Shain Shapiro fundou a consultora Sound Diplomacy e é também diretor executivo do Center for Music Ecosystems. Antes, trabalhou em Londres com Boris Johnson e a proximidade com o poder local fê-lo perceber como tais instrumentos públicos poderiam ter influência na mudança da vida das pessoas. Gostando de música e vendo a paisagem a mudar – clubes a fecharem, rendas a subirem – Shapiro tentou perceber o que poderia fazer para alterar a relação do cidadão com a música na cidade onde vive.
O resultado está em O Lugar Onde Quero Estar (editado em Portugal numa parceria Scarlet Bloom/Lusitanian), uma reflexão sobre o lugar e a função da música (e tudo o que lhe está associado) na construção de melhores sítios para se viver. Shapiro partilha experiências e percalços em algumas das cidades onde apresentou um plano para desenvolver a música e a respetiva economia em contextos urbanos específicos. Que plano é esse? Em que situação estamos? O que precisamos de mudar? Falámos com o autor sobre isso.
No seu livro dá a entender que as autoridades e entidades responsáveis muitas vezes estão demasiado distantes da importância da música na vida social. O que é que cidadãos e políticos não percebem sobre música nas cidades?
Não percebem o papel e o impacto que a música pode ter nas suas decisões, quando pensam em criar uma cidade melhor e mais desafiante. Um bom exemplo é quando os cidadãos se queixam do barulho no seu bairro, mas querem viver num bairro vivo e animado. Essas queixas estão quase sempre relacionadas com música. Isso tem a ver com planeamento e desenvolvimento de uma cidade e, claro, isso está a acontecer por causa de uma série de decisões que levaram a coisa até ali. A música acaba só por ser um alvo fácil, não é? O que se pode fazer é reverter o processo, porque a música é algo que toda a gente percebe, por isso é fácil falar sobre música.
E é necessário explicar isso aos políticos?
Sim, para que percebam como funciona. E como é que esta realidade pode encaixar numa comunidade, onde é que está o espaço para a música. A partir daí, podem tomar-se melhores decisões, mais informadas, na esperança de que haja menos pessoas a queixarem-se do barulho, por exemplo. A música é também um barómetro para perceber o quão um município ou uma qualquer comunidade investe nos seus cidadãos. Por exemplo, a educação musical é essencial para a música entrar na nossa vida quando somos novos. E isso não é sobre música, é sobre desenvolvimento cognitivo. É sobre, também, cuidados de saúde. É sobre como juntar pessoas. Descobri que é mais sobre como se pensa a música, como se a programa e educa. Os resultados são muito melhores quando uma câmara investe nas pessoas que vivem numa comunidade.
Quando percebeu que este trabalho, esta investigação, tinha impacto nas cidades?
Antes de mais, nunca pensei que iria ser possível. E não aconteceu de repente, foi algo que foi evoluindo a partir de trabalhos com dados concretos, à procura da melhor forma para os explicar. Contudo, sempre acreditei que a música é mais poderosa do que as pessoas pensam. A música é um super-herói. Toda a gente a percebe, é algo pessoal para todos, todos temos experiências extremamente particulares com música, mas não a levamos a sério, mesmo a sério, como deveríamos. Não a levamos a sério como algo com potencial económico. Não a levamos a sério em temos geográficos, topográficos, ou até a nível de mapeamento sonoro, para criar melhor planeamento urbanístico. Ao longo do tempo, percebi que poderia explicar melhor esse problema, porque não ganhamos nada se apenas nos queixarmos, é preciso arranjar uma maneira de explicar o problema, porque ele existe e é importante. Como o podemos resolver? Nos últimos 10, 15 anos, tenho-me dedicado a isso.
▲ A capa da edição portuguesa de "O Lugar Onde Quero Estar", de Shain Shapiro
Fica surpreendido que políticos e outros responsáveis o ouçam e lhe deem atenção?
Sim, por vezes. A maioria das pessoas gosta de música e a maioria dessa maioria tem uma relação próxima com música. Nesse aspeto, aqueles que têm responsabilidades são pessoas como todas as outras, também gostam de música, não podemos pensar nelas como pessoas distantes da ideia de terem uma existência familiar como qualquer um de nós. São humanos. Muitos tomas decisões para os seus eleitores, outros só para ganhar eleições. Abordo-os sempre na seguinte perspetiva: há uma forma de tornar este lugar melhor e não custa assim tanto dinheiro. Não estamos a falar de milhares de milhões de euros. Não fico surpreendido com boas reações porque não vou com nenhum preconceito. Talvez o problema seja esse: assumimos sempre tudo de negativo a propósito dos políticos. Tento não fazê-lo.
No livro fala do exemplo de Huntsville, no Alabama, quando deu de caras com a adversidade da população porque souberam o quanto custavam os seus serviços. Alguma vez, nesse processo, sentiu que os seus argumentos não seriam suficientes para convencer a população de Huntsville?
Sempre! Porque era tudo novo, nunca tinha feito aquilo. Em perspetiva, teria feito as coisas de forma diferente. Entro numa situação destas a pensar que toda a gente acredita da mesma forma em música como eu. Por isso, sou motivado por paixão. E isso foi um erro. Estávamos a ser pagos e não era nada astronómico, mas, naquele contexto, as pessoas pensam: vamos mesmo gastar dinheiro nisto? Em paralelo, existem os músicos da cidade, que nunca receberam dinheiro da Câmara. E, claro, ficam a pensar: porque é que estes tipos estão a ser pagos? Não sou do Alabama e comecei a abordagem sem perceber a sensibilidade local. Agora percebo melhor, teria feito as coisas de forma diferente, com menos suposições. Houve alguns erros nas abordagens iniciais do meu trabalho. Agora já não faço suposições, somos muito objetivos em tudo o que fazemos.
O que teria feito de diferente?
Não teria feito uma audição pública no início do projeto. Deveria ter feito só no final, quando teria algo a partilhar. Teria passado mais tempo a ouvir a comunidade, antes de os convocar e explicar o que iria fazer. Penso que estava muito excitado com as possibilidades em cima da mesa, especialmente porque o presidente da Câmara parecia perceber o que iríamos fazer: ainda é o mesmo presidente. Teria feito mais trabalho político. Isso teria sido mais eficiente, no início, do que lançar uma comunicação a falar da nossa estratégia. Ninguém percebeu isso.
Dá seguimento ao que faz? Por exemplo, em Huntsville, continuaram a acompanhar os acontecimentos, as evoluções?
Sim, acompanhamos em todo o lado. Huntsville foi um sucesso, muitas coisas mudaram.
A opinião dos cidadãos mudou?
Recebi a chave da cidade! O maior fabricante de cigar box guitars [guitarras feitas a partir de caixas de charutos] é de Huntsville. Fizeram uma especial para mim. Não sei tocar guitarra, mas é fantástico. E deram-me um prémio. Correu tudo muito bem em Huntsville, fiz grandes amigos lá. Mas tudo aconteceu com desafios, como em qualquer cidade. Claro que nem em todas as cidades resulta, é como aquela analogia do basebol: “no one bats 100”. Isto é, ninguém é perfeito. No baseball, quem bater três em cada dez bolas, já tem direito a lugar no Hall Of Fame.
Como funciona a procura de cidades novas? Como é que identifica problemas?
Temos uma equipa de pesquisa que identifica cidades que possam estar interessadas nos nossos serviços. Temos uma conferência chamada Music Cities Convention, onde não promovemos exatamente o nosso trabalho, mas é a maior convenção do género no mundo. A próxima será em junho, no Reino Unido. E, claro, também recebemos interesse de algumas cidade. É um pouco de ambos. No início, tentávamos falar com toda a gente. Agora temos mais pessoas a procurarem-nos. Fazemos isto há dez anos, a nossa estratégia também mudou, agora precisa de ser mais específica.
Como vê Lisboa? É uma cidade em transformação, insustentável para uma cena musical existir e coexistir com a ideia de “música na cidade”. Contudo, tem alguma tradição musical importante, aliás, até faz parte da forma como se promove.
Planear não é algo que se faça às pessoas, certo? O planeamento de uma cidade acontece em continuidade. Alguns dos problemas de Lisboa – custo de vida, excesso de turismo – acontecem porque ou se escolhe incentivar algo ou desincentivar algo. É difícil incentivar algo quando não sabemos quanto vale, de que forma se pode enquadrar. Temos falado com a Câmara de Lisboa ao longo dos anos e uma das maiores dificuldades é não existir um entendimento robusto do valor da economia criativa de Lisboa. Não estou a falar só de música. E não estou a falar de perspetivas, que são sempre diferentes. Precisamos de dados objetivos e isso é algo que está em falta. Outra coisa habitual em várias cidades ocidentais é valorizar mais o que se passa fora do que dentro de um edifício. Tem de haver uma escolha para gerir as coisas de forma diferente. Não sou um especialista em Lisboa, mas é preciso ver o que está a faltar, se é preciso espaços para ensaios, centros comunitários, clubes para jovens, espaços que possam fazer a diferença. Mas, lá está, sem dados, é dificílimo mudar. Esse é o primeiro passo. Ter bons dados custa dinheiro. Por isso tem de haver, primeiro do que tudo, vontade política.
Muitos músicos britânicos da nova vaga de jazz falam da importância que os centros comunitários tiveram para eles aprenderem um instrumento.
E desapareceram quase todos, entretanto.
▲ Shain Shapiro: "Se o valor real que a música gere fosse pago, acredito que sim, claro, haveria autossuficiência"
Eivind Senneset
Exatamente. Mas vê isso a ser substituído por outra coisa no Reino Unido?
Há um modelo a ser visto, que é através do sistema de saúde. Num sentido mais vasto, um dos objetivos do NHS [serviço de saúde público no Reino Unido] é olhar para o tratamento da saúde e bem-estar mais como algo comunitário e não tanto sobre o ponto de vista do tratamento hospitalar. Por isso, há uma vontade em criar estes centros, que terão cuidados, como médicos de família, mas também estarão atentos à saúde mental e a assuntos ou atividades comunitárias. Uma das ideias é ter a música como uma das componentes desse centro. Uma coisa importante é perceber que a música não é “A” solução. Tem, isso sim, de estar integrada numa solução maior. E, para fazer isso, é preciso ter dados sobre como as coisas funcionam e quanto valem. No Reino Unido, esses dados existem e usamo-los muito. Em Portugal não há uma cidade que tenha uma estratégia para a música e em nenhuma será fácil de implementar qualquer política porque não há dados.
Como se reverte isso?
É preciso liderança. Pessoas como nós têm de fazer parte da política, das câmaras, ou pelo menos estarem em lugares de consultoria. A única forma de mudar é ter a liderança certa. Pode-se promover fado e tudo o resto. Não é uma coisa contra a outra. É difícil ser um crítico de cadeira e eu não gosto de fazer isso. Mas acredito que o que Lisboa deveria construir uma base de dados objetiva, com tudo aquilo que escrevi no meu livro sobre Huntsville. Há muitas oportunidades em Lisboa, é uma cidade incrível. É uma cidade jovem, é mais barata do que outras – talvez para vocês não, mas é – e tem muitas infraestruturas velhas que precisam de algum amor. A cultura, muitas vezes, é uma boa forma de criar renovação.
Já mencionou — e no livro também fala disso — que é difícil demonstrar que a música é um negócio mais lucrativo do que um café, por exemplo. E que os espaços com música, até por tradição e história, são sítios onde se vende álcool. E o álcool é uma desculpa, muitas vezes, para apresentar música. Porque traz pessoas. Vê alguma forma de um local com música subsistir só com isso: música?
Provavelmente não, a uma escala mais pequena. Dever-se-ia investir em eventos para a família, para todas as idades. Desenvolver coisas para toda a família, para todas as idades, é também ótimo para a segurança e desenvolvimento. Mas a música, numa escala de clubes pequenos, precisa de encontrar outras formas se subsistir para ter lucro. É complicadíssimo numa sala para menos de 400 pessoas. Os custos de ter um espaço assim versus o rendimento que essa música traz é irreal, o modelo não funciona. Nunca funcionará. Sobretudo com tudo a ficar mais caro: rendas, despesas correntes. Uma forma é eliminar o custo da renda, claro, que é o que o Music Venue Trust no Reino Unido está a fazer. Se tirarmos esse custo, torna-se muito fácil.
Em todas as cidades em que já trabalhou, nunca encontrou um sítio com essa capacidade que funcionasse?
Há alguns locais onde funciona, claro, mas deve-se àquela comunidade em específico. Há salas que conseguem fazer dinheiro suficiente graças a parcerias com marcas: se houver forma de meter um carro dentro de um clube, conseguem-se muitas parcerias, por exemplo. Mas isso não é bem um modelo…
E voltamos sempre à questão de ter algo extra-música.
Sim, mas não percebo o purismo…
Não é uma questão de purismo, é de autossuficiência. As pessoas pagam por tudo na vida, se calhar deviam pagar mais pela música.
Ah, claro, se o ecossistema for devidamente otimizado. Isso tem a ver com direitos de autor também. Se o valor real que a música gere fosse pago, acredito que sim, claro, haveria autossuficiência. Também acredito que iria gerar um maior interesse em música ao vivo, porque seria mais rentável. Mas o ecossistema geral, como as pessoas são pagas, neste caso, não está otimizado. Acredito que é esse o rumo que as coisas estão a tomar. Só é preciso que mais cidades percebam o valor da música.
Ao que se junta algo de que já falámos, a falta de conhecimento, das pessoas, dos políticos, desta situação.
Falo de água no meu livro, como está disponível a todo o momento e nem pensamos nisso. Damo-la como garantida. É a ignorância da ubiquidade, estou a escrever um novo livro e tenho um capítulo dedicado a isso. Não sei mudar isso e também não quero tirar a música das pessoas. É preciso trabalhar aos poucos, pessoa a pessoa, comunidade a comunidade, cidade a cidade. Fico sempre maravilhado por agora estar aqui a falar e já ter feito isto centenas de vezes pelo mundo. E ao falar com as pessoas apercebo-me de que elas estão dispostas a crescer desta forma, a viver de forma diferente, melhor. E a música tem um papel nisso tudo. O problema é que continuamos a tentar resolver problemas do século XXI com soluções do século XX, em alguns sítios ainda do século XIX.
E vê em algum sítio as mentalidades a mudar, a entrarem de facto no século XXI?
Estou muito entusiasmado com a eleição do Zohran Mamdani em Nova Iorque. E com o trabalho que o Sadiq Khan está a fazer em Londres. Penso que parte da solução passa pelos presidentes das câmaras. Há pouco tempo falei com pessoas de Helsínquia, eles têm um novo presidente que está disposto a mudar as coisas. Ao contrário do que as pessoas pensam, as políticas que mais afetam as nossas vidas são locais, não são nacionais. As pessoas tendem a esquecer isso. O governo não trata da recolha do lixo, são as autoridades locais. Mas é preciso aumentar o diálogo, perceber o problema e ter dados. Ainda faltam muitos dados em muitas cidades. E acredito que se se fizer numa cidade em Portugal, e se os resultados forem positivos, outras cidades seguirão o exemplo.