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O treinador leonino chegou ao Sporting em março de 2020, depois de ter dado nas vistas ao comando do Sp. Braga

AFP via Getty Images

O treinador leonino chegou ao Sporting em março de 2020, depois de ter dado nas vistas ao comando do Sp. Braga

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Rúben, o bebe-água, o orelha ratada, o palhação e o ananás que vem com o sumo todo. História do treinador que cedo mostrou ser líder /premium

Ainda miúdo, foi quase sempre capitão, era conhecido por só beber água, revolucionou o Casa Pia e há quem diga que é um "palhação": no melhor sentido da palavra. Rúben Amorim, pelos que o conhecem.

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A ascensão de Rúben Amorim é praticamente meteórica. Depois de começar a carreira de treinador em 2018/19, ainda como estagiário no Casa Pia, ditou o destino que na época seguinte saltasse para o Sp. Braga B, para equipa principal bracarense e, finalmente, para o Sporting. Com a chancela de ter custado muitos milhões aos cofres leoninos, nunca se mostrou receoso, pouco preparado ou esvaziado de objetivos. 

“Sou um profissional e sou fanático por ganhar. O meu foco é defender esta casa, como defendi o Casa Pia. O meu empenho é igual em todos. Sei a grandeza deste clube, fui adversário, não escondo o meu passado. Conheço a grandeza do Sporting. Ninguém aqui quer ganhar mais do que eu e digo-o com toda a tranquilidade. Sou um treinador, uma peça aqui. Não resolvo os problemas todos, se os há. O nosso foco é o treinador e os jogadores. Certamente que seria mais fácil dizer que para o ano vamos lutar pelo título… Mas vamos correr mais do que os outros e no fim fazem-se as contas. O Sporting é o Sporting. Entramos para vencer e no fim logo se vê”, disse Rúben Amorim no dia em que foi apresentado, em frente à porta 10A, em março do ano passado.

Rúben Amorim quer um futuro mas não esconde passado: “Fanático do Benfica? Não. Sou profissional de futebol, sou fanático em ganhar”

Mais de um ano depois, as contas estão feitas. O Sporting é campeão nacional, mais de 19 anos depois, e Rúben Amorim entra para a história do universo leonino como o treinador que encerrou o mais longo jejum do clube. Mas para perceber como é que Amorim se tornou este “fanático por ganhar”, é preciso ir às origens do técnico: desde o início da carreira no Benfica e no CAC Pontinha, os anos bem sucedidos ao serviço do Belenenses, o regresso à Luz e a passagem pelo Sp. Braga e a aposta na passagem para os bancos. Por agora, para Rúben, está a correr tudo lindamente.

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Depois da conquista da Taça da Liga, com o Sporting, enquanto era levantado pelos jogadores

AFP via Getty Images

Os primeiros passos no Benfica e no CAC Pontinha — sempre de braçadeira

Quem melhor do que Bruno Simão para nos contar quem é Rúben Amorim? O defesa-esquerdo — agora central e já explicamos porquê — de 36 anos é um dos melhores amigos e pai da afilhada do atual treinador leonino. “Conhecemo-nos há muito tempo, as nossas famílias dão-se muito bem, jogámos juntos nas escolas do Benfica”, explica ao Observador. Amorim e Bruno Simão conheceram-se com nove anos e, já na altura, o técnico do Sporting dava nas vistas pelos dotes com a bola e com os colegas. “No Benfica, o Rúben foi sempre um dos capitães de equipa, sempre teve sentido de liderança. Sempre foi muito certo, responsável e continua a sê-lo, por isso é que vai continuar a ter as portas de onde esteve sempre abertas”. E a responsabilidade precoce de Amorim fazia notar-se fora de campo, em coisas aparentemente inocentes: “O Amorim nos infantis do Benfica era o bebe-água. Não bebia refrigerantes, era só água, água, água. E ficou o Amorim, o bebe-água”.

Em 1998, João Vale e Azevedo acabou com as equipas B da formação do Benfica. Jogadores e equipas técnicas ficaram sem clube, atraiçoados por uma medida que já foi má na altura e que envelheceu ainda pior. Para além de ter emagrecido gerações inteiras, excluindo jovens que ainda não tinham dado tanto nas vistas mas que faziam parte do projeto encarnado, o então presidente do Benfica terá terminado, logo ali, centenas de carreiras. Rúben Amorim podia ter sido um desses casos. Não foi.

Tal como muitos outros miúdos, acompanhados por muitos outros treinadores, adjuntos e preparadores físicos, o agora treinador do Sporting mudou-se para o Clube Atlético e Cultural da Pontinha. Com ele, a par de muitos outros, foi também Miguel Veloso, que acabaria por seguir para Alcochete em 2000. Rúben só ficou um ano na Pontinha — mas foi o suficiente para ser capitão, ser uma referência e, hoje em dia, ser um dos grandes motivos de orgulho do clube.

"No Benfica, o Rúben foi sempre um dos capitães de equipa, sempre teve sentido de liderança. Sempre foi muito certo, responsável e continua a sê-lo, por isso é que vai continuar a ter as portas de onde esteve sempre abertas".
Bruno Simão, jogador do Oriental e melhor amigo de Rúben Amorim

Ao Observador, o então presidente do CAC Pontinha recordou o antigo jogador, que chegou à equipa com pouco mais de 13 anos. “Era muito educado, calmo, bom jogador. Tinha já a sua personalidade. E já tinha uma grande qualidade técnica e tática. Já se via uma qualidade acima da média e normalmente até jogava sempre com os do ano acima, com os que tinham mais um ano”, refere José Carlos Pires, que até há pouco tempo foi diretor desportivo do Real Sport Clube, de Massamá. A proximidade com a equipa técnica, que tal como ele transitou do Benfica para o CAC Pontinha, facilitou a integração de Rúben Amorim, que acabou por destacar-se ainda mais pela capacidade de liderança que já demonstrava.

“Foi capitão, essencialmente, por uma questão de liderança entre os colegas. Era um aglutinador do grupo de trabalho. Normalmente, nestas idades, existem sempre os líderes das turmas na escola ou os líderes dos grupos. Ele não era bem um líder por força ou algo do género, era um líder porque os próprios colegas o reconheciam como tal”, diz o dirigente, que ressalva também a polivalência que Amorim já tinha e que acabou por ser um dos fatores distintivos ao longo de toda a carreira. “Era muito polivalente. Lembro-me perfeitamente de o diretor do Departamento de Futebol na altura, o Raúl Melo, me ter dito que ele era um jogador muito polivalente, que fazia mais do que uma posição. Os técnicos conheciam-no bem, tínhamos treinadores nossos que tinham estado na formação do Benfica e que conheciam muito bem os jogadores que vieram de lá. Isso teve alguma influência, claro”, acrescenta José Carlos Pires.

Ao fim de um ano, Rúben Amorim deixou o CAC Pontinha. Não por qualquer uma das partes estar insatisfeita — mas porque a família se tinha mudado para Corroios e as deslocações eram incomportáveis. “Fez ali um ano excelente, tanto como pessoa como enquanto jogador, era uma pessoa muito responsável e educada. Era excelente, tal como toda a família”, refere o então presidente. Mas o futebol, tal como a vida, dá muitas voltas. E praticamente 20 anos depois, José Carlos Pires veio a reencontrar-se com o agora treinador Rúben Amorim.

“Quando falava com pessoas ligadas ao futebol, diziam-me sempre que ele tinha muitos predicados para ser um grande líder, que ia ser um grande treinador. Não fiquei admirado quando foi para treinador. No ano em que ele foi para o Casa Pia, eu era diretor desportivo do Real e fomos adversários diretos no Campeonato de Portugal. Quando saiu aquele caso do processo [Amorim foi suspenso por 90 dias e o Casa Pia perdeu seis pontos porque o treinador, como estagiário, deu indicações durante um jogo], o Real está para subir e tem não sei quantos pontos de avanço em relação ao Casa Pia. Quando saiu a decisão do TAD, que devolveu os pontos ao Casa Pia, é o Casa Pia que sobe. Cheguei a conversar com ele, reencontrei-me com ele”, conta, acrescentando que o treinador teve em Pina Manique a mesma função de “aglutinador” que anteriormente tinha tido “entre os miúdos”.

Ao serviço da Seleção Nacional, onde cumpriu 14 internacionalizações e participou nos Mundiais de 2010 e 2014

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Embora assuma que “não estava à espera” de que o técnico chegasse à Primeira Liga em dois anos — muitos menos de que conquistasse o título em tão pouco tempo –, José Carlos Pires garante que sempre existiu a ideia de que Amorim era “muito bom” para o nível do Casa Pia ou do Campeonato de Portugal. “Não é tirar-lhe valor, mas sei o que é o mundo do futebol e sei como giram estas situações das entradas e das saídas de treinadores e não estava à espera de um salto tão grande. Quando o vejo no Sp. Braga B, não me admirou nada, estavam no Campeonato de Portugal como o Casa Pia, era uma competição semelhante, e as informações que tinha do Casa Pia era de que ele era muito bom para aquele nível, que ia ser um grande treinador. Agora, chegar à primeira divisão em dois anos…”, explica, acrescentando que o treinador beneficiou do facto de ter continuado a trabalhar com os dois principais adjuntos, Carlos Fernandes e Adélio Cândido, que já o acompanham desde os tempos de Pina Manique.

Em 2002, Rúben Amorim e Bruno Simão voltariam a vestir as mesmas cores. Por causa do destino ou da cunha de amigo, porque foi o “compadre” do técnico do Sporting que abriu as portas ao que viria a tornar-se uma ligação de seis anos com o Belenenses. “Perguntei-lhe se não queria vir treinar o Belenenses e ele disse logo que sim. Falei com o treinador, disse-lhe que o meu melhor amigo, que jogou comigo no Benfica, era um grande craque, mas estava com o braço ao peito e tinha medo de treinar. O mister respondeu que não havia problema, que podia jogar a central para o proteger. Foi lá treinar e no final o treinador lá reconheceu que eu tinha razão, que ele era craque e eu disse que não havia problema, mas que queria uma comissão”, conta-nos Bruno Simão, que fechou o ciclo da formação como tinha começado, com a mesma camisola que o melhor amigo.

As aventuras do “orelha ratada” e do “cabeçudo”

Quando Cândido Costa chegou ao Belenenses, na época 2006/07, já Rúben Amorim tinha quatro épocas com a Cruz de Cristo ao peito. O agora treinador do Sporting tinha chegado ao Restelo na época 2002/03 e, apesar de ainda ter idade de juvenil, foi logo inserido na equipa de juniores, chegando à equipa principal na época seguinte. Uma caminhada em Belém que durou então seis épocas e que teve pelo caminho vários colegas e amigos. Um deles foi Cândido Costa, que chegava aos azuis no pico da carreira: “Encontrámo-nos em momentos diferentes do nosso percurso. Quando cheguei ao Belenenses, já tinha vários anos de Primeira Liga, enquanto que o Rúben estava a começar. Podemos dizer que no balneário eu fazia parte do grupo das ‘cobras’, das ‘carcaças’, e o Rúben pertencia ao grupo dos ‘miúdos'”, conta ao Observador.

"Foi capitão, essencialmente, por uma questão de liderança entre os colegas. Era um aglutinador do grupo de trabalho. Normalmente, nestas idades, existem sempre os líderes das turmas na escola ou os líderes dos grupos. Ele não era bem um líder por força ou algo do género, era um líder porque os próprios colegas o reconheciam como tal".
José Carlos Pires, antigo presidente do CAC Pontinha

Mas o aparente afastamento por causa da idade — Rúben e Cândido têm uma diferença de quatro anos — rapidamente se dissipou à medida que se foram conhecendo. E a culpa foi muito da personalidade de Amorim. “O Rúben não era o mais ‘palhaço’, essa tarefa era a minha. Mas também não era o mais calmo, não era o mais ‘betinho’, não dizia que não às brincadeiras. Era equilibrado e podíamos contar com ele para quase tudo”. Principalmente quando era para jogar à bola dentro do balneário, diz-nos Cândido Costa: “Nós tínhamos um pequeno campo de futebol lá marcado no chão do balneário e ele era dos que estava lá sempre a jogar e a picar-se com aquilo. Era eu, ele, o Zé Pedro, o Silas, o Gonçalo Brandão, o Eliseu. Já íamos a suar para o treino e o Jorge Jesus não gostava nada daquilo”.

Mas se havia coisas de que Jorge Jesus não gostava, Rúben Amorim não era uma delas. Cândido Costa conta que a inteligência de Rúben Amorim em campo era tão evidente que obrigou mesmo a mudanças táticas na equipa. E a afastar pesos-pesados do onze inicial do Belenenses. “Na altura, o Rúben tinha forte concorrência. Havia um brasileiro que jogava na posição ‘6’ que era fortíssimo, o Sandro Gaúcho. Para terem noção, na segunda época ele saiu daquela posição para o Rúben entrar, foi uma roda de peões”, explica. Mas não eram apenas as qualidades táticas que mostravam a inteligência de Rúben Amorim: “Ele fazia muito bem imitações, imitava muito bem o Jesus. E só consegue fazer imitações alguém que é inteligente”, refere o antigo jogador.

Ainda assim, a “inteligência” e “elegância” de Rúben Amorim detetadas por Cândido Costa não foram suficientes para prever o papel de treinador. Ao Observador, o antigo jogador do FC Porto admite que nunca pensou ver o “miúdo” como técnico. “Devia ter estado mais atento. Era um excelente gestor de tudo e mais alguma coisa no balneário. Mas não pensei nisso, imaginava mais o Silas nesse papel, por exemplo”, reconhece. No caso de Silas acertou. E quem diria que teria sido mesmo o antigo número 10 do Belenenses a anteceder a Rúben Amorim no banco do Sporting — e até a “apresentá-lo”, na conferência de imprensa em que confirmou a sua saída de Alvalade.

A jogar pelo Belenenses, em 2007/08, contra o Bayern Munique. Nesta época, a equipa do Restelo foi à Taça UEFA depois de ter terminado o Campeonato no quinto lugar

Bongarts/Getty Images

Tudo isto não previu Cândido Costa mas garante que nunca lhe escapou a amizade que Rúben Amorim tem com os colegas. Uma amizade que, acredita, passa também agora para os jogadores. “Ele sabe que só vai ganhar se fizer felizes os jogadores. E ele fez um grupo à imagem dele. Mesmo os que estão no banco sentem as dores dos colegas, são participativos. Há grupo ali”, indica. Um grupo diferente daquele que tinham Rúben Amorim e Cândido Costa no Restelo mas semelhante ao nível da amizade, que vai ficar para sempre: “Ainda hoje, quando o encontro, já sei o que lhe chamar. Orelha ratada. É que ele tem um bocado da orelha comida. Não sei se agora, com todo o mundo e dinheiro que ganhou, se já pôs uma orelha nova. Mas ele tinha uma orelha que parecia que tinha sido comida por um rato. E depois ele não se ficava e chamava-me nomes, chamava-me ‘cabeçudo'”, recorda, entre gargalhadas, o agora comentador televisivo.

Cândido Costa e Rúben Amorim jogaram juntos duas épocas no Belenenses. Os caminhos separaram-se em 2008/09, quando o Orelha Ratada deixou para trás o Cabeçudo e foi para a Luz. Cândido ainda ficaria mais dois anos no Restelo, terminando depois a carreira em Ovar. Mas, para Rúben Amorim, as grandes aventuras da carreira só estavam ainda a começar.

O “brincalhão” no balneário que cresceu com as lesões

Quim deixou os relvados em 2018, com 43 anos. Fez carreira no Sp. Braga e no Benfica, com dois períodos distintos pelos minhotos, e quando assinou pelo Desp. Aves, em 2013, estava longe de imaginar que ainda ia viver um dos momentos mais emocionantes de todo o percurso. Os primeiros quatro anos pelos avenses, em que foi titular absoluto na baliza, foram passados na Segunda Liga: à beira do verão de 2017, a equipa que era na altura orientada por José Mota carimbou a subida à Primeira e saltou para o principal escalão do futebol nacional. Um ano depois, numa final da Taça de Portugal muito marcada pela invasão da Academia de Alcochete nessa semana, o Desp. Aves derrotou o Sporting no Jamor e conquistou o primeiro troféu da história do clube. Quim, capitão, ergueu a Taça e terminou ali a carreira.

Ora, por tudo isto e muito mais, o antigo jogador e atual treinador de guarda-redes do Rio Ave é uma das figuras míticas da história recente do futebol português. E, curiosamente, cruzou-se com Rúben Amorim tanto no Benfica, clube que o médio representou de 2008 a 2015, como no Sp. Braga, onde o agora técnico leonino esteve época e meia a título de empréstimo dos encarnados. “Ele era aguerrido dentro de campo, fora de campo não. Fora de campo, como colega, é um colega fantástico. Colega de grupo, de equipa, que dava alegria com o seu bom humor, com a sua disponibilidade para ajudar. Dentro de campo é que era mais aguerrido, agressivo, no bom sentido. Podia ter feito uma carreira bem melhor mas, infelizmente, teve algumas lesões que não o ajudaram. Mas conseguiu uma carreira muito bonita, jogando ao mais alto nível”, conta o ex-guardião ao Observador.

"Ainda hoje, quando o encontro, já sei o que lhe chamar. Orelha ratada. É que ele tem um bocado da orelha comida. Não sei se agora, com todo o mundo e dinheiro que ganhou, se já pôs uma orelha nova. Mas ele tinha uma orelha que parecia que tinha sido comida por um rato. E depois ele não se ficava e chamava-me nomes, chamava-me 'cabeçudo'".
Cândido Costa, antigo jogador

Quim acaba por ter uma versão contrária à habitual — de forma inversa ao que foi dito e repetido por muitos, de que era notório que Rúben Amorim iria dar treinador, o antigo guarda-redes garante que ficou muito surpreendido com a decisão do amigo. “Sinceramente, foi uma surpresa para mim. Não estava à espera, não o via como treinador. Sou muito amigo dele, dava-me muito bem com ele e aquela maneira de ser, muito brincalhão… Não o estava mesmo a ver como treinador, porque quando olhamos para um treinador, tem de ser um indivíduo com uma postura assim mais séria, sem brincar. Há momentos para tudo e um treinador tem que saber estar, quando é para brincar, é para brincar, quando é para a falar a sério, é para falar a sério. E o Rúben era um jogador de balneário, de brincar com toda a gente, de alegrar. Não o estava a ver fazer uma carreira como treinador. Mas, felizmente, ainda está no início. E que início!”, atira Quim, entre várias gargalhadas.

Perguntamos ao antigo internacional português se Rúben Amorim, tal como José Carlos Pires referiu, continuou a ser um “aglutinador” depois de crescer. A resposta é simples: “Não tenho a menor dúvida”. “Ele unia o grupo, quem estava próximo dele estava sempre alegre, não havia momentos sem conversa porque ele estava sempre a conversar, sempre a alegrar. Acredito que agora, como treinador, isso também o ajude muito. A união do grupo, quando estão todos a remar para o mesmo sentido, ajuda muito. E isso não é fácil de conseguir no futebol. O Rúben tem incutido isso nos jogadores, já foi jogador, sabe como é que eles pensam, como é que reagem, e isso tem ajudado imenso na carreira dele”, acrescenta. Tal como quase toda a gente, Quim recorda Amorim como um polivalente — mas não acredita que essa característica tenha sido mais prejudicial do que benéfica.

“A disponibilidade dele era dentro de campo e era fora. Ele queria estar sempre que possível e fora de campo era igual, como amigo e como colega. Dentro de campo, a polivalência dele, poder jogar em algumas posições, é necessária em plantéis. Ajudava nesse aspeto, porque a equipa precisava e ele estava disponível e estava habituado a ajudar em qualquer posição. Vimo-lo a fazer várias posições no Benfica e fazia sempre muito bem, como trinco, como lateral. A qualidade tática e técnica dele é a razão de ele ser polivalente. Ele não sabia jogar mal em posição nenhuma porque dominava perfeitamente as coisas”, conta o agora técnico do Rio Ave.

Quim e Amorim foram colegas de equipa durante vários anos no Benfica e no Sp. Braga. Aqui, com a equipa encarnada que foi campeã nacional em 2009/10

LUSA

Para Quim, que acompanhou Rúben Amorim durante muitos anos da carreira do agora treinador do Sporting, as recorrentes lesões que afetaram o antigo jogador acabaram por torná-lo mais forte. “Tem a ver com a maneira de ser dele, de ver as coisas, de seguir em frente, de levantar a cabeça. Acredito que um jogador normal com os problemas que ele teve com lesões atirasse a toalha ao chão e desanimasse. Mas ele olha sempre em frente, mesmo com as adversidades. As lesões prejudicaram-no mas tornaram-no melhor homem, ficou mais adulto. Essas coisas negativas que lhe aconteceram ajudaram-no a seguir em frente e, psicologicamente, a tornar-se uma pessoa muito forte”, completa.

O Casa Pia e os banhos de gelo que não voltaram a ser os mesmos

Rúben Amorim descalça as chuteiras e agarra no bloco de notas em 2018. Ainda sem curso para comandar uma equipa, o antigo médio encontra uma vaga de treinador estagiário no Casa Pia. “Foi o Carlos Pires, o nosso diretor desportivo da altura, que trouxe o Rúben para o Casa Pia. Era para ser estagiário”, conta-nos Ivo Figueira, terapeuta desportivo no clube de Pina Manique há cinco épocas. Ivo já estava no Casa Pia antes da chegada do atual treinador do Sporting e explica ao Observador como foi recebido: “As pessoas já o conheciam. Com o nome dele já havia a esperança de que virasse treinador e foi bem recebido. Foi apresentado como estagiário, mas com os treinos fomos percebendo que era mais do que isso”, lembra.

Desde o início que se sabia que o estagiário não vinha só para tirar notas e foi notório logo no primeiro treino. Ivo Figueira dirigiu-se a Amorim e perguntou-lhe se tinha alguma sugestão de mudança sobre a preparação física dos jogadores e as alterações começaram logo com os banhos de gelo. “No primeiro dia de treinos disse-lhe: ‘Olha, Rúben, aqui fazemos o banho de gelo às sextas. Não sei se queres mudar alguma coisa’. Ele olhou para mim, com aquela cara e perguntou ‘sexta-feira? Não. Todos os dias!’. Até fiquei atrapalhado! Não conseguíamos ter gelo todos os dias, tínhamos de comprar. E ele continuou: ‘Ivo, não te preocupes. Se o gelo aparecer todos os dias, vocês têm capacidade para fazer gelo todos os dias?’. Ainda hoje fazemos mais do que um dia de banho de gelo. A ideia de fazer só à sexta já está de parte”, garante o terapeuta.

"Vimo-lo a fazer várias posições no Benfica e fazia sempre muito bem, como trinco, como lateral. A qualidade tática e técnica dele é a razão de ele ser polivalente. Ele não sabia jogar mal em posição nenhuma porque dominava perfeitamente as coisas".
Quim, antigo jogador

Ivo Figueira não tem dúvidas: Rúben Amorim deixou marcas no Casa Pia. Antes de começar a época, o ainda treinador estagiário mudou por completo o esquema de treinos da equipa. “Acabou com os treinos à noite. No ano em que ele chegou passámos a treinar de manhã”, confessa o terapeuta desportivo. Os jogadores que não conseguiam conciliar o futebol com outras ocupações foram dispensados e muitos não ficaram para ajudar o Casa Pia subir para a Segunda. “O Zinho [Fonseca] estava cá há 15 anos e não conseguiu abdicar do trabalho mas compreendeu que era um passo necessário para o Casa Pia”, explica.

Apesar de todas as mudanças repentinas na realidade de um clube, Pina Manique não esconde o carinho por Amorim. O técnico acabou por não terminar o estágio no Casa Pia por culpa de uma guerra com a Associação de Treinadores e preferiu sair pelo próprio pé, por respeito ao clube. “A despedida não foi fácil e muitos pediram para que ele continuasse a dar indicações a partir da bancada, mas ele disse que não fazia sentido e que não era justo”, explica Ivo antes de garantir que o técnico continuou atento ao percurso do Casa Pia e fez questão de ligar quando conquistaram o Campeonato Nacional de Seniores frente ao Vilafranquense. “Deu os parabéns a todos e eu disse-lhe que tinha muita mão naquilo. Ele respondeu que a conquista era só nossa”, refere o terapeuta.

Um treinador que “dava duras”, mas que sabia unir o grupo e fazer com que todos desejassem mais. E sobre o Campeonato conquistado no Sporting? “É merecido”, garante Ivo Figueira, que é outro que não acredita na história da estrelinha. “Pode ter estrelinha, mas ele é que a procura. Ele procurou o gelo e todos os dias íamos buscá-lo”. O terapeuta acredita que Rúben Amorim pode chegar ao estrangeiro, confessa que gostava de o ver a levantar uma Liga dos Campeões mas, acima de tudo, garante que o Rúben de amanhã não vai ser diferente do Rúben do Casa Pia. “É estranho falar assim de um treinador. Eles são todos mais ou menos iguais, têm ideias e maneiras de ser semelhantes, mas o Rúben… O Rúben é diferente”, atira.

Num treino do Sp. Braga, ao lado de Custódio, que acabou por substituí-lo tanto no comando da equipa B como da equipa principal dos minhotos

Paulo Jorge Magalhães

E como não há duas sem três, quis a vida que os “compadres” voltassem a cruzar-se. No início de 2018, Bruno Simão tem um acidente grave de mota que o colocou em coma no hospital. Depois de muitos meses de luta conseguiu recuperar e tentar a sua sorte. Rúben Amorim tinha começado o estágio de treinador no Casa Pia e Bruno ligou ao melhor amigo. “Não precisas do melhor lateral esquerdo da divisão?”, perguntou Bruno Simão, atualmente ao serviço do Oriental, a Amorim. O então treinador estagiário do Casa Pia respondeu negativamente. O acidente e a recuperação do amigo pesaram, tal como o facto de já contar com três laterais canhotos no plantel. “Aceitei bem, sem problema. Desejei-lhe toda a sorte do mundo e disse-lhe que sabia que ia ser um grande treinador”, lembra. Bruno Simão continuou a treinar sozinho e a publicar essas sessões nas redes sociais até que, duas semanas mais tarde, recebeu um telefonema de Amorim — para perguntar como estavam a correr os treinos. “Já sabia que trazia água no bico”, diz. E trazia, de facto. Anos mais tarde, o Casa Pia contava com os “compadres” mas, desta vez, um era treinador e o outro jogador. “Ele garantiu que ia exigir mais de mim do que aos outros”, conta Bruno Simão.

A aventura não começou bem. O Casa Pia perdeu os dois primeiros jogos e Rúben Amorim decidiu mudar o esquema tático. “Reuniu os jogadores, reconheceu que podia ser mais complicado para alguns, mas explicou que íamos passar a jogar com três centrais”, lembra Bruno Simão. Adaptado a central mais à esquerda, muito do jogo do Casa Pia passava pelo amigo do mister e os resultados e o entrosamento começaram a aparecer. “O meu irmão [David Simão] foi ver um dos nossos jogos e disse: ‘Vocês jogam de olhos fechados, dá gosto estar na bancada, jogam muito’. Jogávamos muito à bola”, atira Bruno Simão.

Já como treinador do Sp. Braga, onde acabou por conquistar uma Taça da Liga antes de rumar ao Sporting

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A mudança no esquema encaixava no nível de exigência que Amorim levava para a equipa. “Ele exige a toda a gente. Não há hipótese nenhuma”, explica Bruno Simão, ainda que reconheça que há tempo para tudo. “Ele é um ‘palhação’ do tamanho do mundo, não há pai para ele. Era assim como jogador, é assim com a família e com os amigos, e é assim como treinador. Tem os jogadores todos do lado dele. E é esta faceta aglutinadora do treinador surpresa da época que faz a diferença para o seu professor. “Ele tem muito do seu professor, o Jorge Jesus. O Jorge Jesus é, de facto, muito bom, mas ele tem o ananás e o Amorim vem com o sumo todo. O Amorim ganha na parte humana. Tem o trabalho, o rigor, mas o conhaque sempre fez parte da vida dele”, detalha.

Um confesso benfiquista, Bruno Simão reconhece que este ano torceu pelo melhor amigo e pelo sucesso do maior rival. Para o “compadre”, o título do Sporting é merecido e também rejeita falar na tal estrelinha de Amorim. Na hora de perspetivar o futuro de quem tão bem conhece, Bruno é claro: a chamada para o estrangeiro não vai demorar muito. “Qualquer treinador queria tê-lo e agora qualquer clube vai querer contar com ele. Tenho a mensagem que lhe enviei: ‘Tu vais dar cartas e vais ter muito sucesso como treinador’. Ele está a prová-lo e o estrangeiro começa a chamar. Aposto tudo o que não tenho em como não fica cá por mais de duas épocas”.

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