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Nicolas Cage é Drácula no novo filme inspirado no romance de Bram Stoker. Renfield é interpretado por Nicholas Hault
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▲Nicolas Cage é Drácula no novo filme inspirado no romance de Bram Stoker. Renfield é interpretado por Nicholas Hault

▲Nicolas Cage é Drácula no novo filme inspirado no romance de Bram Stoker. Renfield é interpretado por Nicholas Hault

Pode um monstro antigo como Drácula render-se aos tempos modernos?

A nova adaptação de "Drácula", com Nicolas Cage e Nicholas Hault nos papéis principais, aborda temas atuais numa tentativa mais ou menos falhada de trazer a história de Bram Stoker para o século XXI.

Numa reunião de codependentes em Nova Orleães, Robert Montague Renfield ouve em silêncio as histórias dos participantes. Ele próprio está numa relação tóxica, mas não se sente ainda capaz de se libertar. Há 100 anos que trabalha para Drácula, o lendário vampiro da Transilvânia, levando-lhe vítimas e deixando a sua capa na lavandaria para ser limpa a seco. Houve vários momentos em que pensou em deixar o seu trabalho como fiel criado mas, como é comum numa relação de codependência emocional, convenceu-se sempre que o conde era capaz de mudar.

A dependência emocional de Renfield e a sua luta diária para se libertar da situação precária em que se encontra é o eixo central da nova adaptação de “Drácula” que, ao contrário do que é habitual, tem como título o nome do ajudante do famoso vampiro. Porque é ele, não Drácula, que é a personagem principal. Partindo da história original, o filme, uma comédia de terror com Nicolas Cage no papel de Drácula e Nicholas Hoult no de Renfield, aborda questões muito atuais e prementes, como os relacionamentos tóxicos e os seus efeitos, nomeadamente na autoestima. Fala ainda do tráfico de droga, da violência exercida pela máfia e da corrupção policial na América contemporânea. É uma espécie de hino ao empoderamento e à autodeterminação, que nunca poderia ter sido feito noutra altura pela centralidade que estes temas tomaram na discussão pública recente.

[O trailer oficial de “Renfield”, que estreia em Portugal a 27 de abril:]

Realizado por Chris McKay e escrito por Ryan Ridley com base de uma história de Robert Kirkman (“The Walking Dead” e “Fear the Walking Dead”), “Renfield” transforma uma personagem pouco significante no universo de “Drácula” num herói inspirador. No romance de Bram Stoker, e também na maioria das suas adaptações, Renfield é a primeira vítima do conde. É o solicitador enviado para a Transilvânia para fechar o negócio da compra de uma casa em Londres, para onde Drácula se quer mudar a todo o custo. É depois do seu misterioso desaparecimento que Jonathan Harker, empregado na mesma firma e marido de Mina, se desloca até aos Cárpatos, onde acaba por ser também vítima do velho vampiro.

Hipnotizado por Drácula, Renfield torna-se o seu fiel, e algo incompetente, servo. Em consequência da maldição que lhe é lançada, o antigo solicitador desenvolve um ávido apetite por insetos e pequenos animais. Dado como doido durante o seu regresso a Londres, é internado num hospício, onde passa os dias a colecionar bichos e a gritar frases sem nexo sobre o “mestre”. Depois de trair a confiança de Drácula, acaba por morrer às mãos deste. Porém, em “Reinfield”, encontramo-lo vivo e de boa saúde, e bastante consciente, contrariando a versão do “doido” que foi explorada em filmes anteriores, como “Drácula de Bram Stoker”, com um muito alucinado Tom Waits no papel de servo. Nos últimos 100 anos, Renfield atravessou o mundo com Drácula, uma figura malévola mas dependente, mudando de cidade cada vez que o vampiro gastava as suas forças a combater uma nova ameaça e precisava de recuperar. É assim que o par vai parar a Nova Orleães, onde se estabelece num hospital abandonado por não ter fundos para adquirir propriedade própria, como em Londres.

[Tom Waits como Renfield em “Drácula de Bram Stoker”, realizado por Francis Ford Coppola:]

O filme tenta explicar o porquê de Renfield ter caído nas garras de Drácula e ter permanecido ao seu lado durante tanto tempo — mesmo depois da relação se ter deteriorado. O vampiro, cujo maior poder é conseguir reconhecer os maiores medos e desejos dos outros, seduziu-o com promessas de riqueza. Foi por causa delas que Renfield abandonou a família (a mulher e a filha). Manipulador e narcisista, Drácula convenceu-o de que não havia mais ninguém em quem pudesse confiar e que não havia mais ninguém que se preocupasse com ele. “Sou o teu único amigo”, afirma-lhe, no início do filme, convencendo-o mais uma vez a salvá-lo de um grupo de caçadores de vampiros, tarefa que consegue realizar graças aos seus “superpoderes”.

Em “Renfield”, a obsessão do antigo solicitador com pequenos seres não tem nenhuma explicação patológica — os insetos são a fonte dos seus poderes extraordinários, que o fazem lutar como um mestre de kong fu e arrancar cabeças com simples um jeito de mão. Renfield, que guarda os bichos numa pequena caixa em forma de caixão que traz sempre consigo, tem de os comer para ter força para realizar as suas tarefas e também para sobreviver no “perigoso” mundo dos tempos modernos. As cenas de ação em que o servo de Drácula mostra as suas habilidades marciais, aproximam “Renfield” de um filme de super-heróis, género que tem tido grande popularidade nas últimas duas décadas. Apesar de darem alguma dinâmica a um filme que de outra maneira seria bastante parado, são um exagero na forma como foram construídas — por cada pessoa que mata, Renfield faz jorrar litros de sangue. Nem Drácula tem direito a tanto.

▲ O Renfield interpretado por Nicholas Hoult é um homem inseguro que anseia libertar-se do "patrão narcisista"

“Renfield”: o “Drácula” dos tempos modernos?

“Renfield” é a mais recente tentativa da Universal Pictures de ‘modernizar’ o seu catálogo de monstros. Os mais recentes projetos do estúdio responsável por criar clássicos do cinema de terror como “Drácula” (1931) e “Frankenstein” (1931) incluem novas versões de “A Múmia” (2017), com Tom Cruise como protagonista, e de “O Homem Invisível” (2021), com Elizabeth Moss. De acordo com a imprensa especializada, apenas a adaptação de “O Homem Invisível” de 1933 teve o sucesso comercial desejado. “A Múmia” — um estranho cruzamento de história das cruzadas e egípcia com “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde” — foi mal recebido pelos espectadores e ainda pior pela crítica. Segundo a Deadline, teve um prejuízo de 95 milhões de dólares (87 milhões de euros).

A nova versão de “Drácula” estreou a 14 de abril nos Estados Unidos da América. Em Portugal, chega aos cinemas a 27 de abril. De maneira geral, as críticas não têm sido boas. O The Guardian, que deu três estrelas ao filme, destacou o bom aproveitamento da tradição cinematográfica de “Drácula”, mas mostrou-se pouco entusiasmado com a adaptação. O The Verge considerou que os aspetos positivos de “Renfield”, nomeadamente a prestação de Nicolas Cage, não são suficientes para ultrapassar os negativos, declarando que “não é difícil imaginar uma versão do filme que pudesse ser muito melhor”. A BBC, que lhe deu duas estrelas, também chamou a atenção para o ator norte-americano, mas lamentou que Cage não apareça o suficiente “para redimir a lama em que o filme está preso”.

[O trailer oficial da “A Múmia”, com Tom Cruise no papel principal:]

Os lucros têm sido também dececionantes. Segundo a Variety, a estreia foi “particularmente fraca”, com o filme a atingir o quarto lugar na lista dos filmes mais vistos na primeira semana, com um lucro de 7,7 milhões de dólares (cerca de 7 milhões de euros). “É uma estreia morna para uma comédia de terror”, comentou David A. Gross, diretor da Franchise Entertainment Research, um consultora de cinema, em declarações à Variety, destacando que “‘Renfield’ foi uma produção cara” (custou 65 milhões de dólares, cerca de 59 milhões de euros, valor que não inclui os gastos com a promoção). “É uma longa subida até ao lucro”, acrescentou.

Será preciso fazer uma análise mais aprofundada para perceber porque é que “Renfield” não teve o sucesso esperado na primeira semana nos cinemas norte-americanos, como aquela que foi feita pela Deadline sobre “A Múmia”, mas a justificação residirá em parte no facto de o filme falhar a vários níveis. Se é verdade que a atuação de Cage é surpreendentemente boa, com o ator a tirar partido de várias décadas de adaptações cinematográficas de “Drácula” para construir a sua própria versão do famoso vampiro, será também correto afirmar que o filme está demasiado longe daquilo que se espera do género para fazer sentido. O destaque dado a Renfield é uma reviravolta interessante numa história que dificilmente surpreenderia em 2023. Mas a personagem não chega a ser suficientemente cativante, mesmo com os seus golpes de karaté e a tentativa de a colar ao género dos filmes de super-heróis. O resultado é algo no meio — um filme cómico de terror que não tem assim tanta graça e que se parece demasiado com a típica história do herói improvável, que consegue salvar o dia depois de vencer os seus medos e superar os seus traumas.

▲ Nicolas Cage inspirou-se nas versões anteriores de "Drácula" para criar a sua própria versão do famoso vampiro

Apesar disso, o The Guardian não deixa de ter razão quando aponta que “Renfield” é o culminar de décadas de filmes sobre Drácula. Faz-lhes até referência quando, no início, regressa atrás no tempo para contar como Renfield conheceu o “mestre” na sua primeira viagem à Transilvânia, recorrendo para isso a imagens do filme original de 1931 com Bela Lugosi, que foram misturados com takes de Nicolas Cage e Nicholas Hault. Enquanto herdeiro de uma tradição antiga, “Renfield” recupera os elementos que fazem mais sentido nos dias de hoje, transformando-os em algo que grita ‘século XXI’. Nem poderia ser de outra forma. O cinema mudou demasiado e demasiado depressa, e as expectativas dos espectadores são hoje muito diferentes das de quem assistiu à estreia de “Drácula” em 1931. Por outro, os filmes de monstros são sempre um reflexo do contexto socio-cultural que os vê nascer, mesmo que isso não seja logo evidente.

Nas suas famosas sete teses sobre teoria dos monstros, Jeffrey Jerome Cohen afirmou que um monstro é sempre um reflexo de um certo momento cultural — “de um tempo, um sentimento e um lugar”. É a concretização metafórica, mas aparentemente realista, dos medos, desejos, ansiedades e fantasias de um determinado período histórico e cultural. E é por essa razão que é tão inquietante. Um filme como “Renfield” não poderia existir antes porque a caracterização que é feita de Drácula, um “patrão narcisista” sem respeito pelos sentimentos dos seus funcionários, não seria possível noutro tempo. Apenas um contexto que dá destaque a questões relacionadas com a saúde mental, onde se incluem as relações abusivas, podia criar um filme onde a personagem principal não é o vampiro, mas o seu criado. A reviravolta na história original não tem apenas objetivos cómicos; pretende também responder às inquietações da sociedade atual.

[Drácula apresenta-se a Renfield na versão de 1931 de “Drácula”, com Bela Lugosi:]

Para Cohen, um monstro é “uma construção e uma projeção”, que “existe apenas” para ser lida e interpretada. Ou seja, existe apenas para mostrar ou revelar: “O monstro mostra. Mostra mais do que tudo o que é visto, pois mostra o irreal verdadeiro”, escreveu o filósofo português José Gil. Essa revelação é feita através do confronto direto com o monstruoso. O encontro original de Renfield com Drácula faz com que o solicitador mostre as suas fraquezas e medos interiores, que o vampiro usa para o controlar. Da mesma forma, o aparecimento de Drácula em Nova Orleães origina uma cadeira de acontecimentos que culmina na revelação de uma sociedade corrupta e podre onde os heróis são necessários, papel que é preenchido por Renfield e os seus super-poderes. “Os homens precisam de monstros para se tornarem humanos”, concluiu José Gil. Sem Drácula, não haveria Renfield. Sem o mundo tal como é, não haveria este filme.

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