Enviado especial do Observador à Rússia (em Sochi)

Durante muitos anos o futebol foi aquele mundo que estava circunscrito à linha entre os bons e os melhores com um único traço em forma de palavra: títulos. Havia uma diferença entre quem ganhava ou quem ficava no quase, quem aparecia a festejar e com isso ganhava o direito a entrar na fotografia ou quem ficava reduzido a uma nota de rodapé como prémio de consolação. Agora, a evolução do jogo trouxe também um salto positivo nos pensamentos e criou-se uma espécie de linha imaginária que coloca acima dos maiores aqueles que não são nem melhores nem piores mas sim diferentes. É aqui que está Óscar Tabárez.

Aquele aspeto frágil em termos físicos, conduzindo um carrinho de golfe nos treinos e andando de muleta até ao banco, contrasta e muito com aquilo que criou no futebol. O uruguaio até se pode assumir como “um ladrão de ideias e de pensamentos”, mas foi sozinho em busca do Santo Graal para dar outra força às suas equipas. Em campo, esse cálice serve-se numa filosofia que tem estado bem patente neste Campeonato do Mundo na Rússia: equilíbrio. “Equilíbrio quando atacamos, porque temos de ser capazes de atacar mas não no sentido abstrato — é porque conseguimos recuperar a posse de bola ou tivemos um bom trabalho em termos defensivos. Estamos sempre a treinar esse mesmo equilíbrio”, explicou quando descreveu o que é hoje o Uruguai. E que tem uma grande diferença, uma década depois: aquela Garra Charrúa para lutar por qualquer lance como se fosse o último da vida deixou de ser um fim em si mesmo e passou a ser parte de um meio para chegar a esse fim.

Uruguai ganhou o grupo A com três vitórias e não sofreu nenhum golo com Egito, Arábia Saudita e Rússia (Matthias Hangst/Getty Images)

Como jogador, Tabárez foi um defesa mediano com passagens por clubes tão modestos como as suas qualidades futebolísticas: Sud América, Sportivo Italiano, Montevideo Wanderers, Fénix, Puebla e Bella Vista. Mas El Maestro, como é conhecido por ter estado alguns anos a dar aulas como professor na parte final da carreira dentro de campo e no arranque da mesma fora dela, conseguiu ganhar um lugar na história dos maiores e melhores do Uruguai como Nassazzi e Héctor Castro (campeões em 1930); Ghiggia e Schiaffino (anos 50, símbolos do célebre Maracanazo); Francescoli, Sosa, Forlán ou Suárez.

Neste Mundial, Giménez, com aquele golo em cima do minuto 90 no primeiro jogo frente ao Egito, acabou por dar o mote que dá confiança à Alviceleste para superar os oitavos de final e repetir a campanha de 2010 na África do Sul, onde perdeu apenas nas meias-finais com a Holanda por 3-2. Tabárez, que quando intervém no treino une equipas e quando fala nas conferências une o seu povo, aproveitou esse clique para juntar ainda mais o mundo uruguaio. “Como vi os vídeos das crianças nas escolas a festejar esse momento? Não vi tanto como professor mas mais como homem do futebol. Desde o início que fomos uma potência mas esse elo condutor acabou por perder-se entre gerações. Neste momento, é muito difícil qualquer equipa enfrentar-nos. Como o Brasil e a Argentina, voltámos a ser um país com cultura futebolística. Ver estes meninos a abraçarem-se depois de um golo em cima da hora faz-me perceber que é como uma religião, porque se emocionam juntos e nunca mais esquecerão esse momento. E podem passar esse mesmo momento aos filhos. E depois aos netos. E com isso recuperamos o elo condutor”, destacou.

Óscar Tabárez: o perfeito cavalheiro

Como El Proceso mudou por completo o futebol no Uruguai

É em 2006, no regresso ao comando do principal conjunto do Uruguai, que entronca o período de endeusamento que hoje se pode notar um pouco por toda a imprensa internacional. Tudo porque, ciente desse mesmo problema que quer ver resolvido com lances como o de Giménez, reestruturou todo o futebol do país, das camadas de formação à identidade de jogo dos seniores.

Nos anos 80, Tábarez acabou por começar como técnico das camadas jovens depois de ouvir um anúncio na rádio de que estavam à procura de um antigo jogador com estudos para agarrar em equipas da formação. Com a mulher grávida da quarta filha (tem cinco), arriscou e estava contratado no dia seguinte. Andou por Bella Vista, Danúbio, Montevideo Wanderers, Peñarol e Deportivo Cali entre duas passagens pelo conjunto Sub-20 do Uruguai. O triunfo na Taça dos Libertadores de 1987 serviu de rampa de lançamento para assumir a seleção principal alviceleste, chegando à final da Copa América de 1988 após eliminar a Argentina de Maradona e aos 16 avos de final do Mundial de 1990, perdendo com a anfitriã Itália. Aí, saiu.

El Maestro estava pronto para novos voos e diferentes desafios, que o levaram à Argentina (Boca Juniors) antes da passagem pela Europa, onde entre Cagliari e Oviedo teve como ponto mais alto a passagem pelo AC Milan, sucedendo a Fabio Capello e sendo depois substituído por outro monstro, Arrigo Sacchi. Voltaria depois à Argentina, entre Veléz Sarsfield e Boca Juniors, antes de parar quatro anos e regressar ao Uruguai. Até hoje, mais de uma década (e um legado com muita, muita história) depois.

Tabárez chegou a treinar o AC Milan após a primeira passagem pela seleção, entre 1988 e 1990 (PABLO PORCIUNCULA/AFP/Getty Images)

“Trabalhámos muito no futebol de formação porque temos pouco mais de três milhões de habitantes. É por isso que, quando se produz um grande jogador no Uruguai, ele corresponde a uns 20 do Brasil e a uns dez da Argentina. E é por isso que abordo o jogo de forma diferente dos outros”, explicou, numa das muitas faces do “Processo de Institucionalização das Seleções e da Formação dos seus Futebolistas”, projeto que apresentou nesse ano de 2006 e que ficou conhecido apenas como El Proceso: à parte das melhorias em termos de infraestruturas do futebol federativo no Uruguai, Tabárez mudou por completo a mentalidade e a forma de ver o jogo no país, com resultados como dez dos 11 mais internacionais terem saído dessa “fornada”.

Costumávamos ser conhecidos pelo nosso estilo violento – fosse ou não uma acusação legítima – e não pelo nosso fair play. A nossa resposta a isso foi criar grandes futebolistas. Trabalhámos muito a nível de escalões de formação mesmo tendo pouco mais do que três milhões de habitantes”, diz El Maestro.

O quarto lugar no Mundial de 2010 e a vitória na Copa América de 2011 serviram de cartão de visita a um conjunto que nunca está no topo dos principais favoritos ao triunfo mas que, com o passar do tempo e dos jogos, ganha sempre um outro estatuto. E para quem tem nomes como Luís Suárez ou Edison Cavani, faz sentido. Tanto como Tabárez ocupar o espaço que tem por estes dias, na opinião pública e na lista de recordes — é o selecionador com mais jogos por uma seleção, tendo batido o registo de Sepp Herberger e Morten Olsen, além de ter sido distinguido pela UNESCO como o “Campeão do Desporto”, prémio atribuído no âmbito da educação, ciência e cultura (é também embaixador da organização para a boa vontade).

Hoje, a doença de que padece (síndrome de Guillain-Barré, que tem como principais efeitos a afetação do sistema imunitário aos nervos periféricos, com reflexos no controlo dos músculos e na perda de sensibilidade) tem sido amplamente noticiada, mas da sua parte já disse o que tinha a dizer: “Já falei com quem devo, decidi falar sobre isso. Todos os dirigentes da Federação uruguaia sabem que tenho de me deslocar numa cadeira de rodas ou num carro de golfe, mas há dias em que me sinto melhor do que outros. Há dias em que me consigo deslocar sozinho, outros não. Apesar disso, nada interfere com o meu trabalho ou com a minha relação com os jogadores”. Mas já antes, em 2011, se gerou uma onda de solidariedade em torno do técnico.

Nesse ano, a mulher, Sílvia, foi atacada um ácido que lhe causou queimaduras na cara e num braço. Chegou a pensar-se que se tratava apenas de um roubo junto da sua casa, mas as investigações apontaram para uma ligação a outro episódio que envolvia uma antiga empregada, que esteve presa por ter sido apanhada a desviar dinheiro do cartão de crédito do técnico.

O fair play que tem uma história do Mundial de 1954 como exemplo

As dificuldades motoras do treinador ao vivo parecem ter outro impacto. E têm, como se viu num abraço de uma jornalista espanhola a El Maestro, no final da conferência de imprensa em que marcou presença com Luís Suárez. Vinha acompanhado da muleta mas sentou-se, sossegado, esperou as primeiras perguntas para o avançado do Barcelona e depois puxou de toda a sua experiência para analisar o encontro com Portugal. De voz baixa, arrastada, às vezes impercetível, mas com ideias soltas que voltaram a mostrar que está naquela linha imaginária dos que não são melhores nem piores mas sim diferentes.

“As duas equipas querem muito ganhar e são os futebolistas, que estão em campo, que fazem o resto. Da nossa parte só temos de preparar bem a equipa e motivar os jogadores, eles é que são os protagonistas, do primeiro ao último minuto”, atirou, antes de abordar de forma coletiva e sem preocupações individuais a melhor forma para tentar travar Cristiano Ronaldo: “É um grande jogador, com grande potencial, mas quando preparamos um jogo olhamos sempre para o coletivo do adversário, não para as individualidades. Apesar de tudo o que tem, é o líder da equipa em campo, outro fator adicional. Não consigo fazer previsões sobre o que se vai passar porque as decisões são tomadas pelos futebolistas mas estamos preparados. Como vou encarar o jogo? Como sempre: concentrado, sem pensar no que se passou até aqui, sem olhar para os números nem para as estatísticas. Fizemos a nossa parte, temos o grupo coeso e mentalizado e só temos de controlar as emoções e estarmos concentrados. Jogo aborrecido? Não fazemos especulações sobre o que se pode passar, é a partir do primeiro minuto que se decide. Pode ser preocupação vossa, nossa não é. Agora, se for aborrecido e ganharmos, aceito já. Acho que são duas equipas com grandes jogadores, com equipas compactas, com experiência e pode haver equilíbrio mas daí até ser um jogo aborrecido…”.

El Maestro foi à conferência de imprensa antes do jogo com Portugal com Luís Suárez (JONATHAN NACKSTRAND/AFP/Getty Images)

Em paralelo, Tabárez puxou o filme atrás e voltou a 2006, altura em que todo o sonho uruguaio neste Mundial começou. “Há 12 anos que trabalhamos juntos e fomos conseguindo objetivos paulatinamente, para alguns de maneira lenta, mas se considerarmos as limitações que o nosso futebol tem chegámos como queremos a este Mundial. Estamos mais perto do que nunca do que queremos. Elo condutor? Esse elo que se fala não passa apenas por capitão e general, é preciso referências e existem outros que não jogam nem aparecem tanto mas que também são importantes. Esse elo perdeu-se porque nos contaram histórias erradas e criaram mitos sobre algumas coisas que constituíram um fardo para as gerações que se seguiam. Às vezes quando diziam que eram os melhores do mundo era por culpa da cultura que existia, de que não existia o segundo lugar, que as finais eram para ganhar. Falavamos como se fossemos um país de 50 milhões e não é assim. Por isso, quisemos ir ver os antecedentes, perceber os antecedentes. Quando se fala em fair play, isso tem a ver por exemplo com a história da primeira derrota do Mundial em fases finais do Mundial, em 1954, com a Hungria. Ficou 4-2, no prolongamento. No final, um jornalista italiano foi ter à porta dos balneários com o capitão húngaro que lhe disse ter tocado o melhor jogador do mundo, Schiaffino, que perdeu o duelo mas que a sua equipa ganhou. E Schiaffino referiu que tínhamos sido derrotados pela melhor equipa do mundo. Este é o tal elo condutor que é preciso resgatar e os jogadores já demonstraram que têm isso e vão passando aos mais novos”, disse.

“Alterações para este jogo? Não podemos mudar tudo de forma radical, até porque o treinador o máximo que pode fazer é uma substituição no banco, nada mais. As decisões são os jogadores que tomam. Olhando para este Mundial, quem poderia pensar que a Alemanha estaria fora? E na próxima edição vai ser assim também. O Campeonato do Mundo é a grande festa mundial do futebol, que além de ter a maioria dos melhores jogadores envolve um sentimento especial. É por isso que as pessoas veem tudo antes do jogo, a forma como os adeptos levam as bandeiras do país, cantam as suas canções, como se comportam. Tudo isso tem a sua influência e também por isso devemos trabalhar da forma mais normal possível”, concluiu.