massificada e que isto é só turismo, ou vivemos num dormitório e as voltas que fazemos na cidade são [todas] na Baixa ou então se temos essa perceção de Lisboa é porque é essa a nossa vida."

Que idade tem?
Tenho 34 anos. Supostamente as pessoas deveriam fazer essas coisas aos 24, mas só aos 34 é que lhes é possível — quando é possível. Fui para o Alto de São João e no outro dia comentava com a minha miúda: realmente é incrível, mudo muito de casa porque gosto e a cada ano ou a cada dois anos, descubro uma área nova de Lisboa. É muito bom, devolve-me sempre aquele gostinho de descoberta de uma cidade com uma luz incrível, com um bairrismo brutal. Os bairrismos também não podem ser comparados, também gosto muito dos bairrismos de Siena, do Porto, de Fafe e do Funchal, por exemplo. Cada um é diferente, não encontro pontos de contacto entre eles. Mas gosto muito do bairrismo que se vive em Lisboa.

Quando achamos que Lisboa já está completamente massificada e que isto é só turismo, ou vivemos num dormitório e as voltas que fazemos na cidade são [todas] na Baixa ou então se temos essa perceção de Lisboa é porque é essa a nossa vida.

Que espaços ou zonas de Lisboa é que ainda se vão preservando, mais afastadas da Baixa?
Acho que Alvalade continua a ser incrível, acho que o Campo Grande continua a ter muito charme, acho que o Alto de São João tem um potencial incrível. Marvila está com um hype enorme, acho que o Beato vai ser um projeto absolutamente brutal que vai transformar toda uma área de Lisboa e expandir a cidade e acho que os Olivais estão com uma grande onda. No outro dia andei a passear pelos Olivais, coisa que algumas pessoas podem achar que é um bocadinho ridículo, mas aquela zona ao pé do mercado norte dos Olivais, cheia de casinhas, é linda de morrer. A rua que fica atrás da avenida General Roçadas, onde viveu o António Variações, é absolutamente brilhante.

Acho que a maior parte das zonas de Lisboa continuam a ser um espaço em que se respira Lisboa. A cidade já não é a Baixa nem Alfama? É verdade, já não é a Baixa nem Alfama. E então? A luz continua lá, os monumentos continuam lá com mais ou menos tuk-tuks, a feira da Ladra continua a bombar e se continuarmos a ir às 5h continua incrível. Há dez anos quando vim para Lisboa já não gostava da feira da Ladra ao meio-dia e não estava carregada de turistas…

"Quero muito que alguém venha substituir-me na programação [futuramente]. É essencial, não posso ter 40 ou 50 anos e estar a programar para miúdos de 18. É muito difícil, com 34 anos já há muita coisa que não me apetece ouvir."

Como foi o ano em que começou a trabalhar no Musicbox como PA? O que fazia exatamente?
Era responsável pela comunicação do Musicbox. A pouco e pouco fui começando a mandar bitaites sobre bandas. O Alex [Alexandre Cortez, dos Rádio Macau] programava o Musicbox sozinho, o que é um trabalho muito difícil porque são muitos artistas, muitos DJs, muitas bandas. É uma atividade muito intensa para uma pessoa só. Aceito sugestões de toda a gente e acho que as sugestões são essenciais para conseguir desempenhar o que considero ser um bom trabalho. Tenho essa filosofia porque comecei tudo isto a dar sugestões ao Alex. Dessa fase até ganhar uma preponderância maior na programação e depois até estar decididamente responsável por ela levou algum tempo, o tempo necessário e natural.

Esse processo também terá de acontecer comigo porque quero muito que alguém venha substituir-me na programação [futuramente]. No ano passado, o Primavera Sound de Barcelona contratou três novos programadores com poder de decisão, todos eles com menos de 30 anos. É essencial, não posso ter 40 ou 50 anos e estar a programar para miúdos de 18. Para o fazer, das duas uma: ou ando no meio deles e percebo efetivamente como é que eles trabalham, ou tenho uma grande capacidade de análise e dou um passo atrás para perceber todo o espectro daquilo que eles fazem. É muito difícil, com 34 anos já há muita coisa que não me apetece ouvir. Se os Mount Kimbies e James Blakes aparecessem hoje, provavelmente já não teria saco para os ouvir. Há cinco ou sete anos, quando apareceram, eram os meus ídolos.

Porquê?
O meu próprio gosto musical está em constante mutação, mas sou muito mais seletivo naquilo que ouço em casa quando estou descansado do que antigamente. Isso interfere com o meu trabalho, obviamente: se estou a associar o meu momento de lazer à música de que realmente gosto, vou começar a programar aquilo e perder mundo. Ou tenho alguém mais novo a ajudar-me, a dizer-me o que é fresco, o que é novo e o que acha que vai resultar… Atenção, também não programo só coisas de que goste, há muitas coisas que programo que não se enquadram naquilo que gosto. Sei que isto pode parecer chocante a algumas pessoas mas acho que não é, é ser-se profissional. Seria completamente irresponsável dizer: só programo aquilo que gosto.

Se depois der um prejuízo gigante todos os dias…
Pois [risos], não posso fazer isso, não pode acontecer.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Além da programação do Musicbox, o que é que já programou mais? Pelo menos o festival Aleste também já programou, certo?
O Aleste não é exatamente um festival, é uma coisa, não tem dimensão para ser festival. Nasceu comigo e com dois amigos, o Fábio e o Diogo, na Madeira. Hoje em dia também temos connosco a Mafalda. A ideia era criar um festival, mas não achei que na altura fosse pertinente, com aquilo que se vivia na Madeira, fazer um evento de dois ou três dias carregado de programação. Acho que não havia público para isso e também não havia recursos para fazer uma coisa que justificasse ter nomes bastante fortes e bastante populares. Então decidimos dividir o festival em três dias e espalhar os três dias ao longo do ano.

Em maio o Aleste tem um dia de praia com sete ou oito bandas incríveis num espaço incrível. É simples, é só esse o conceito, embora este ano vá ser diferente, vamos fazer um arraial num sábado com uma série de bandas super fixes, antecedido por uma procissão na sexta e com um after num sítio glorioso no domingo. Temos também o Carta Branca que é uma residência artística, que já deu origem à primeira canção produzida pela Discotexas Band. O disco do Filho da Mãe também foi composto em residência, este ano vamos ter um do Norberto Lobo, estamos a acabar de filmar uma curta-metragem com o The Legendary Tigerman e o Pedro Maia, o [disco] Madeira, dos PAUS, obviamente veio dali, resultou de uma residência artística connosco. Há ainda a Ilhatronica, uma noite com dois ou três DJs, em que o ano passado levámos o Conan Osiris e há dois anos levámos Wooden Wisdom, o projeto musical do Elijah Wood. Há quatro anos fizemos a primeira rave de warehouse [armazém] na Madeira com Nightmares on Wax.

"Enquanto a minha filha não tem gosto própria, ouve a música que quero, na última semana fartou-se de ouvir Sensible Soccers e Capitão Fausto, por exemplo. Tê-la nos meus braços, mesmo que esteja a chorar, também não é impeditivo de ter ideias."

Já começou a perceber como é que se concilia ser pai com ser programador e ter um espaço aberto todas as noites da semana?
Já: enquanto a minha filha não tem gosto próprio, ouve a música que quero. Na última semana fartou-se de ouvir Sensible Soccers e Capitão Fausto, por exemplo. É difícil a rotina, mas tudo se faz. Tenho sorte de não ter de estar sentado à frente de um computador, posso só ouvir música para tentar descobrir coisas novas, relevantes, com as quais queira trabalhar. Tê-la nos meus braços, mesmo que esteja a chorar, também não é impeditivo de ter ideias.

“É uma estupidez não haver uma lei de mecenato como deve ser”

Como é que é um dia-a-dia de um programador?
É muito diferente consoante a pessoa. Tenho amigos programadores em Portugal que acordam ao meia-dia ou às 14h, começam a trabalhar às 14h e acabam às 22h. Conheço outros que só trabalham de noite. Também há programadores, como eu, que começam a trabalhar às 10h e acabam às 18h ou 19h, têm horário de escritório. Depois há o panorama internacional, em que muitos programadores trabalham de uma forma muito rígida e têm um método muito organizado de trabalho. Mas também o que é que se poderia esperar de um alemão?  [risos]

Não tenho um método muito organizado. Ouço muita música, falo muito e chateio muito os meus colegas. Descubro muita coisa, digo muitas vezes “isto é incrível!” e depois não é, passo muito tempo a negociar cachês, passo muito tempo a tentar encontrar um equilíbrio para o todo da programação de um mês do Musicbox. Também dedico muito tempo a pensar no [festival] Jameson Urban Routes e no MIL.

Sem esse entusiasmo que o leva a ouvir música e dizer “isto é incrível!” quão mais difícil seria o trabalho?
Era impossível. Estar envolvido em tantos projetos exigentes — do Festival Silêncio ao MIL, passando pelo Musicbox e o Jameson Urban Routes — também me faz estar constantemente a pensar neles. É impossível estar só a pensar num. Sem entusiasmo não dava.

Já tendo feito as duas coisas, como é fazer programação musical em Lisboa e fazê-la no resto do país? Recentemente soube-se que o festival Jardins Efémeros não se vai realizar este ano, por falta de apoios…
É horrível porque acho que os Jardins Efémeros têm feito um trabalho brutal. Só conheci a Sandra [Oliveira, programadora] este ano e estive um par de horas à conversa com ela em Leiria. Já acompanhava o trabalho, tenho amigos que já tocaram nos Jardins Efémeros, mas depois de falar com ela, perceber a forma como programa e os propósitos que tem, ainda me parece uma perda maior.

Acho que se programa muito bem no país. O Luís [Fernandes] está a fazer um trabalho excecional em Braga, o Porto tem uma movida cada vez maior — também por causa do Salgado [Luís Salgador, programador do Maus Hábitos], do Fernando [Sousa, programador da Casa da Música], da Lovers & Lollypops, do Jonathan [Tavares] agora no Pérola Negra. Tem havido um trabalho brutal de programação independente e estão a aparecer pelo país festivais pequenos, do Impulso ao Indie e ao Cellos Rock. Caraças, no ano passado estive num festival em Mondim de Basto, acho que se chama Mondim Rock, e foi super fixe, estavam lá os Glockenwise, o El Señor, faz-te pensar: finalmente esta malta está a chegar a Mondim de Bastos. Isso prova pelo menos que há pessoas interessadas em fazer este tipo de trabalho, já não é uma carolice de gajos que gostam de bater punhetas com a música. O Rubel [brasileiro que já atuou no Musicbox e vai atuar agora no MIL] tocou este fim-de-semana no auditório de Fafe… wow! A própria Malfeito, que é uma produtora em Fafe, tem feito coisas incríveis.

"É uma estupidez não haver uma lei de mecenato como deve ser em Portugal. É uma pena aqui ainda estarmos reféns de ter de vender cerveja para conseguir ter o apoio de uma grande cervejeira. Não há um interesse real das marcas pelo conteúdo que os promotores estão a criar. É muito importante que também se mude alguma coisa a nível camarário."

E em termos de apoios e reconhecimento no setor?
É uma treta que nós, produtores independentes [de espetáculos], continuemos a estar super desprotegidos e é uma estupidez não haver uma lei de mecenato como deve ser em Portugal. Era preciso uma lei que fizesse com que as grandes marcas não apoiassem só os grandes festivais e também apoiassem coisas mais pequenas, como acontece no Brasil, onde qualquer festival que aparece para 500 ou mil pessoas tem apoios da Casa Natura, da Petrobras, das principais marcas brasileiras. Lá acontece porque há uma boa lei de mecenato.

É uma pena aqui ainda estarmos reféns de ter de vender cerveja para conseguir ter o apoio de uma grande cervejeira. Não há um interesse real das marcas pelo conteúdo que os promotores estão a criar. Há um grande trabalho de resistência. É muito importante que também se mude alguma coisa a nível camarário. A produtora de Fafe de que falava, a Malfeito, tem um apoio financeiro, reduzido mas suficiente, que lhe permite pagar a logística de uma banda — desconhecida e underground, é verdade, espanhola ou francesa por exemplo — e levá-la a Fafe. Quem dá esse apoio é o departamento de cultura da Câmara Municipal de Fafe. É uma exceção mas estas exceções existem: a câmara do Funchal, por exemplo, apoia uma iniciativa como o Aleste ao mesmo tempo que apoia um Summer Opening [festival de maior dimensão] e faz o Fica na Cidade, que é uma iniciativa brutal de concertos de entrada livre no Funchal, com nomes muito grande. São exceções que são de salutar. Infelizmente, Viseu não é ou pelo menos deixou de ser uma exceção. Espero bem que volte a ser.

“A minha fase La Flama Blanca bêbado faz-me gastar muito dinheiro com um osteopata”

Como é que começou o seu projeto enquanto DJ, La Flama Blanca?
Quando um grande amigo, com quem vivia na altura, foi ao Peru. Começou a enviar-me muita música de lá, nomeadamente chicha, que é o rock psicadélico peruano. Já havia muita coisa que os meus familiares sul-americanos me tinham mostrado e já tinha muita influência do Brasil, obviamente, mas o lado latino puro e duro do projeto nasce por ter ouvido rock psicadélico peruano. Nasce, também, por ter começado a ouvir Chancha Vía Circuito, que tem um lado de música eletrónica mais antropológica, porque pega nas raízes da música peruana e da música indígena e as transforma de uma forma muito sexy em música para uma pista de dança moderna.

???????????? BAILE TROPICANTE ????????????este sábado às 02h30 com LA FLAMA BLANCA, PINO Y IZEM

Posted by La FLAMA Blanca on Wednesday, February 4, 2015

Quando me deparei com aquilo que o Chancha Vía Circuito fazia, achei que era mesmo único. Foi determinante até para o tipo de música eletrónica que hoje em dia consumo e gosto muito de programar — uma eletrónica sem fronteiras, que não obedece a muitos formatos, que tem uma vertente antropológica muito presente. Não quer dizer que ache que esse tipo de música de dança é a grande tendência, mas é indiscutivelmente aquilo que oiço e programo e é indiscutivelmente aquilo que Lisboa é hoje em dia: é isso que o Branko é e é isso que a noite Príncipe é, tendo identidades muito distintas da cumbia. Perceber tudo isto foi muito importante também para perceber que o reggaeton é muito importante. O reggaeton mexicano, por exemplo, é incrível. O próprio reggaeton de Cartagena é muito diferente do reggaeton de Medelín. A música que o meu amigo Hélder me mostrou do Peru e as pesquisas que fiz no Youtube e Soundcloud — é aí que está todo o mundo — ajudaram-me a ter uma grande abrangência: hoje oiço coisas completamente fora da caixa da Indonésia, oiço música eletrónica de Taiwan, oiço absolutamente de tudo. Descobri outros mundos a partir da busca por este mundo da América do Sul, enquanto La Flama Blanca.

Entre as viagens que já fez, por exemplo para ouvir concertos e descobrir artistas, lembra-se de alguma que o tenha marcado mais?
Todos os sítios a que tenho ido são muito particulares. O ano em que fui a Taiwan foi particularmente especial, porque nunca tinha ido à Ásia e porque fui à primeira edição de um festival que se chama Look Fest — e que também vai ter representantes no MIL. O programa artístico era mesmo muito emergente e underground, [só] tinha dois artistas grandes na Ásia — um deles é bastante grande nos EUA, já. Levei com muita banda que me deixou fascinado, porque não tinha a menor ideia do que é que se ouvia nessa parte do mundo. Vi coisas mesmo muito interessantes, foi a viagem feita para ouvir música da qual tirei mais proveito.

Tenho visto coisas muito interessantes no Brasil em primeira mão, também. Ainda assim, a viagem que musicalmente mais me influenciou foi indiscutivelmente a ida ao México e à Cidade do México.

"O México é um país absolutamente incrível, é de longe o meu país preferido, o meu sítio favorito do mundo para comer, o melhor sítio para festas e o local mais interessante a nível de pessoas. A Cidade do México é uma espécie de Lisboa mas mil vezes maior e a música está presente em todos os cantos da rua."

Em que medida?
Fui ao México numa fase em que La Flama Blanca já não estava tão presente na minha vida e é essa viagem que me devolve muito a chama para Flama. O México é um país absolutamente incrível, é de longe o meu país preferido, o meu sítio favorito do mundo para comer, o melhor sítio para festas e o local mais interessante a nível de pessoas. Em dez minutos de conversa com três pessoas diferentes encontram-se as realidades mais distintas. Além de tudo isto, o tipo de música que se faz hoje no México é incrível. A Cidade do México é uma espécie de Lisboa mas mil vezes maior, então encontramos ali mil ou dez mil Lisboas e cada uma com a sua cena musical específica. A música está presente em todos os cantos da rua, ouve-se desde mariachi a tudo o resto. Toda a gente consome música naquele país, é uma coisa que me deixa absolutamente fascinado.

Lembro-me que pelo menos nas cidades em que estive era muito comum aos domingos as pessoas encontrarem-se nas praças públicas. A festa começava às 14h, com folclore. Depois ouvia-se a orquestra local, a seguir a orquestra nacional e por aí fora. De repente lida-se ali com uma amostra musical e antropológica brutal que acaba quase sempre com um DJ às 4h. É incrível. Em Portugal seria simples pensar qual seria o fluxo de público: às 14h estariam os velhotes e às 4h os miúdos. Lá, garanto que as pessoas que estão às 4h chegaram às 14h e que os velhotes que chegaram às 14h só vão a casa jantar e fazer uma sesta, porque às 4h continuam lá. É maravilhoso.

Numa entrevista à Antena 3, tinha dito que os seus cinco anos anteriores como La Flama Blanca tinham sido passados “essencialmente bêbado”. Vem com o trabalho de DJ?
Não, não. Acho que tinha muito a ver com a personagem. A personagem La Flama Blanca também mudou e acalmou nos últimos anos, não musicalmente — continuo com muita pica — mas noutros aspetos. Obviamente já não me ponho nu em palco, já não sou um gafanhoto que passa um DJ set inteiro a saltar de um lado para o outro nem tão pouco estou bêbado da meia-noite às 6h. Já tenho 34 anos, não tenho 20, o meu corpo já se ressente. Já tenho dores nas costas, aliás essa fase de La Flama Blanca bêbado faz-me gastar muito dinheiro com um oesteopata incrível, que se chama dr. Manuel da Fonseca. Efetivamente trepei tudo aquilo que podia trepar — mas já não trepo. Acho é que a minha música nunca teve tanta vertente de descoberta como tem hoje, nunca foi tão desafiante como é hoje e continuo a divertir-me imenso a passar música. Agora, já não faço oito atuações num mês, faço duas — e faço duas porque preciso de fazer essas duas para não confundir muito La Flama Blanca com o resto da minha vida.

Obrigado, Pedro.
De nada. Obrigado eu.

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