Será 2015 o ano do otimismo para Portugal ou apenas mais um em que o realismo vai acabar por se impor? O primeiro-ministro fez o discurso de Natal mais otimista desde 2011, quando tomou posse, e disse que este foi o primeiro natal sem “nuvens negras” a pairar sobre as cabeças dos portugueses. Nem todos têm a mesma opinião.
A economia a crescer 1,5% é coisa que aconteceu apenas duas vezes nos últimos dez anos e tem sido uma tarefa cada vez mais difícil à medida que o tempo passa. O Governo acha que é possível e realista que isso venha a acontecer, mas dentro e fora do país há quem esteja longe de concordar.
A Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional são os mais céticos. Bruxelas espera que a economia cresça 1,3% no próximo ano, e o FMI 1,2%. Ambos partem ainda de um valor baixo a servir de base para o crescimento deste ano, do que aquele esperado pelo Governo.
Dizem as instituições – que fazem parte da troika juntamente como Banco Central Europeu – que grande parte da razão para as diferenças é a conjuntar internacional. A União Europeia, em especial os grandes países do euro, ainda se veem a braços com um crescimento anémico e uma inflação demasiado baixa que ameaça tornar-se em deflação. Como é na União Europeia que estão os principais parceiros comerciais de Portugal, as exportações portuguesas podem encontrar dificuldades.
▲ O FMI é o mais pessimista, entre as organizações internacionais. Na foto, Subir Lall, chefe da missão para Portugal.
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“O desempenho das exportações portuguesas está muito dependente do clima económico na Europa, que se deve ser fraco no curto prazo”, escreve a Comissão Europeia no último relatório sobre Portugal, lançado nas últimas semanas.
A diferença principal, ainda assim, está em que o Governo espera que o consumo privado cresça a um ritmo superior do que esperam as organizações internacionais. Bruxelas e Washington duvidam que isso aconteça, considerando que o elevado endividamento das famílias e das empresas vai ter de continuar a cair no próximo ano e isso colocará sérias restrições à capacidade de fazer gastos, estimulando a procura interna.
▲ Logo na sua primeira conferência de imprensa como comissário dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici sublinhou as diferenças de entendimento com Portugal sobre as projeções para 2015.
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Para que Portugal possa recuperar do ambiente desfavorável, tem de continuar a fazer reformas para melhorar a sua competitividade. Mas o apetite do Governo para fazer reformas, em ano de eleições, parece estar a desaparecer, considera a troika. O FMI já dizia, em novembro, que após o programa o ímpeto reformista parecia que tinha desaparecido do léxico governamental e Bruxelas confirmou a opinião ainda esta semana, dizendo que, em alguns casos, as mudanças que têm sido feitas até têm deitado ao lixo alguns dos benefícios conseguidos com essas reformas.
A recuperação da economia, cada vez mais assente no consumo privado, e o abrandamento na consolidação orçamental, dizem as organizações, podem até fazer a economia crescer mais no curto prazo, mas não resolvem os problemas a médio e longo prazo, e podem até agravá-los. Para Bruxelas, Portugal parece estar a voltar a hábitos antigos.
A economia a crescer 1,5%, o consumo privado a crescer mais de 2%, as exportações a crescerem mais de 4%, as importações a diminuírem o ritmo de crescimento e o desemprego a cair consideravelmente. Vista por dentro, a economia portuguesa prepara-se para uma melhoria significativa face ao que será o ano de 2014.
Governo e Banco de Portugal apontam para o mesmo objetivo de crescimento, 1,5%. O banco central espera que o consumo privado cresça 2,1% e o Governo 2%, enquanto ambos veem as exportações a crescer mais de 4% (4,2% e 4,7%, respetivamente). O desemprego, segundo o Governo, deve cair 0,8 pontos percentuais, para os 13,4%.
O Governo já garantiu, em Bruxelas, que não perdeu o ímpeto reformista e que tudo se trata de um “défice de entendimento”. Quanto às previsões mais pessimistas das organizações, a ministra lembrou que também as previsões de Bruxelas falham e manteve as suas.
Já o Banco de Portugal, nas previsões que lançou no início de dezembro, apoiou as previsões do Governo. No entanto, lembrou, o processo de ajustamento gradual dos desequilíbrios macroeconómicos ainda terá de continuar e, também por isso, “é crucial que seja assegurada a continuação do processo de consolidação orçamental em Portugal, de forma a garantir o cumprimento credível dos compromissos assumidos no âmbito do Pacto e a manutenção da trajetória descendente para o rácio da dívida pública”.
▲ Carlos Costa defende que a consolidação orçamental tem de continuar.
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É aqui que assenta grande parte da diferença entre todas as organizações e o Governo. Os números da redução do défice que o Governo enviou a Bruxelas são piores do aqueles que os acordados com o Conselho Europeu, e as previsões das organizações são ainda mais pessimistas.
O acordo era o de que o défice não fosse superior a 2,5% do produto interno bruto (PIB), mas o Governo diz que o Orçamento do Estado para 2015 está construído para que o défice não seja superior a 2,7%, ainda assim abaixo dos 3% do Procedimento dos Défice Excessivos. A troika não está muito convencida: Bruxelas espera que o défice seja de 3,3% e o FMI de 3,4%. Até a OCDE, que costuma ser mais otimista, espera uma derrapagem para os 2,9%.
Menos crescimento e mais défice, o resultado é naturalmente um rácio de dívida face ao PIB maior. Segundo o FMI, maior em dois pontos percentuais do que o esperado pelo Governo (125,7% do PIB, contra 123,7% da estimativa governamental). Bruxelas também espera que seja superior a 125%. A OCDE é a mais pessimista, neste caso, esperando que a dívida continue a aumentar no próximo ano, até aos 128,1% do PIB.
Aos olhos da maioria dos analistas e economistas internacionais, que nos últimos meses olharam para o Portugal do pós-troika, a economia e o país estão mais bem posicionados para o futuro. O influente banco alemão Commerzbank teceu no final de outubro rasgados elogios a Portugal, como contra-peso das críticas à inércia reformista de outros países da zona euro.
O banco alemão escreveu aos investidores seus clientes que “enquanto França e Alemanha sofrem de uma letargia ao nível das reformas, países como Portugal estão a mostrar qual é caminho”. Numa análise ao relatório “Doing Business” do Banco Mundial, o banco alemão diz que Portugal é o país “que mais melhorou a qualidade enquanto local para fazer negócios, entre os países da ‘periferia’, desde 2009″.
O economista Marco Wagner teceu elogios aos “progressos particularmente rápidos em termos de abrir uma empresa e lidar com autorizações de construção”. Passou a haver, nos últimos anos em Portugal, “menos passos processuais, aprovações mais rápidas e custos mais baixos estão a tornar mais fácil para os empresários abrir um negócio e obter autorizações de construção”, escreve o Commerzbank.
2014 foi o ano em que Portugal assistiu ao colapso de um grande banco e um grupo económico poderoso. Viu, também, um ex-primeiro-ministro detido por suspeitas de corrupção e altos responsáveis ligados ao caso dos “Vistos Gold”. Todos estes acontecimentos, acredita o Financial Times, são sinais claros de que Portugal está a regenerar-se e que a “velha ordem” perdeu o domínio do país. O prestigiado jornal financeiro britânico dedicou, no início de dezembro, uma edição especial de quatro páginas sobre “Investir em Portugal”, em que era elogiada a estabilidade política e as reformas que foram feitas.
“Está a crescer a perceção de que as dificuldades económicas causadas pelo programa de ajustamento e o colapso traumático do Grupo Espírito Santo (GES) são parte de um processo doloroso – uma tentativa de permitir que áreas mais bem sucedidas da economia floresçam”, escreve o jornal.
▲ Ricardo Salgado é, segundo o FT, parte desta velha ordem que estará a perder o domínio do país.
© Hugo Amaral/Observador
Para trás podem estar a ficar os “males económicos” personificados pela família Espírito Santo, incluindo “relações demasiado íntimas entre os setores público e privado” e as empresas a pedirem “demasiado crédito para crescer, na ausência de capital”. E, ainda, estará a combater-se uma situação em que existe um país dominado por empresas “viradas para o mercado interno, protegidas da concorrência e dependentes de contratos com o Estado, absorveram demasiado investimento e talento” humano.
O Financial Times afirmou, também, que Portugal tem subido nos “rankings” da competitividade mas continua a enfrentar obstáculos, com muita burocracia e impostos elevados. O maior problema é, todavia, a falta de um crescimento mais robusto que alivie os receios com a sustentabilidade da dívida, diz o jornal. Contudo, o jornal salienta que, apesar da crise vivida nos últimos anos, não foi perturbada a “fé” no sistema político de dois partidos moderados e, por outro lado, nota que as reformas do sistema fiscal tornam possível aumentar a base tributária ao mesmo tempo que se desce a carga fiscal.