Uma das consequências do nosso estilo contemporâneo – o qual benevolentemente poderemos apelidar de pragmático – é que, à medida que se aproximam, todos os adversários nos parecem insuperáveis, como se cada obstáculo fosse um Everest. Caminhando “passo a passo”, para citar João Mário, avançamos e, ao olhar para trás, descobrimos que a montanha temida não passava de uma ligeira protuberância, uma irregularidade no terreno. Hoje, olhamos para sábado, e lá vemos, ao fundo, inalcançável, um Everest azul, cheio de escarpas traiçoeiras, neves sempiternas e passagens íngremes. E nada nos resta a não ser seguir em frente, enfrentar o monstro com as nossas picaretas arcaicas, botas em segunda mão, xerpas preguiçosos e um sentido de orientação que nos faz sempre escolher o caminho mais longo e perigoso.

Não quero com isto desmerecer o Uruguai, que tem um ataque superior ao nosso e na defesa não é pior, nem gerar otimismos infundados que pouca ou nenhuma utilidade terão. Outrora um bando de carniceiros no meio dos quais sobressaía um tal Francescoli, conhecido, por talento e antonomásia, como “o príncipe”, o Uruguai é hoje talvez o derradeiro exemplar daquele estilo latino-americano de elegância feroz que se distinguia quer do futebol brasileiro, quer do europeu. Hoje sobra pouco espaço para jogadores de acosso e intimidação, como também vão rareando, infelizmente, os governadores de pés de veludo como Francescoli. Mas à falta de uns e de outros, o Uruguai contenta-se com a agressividade moderada de um Godín e a mobilidade inteligente de Cavani e Suárez. Estes dois, um par de amigáveis vilões de desenhos animados, são versáteis, velozes, tecnicistas e carnívoros (mais Suárez, claro). Outras seleções poderão ter linhas avançadas igualmente boas, mas nenhuma superior à do Uruguai.

Apesar disto, o que me agrada mais nesta equipa é, com a permissão da juventude de bola no pé, o septuagenário que, a partir do banco e apoiado numa muleta, comanda com autoridade preternatural este bando de celestiais mercenários. Já poucos se recordarão, mas há vinte e oito anos, era este uruguaio fleumático que orientava o Peñarol na célebre madrugada de neve em Tóquio em que o Futebol Clube do Porto conquistou o mundo. Dois anos depois, Óscar Washington Tabárez levou a seleção do Uruguai ao campeonato do mundo em Itália, onde foi eliminada pela anfitriã nos oitavos-de-final. Regressou ao comando da equipa nacional em 2006 e, desde então, não falhou um Mundial. Em 2010, com um Diego Forlán metamorfoseado em organizador de jogo, esteve perto da glória. Caiu nas meias-finais contra a Holanda, sem nunca perder o ar ponderado de quem não se deixa abalar pelos sucessos dramáticos da existência.

O “maestro”, assim chamado por, durante anos, ter sido professor primário, emana a tranquilidade de quem poderia estar numa sossegada sala de aula nos subúrbios de Montevideu, a ensinar a conjugação de verbos, as cadeias montanhosas e os afluentes dos rios, mas, por amor a um desporto e a um país, prefere orientar um conjunto de compatriotas milionários, tatuados dos pés à cabeça e, alguns, com notórios distúrbios de personalidade. Mesmo debilitado, a sua simples presença garante estabilidade e elegância. Tabárez é a reminiscência viva de que este, por mais que os selvagens o queiram conspurcar, é mesmo um desporto de cavalheiros.

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