Quando o jornalista Adriano Ferreira Marques decidiu em 1926 arrendar o imóvel para abrir a Joalharia Ferreira Marques na Praça D. Pedro IV, no Rossio, e dar àquela morada onde funcionava uma loja de roupa de homem uma fachada marcante, talvez não imaginasse que esta permaneceria a funcionar para além da sua própria vida: um século. É natural que um empresário queira chamar a atenção para o seu negócio, mas os efeitos do tempo não estão nas suas mãos. O que ocorre é que até aos dias de hoje, a fachada em Arte Nova inspirada no metro de Paris continua a ser o cartão de visita de um espaço que guarda preciosidades – e não estamos a falar só do valor financeiro das suas joias.
Os vários armários-vitrina e o balcão de madeira, ambos com vidros e espelhos, têm a função não só de expor aquilo que está à venda, mas também de preservar naquele sítio a passagem do tempo. Afinal, aquela joalharia resistiu aos acontecimentos que marcaram a história do mundo, como a Segunda Guerra Mundial, e, a nível local, a Revolução de 25 de Abril de 1974 — e também aos gostos e desgostos económicos dos clientes. Estes factos históricos são referidos pela gerente da loja, Paula Gião, de 56 anos de idade, que conta com orgulho a história deste que é o seu local de trabalho há onze anos. “É uma loja de luxo, sim, mas é também uma loja de rua com uma história para contar”, pontua.
O luxo a que se refere, no entanto, não está relacionado unicamente com o preço das peças – há brincos, por exemplo, na casa dos vinte euros. Tudo o que ali reluz é de facto registado como metal precioso. Não há joias feitas com minerais antigos nem peças em segunda mão à venda. A equipa que atende hoje os clientes é formada por cinco pessoas, todas com experiência no mercado de luxo. A gerente Paula, por exemplo, trabalhou durante quinze anos em joalharias da Avenida da Liberdade antes de ser convidada pela família Ferreira Marques para integrar a equipa. Mas o futuro da loja com0 a conhecem até hoje não é uma garantia.
O segredo para manter as portas abertas por 100 anos, menciona Paula, são “a boa gestão familiar e o respeito enorme pelos parceiros comerciais”, mas há uma ameaça ao desejo de continuar de portas abertas: a subida das rendas. Uma ação de despejo movida pelo senhorio (uma empresa proprietária de todo o edifício) foi julgada improcedente em primeira instância pelo Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa neste mês. O título de “Loja com História” que a Ferreira Marques detém não impede o seu fecho, mas foi um argumento apresentado para evitar que este ocorra. O caso segue na justiça. “O senhorio está a fazer a parte dele. E nós vamos lutar pela nossa. Temos noção de que toda a luta e conquista vão ser boas não só para lojas como a nossa, mas para o comércio em geral”.
▲ As características mais marcantes da loja são mantidas há cem anos: das colunas e lustres ao mobiliário
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A Baixa ainda estava longe de ser a “zona premium do turismo” quando este negócio ali começou, recorda. A localização privilegiada facilita o acesso de clientes do mundo todo, mas não há só estrangeiros a fazer pedidos. Quando a reportagem do Observador visitou a loja, podiam ouvir-se clientes de diferentes faixas etárias a entrar na loja a falar português. E há ainda aqueles que falam as mais variadas línguas e que passam, na maioria dos casos, só para espreitar as montras organizadas por cores e estilos de peças. “Não somos uma loja para o turismo”, sustenta Paula. Com esta afirmação, a gerente explica que o comércio não repele os turistas, mas que aprendeu com a pandemia de Covid-19 a não ser refém do público estrangeiro. Foi este o único período em cem anos em que as portas da Ferreira Marques estiveram fechadas ao público. “Se tivermos o turismo como base, a loja não vai ser para sempre. Temos essa consciência”, afirma.
O tempo do desenho ao desenvolvimento de uma peça nova, por exemplo, pode chegar a três semanas. Na loja, o primeiro rascunho do desenho de uma peça é feito pela equipa. Depois, um dos três ourives parceiros do espaço avalia se é possível colocar em prática aquilo que estava na imaginação do cliente. Em caso positivo, é feito um molde em cera. “Todos os detalhes são alinhados com o joalheiro, que depois faz a fundição e cravação de pedras, por exemplo”, explica Paula. Não há naquele espaço um atelier ou ourivesaria, esclarece a gerente, devido ao facto de não ser permitido o manuseamento de maquinário com fogo naquela morada.
Os meses de maio, abril e todo o verão são os períodos mais prósperos para este nicho, revela Paula. É quando ocorrem as primeiras comunhões e a maioria dos pedidos de noivado. Mas quem deseja levar uma das peças como recordação de viagem e não tem muitos dias em Lisboa também pode fazê-lo. Muitos escolhem pequenos berloques de ouro para a compra que “marca a visita a Portugal”, diz Paula. Se a escolha for por uma peça que necessite de ajuste, como é o caso de anéis, tal pode ser feito de forma mais rápida do que desenvolver uma joia desde o início. As filigranas, expostas numa montra só delas, também estão entre as mais escolhidas. “As pessoas gostam da especificidade da técnica. E quando sabem que é tudo feito à mão, torna-a ainda mais especial”.
Se no início eram as pratas decorativas que faziam sucesso – e que hoje ocupam uma montra repleta de molduras num canto e o balcão central da loja, ao lado dos primeiros catálogos de produtos – hoje o destaque vai para relógios, sendo os discretos os mais desejados. Há variedade de modelos e principalmente de preços: os mais baratos estão na faixa dos 150 euros, e há aqueles que chegam aos 22 mil euros. “Vendemos um bocadinho de tudo para poder atender a todos”, explica. Artistas internacionais da música e atores brasileiros estão entre os clientes das peças mais caras. O nome destes, entretanto, é guardado num cofre, tal como as joias mais preciosas.
▲ Desenhos de joias feitos à mão; montras de relógios, pratarias e joias
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Os únicos atores de que se tem prova da passagem pela joalharia são aqueles que aparecem em cenas dos filmes 007 – Ao Serviço de Sua Majestade (1969) e Singularidades de uma Rapariga Loira (2009), ambas as produções tiveram rodagens naquela loja. No grande ecrã, o público assistiu ao único casamento de James Bond (George Lazenby), que no sexto longa-metragem da franquia visita a loja com a Condessa Teresa di Vicenzo (Diana Rigg). Mas não só as celebridades têm aquela morada como o sítio para escolher um anel ou mesmo para o pedido de casamento, que fazem parte da rotina dos funcionários. “Presenciar pedidos de casamento e momentos bonitos entre casais faz-nos acreditar que não é só nos filmes que há histórias bonitas”, diz Paula. “Vendemos peças que não são só um investimento. São criações que assinalam momentos importantes da vida das pessoas”.
A ligação das joias exclusivamente com as histórias de amor romântico é algo que ficou no passado. Há quem vá às compras também para marcar momentos importantes da própria vida – e que não têm a ver necessariamente com matrimónios. “Há cada vez mais mulheres a fazer uma festa consigo próprias, a presentearem-se com joias. É uma forma de fazer jus àquelas que não foram capazes de fazê-lo no passado”, afirma. Entre os exemplos que Paula recorda, estão pessoas que deixam de fumar, aquelas que ultrapassam doenças e também as que acabam um curso e querem comprar uma prenda para elas próprias. No fim da compra, podem ainda brindar com uma das opções de licores portugueses (ou vinho do Porto) ali oferecidos.
A venda de relógios teve início quando o bisneto de Adriano Ferreira Marques, José Filipe Ferreira Marques da Guerra Maio, se juntou nos anos 2000 à gestão que estava ser conduzida pela sua mãe, Isabel Maria Ferreira Marques. Os donos do negócio (que está na sua quarta geração da família) costumam passar pela loja, mas confiam os procedimentos do dia a dia nas mãos da equipa. A sua estrutura (desenhada pelo arquiteto Manuel Joaquim Norte Júnior, responsável também pelos cafés Nicola e A Brasileira, pela Pastelaria Versailles e a Joalharia do Carmo) foi preservada ao longo dos anos. Permanecem de pé e bem cuidadas as colunas em mármore verde italiano, os frescos pintados na parede e os tetos em estuque com seis lustres pendentes. Na altura, era a forma que Adriano encontrou para trazer para Lisboa aquilo que considerava o charme parisiense.
▲ A gerente Paula Gião representa o legado da família Ferreira Marques
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Hoje, a visita ao salão é como uma viagem no tempo – a banda sonora composta por música pop, entretanto, quebra a atmosfera da antiguidade. “Não somos uma loja velhinha com velhinhos dentro a atender”, ri Paula, que admite caminhar pela cidade a observar o que as pessoas andam a usar e o que estão os concorrentes a expor. “Há os clientes que gostam daquilo que é tradicional ou que imita a antiguidade, mas preocupamo-nos também em atualizar a nossa montra”, diz. Este processo passa por evitar a acumulação de stock. “Desta forma é mais fácil adaptarmo-nos para o futuro e para qualquer tipo de pedido”. Na última década, a loja começou também a voltar os seus olhos para a joalharia contemporânea e de autor. Paula cita como exemplos Sara Maia e Bruno da Rocha, artistas cujas peças são “muito originais, intemporais e marcantes”.