O mais próximo que se está na intimidade é exatamente ali, naquele palco. Banhado de cor azul com um amarelo-torrado que se destaca mais à direita: um sofá. No chão, copos vermelhos, uns amassados, outros ainda levantados como se tivessem sido inutilizados. Tudo dava a entender que uma festa teria acabado. Mas quando é que seria o verdadeiro fim da festa? Ao longe reparava-se nas pegadas de suor que Martha (Anabela Moreira) e George (João Reis) deixavam pelo palco, graças aos pés descalços. O início já estava dado e resplendia longe. É fácil de entender de onde vinha, só é impossível de prever onde chegará.
Com o cenário montado, “o inferno pode ser uma sala de estar confortável e um casal insatisfeito”, decretou Edward Albee ao resumir Quem Tem Medo de Virginia Woolf? no início da década de 60. Passados mais de 60 anos desde a data de estreia, em Nova Iorque, a peça que elevou Albee ao panteão dos grandes dramaturgos chega – mais uma vez – ao palco do Teatro Nacional de São João (TNSJ), no Porto, pela encenação – praticamente fiel – de Simão do Vale Africano.
Esta “arte artesanal” de contar histórias é para o encenador, integrante da companhia de teatro portuense Subcutâneo – Teatro Hialurónico, um ato repleto de motivos. Os seus são simples e orgânicos: “contar coisas sobre as pessoas, sobre as suas relações e sobre os seus universos”. Se a atualidade social parece mais viva do que nunca nesta obra, para o encenador é puramente “casuístico na sua relação com peça”.
▲ Joana Africano e João Reis, ou o encontro de gerações que, mesmo após mais de 60 anos, mantém traços inevitáveis, bem para lá da passagem do tempo
A evolução temporal, histórica ou até mesmo espacial é algo que percorre a pele daquelas seis pessoas que se espalham pelas cadeiras da sala principal do teatro. Assiste-se ao primeiro ensaio do elenco naquele espaço. Ainda não se ouve o desencadear de sons tanto quanto programado, mas à medida que se fazem as marcações de palco, Simão Vale Africano e David Salvado — que retira notas enquanto acompanha os guiões — fazem-se ouvir à capela, um detalhe que marcou mais umas horas de ensaio.
Além do som, as cores. Os testes de luzes deixam um rasto arroxeado, azul, que parece emergir do oceano. Com estas cores, cruzam-se as pequenas luzes de presença que se destacam em cada camarote e se distribuem pela plateia: sente-se conforto, mas é demasiado passageiro. Segue-se um barulho ensurdecedor, e que se estende mais rápido do que se poderia esperar.
A dicotomia que aqui se coloca parece-nos estar cada vez mais perto, tal como o barulho, cada vez mais firme, robusto, onde a desatenção não tem mais nenhum pedaço para percorrer entre as mãos que denunciam uma certa ansiedade; os pés que tendem a suar, mais uma vez, descalços, e a bebida. O desafogo.
Este texto que o elenco agarra como coisa própria é uma comédia que tende a pisar o terreno do drama, mas que, simultaneamente, nunca cede. Neste deambular entre a verdade e a ilusão, aproximam-se de uma espécie de anatomia social americana – mas também inevitavelmente europeia – que se revela muito mais profunda do que se poderia esperar nos anos 1960.
Brinda-se: “Que se brinde à cegueira do espírito, ao sossego no coração e à desgraça do fígado”, pois o álcool preenche qualquer vazio que ali se evidenciasse e reivindica batalhas a que assistimos nos diferentes atos da peça.
George e Martha, são na verdade, uma analogia “dos Washingtons”, tal como explica o encenador ao Observador. É em New Carthage, Nova Iorque, que residem. A elite universitária que querem alimentar – e que persiste pela impotência das gerações em recusar – são a representação gráfica de uma sociedade (ou civilização) destruída. O casal mais velho discute. Incapazes de encarar a realidade, o historiador e a filha do reitor — que nunca chegamos a perceber em concreto o que faz senão isso (ser filha do reitor) — hipnotizam o público pelo espetáculo que alimentam: um casal destruído.
Nick (Daniel Silva) e Honey (Joana Africano) são mais novos. Rondam a casa dos vintes. O casal faz parte de um departamento ligado à química e à biologia, por isso, Nick defende incontestavelmente a sua creditação de biólogo que montara um novo diagrama de uma alteração cromossómica que produzirá espécimes futuros perfeitos. O que nos leva a querer que este casal não poderia também ter filhos, mas este não é um motivo nem tão pouco uma causa da destruição. O texto é mais do que isso. É sobre como amar depois da destruição. É sobre o estado da união quanto sobre o casamento. É sobre “utilidade, além de peças meramente decorativas”, palavras de Albee. E, por isso, este mesmo dramaturgo era também um escritor profundamente político.
“Tem algumas piadas sobre ocidente e o mundo comunista, o nazismo, que neste momento estão muito atuais com a guerra na Ucrânia ou uma nova guerra entre o mundo capitalista e o mundo comunista, portanto, não deixa de permanecer uma atualidade muito forte”, afirma Simão Vale Africano, que mesmo assim reconhece, em simultâneo, que há certas reflexões que já não pertencem a este século.
▲ João Reis é George, Anabela Moreira é Martha: ambos comprovam que "o inferno pode ser uma sala de estar confortável e um casal insatisfeito"
Partindo de uma fantasia doentia e pouco funcional, os atores e atrizes que protagonizam a peça passaram por um longo processo de criação livre. Numa primeira fase, o encenador “ia pondo coisas em cena e íamos inventando”, palavras do próprio. “As pipocas são ideias do cenógrafo, os confetti já são ideias minhas, mas tudo isto são coisas que fomos trazendo e explorando.” Desde máscaras de ratos a sacos de boxe pretos empoleirados no teto do palco, há uma tensão presente que antecede uma ruína.
Para Anabela Moreira, a atriz que protagoniza Martha, é inevitável ficar-se indiferente ao que dizem ser a sua personagem: “Personagem que aceitei num momento de loucura”, diz rindo. Não acredita que os papéis “de uma vida” existam, porque todos eles têm potencial para o serem, mas a verdade é esta: “Pela primeira vez, senti-me como se me estivesse a afundar dentro de um universo e quanto mais isso acontecia, melhor o era”, continua.
Já depois do ensaio terminar, a conversa continuou na sala exterior, um lugar com uma carpete aveludada vermelha, tal como o sofá. Anabela e Joana prosseguiram, agora sentadas no chão. “Quando acho que encontrei uma determinada coisa, penso que estou só a descobrir uma outra nova e isso tem que ver com uma coisa profundamente atual: a natureza humana, isto porque o amor pode ser tanta coisa!”, avança Anabela.
Enquanto olha pausadamente para Joana Africano, recorda o abraço que deu a João Reis (George) depois de “atravessarmos aquela tempestade toda que é esta peça”: “Exijamos qualquer coisa parecida com quem dará amor, ou seja, sermos amados assim — e não é no sentido de querermos que alguém se destrua, mas sim ser alguém com quem nos possamos destruir totalmente, em frente um do outro e, apesar acima disso, saber que no final do dia aquela pessoa continua a amar-nos”, reconhece.
Joana concorda, pois “os idealismos destroem mais do que a verdade” e, esta peça, é também sobre isso. “Anda toda a gente à procura do idealismo do que é ser-se amado e depois, normalmente, as pessoas frustram-se e cansam-se, porque amar alguém não tem de ser a pessoa, esta paixão romantizada… é também isto, ou pode também ser injusto, sendo que isto é monstruoso e terrível”, remata a atriz.
O que permanece em mistério é o lugar onde fica o amor. A atriz que protagoniza a mulher mais jovem, Honey, explica que este elemento técnico da peça, que mantém o mistério, só é verdadeiramente desvendado – e, como Albee define, “exorcizado” — no terceiro ato, no fim da peça. Esse “’derradeiro” elemento acumula um jogo de imaginação, onde todas as personagens entram e que “mesmo infantilizado, torna-se quase puro”, refere Joana Africano.
▲ A dimensão profundamente humana e verdadeira continua exatamente ali: nos anos 1960, nos anos 2000, hoje, mesmo que coberta de dissimulação
Em Portugal a interpretação do texto do dramaturgo americano não é uma estreia. Já esteve em cena nos anos de 2011 e 2017, mas talvez seja este um tempo sumptuoso – tanto quanto no século XX — para sobreviver à intimidade. Se o título nos remete para o extremo da nossa consciência é também uma forma de nos levar até Virginia Woolf, a escritora britânica que tinha a arte de nos socorrer no profundo complexo, inundando-nos de densidade.
Tal como as obras de Wolf, este texto assinado e interpretado não só por Albee, mas por Simão Vale Africano e todo o elenco, abre a porta que faltava para mostrar a “nossa dor, a que somos ensinados a esconder, pois é assim que nos formatamos quando estamos tristes”, concluem as atrizes.
Já sobre aquele palco que nos remete para um tempo da pós-verdade, a tristeza deixou de vir com um sorriso disfarçado ou um “não te preocupes”. A dimensão profundamente humana e verdadeira continua exatamente ali: nos anos 1960, nos anos 2000, hoje, mesmo que coberta de dissimulação.
Sala Principal do Teatro Nacional São João, no Porto, 6 a 16 de janeiro