Quando a embaixada dos EUA foi invadida em Teerão

04 Novembro 2014

Cinquenta e dois reféns durante 444 dias, uma fuga e resgate dignos de Hollywood, uma derrota para Carter nas presidenciais e "Argo" de Ben Affleck. Foi isto que resultou da crise dos reféns de 1979.

Há exatamente 35 anos teve lugar no Irão um dos mais graves incidentes diplomáticos de que há memória. Há histórias e histórias, mas esta é impactante. Esbocemos um teaser: a relação crispada entre Irão e Estados Unidos conduziu à invasão da embaixada dos norte-americanos, em Teerão. Cinquenta e duas pessoas foram feitas reféns durante 444 dias. Durante a ocupação, um grupo de seis americanos fugiu e esteve escondido, ajudado pelo embaixador canadiano, Ken Taylor, à espera que a sorte tocasse à porta. Uma operação de disfarce da CIA, muito digna de Hollywood — literalmente: “Argo” de Ben Affleck resultou daí –, resgatou-os e levou-os para casa. Esta sequência de acontecimentos custou o segundo mandato ao presidente Carter. A eleição de Ronald Reagan e o timing do regresso dos reféns aconteceu em simultâneo, pelo que há rumores de que terá havido negociação. E é aqui que entra a antiga história da alegada venda de armas para o Irão, que um jornalista português associa a Camarate… Convencido?

Este episódio da embaixada esteve a ser cozinhado em lume brando durante 30 anos. O ouro negro, como não podia deixar de ser, esteve na origem. Até metade do século XX, americanos e britânicos controlavam uma boa parte das reservas de petróleo deste país do Médio Oriente. Tudo mudaria, ou ameaçaria mudar, com a chegada ao poder de Muhammad Mossadegh, democraticamente eleito em 1951. Este era um nacionalista formado na Europa que prometia nacionalizar a industria petrolífera. Os serviços secretos dos países visados elaboraram então um plano para derrubar o novo líder iraniano. Esta era uma realidade que os Estados Unidos acabariam por habituar o mundo, qual tabuleiro de xadrez da geopolítica, que se transformava e mudava ao sabor dos interesses. Já havia acontecido ou aconteceria no Panamá, Guatemala, Chile ou, dez anos depois, em Cuba, no famoso capítulo apelidado de “Baía dos Porcos”.

O golpe de Estado teria o nome de código “TP-Ajax” e seria bem-sucedido em agosto de 1953. O novo líder a agarrar os destinos do Irão era Mohammed Reza Pahlavi, um membro da família real daquele país. O Xá era pró-Ocidente e contra o comunismo, por isso seria um bom aliado. Pahlavi recebeu milhões de dólares e devolveu 80% das reservas de petróleo aos americanos e britânicos. Era o preço a pagar em nome do poder. No coração do povo iraniano começou a semear-se um sentimento anti-América, uma pequena ferida que alastrou, e que daria muito que falar. Não só porque o novo líder do país, pela mão da polícia secreta (Savak), matou e torturou milhares de pessoas, mas porque havia a sensação de que os norte-americanos interferiam na política iraniana. E na economia, também, pois seria colocado em marcha um negócio de armas avaliado em milhares de milhões de dólares.

Dito isto, algo tinha de mudar, aos olhos dos iranianos. Durante a década de 70, conta a BBC, o fosso entre ricos e pobres cresceu no país, o que aliado a uma frágil política económica e ao ressentimento pela atitude autocrata e implacável do Xá incendiou o povo contra o regime. A insatisfação transformou-se em apoio ao Ayatollah Ruhollah Khomeini, que estava exilado em Paris. O futuro guia espiritual do Irão prometia então reformas sociais e económicas e o regresso aos valores religiosos tradicionais, o que era música para os ouvidos do povo.

A insatisfação transformou-se em apoio a Ayatollah Ruhollah Khomeini, que estava exilado em Paris. O guia espiritual do Irão prometia então reformas sociais e económicas e o regresso aos valores religiosos tradicionais

A violência nas ruas e movimentos anti-regime começaram a ser mais frequentes, o que levaria o Xá a abandonar o país em janeiro de 1979 para umas “férias prolongadas”. Não voltaria. As estátuas do líder que piscava o olho ao Ocidente foram derrubadas e incendiadas. Adivinhavam-se novos ventos de mudança. O Ayatollah Ruhollah Khomeini regressou ao Irão no primeiro dia de fevereiro de 1979, o que contribuiu para um avolumar da instabilidade política e social. As ruas foram palco de sangrentos combates entre manifestantes pró-Khomeini, polícias, oficiais de segurança e apoiantes do regime. A sangria culminaria dez dias depois com um anúncio na rádio principal de Teerão: “Esta é a voz da revolução do povo iraniano!”

O primeiro-ministro, Shahpur Bakhtiar, que havia sido nomeado pelo Xá para liderar o país durante o tal período de “férias”, acabaria por demitir-se pouco depois. Após uma vitória num referendo popular, Khomeini instaurou uma República Islâmica, a primeira, e foi escolhido para líder político e religioso do país. Haveria um mandato? Não, a distinção era eterna. Para sempre.

A INVASÃO, O PORQUÊ E A FUGA DE SEIS AMERICANOS

Se já mostrámos o porquê do sentimento anti-América passear-se nas veias dos iranianos, falta o pormenor que conduziu ao cerco e invasão da embaixada norte-americana em Teerão. O antigo líder do Irão, o Xá Mohammed Reza Pahlavi, foi diagnosticado com cancro e foi recebido por Jimmy Carter, o presidente dos EUA, para iniciar tratamento no país do Tio Sam. Escusado será dizer que o povo iraniano não aceitou bem esta movimentação, exigindo o regresso do ex-líder para ser castigado por todos os atos em nome do regime.

No dia 4 de novembro de 1979, há exatamente 35 anos, uma multidão estacionou nas imediações da embaixada norte-americana. Ouviram-se cânticos e palavras de ordem. Afinal, aqueles manifestantes, muitos deles estudantes, queriam dar um murro na mesa e descolar o presente e futuro do passado. Os portões e os muros acabariam por ser ultrapassados pelos insurgentes. Mais de sessenta pessoas foram feitas reféns. O número cairia para 52, depois da libertação de mulheres e alguns doentes.

Durante a invasão, Robert Anders, Cora Amburn-Lijek, Mark Lijek, Joseph Stafford, Kathleen Stafford e Lee Schatz conseguiram fugir e encontrar refúgio nas casas de Ken Taylor, o embaixador canadiano, e John Sheardown, outro membro importante da embaixada do Canadá. Nos entretantos do medo, reticências e incertezas, agarravam-se à leitura e brincavam com jogos de tabuleiro. Foram precisos quase três meses e um plano engenhoso para os devolver aos Estados Unidos.

O Canadá teve um papel crucial nesta trama ao oferecer abrigo e, depois de uma sessão secreta do parlamento, produzir seis passaportes canadianos falsos para os fugitivos. O cérebro desta operação (Canadian Caper) terá sido Tony Mendez, um especialista em disfarce da CIA. As fronteiras e os aeroportos estavam bem vigiados. Como iriam enganar aquela gente? Criatividade, senhoras e senhores: um filme fictício de ficção científica, elaborado por realizadores, assistentes e afins fictícios, de uma empresa fictícia. Seria assim. Tony Mendez, que no filme “Argo” é representado por Ben Affleck, preparou os seis americanos, que teriam novos nomes, nacionalidade, profissões e históricos.

A incerteza relativamente ao destino dos reféns fragilizou muito Jimmy Carter, que estava em vésperas de uma eleição para o segundo mandato. A campanha saiu prejudicada porque o presidente estava focado na questão iraniana. Quem aproveitava para ganhar terreno era Ronald Reagan.

A incerteza relativamente ao destino dos reféns fragilizou muito Jimmy Carter, que estava em vésperas de uma eleição para o segundo mandato.

O plano de Mendez acabaria por dar certo e os seis americanos viajariam para casa num avião da SwissAir. “Bem, fiz isto e foi exatamente o que senti”, comentou Mendez quando viu o filme. A cena do avião a deslocar e fugir do espaço aéreo iraniano foi, aliás, a cena preferida do ex-agente da CIA. O truque de magia do Canadá gelou as relações com o Irão: a embaixada foi encerrada em 1980. Contudo, seria reaberta em 1988, embora só tenha sido registada uma normalização na ligação entre ambos os países em 1996. Os Estados Unidos ficariam sem um corpo diplomático para aquele país entre 1979 e 2011, altura em que foi criada uma embaixada virtual, que seria bloqueada pouco depois pelo governo iraniano.

E os 52 reféns na embaixada? Em abril, Carter tentou uma cartada arriscada. Uma operação especial — Eagle Claw — previa o envio de uma equipa de elite para a embaixada, para resgatar aqueles que estavam em cativeiro desde novembro. Mas uma tempestade do deserto provocou várias avarias nos helicópteros: seis americanos morreram e a missão foi abortada. Carter tinha cada vez mais a corda na garganta. A popularidade, essa, escapava-lhe das mãos. Os iranianos responsabilizaram deus por aquele ato divino, o que legitimava aquele mega sequestro. “A operação de resgate falhou, o que significava, para mim e para os outros, que estaríamos ali muito mais tempo do que poderíamos ter estado”, explicou à Al Jazeera Barry Rosen, um dos reféns, aquando do 30.º aniversário da Eagle Claw.

Hello Mr. Reagan, aqui estão os reféns…

As eleições nos Estados Unidos estavam à porta e não havia sinais do regresso dos reféns. Carter perdia força, Reagan subia nas intenções de voto. Houve até rumores que sugeriam que a campanha do então governador da Califórnia negociou com os sequestradores para que não libertassem os norte-americanos antes da votação para a Casa Branca. Esse fator funcionaria como um trigger para qualquer uma das campanhas. E assim foi. No dia 21 de janeiro de 1981, apenas algumas horas depois da tomada de posse de Ronald Reagan, os reféns foram libertados. O timing, acusou então a ABC News numa peça, “não foi acidental”.

Frederico Duarte Carvalho, um jornalista português, vai ainda mais longe e associa este caso das armas com Camarate, que resultou na morte do então primeiro-ministro português, Francisco Sá Carneiro. “Com o avançar da investigação jornalística, fui acumulando histórias que comprovavam que por detrás da ocultação de Camarate estava um negócio de venda de armas para o Irão, um inquérito a um fundo financeiro secreto controlado por militares e ainda uma série de forças que se aliaram contra a figura do primeiro-ministro Sá Carneiro”, refere no livro que publicou em 2012 — “Camarate, Sá Carneiro e as armas para o Irão”. O jornalista fundamenta que “muito provavelmente o atentado está ligado a um nunca investigado negócio de tráfico de armas” que “envolvia elementos ligados a uma fação da CIA e se calhar também a serviços secretos iranianos”, disse à Agência Lusa, em 21 de novembro de 2012.

“Ainda hoje se suspeita, nos EUA, que o então ex-diretor da CIA e candidato a vice-Presidente dos EUA, George Bush (pai), teria negociado secretamente, em Paris, durante o fim de semana de 18 e 19 de outubro de 1980, o envio de armas para o Irão de modo a que os iranianos pudessem combater contra o Iraque de Saddam Hussein. A guerra Irão-Iraque começara um mês antes e viria a prolongar-se até 1989. Em troca, os iranianos atrasariam a libertação dos reféns até ao dia das eleições presidenciais nos EUA, que teriam lugar daí a um mês, a 4 de Novembro de 1980. Foi assim que Jimmy Carter não conseguiu ser reeleito e George Bush tornou-se vice-Presidente”, pode ler-se no blog de Frederico Carvalho.

“Argo”

O nome do filme de Ben Affleck foi exatamente o mesmo usado na operação para resgatar os seis norte-americanos. Affleck deu corpo e voz a Tony Mendez, o tal agente especialista no disfarce, que tem a maior parte do protagonismo no filme. “Ninguém ouviu falar nele [antes]. Eu queria isto, que o tornasse num herói americano”, disse. Mendez foi herói americano, mas em segredo: a CIA atribuiu-lhe a estrela, que é o maior reconhecimento da agência. Afinal, era uma missão secreta. Mendez disse que era o primeiro espião “gostável”, digamos assim. É que normalmente, nos filmes, os agentes da CIA surgem como assassinos. O filme permitiu mudar um pouco essa imagem, explicou depois.

O primeiro-ministro canadiano que viveu aquele enredo, Joe Clark, afirmou que achava "a verdade é uma história melhor"

Consequências do filme? No Irão foi banido, naturalmente. O primeiro-ministro canadiano que viveu aquele enredo, Joe Clark, afirmou que “a verdade é uma história melhor”. O filme não referiu o nome de John Sheardown, por exemplo, um dos homens importantes da embaixada do Canadá e o primeiro a receber o contacto dos norte-americanos. Amigos do embaixador canadiano Ken Taylor sentiram-se vilipendiados quando “Argo” estreou no Toronto International Film Festival. Porquê? Porque no fim os americanos decidem que o Canadá receberia os créditos pelo resgate. “Vergonhosas” e “insultuosas”, foi assim que Taylor classificou essas últimas linhas do guião.

Para colocar os pontos nos “is”, Drew Taylor e Robert Wright escreveram o “Our Man in Tehran”, um documentário que coloca Ken Taylor como protagonista e que conta outra versão do que aconteceu no Irão. “Penso que há uma diferença na forma como os canadianos e os americanos abordam isto. Hollywood faz filmes muito divertidos, e coisas à maneira deles que embelezam e adicionam à história, e foi isso que ‘Argo’ foi”, explicou Taylor.

Mas o que os norte-americanos não esperavam é que Jimmy Carter, o presidente dos Estados Unidos durante a crise dos reféns, lhes tirasse o tapete, ou o orgulho nacional que se colava àquela missão de resgate. “É um belo drama, e espero que receba o prémio da Academia”, começou por dizer em entrevista a Piers Morgan na CNN. “A outra coisa que eu diria é que 90% da contribuição para as ideias e consumação do plano foi canadiana. O filme dá quase mérito total à CIA. E com essa exceção o filme é muito bom, mas a personagem do Ben Affleck esteve apenas um dia e meio em Teerão”, explicou. No filme não é possível quantificar, mas parece muito mais tempo. “O grande herói, na minha opinião, foi Ken Taylor, o embaixador canadiano que orquestrou todo o processo. (…) O governo canadiano não podia permitir que se fizessem seis passaportes canadianos [falsos], por isso o parlamento canadiano teve de, pela primeira vez na história, votar para usarmos seis passaportes falsos”, contou Carter.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Mundo

Os novos bárbaros - uma cultura de destruição 

Paulo Rodrigues Ferreira

Que desejam estes novos bárbaros? Espalhar rancor, ressentimento, divulgar mentiras. Que todos sofram o mesmo que eles sofrem. Combater a globalização ou o cosmopolitismo, a que chamam "globalismo".

Índia

Populismos e finais felizes /premium

Diana Soller

Numa época em que os populismos têm uma presença cada vez mais forte nas democracias ocidentais, vale a pena revisitar o passado e outras geografias. Queremos o mesmo para nós?

Mundo

Mensagem filosófica aos tempos-imitações de Trump

António Rocha Martins

Serei eu, governante, tanto mais forte quanto mais amado for por uns e odiado por outros? A resposta é, enfaticamente, objetivamente, negativa, pois o ódio é incurável e procura sempre fazer mal.

Governo

2019 no mundo e em Portugal

Inês Domingos

Vinte anos depois do calendário, passada a crise, 2019 é o ano em que política, social e economicamente entramos realmente no novo século. Este Governo está aflitivamente impreparado para o enfrentar.

Política

O Povo é sempre o mesmo

Pedro Barros Ferreira

Trump e Bolsonaro não apareceram de gestação expontânea, antes pela sementeira criada pelos partidos e políticos que nada fazem, mas que dizem que tudo deve mudar para que, afinal, tudo fique na mesma

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)