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Polémicos e ainda mais extremos que Bolsonaro e Haddad. Quem são os vices dos candidatos? /premium

Bolsonaro escolheu o general Hamilton Mourão. Haddad optou pela comunista Manuela D'Ávila. Quem são as figuras secundárias que, como o ex-vice Temer, podem vir a ser presidentes?

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“Não serei um vice que atrapalha.” A promessa foi feita por Michel Temer em 2010, a uma jornalista da Revista Piauí encarregada de escrever o perfil do homem que Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores (PT) tinham escolhido para candidato à vice-presidência.  O então presidente da Câmara dos Deputados e líder do, à altura, maior partido brasileiro, o PMDB, era conhecido pela sua influência no Congresso — o que, vaticinavam alguns, poderia representar um perigo para Dilma, ao colocar todo o seu capital negocial político nas mãos deste homem. “A ex-ministra conhece muito bem o país e os seus problemas por força dos cargos que ocupou”, defendeu à altura Temer, como que a garantir à Piauí que Dilma não teria nada a temer.

Cinco anos mais tarde, o tom não poderia ser mais diferente. “Passei os quatro primeiros anos de Governo como vice decorativo. A senhora sabe disso”, declarou Temer, dirigindo-se a Dilma Rousseff. A acusação foi feita numa carta privada, que chegou por artes mágicas aos jornais, cinco dias depois de ter sido formalmente aberto na Câmara dos Deputados o processo de impeachment que acabaria por depor Dilma. Foi um dos primeiros pregos no caixão político da antiga Presidente, cravado pelo seu próprio vice. E deixou claro a quaisquer futuros candidatos à presidência do Brasil que a escolha de um vice-presidente não poderia ser tomada de ânimo leve.

Sabendo disso, Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, candidatos à presidência que disputam a segunda volta das eleições no dia 28, escolheram nomes inusitados para os acompanhar “na chapa”. Em vez de procurarem pessoas em partidos mais distantes dos seus, tendo em vista a formação de alianças futuras e a governabilidade no Congresso — como tem, aliás, sido tradição na política brasileira —, os dois decidiram apostar no que lhes é próximo e familiar.

Dilma Rousseff e Michel Temer foram Presidente e vice-presidente em dois mandatos. Temer acabaria por ocupar o lugar de Presidente após a destituição de Dilma (EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Hamilton Mourão, número dois de Bolsonaro, e Manuela D’Ávila, vice de Haddad, são figuras que acompanham em (quase) toda a linha as ideias políticas dos seus candidatos, surgindo por vezes como versões ainda mais desbocadas de cada um deles. A escolha, crê Vítor Oliveira, professor na Fundação Getúlio Vargas e líder da empresa de consultoria política Pulso Público, é simples: “Este ano as candidaturas precaveram-se e tomaram uma vacina anti-impeachment.” Ou, por outras palavras, ninguém quis arriscar ter outro Michel Temer a seu lado no Planalto. Mas se há coisa que Mourão e D’Ávila têm revelado ao longo desta campanha é que têm voz e ambição. Irá o candidato vencedor das eleições necessitar de reforço imunitário?

Mourão e Manuela, as “escolhas possíveis” numa eleição polarizada

Formalmente responsável por substituir o Presidente em casos de viagem ao estrangeiro onde o chefe de Estado não possa ir, o cargo de vice-presidente do Brasil representa uma mão cheia de nada em termos de responsabilidades políticas, mas que se podem tornar imensas em caso de demissão, morte ou destituição do Presidente eleito. Por representar tanto e tão pouco, não admira que haja entendimentos diferentes sobre a importância do cargo: “É muito pouco importante. Num Governo normal, o vice-presidente não faz quase nada”, resume ao Observador Sérgio Praça, colega de Oliveira na Fundação Getúlio Vargas.

Já Vítor Oliveira tem um entendimento totalmente diferente: “A História do Brasil, especialmente a recente, mostra-nos que é uma posição muito importante. Seria até leviano afirmar que é decorativa, como disse Temer. Temos um historial de vices a assumir a presidência e por longos períodos.” Os números mostram isso mesmo: Michel Temer foi o oitavo vice-presidente a chegar a Presidente no Brasil, o terceiro já no período da democracia, depois de José Sarney e Itamar Franco.

O consenso entre os dois especialistas surge, isso sim, quando questionados sobre qual tem sido — até esta eleição — o racional que orientou as escolhas de candidatos a vices: procurar políticos que colmatassem as falhas dos candidatos, alargando as suas bases de apoio. “Por exemplo, quando Lula da Silva foi eleito em 2002, o vice dele era José Alencar, um empresário ligado ao Partido Liberal. Isso foi muito importante para Lula, porque foi um sinal aos eleitores de que não iria fazer um Governo radical de esquerda”, ilustra Praça. “Da mesma forma, Fernando Henrique Cardoso tinha um vice do Partido Liberal [Marco Maciel] para ampliar a base de apoio no Congresso.”

Em 2018, contudo, alargar consensos não é ordem do dia para ninguém. Numa eleição tão polarizada — marcada pela tensão e instabilidade num Brasil pós-Lava Jato, pós-impeachment de Dilma e pós-prisão de Lula —, tanto Bolsonaro como Haddad olharam por cima do ombro e preferiram apostar em cavalos que reforcem o seu próprio eleitorado. “O Mourão é basicamente como Bolsonaro, é um militar. E Manuela é de um partido muito pequeno, o PCdoB, e está à esquerda do Haddad. Não trazem votos, não trazem apoio popular. São escolhas fracas”, defende Praça.

O capitão Jair Bolsonaro goza de grande popularidade entre os militares. A escolha de Mourão reforça esse eleitorado (NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

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Vítor Oliveira explica essas “escolhas fracas” com a conjuntura política. “São as opções possíveis dentro de um clima de baixa coordenação partidária”, resume. “O que vimos de 1994 até 2014 foram poucas candidaturas competitivas e uma coordenação muito grande entre os partidos antes de as eleições acontecerem. Esta eleição foi diferente. As forças partidárias tiveram uma grande dispersão, o que dificultou que os vices ideais fossem conquistados.”

Ao longo do verão passado, circularam rumores nos jornais de que o PT teria tentado aliciar Ciro Gomes, do PDT, para o cargo de vice e que Bolsonaro teria sondado não só outros militares como também Janaína Paschoal, a jurista que argumentou no Senado a favor do impeachment de Rousseff. Ciro achou a ideia “uma aberração”. Janaína acabou por recusar o convite por “questões familiares”. Ambos acabaram por ter bons resultados nas corridas eleitorais que disputaram: Ciro Gomes foi o terceiro candidato à presidência mais votado na primeira volta, ficando a apenas 17 pontos percentuais de Haddad; e Janaína foi eleita deputada estadual com quase dois milhões de votos, tornando-se a deputada eleita com maior número de votos de sempre no Brasil. Haddad e Bolsonaro, por seu turno, tiveram de se contentar com outros nomes menos consensuais: o general na reserva Hamilton Mourão e a deputada do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) Manuela D’Ávila.

Hamilton Mourão, o “profissional da violência”

Mourão partilha com Bolsonaro o passado no Exército, tendo chegado ainda mais longe que o capitão na carreira militar. Foi instrutor na Academia Militar das Agulhas Negras, que Bolsonaro também frequentou, mas chegou a cumprir missões em Angola, a comandar divisões e foi ainda adido militar do Brasil na Venezuela. O seu currículo militar é, sem dúvida, respeitado dentro da instituição — e tem apenas a mancha de ter sido destituído do cargo de secretário da Economia e das Finanças pelo Alto Comando do Exército em 2017, depois de ter dado uma série de palestras onde fez também críticas a Temer.

Hamilton Mourão defende abertamente figuras da ditadura militar e não exclui a hipótese de os militares voltarem a assumir o controlo (NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

A sua postura firme contra o crime e a retórica de elogio à ditadura militar são semelhantes às de Bolsonaro. São disso exemplo as palavras de ambos sobre Carlos Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna) no tempo da ditadura, conhecido por ter ele próprio torturado vários opositores do regime. Bolsonaro homenageou-o, chamando-lhe o “pavor de Dilma Rousseff” nas palavras que dirigiu ao congresso ao votar a favor do impeachment da ex-Presidente . Hamilton Mourão falou de Ustra como “um herói” e um “homem de coragem”. “Foram cometidos excessos? Foram cometidos excessos. Os heróis matam”, resumiu recentemente sobre o seu pensamento acerca de Ustra e da ditadura militar. Mourão tem também namoriscado repetidamente a ideia de um novo golpe militar, falando na necessidade de o Exército “pôr as coisas em ordem”, mas nunca clarificando como pode essa ação ser feita de forma democrática.

As suas posições agradam à campanha de Bolsonaro, como explicou um dos filhos do candidato, Eduardo Bolsonaro: “Sempre aconselhei o meu pai: tem que botar um cara faca na caveira para ser vice”, disse, referindo-se à expressão relacionada com o símbolo do BOPE, o Batalhão de Operações Policiais Especiais. Mourão tem feito jus a essa ideia e, após o ataque com faca contra Jair Bolsonaro, declarou-o taxativamente: “Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós.”

“A História do Brasil, especialmente a recente, mostra-nos que é uma posição muito importante. Seria até leviano afirmar que é decorativa, como disse Temer. Temos um historial de vices a assumir a presidência e por longos períodos.”
Vítor Oliveira, professor da Fundação Getúlio Vargas e consultor político

Numa segunda volta, o discurso de Mourão tem um efeito menos agregador e mais de reforço do eleitorado já conquistado, reflete Sérgio Praça: “Certamente Mourão não ajuda a conquistar votos entre os indecisos ou os que estão mais ao centro. Ele reforça apenas as ideias de Bolsonaro.” Algo que ficou patente durante a campanha para a primeira volta, com várias declarações de tom racista e anti-democrático: Mourão defendeu a possibilidade de haver uma nova Constituição que não precisaria de “ser feita por eleitos pelo povo”, declarou que os brasileiros herdaram a “indolência” dos indígenas e a “malandragem” dos africanos, e classificou o seu neto como um “cara bonito” por fruto do “branqueamento da raça” na passagem de uma geração para outra. Confrontado com as polémicas, diz que tudo não passa de “brincadeiras” mal interpretadas, que só dão escândalo por ele ser candidato: “É aquela história, quando eu falava isso e não era candidato, ninguém nunca deu bola. Porque eu passei a ser candidato, aí tudo o que a gente fala é uma casca de banana em que a gente pode escorregar.”

Mourão não consegue apelar a um eleitorado que não aprecia Bolsonaro, mas Vítor Oliveira alerta, no entanto, que, numa campanha como esta, isso pode não ser necessariamente mau. “Os partidos que tentaram isso na primeira volta, por exemplo, ao escolher mulheres para vice, tinham como objetivo aumentar esse eleitorado. Mas isso não teve assim tanto efeito: Bolsonaro, mesmo sendo muito mais forte entre o eleitorado masculino, foi o candidato preferido das mulheres”, explica. Num país onde, apesar de o voto ser obrigatório, há uma crescente abstenção, é importante para os candidatos garantir que convencem o seu eleitorado a ir votar. “Ter um vice que reforça a mensagem para o núcleo de apoio dessas candidaturas ajuda a mobilizar esse eleitorado. No caso de Bolsonaro, o núcleo eleitoral dele tem muita essa perceção de que ele é diferente, é um outsider na política, que não é corrupto, que é militar… Desse ponto de vista, Mourão reforça isso.”

Manuela D’Ávila, a comunista “com honra”

No caso de Manuela D’Ávila, a vice de Fernando Haddad, a lógica é a mesma: falar mais para o núcleo de apoiantes à esquerda do que para o centro. Com apenas 37 anos, a deputada do PCdoB tem um currículo do mais tradicional que existe nas forças de extrema-esquerda: ingressou na União da Juventude Socialista (juventude partidária do PCdoB) na faculdade, quando se licenciava em Jornalismo, e desde então nunca mais abandonou o Partido Comunista e as suas ideias, que defende abertamente. “Se o Partido Comunista é a honra do nosso tempo, como disse o Neruda, que honra enorme para mim ser a candidata dos comunistas”, afirmou no discurso de aclamação como pré-candidata do partido à presidência.

Manuela D'Ávila sempre foi militante do Partido Comunista do Brasil, desde que entrou na Universidade (EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

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Na Câmara de Porto Alegre, onde foi vereadora, e depois como deputada estadual e federal, bateu-se por ideias focadas na juventude e nos chamados “temas fraturantes”: legalização das drogas, descriminalização do aborto e defesa das minorias, como a comunidade LGBT. Do ponto de vista económico, muito embora Manuela D’Ávila preferisse um programa muito mais à esquerda do que o de Haddad, a verdade é que o PCdoB, um partido pequeno que sempre foi historicamente muito próximo do PT, não lhe levanta grandes ondas.

Só mais recentemente, com o partido de Lula desgastado pelos escândalos de corrupção, as figuras de extrema-esquerda como D’Ávila, ou Guilherme Boulos do PSOL, começaram a assumir algum destaque. É por isso que Vítor Oliveira não tem dúvidas em afirmar que D’Ávila foi escolhida pelo PT não para ajudar a ganhar uma eleição, mas sim para reforçar a posição do partido como principal força da esquerda brasileira: “A decisão de trazer Manuela foi uma estratégia de manutenção de hegemonia sobre a esquerda e não de ganhar a eleição”, explica. Essa estratégia pode mesmo contribuir para uma derrota de Haddad, creem os dois especialistas ouvidos pelo Observador. Tudo porque Manuela não fala ao centro — e, ao contrário de Bolsonaro, Haddad precisa bem mais de conquistar esses votos. “Acho que Manuela pode reforçar essa ideia de ‘o PT é muito esquerdista e vai tornar o Brasil uma Venezuela”, resume Sérgio Praça.

À direita, não falta quem acuse o PT de ter uma agenda radical que pretende tornar o Brasil numa república bolivariana. Com uma candidata à vice-presidência que, em 2007, recordava com entusiasmo o seu encontro com Hugo Chávez, vinda de um partido que elogia abertamente no seu site o regime atual de Nicolás Maduro, torna-se mais difícil para Haddad sustentar a postura de candidato moderado. O candidato do PT bem pode pregar que a Venezuela já não pode ser “caracterizada como uma democracia” — a sua vice discorda fortemente e traz consigo mais um fantasma a assombrar a candidatura da esquerda.

“Desse ponto de vista, é péssimo”, analisa Vítor Oliveira, olhando do ponto de vista pragmático para a obtenção de mais votos. “Ela não é uma vice que carrega o PT em direção a uma agenda mais centrista e que sinaliza para as pessoas que são anti-petistas, mas que detestam o Bolsonaro, por exemplo, que o PT poderia ter um Governo moderado ou mais tolerável. E essa é a questão quando estamos numa segunda volta: não necessariamente quem é o preferido, mas sim quem é o mais tolerado.”

Bolsonaro e Haddad estão bem “vacinados” contra um vice que lhes passe a perna?

Para lá da capacidade de atração de eleitores de Mourão e D’Ávila como candidatos a vice, é preciso também olhar para a futura relação que podem vir a ter com o seu respetivo Presidente, caso a sua “chapa” seja eleita. Nesse campo, Haddad parece poder respirar mais de alívio do que Bolsonaro — mas nem tudo é assim tão simples.

O terreno mais minado para a candidatura do PT é aquele que o partido tem de atravessar quando aborda os temas da corrupção e da prisão de Lula da Silva. Oficialmente, mesmo sendo membro do PCdoB e não do PT, Manuela D’Ávila não tem divergido um milímetro do discurso da força política de Haddad. Defende que os governos de Lula reforçaram o combate à corrupção, acusa a Operação Lava Jato de se ter tornado numa operação “mediatizada” e critica o juiz Sérgio Moro, que decretou a prisão para Lula, por ter motivações políticas.

“A cúpula do PT é simplesmente incapaz de fazer qualquer tipo de auto-crítica” sobre a corrupção, defende Oliveira. Contudo, o facto de Manuela D’Ávila também não fazer essa crítica pode não a prejudicar assim tanto, crê: “O PCdoB tem a vantagem e a desvantagem de ser um apêndice do PT. Mas os outros partidos do centrão que apoiam Bolsonaro estão muito mais implicados na corrupção, até ao pescoço. O PCdoB, por não ter ocupado protagonismo político, não foi exposto a isso. O grande problema é essa contaminação by proxy [por procuração]”, admite. “Do meu ponto de vista, Manuela D’Ávila sai melhor dessa eleição. A associação ao PT prejudica muito mais o PCdoB do que a prejudica a ela”, vaticina.

O possível indulto a Lula da Silva é uma das questões que pode dividir Manuela D'Ávila e Fernando Haddad (à direita) (NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

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Nem o facto de D’Ávila ter sido mencionada pelo ex-diretor da Odebrecht, Alexandrino Alencar, como alegadamente tendo recebido dinheiro da construtora para apoiar a sua campanha à prefeitura de Porto Alegre, parece beliscá-la. Nunca surgiram outras provas que sustentassem que teria havido uma contrapartida por esse apoio, nem um ligeiro rumor. Num mar de acusações de corrupção disparadas em todas as direções, a reputação de Manuela D’Ávila mantém-se intacta, como explica Praça: “Ela pode ter sido citada numa delação, mas não foi dado um único detalhe. Duvido muito que ela tenha feito um acordo corrupto”, afirma. E, no que diz respeito ao distanciamento da corrupção dentro do PT, o analista considera que a candidata a vice não tem grande margem de manobra para o fazer neste momento — e que o eleitorado compreende isso: “Ela não tem força política para ser crítica do partido pelo qual é candidata a vice. Ninguém teria.”

Manuela pode conseguir, inclusivamente, fazer das fraquezas do PT suas forças. Desde o primeiro dia, a deputada comunista tem-se posicionado como defensora acérrima de Lula da Silva, classificando-o como “maior Presidente da história do país”. Ao longo da campanha, tem defendido a necessidade de Haddad escutar os conselhos de Lula e chegou a ir mais longe do que o candidato, ao declarar preto no branco que, se dependesse dela, concederia o perdão presidencial ao ex-Presidente: “Eu daria o indulto ao Presidente Lula, embora eu acredite que ele saia da prisão após a análise da última instância da Justiça”, declarou.

D’Ávila está, sem margem para dúvidas, à esquerda de Haddad, uma das vozes mais moderadas dentro do PT. Por essa razão, uma ligação tão umbilical a Lula da Silva não é, para ela, tão prejudicial como para o candidato — já que, no longo prazo, têm objetivos diferentes. “Na questão do #LulaLivre, Manuela esteve muito associada a essa campanha desde o início”, resume Oliveira, que explica que aquilo que pode ser tóxico para Haddad pode ser valioso para Manuela. “Ela não está a fazer uma campanha para ganhar, está a fazer uma campanha para projetar a sua imagem e a do partido.” O apoio a Lula foi fundamental para consolidar essa posição à esquerda: não terá sido por acaso que, na cerimónia que ocorreu na manhã do dia em que Lula foi preso, o ex-Presidente deu a mão a D’Ávila e a Boulos, ungindo-os como esperanças da esquerda brasileira.

A imagem de Manuela está, sem dúvida, a ser projetada desde então, ou não fosse ela uma das candidatas mais mencionadas — e também mais assediadas — nas redes sociais ao longo desta campanha. “Esta foi uma exposição muito grande para ela, que pode beneficiá-la numa futura candidatura”, resume o responsável da Pulso Público. “Agora as pessoas conhecem-na. Para o bem e para o mal.”

Mas se Manuela ofusca por vezes Haddad, Mourão pode ser uma dor de cabeça ainda maior para Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro, quando classificou Mourão como um tipo “faca na caveira”, disse que a escolha era a ideal porque o vice “tem de ser alguém [para quem] não compense correr atrás de um impeachment” — como um militar e não um político. O problema é que, desde então, os incidentes em que o candidato a vice vai contra as indicações do candidato a Presidente têm-se multiplicado e não dão sinais de abrandar. Primeiro foram as declarações sobre o pagamento do 13º mês: Mourão classificou o pagamento do subsídio de férias como uma “jabuticaba”, ou seja, algo que só acontece no Brasil e que deveria ser alterado. Bolsonaro não gostou, repreendeu o candidato a vice pelo Twitter e descansou o seu eleitorado, ao garantir que esse é um direito constitucional que pretende respeitar.

No início deste mês, Haddad deu uma entrevista onde, questionado sobre por que razão Dilma Rousseff escolheu Temer para seu vice no passado, classificou o cargo da vice-presidência como sendo apenas “simbólico”. O passado mostrou que Temer não gostou dessa ideia. O presente dá sinais de que Mourão aprecia o protagonismo. E Manuela D’Ávila, aguentaria ser relegada para segundo plano?

Só que Mourão voltou a atacar e aproveitou para classificar como “fake news” a teoria difundida por um dos filhos de Bolsonaro, de que as urnas estariam comprometidas, com os códigos a serem enviados para a Venezuela. E, nos últimos dias, fez um ato ainda mais desafiador, ao declarar apoio ao candidato do PSDB na corrida em São Paulo, João Doria, depois de Bolsonaro ter declarado que se ia manter neutro nessa eleição. “O Presidente, como ele disse, é ele. Só que eu não sou um vice acéfalo. Tenho as minhas opiniões”, resume o general sobre as suas posições.

“A relação entre Bolsonaro e Mourão já é problemática”, avisa Sérgio Praça. “Eles não são próximos, não são amigos e Mourão tem atrapalhado a candidatura.” Se já é assim durante a campanha, a situação pode piorar após as eleições, explica Vítor Oliveira: “Até que ponto o general vai continuar a baixar a cabeça para o capitão? Assim que a chapa é eleita, eles deixam de depender um do outro, o que aumenta a probabilidade de Mourão ter uma atitude diferente. Se surgir um momento difícil, como problemas na economia ou a implicação de Bolsonaro num escândalo de corrupção, há mais margem para a maré virar e Mourão se emancipar.”

No início deste mês, Haddad deu uma entrevista onde, questionado sobre por que razão Dilma Rousseff escolheu Temer para seu vice no passado, classificou o cargo da vice-presidência como sendo apenas “simbólico”. O passado mostrou que Temer não gostou dessa ideia. O presente dá sinais de que Mourão aprecia o protagonismo. E Manuela D’Ávila, aguentaria ser relegada para segundo plano?

Vítor Oliveira crê que sim e que a “vacina anti-impeachment” de Haddad parece, por enquanto, ter sido mais forte do que a de Bolsonaro. Mas com dois candidatos a vice com “perfis de liderança, contestadores e que gostam de divergir dos seus colegas de candidatura”, nunca se sabe o que o futuro trará. Para já, só há uma certeza: “Mourão e D’Ávila vão sair desta eleição com luz própria.” Os vices decorativos podem bem ser coisa do passado.

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