Os Kansas City Chiefs, liderados pelo quarterback Patrick Mahomes, disputam neste domingo a Super Bowl LIX, a 59.ª finalíssima da liga de futebol americano, pela quinta vez em seis anos. E, porque do outro lado estão os Philadelphia Eagles, esta será uma reedição da Super Bowl que aconteceu há dois anos e que deu ao fãs da modalidade uma das finais mais renhidas de sempre, decidida por meros três pontos (38-35, a favor de Kansas City). Desta vez, contudo, os Eagles têm do seu lado uma arma que pode ser decisiva.
Tal como já tinha acontecido no ano passado, os campeões Chiefs fizeram uma época relativamente low profile, levando muitos comentadores a apostar noutras equipas da mesma conferência – como os Buffalo Bills e os Baltimore Ravens – como mais prováveis candidatos a irem à finalíssima. Mahomes fez o suficiente para garantir um registo de 15 vitórias (com apenas duas derrotas) na época regular, com a grande maioria das vitórias conquistadas por uma “unha negra”.
Mas essa tem sido a fórmula que os Chiefs têm seguido, com sucesso: concentrar todos os esforços em chegar aos playoffs, mesmo que sem grande brilhantismo, e procurar ficar com a “mão quente” a partir de meados de janeiro, quando começa o mata-mata. E assim foi: se no ano passado os Chiefs derrotaram Lamar Jackson e os Ravens para chegar à Super Bowl, desta vez Mahomes levou a melhor sobre Josh Allen e os Bills. E, uma vez mais, o Kansas City está na final.
Na outra conferência (na NFL há duas, a AFC e a NFC) os Eagles começaram mal a época, com duas derrotas e duas vitórias. Mas conseguiram sacudir a ferrugem inicial e iniciaram uma invulgar sequência de 10 vitórias consecutivas que, basicamente, garantiu que estariam novamente nos playoffs este ano – um feito que não é tão fácil quanto pode parecer, na ultra-competitiva NFL.
Green Bay Packers, Los Angeles Rams e Washington Commanders. Uma a uma, todas estas equipas promissoras foram vencidas pelo sufoco imposto pela defesa dos Eagles, uma das melhores da liga. Mas o que faz com que as casas de apostas deem um favoritismo apenas ligeiro aos campeões Chiefs é que, agora, os Eagles têm nas suas fileiras aquele que foi votado como o melhor jogador ofensivo da liga: Saquon Barkley. Conheça esta e as outras vedetas que vão decidir quem acaba esta noite a levantar o troféu, debaixo dos tradicionais confettis.
Chiefs favorecidos? Não é comum na NFL, mas a arbitragem vai estar em foco
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Nunca como nesta última época o trabalho dos árbitros foi tão colocado em causa – um escrutínio desconfiado a que os adeptos de outras modalidades estão habituados mas que não é comum na NFL. A teoria, que ganhou tração nas redes sociais nos últimos meses, é que a NFL – que é tudo menos uma organização sem fins lucrativos – teria dado instruções às equipas de arbitragem para contribuírem ativamente para que os Kansas City Chiefs voltassem a marcar presença na Super Bowl.
E como é que esse alegado favorecimento seria feito? Por exemplo, beneficiando os Chiefs em marcações no terreno decisivas para o desenrolar dos jogos, como aconteceu numa jogada polémica no recente jogo que determinou que seria Kansas City e não os Buffalo Bills a ir à Super Bowl. E, também, protegendo Mahomes como se fosse uma flor delicada, marcando uma falta sempre que um defesa que lhe tocasse com um dedo. Dizia-se o mesmo sobre Tom Brady, há uns anos, mas ainda assim a suspeição agora é maior.
E a prova de que é maior é que, se a NFL nunca comentou as acusações de proteção a Brady e aos New England Patriots, desta vez a liga e o seu presidente – Roger Goddell – vieram a público considerar “ridículas” as teorias de que possa estar a haver um favorecimento aos Chiefs.
Mas porque haveria a NFL de querer os Chiefs na Super Bowl? Talvez, dizem as teorias, porque uma dinastia como esta ajuda a expansão internacional do negócio da NFL, ou porque a liga faz muita questão que os milhões de fãs de Taylor Swift sintonizem o jogo deste domingo.
Jalen Hurts. Segunda finalíssima para o quarterback que era visto como “muito limitado”
Quando os Philadelphia Eagles investiram em Jalen Hurts uma (valiosa) escolha de segunda ronda no draft de 2020, que aconteceu nas primeiras semanas de confinamento, boa parte dos fãs desta icónica equipa da NFL resolveu desancar a gestão do clube nas redes sociais – talvez aproveitando para exorcizar alguma ansiedade pandémica acumulada.
Os Eagles já tinham no plantel um quarterback espadaúdo – Carson Wentz – e os analistas de futebol universitário tinham dado a Hurts avaliações medíocres: “Muito limitado como passador da bola”, “visão de jogo fraca”, “lento na leitura das jogadas” e com “questões de personalidade” – seja lá o que for que isso significa.
▲ Apesar das avaliações medíocres à saída da faculdade, Jalen Hurts está a ter uma ótima carreira e vai pela segunda vez à Super Bowl.
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Ninguém percebeu aquela escolha – e numa sondagem online mais de 60% dos fãs classificaram-na com um “F”, o equivalente a “muito insuficiente” no esquema de notas escolares nos EUA. Mas rapidamente se percebeu porque é que os Eagles se apaixonaram por Hurts: foi porque as suas principais virtudes eram precisamente aquelas que faltavam ao titular Carson Wentz, que passava mais tempo no estaleiro do que em campo: “Duro“, “sofre placagens e nunca se lesiona“, “durável”, elogiavam os olheiros do futebol universitário.
Para surpresa de muitos (embora não todos), rapidamente a consistência de Hurts se impôs aos espaçados flashes de talento de Wentz. Os Eagles convidaram o titular a ir fazer a sua vida para outro lado e Jalen Hurts afirmou-se como um “gestor de jogo” eficaz que sabe que cometer o mínimo número de erros é meio caminho andado para vencer na NFL.
Três anos depois, no início de 2023, já estava a levar os Eagles à Super Bowl. Nessa altura perdeu por três pontos (38-35 contra os mesmos Chiefs) mas, desta vez, Jalen Hurts tem um elenco mais talentoso à sua volta.
Saquon Barkley. O acrobata, afinal, ainda tinha muito combustível no depósito
Se o quarterback dos Eagles não é conhecido por grandes rasgos súbitos de genialidade, Saquon Barkley é o oposto: é uma autêntica fábrica de highlights virais. Senão vejamos:
Ladies and gentlemen, your NFL OPOY Saquon Barkley pic.twitter.com/RRqdnwPi7R
— Devan Kaney (@Devan_Kaney) February 7, 2025
No final da época passada, as limitações impostas pelo teto salarial que existe na NFL obrigou os New York Giants a fazer uma escolha. Tinha chegado a hora de prolongar o contrato de Saquon Barkley – um running back que sempre foi dos melhores jogadores da equipa, desde que os Giants fizeram dele segundo jogador escolhido (na primeira ronda) do draft de 2018. Para conseguir que esse novo contrato coubesse dentro do teto salarial, porém, seria necessário mandar embora o quarterback Daniel Jones, que tinha assinado um controverso contrato de 160 milhões de dólares (por quatro anos).
Fazer caber esses dois contratos dentro do teto salarial seria quase impossível, a menos que se desguarnecesse o resto do plantel. Barkley vinha de algumas lesões complicadas – incluindo um rompimento do ligamento cruzado anterior, em 2020 – e já estava a caminho dos 30 anos (na altura, quase a fazer 28 anos) numa posição de running back que tem sofrido alguma desvalorização nos últimos anos.
Por isso, New York optou por continuar a pagar a Daniel Jones e deixar sair o amargurado Saquon Barkley, que sempre disse que queria fazer a carreira toda nos Giants. Com o passe na mão, o running back assinou pelos rivais Eagles, que jogam na mesma divisão (as 32 equipas da NFL estão divididas entre oito divisões de quatro equipas cada) que os nova-iorquinos.
▲ Saquon Barkley, quando ainda estava ao serviço dos New York Giants, afirmou-se como um dos melhores "running backs" de sempre.
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Avançando a fita em cerca de um ano, Saquon Barkley foi nesta última semana votado o melhor jogador ofensivo de toda a liga, mostrando que, afinal, ainda tinha muito “combustível” no “depósito”. A saída para os Eagles, uma organização sólida e bem gerida, foi mesmo aquilo de que Barkley precisava para ressuscitar uma carreira que sempre foi travada pela disfuncionalidade geral que tem caracterizado os Giants. Ah, e, a propósito, os mesmos Giants, entretanto, já cortaram laços com Daniel Jones, a meio de mais uma época dececionante.
No seu primeiro ano com os Eagles, Barkley tornou-se o nono jogador na história da NFL a ultrapassar as 2.000 jardas em corrida numa única temporada, firmando um novo recorde na história de Philadelphia. Aliás, uma em cada três jardas (34,8%) obtidas por toda a equipa dos Eagles, ao longo da época, foi conquistada por Barkley, que também contribuiu com 15 touchdowns. Pelo meio, brindou a NFL com uma das corridas mais acrobáticas da história da liga (a que está no tweet acima).
Se conseguir 30 jardas nesta Super Bowl, o que é altamente provável, Saquon Barkley vai bater o recorde estabelecido por Terrell Davis quando, em 1998, ao serviço dos Denver Broncos, se tornou o jogador com mais jardas em corrida numa só época (numa altura em que, sublinhe-se, o campeonato tinha menos jogos). “Estou muito próximo de quebrar todos esses recordes, mas nada disso importa se não ganharmos a Super Bowl“, afirmou o rejuvenescido Saquon Barkley.
Patrick Mahomes busca o quarto anel de campeão. E ainda nem chegou aos 30 anos
Em contraste com Jalen Hurts, quando Patrick Mahomes se apresentou ao draft da NFL foi logo descrito como alguém que poderia ter sucesso na NFL. Aliás, caso Mahomes não se tivesse tornado um dos melhores jogadores da liga de futebol americano, provavelmente hoje seria uma vedeta da Major League Baseball (MLB) – a liga de beisebol onde esteve o seu pai, Pat Mahomes. Nos primeiros anos da faculdade, o jovem Mahomes praticava os dois desportos e só mais à frente se focou apenas no futebol americano.
Ainda assim, apesar do sucesso ao serviço de Texas Tech, uma das principais equipas do futebol universitário, Mahomes foi apenas o segundo quarterback a ser escolhido no draft de 2017. O primeiro, Mitch Trubisky, tem tido uma carreira incomparavelmente mais discreta: além da diferença de talento entre os dois, Mahomes também beneficiou de ter chegado à liga sem a pressão que foi imediatamente colocada em cima de Trubisky (a quem desde o primeiro dia se pediu que carregasse às costas os Chicago Bears).
Quando o jovem Mahomes chegou a Kansas City, no Missouri, a equipa tinha na posição mais importante do jogo Alex Smith – um veterano que teve uma carreira respeitável embora nunca tenha sido mais do que um ótimo “gestor de jogo”. Um pouco à semelhança de Jalen Hurts, dos Eagles, Smith primava sobretudo pela raça que demonstrava e por saber evitar erros comprometedores.
Com Alex Smith como titular, Mahomes teve um ano para se ambientar, um luxo que nem todos os rookies conseguem ter. Mas, no final dessa primeira época, tornou-se claro aos olhos do treinador Andy Reid que o miúdo estava pronto para pegar na equipa. Alex Smith foi cedido a outra equipa (Washington) e Patrick Mahomes iniciou a época de 2018/2019 como titular.
▲ Patrick Mahomes tem oportunidade de conseguir o seu quarto anel de campeão da NFL. E ainda nem sequer tem 30 anos.
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Logo no ano seguinte, os Chiefs conseguiram mesmo chegar à finalíssima, após uma época em que a equipa só tremeu quando Mahomes passou dois jogos fora por ter deslocado uma rótula. Mas quando muitos admitiam que a época poderia estar comprometida Patrick Mahomes voltou rapidamente ao ativo, voltando a brindar os adeptos com os seus passes com a mão esquerda (não, ele não é canhoto) e, também, inacreditáveis passes em corrida e sem olhar para o colega (à semelhança do que alguns fazem no basquetebol mas, aqui, com um grau de dificuldade infinitamente maior).
O quarterback dos Chiefs, que só em setembro irá chegar aos 30 anos, tem neste domingo a oportunidade de conquistar o seu quarto anel de campeão – sendo esta a quinta Super Bowl de Mahomes (só perdeu uma vez, quando defrontou Tom Brady, mesmo estando esse outro fora de série à beira da reforma).
Travis Kelce. Antes de ser namorado de Taylor Swift, já era a “mantinha” de Mahomes
Quem já passou os 30 anos (e também os 35) mas continua a ser incrivelmente produtivo é Travis Kelce – um tight end que foi decisivo para o sucesso de Mahomes desde que o jovem quarterback chegou à liga.
Mesmo com a profusão de armas ao dispor de Mahomes, como os wide receivers Xavier Worthy, DeAndre Hopkins e Marquise “Hollywood” Brown, Travis Kelce continua a ser o alvo favorito de Mahomes sobretudo quando a jogada não corre tão bem como se previa. Na NFL essa função é conhecida como a “mantinha”, ou seja, aquele jogador a quem o quarterback recorre quando se vê em apuros. Um pouco como a “mantinha” que o boneco animado Linus, amigo de Charlie Brown, trazia sempre consigo para lhe dar conforto e segurança.
A posição de tight end é normalmente vista como uma posição menos glamourosa nas equipas ofensivas (normalmente brilham mais os quarterbacks, os wide receivers e, por vezes, os running backs). Porém, na realidade, nesta posição é necessária uma combinação ainda mais rara de talentos: são atletas a quem se pede que sejam eficazes a bloquear os defesas (protegendo o quarterback em jogadas de passe e abrindo alas para os running backs em jogadas de corrida), mas também devem ser capazes de ser uma arma no jogo de passe, enquanto receivers.
Travis Kelce, ao lado de George Kittle (dos San Francisco 49ers) e Mark Andrews (dos Baltimore Ravens), afirmou-se um dos melhores da NFL não só da atualidade como de toda a história da liga. A carreira foi integralmente passada em Kansas City, depois de ter sido uma escolha relativamente secundária no draft de 2013 (só foi escolhido na terceira ronda, ou seja, foram escolhidos 62 jogadores à sua frente naquele ano).
▲ Travis Kelce afirmou-se como um dos melhores "tight ends" da NFL mas a sua notoriedade pública disparou após se tornar público o namoro com Taylor Swift.
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Continua a ser uma estrela no campo de jogo mas nos últimos anos tornou-se, também, uma vedeta fora dele, depois de se tornar pública a relação amorosa com a cantora Taylor Swift. Com rumores cada vez mais insistentes de que a vedeta da NFL e a super-estrela da música pop estão a preparar o casamento, Travis Kelce garante que, mesmo que volte a ganhar a Super Bowl, não irá pendurar as botas.
“Adoro fazer isto, adoro vir trabalhar todos os dias”, afirmou Kelce numa entrevista recente. “Sinto que ainda tenho muito bom futebol dentro de mim. Sei que isto dura pouco e é preciso encontrar formas de preparar outra carreira – e tenho feito isso na offseason [os períodos entre-épocas] – mas pretendo continuar a dedicar-me a ser jogador de futebol”, afirmou. Quanto ao resto, rematou, “veremos o que acontece“.