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A ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, fala perante a Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, na Assembleia da República, em Lisboa, 11 de dezembro de 2024. FILIPE AMORIM/LUSA
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▲Dalila Rodrigues, ministra da Cultura, vai gerindo alguma apreensão no Governo

FILIPE AMORIM/LUSA

▲Dalila Rodrigues, ministra da Cultura, vai gerindo alguma apreensão no Governo

FILIPE AMORIM/LUSA

Quezílias, exonerações e uma inusitada mudança de gabinete. Ministra da Cultura provoca embaraço no Governo

Dalila Rodrigues saiu do Campus XXI, sede do Governo, para regressar ao Palácio da Ajuda. Não gostava do espaço e precisava de "respirar". Recebeu ordens para voltar. Perfil conflituoso preocupa.

Irascível, inconstante e imprevisível. Ou, na opinião de quem prefere ver o copo meio cheio, uma pessoa “com o seu feitio”. Dalila Rodrigues continua a criar alguns embaraços no Ministério da Cultura e há quem, no Governo e fora dele, vá apostando que o perfil “problemático” da ministra pode resultar numa remodelação antes do tempo. Seis exonerações num espaço de cinco meses, quezílias permanentes no gabinete e episódios tensos com agentes do sector já fizeram soar os alertas no Executivo. Mais recentemente, um episódio com contornos algo bizarros ia deixando António Leitão Amaro, ministro da Presidência, de cabelos em pé.

A 8 de novembro de 2024, durante a discussão na especialidade do Orçamento do Estado, o mesmo António Leitão Amaro anunciou que o Ministério da Cultura, à semelhança do que foram fazendo outros ministérios, iria passar a ter como sede o Campus XXI, num esforço de concentração de recursos e otimização de processos iniciado pelo anterior governo e executado pelo atual. O que significava que Dalila Rodrigues teria de deixar o Palácio da Ajuda para se instalar no número 63 da Avenida João XXI, antiga sede da Caixa Geral de Depósitos. Estava “por dias” prometia o ministro da Presidência.

E assim foi. Dalila Rodrigues e demais equipa mudaram-se de armas e bagagens para o Campus XXI e por lá ficaram uns tempos — até que a própria ministra mudou de ideias. Numa decisão que terá sido unilateral, a governante reuniu a equipa e decidiu regressar a um Palácio da Ajuda já despido de mobília, de computadores e de serviços de apoio, e sem condições objetivas para receber o Ministério. Decisão que causou enorme estranheza junto de alguns elementos do Governo e do partido.

António Leitão Amaro, ministro da Presidência, foi apanhado de surpresa pela decisão de Dalila Rodrigues e, quando tomou conhecimento do sucedido, exigiu explicações à ministra da Cultura. Embaraçada, a governante terá explicado que deixara o Campus XXI, um edifício fechado, um ambiente tipicamente de escritório, com pouca luz natural, sem obras de arte, porque precisava de “respirar”. Sentia-se, de alguma forma, claustrofóbica. Argumentos que não convenceram Leitão Amaro, que deu orientações claras para que a equipa do Ministério da Cultura voltasse o quanto antes para a Avenida João XXI. Contrariada ou não, Dalila Rodrigues lá regressou.

Numa troca de emails com o Ministério da Cultura, o Observador perguntou três coisas muito concretas: é verdade que a ministra saiu, em algum momento, do Campus XXI para se reinstalar no Palácio da Ajuda?; quem é que avisou dessa decisão?; e regressou do Palácio da Ajuda porquê?  O Ministério da Cultura preferiu não responder a essas três questões e enviou uma nota onde diz, genericamente, que o Ministério da Cultura “está sediado e trabalha normalmente a partir do Campus XXI”.

“Como previsto, até que a ‘ala governamental’ do Palácio Nacional da Ajuda tenha outra afetação de interesse público, a Ministra usa pontualmente o Palácio, para certas reuniões, eventos, e para receber em audiências personalidades e entidades do setor da cultura”, esclarece-se apenas. Em momento algum, e apesar da insistência do Observador (por escrito e por telefone), o Ministério da Cultura respondeu se a ministra tinha ou não saído do Campus XXI com a sua equipa por decisão unilateral e se o fez com a intenção de regressar ao Palácio da Ajuda para lá ficar de forma permanente.

Há quem brinque com a situação e vá dizendo que a ministra se vai sentido “asfixiada” no Governo. Mas o caso, apesar do lado pitoresco da história, não é exatamente um episódio isolado — é apenas mais um a marcar a vida interna de um agitado Ministério da Cultura. O mesmo que já conheceu seis exonerações num espaço de cinco meses. E algumas destas saídas são atribuídas diretamente ao carácter alegadamente mais intempestivo de Dalila Rodrigues.

Embaraçada, a ministra da Cultura terá explicado que deixara o Campus XXI, um edifício fechado, um ambiente tipicamente de escritório, com pouca luz natural, porque precisava de “respirar”. Sentia-se, de alguma forma, claustrofóbica. Recebeu indicações para regressar o quanto antes.

Quando até as cadeiras irritam

Nos corredores do Governo, não faltam relatos sobre alguns momentos de irritação da governante (em torno da escolha de determinadas cadeiras para receber convidados, por exemplo) que deixaram todos os envolvidos à beira de um ataque de nervos. Fonte oficial do Ministério limitou-se a dizer ao Observador que algumas dessas exonerações aconteceram por vontade dos próprios, que procuraram outras oportunidades fora do Governo ou simplesmente uma realocação de funções.

Uma das vítimas da alegada irascibilidade de Dalila Rodrigues terá sido a sua própria secretária de Estado, Maria de Lurdes Craveiro, que chegou ao Governo depois de ter sido diretora do Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra. Segundo apurou o Observador, a relação entre as duas já conheceu melhores dias, ainda que Craveiro se mantenha, até ao momento, formalmente em plenitude de funções. Resta saber até quando.

Outro episódio que deu que falar no Ministério da Cultura foi o encontro tenso entre Dalila Rodrigues e Isabel Pires de Lima. As duas partilham um passado comum: quando era ministra da Cultura de José Sócrates, Isabel Pires de Lima afastou Dalila Rodrigues da direção do Museu Nacional de Arte Antiga. Pouco tempo depois, quando Isabel Pires de Lima (também ela muito contestada pelo sector) foi afastada por Sócrates, Dalila Rodrigues celebrou a decisão dizendo que era “uma excelente notícia”.

Agora, as duas reencontram-se noutros papéis: Dalila Rodrigues na qualidade de ministra da Cultura; Isabel Pires de Lima como presidente do conselho de administração da Fundação de Serralves. Isabel Pires de Lima foi nomeada há sensivelmente um mês, mas antes disso já houve um encontro com Dalila Rodrigues que foi descrito como tendo sido de enorme tensão, com algum drama à mistura, ao ponto de se tornar inconsequente.

Recentemente, Dalila Rodrigues foi notícia depois de o Público escrever que a ministra se preparava para substituir Américo Rodrigues, diretor-geral das Artes, acrescentando mesmo que andava ativamente à procura de candidatos para o lugar — terá mesmo sondado duas pessoas, conforme avançou o Público e confirmou o Observador. Ainda assim, o gabinete da ministra acabou por desmentir essa informação dizendo que não havia “qualquer intenção” de substituir Américo Rodrigues.

A ministra apresentou-se ao grande público com estrondo. Em dezembro, Dalila Rodrigues afastou Francisca Carneiro Fernandes da presidência do Centro Cultural de Belém e, no Parlamento, acusou o antecessor, Pedro Adão e Silva, de ter tentando um “assalto ao poder” e de ter instalado um “sistema de compadrios” na Cultura.

O antigo ministro no Governo de António Costa pediu para ser ouvido no Parlamento mas acabou por responder através da comunicação social, atirando que Dalila Rodrigues “tem tido como únicas formas de afirmação exonerar dirigentes, desmantelar o trabalho feito e lançar injúrias graves”, acrescentando que “esta postura tem sido muito prejudicial para as políticas culturais”. Francisca Carneiro Fernandes também não gostou da decisão e anunciou um pedido de impugnação que será dirimido nos tribunais.

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