Tailândia. “Há dois dias isto parecia o fim do mundo. Agora já não” /premium

09 Julho 2018134

O drama na gruta de Tham Luang mobilizou muitos voluntários que estão a fazer tudo para ajudar. Depois do medo e do pessimismo, surgiu agora a esperança. Reportagem da enviada especial à Tailândia.

Reportagem em Mae Sai, Tailândia

Tinha passado apenas um dia do desaparecimento dos 12 jogadores da equipa de futebol Moo Pa (Javalis Selvagens, em tailandês) e do seu treinador, Ekkapol Chantawong, quando Aun decidiu oferecer-se como voluntário para ajudar nas buscas. O bombeiro, de 44 anos, vive em Mae Sai e sentiu que era seu dever usar a sua experiência para ajudar a encontrar as crianças. A decisão, contudo, preocupou a família — ir para a gruta de Tham Luang é um risco real, como se vê.

“Toda a gente na minha família está muito preocupada. Estão todos juntos desde o primeiro dia em que isto começou e eu vim para aqui”, conta o bombeiro. “A minha mãe chorou, quando soube que eu vinha”, acrescenta Aun, que prefere não se identificar pelo seu verdadeiro nome — as autoridades têm pedido às equipas de salvamento para não se identificarem e para serem contidos nos contactos com os media, para não colocar em risco a operação.

Apesar disso, Aun aceita falar um pouco sobre a sua experiência como voluntário. Está de passagem pelo centro de imprensa de Pong Pha, para vir buscar mais material, quando se cruza com o Observador. O fato preto com tiras prateadas e os símbolos cosidos nas mangas (um amarelo no braço direito com uma cruz vermelha, do outro lado a bandeira da Tailândia) denunciam que faz parte das equipas no local da caverna. Nos últimos dias, a sua tarefa tem sido a de levar o que é necessário até à gruta, seja comida ou material. Mas, nos primeiros dias, enquanto os fuzileiros da Marinha tailandesa não chegavam, também ele ajudou a procurar dentro da gruta pelas 13 pessoas desaparecidas.

Voluntários preparam comida numa cozinha improvisada no centro de imprensa de Pong Pha (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

“Eu estava tão triste nesses dias”, diz, relembrando que também ele tem uma filha pequena, de quatro anos. “Mas quando os encontrámos foi uma felicidade. Hoje estou ainda mais feliz, porque arranjámos uma maneira de os retirar de lá.” Mal Aun sabia, a esta altura, que daí a umas horas faria parte de mais uma operação de resgate bem sucedida esta segunda-feira.

Tudo pelos “bons rapazes” de Mae Sai

Este é o sentimento comum partilhado por todos os voluntários no centro de imprensa de Pong Pha, para onde os jornalistas foram levados depois de se ter iniciado a operação de resgate. Do outro lado da estrada nacional, ergue-se a montanha de Doi Nang Non, uma massa de verde a perder de vista, rodeada de nuvens e neblina. Por baixo dela está o sistema de grutas de Tham Luang, onde desde esta segunda-feira só quatro das crianças e o seu treinador de 25 anos ainda permanecem.

A montanha de Doi Nang Non. Por baixo dela situa-se o sistema de grutas de Tham Luang, onde ainda estão encurralados quatro crianças e um adulto (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

No primeiro dia a seguir ao resgate dos primeiros quatro adolescentes, o ambiente em Pong Pha foi de alegria. “Estou tão feliz!” repetem todos os voluntários, no seu inglês esforçado. Os sorrisos no rosto não enganam — há um grande alívio por perceber que a primeira fase da operação foi bem sucedida. Os voluntários repetem assim com mais afinco as diferentes tarefas que vão tendo a seu cargo: cozinhar, transportar material, descarregar paletes de água, oferecer café aos jornalistas… Tudo o que for preciso, eles lá  estão. São na sua maioria mulheres, mas não só — a maior parte dos cozinheiros são homens, facilmente distinguíveis pelas jalecas profissionais de chefe de cozinha, identificadas como sendo da Chefs Association from Chang Rai.

[Veja aqui o vídeo, gravado na manhã de segunda-feira, da enviada especial do Observador à Tailândia]

Na cozinha improvisada há woks de tamanho gigante, onde se cozem pernas de frango e vegetais com um molho picante. Ao fundo, há um sistema de cestos de metal para cozinhar o arroz a vapor. Ao lado, uma mesa onde se estabelece uma linha de montagem: há quem coloque o arroz em saquinhos, outros fazem o mesmo com o frango e os vegetais, e depois passam a um terceiro grupo, que fecha os sacos com elásticos coloridos. Por fim, o final da linha coloca os sacos em cestas e leva-os a outro lado do centro, onde voluntárias vestidas de amarelo disponibilizam a comida a quem a pedir, sem ter de pagar nada. Boonjira Chi Wadkla Non está na equipa de primeiros socorros, como o seu colete azul escuro com uma cruz vermelha deixa perceber. “Quero ajudar a curar as pessoas”, diz.

Narongsak Osot-tanakorn, responsável pelo comando da operação, fala aos jornalistas sobre o resgate de segunda-feira (GETTY IMAGES)

Isso não a impede, contudo, de se oferecer para outras tarefas e, a certa altura, junta-se à linha de montagem, fechando saquinhos. “Nos últimos dias chorei muito”, conta ao Observador, antes de levantar uma manga da camisola e mostrar a grande nódoa negra que traz no braço esquerdo. “Nem sei como fiz isto, foi a dormir. Deve ter sido dos nervos”, comenta.

Boonjira, à semelhança do bombeiro Aun, também é de Mae Sai. Gere uma pequena loja que vende bugigangas e souvenirs, conta, enquanto exemplifica o tipo de produtos que vende mostrando as pulseiras que lhe abanam no pulso. Ao contrário de muitos outros voluntários, que vêm da cidade maior de Chiang Rai, Boonjira conhece os rapazes que estão na gruta e as suas famílias. “Sou amiga de muitos dos pais”, confirma. “Estamos a falar de pessoas normais, eles não são ‘dos grandes’, se é que me entende. Muitos deles são agricultores e não têm muito dinheiro”, conta a mulher de 52 anos. “E os miúdos, são todos tão bons rapazes!”, diz, juntando as duas mãos como se rezasse.

Boonjai embala comida para distribuir no centro de imprensa (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

Talvez por conhecer de perto a maioria das crianças, Boonjira revela-se um pouco mais apreensiva do que a maioria dos voluntários. “Agora estou muito feliz, claro”, afirma, referindo-se ao resgate das primeiras quatro crianças (o segundo grupo ainda não tinha sido resgatado a esta altura). “Mas quero que os outros também venham cá para fora. Ainda estou um bocadinho com medo”, diz, enquanto coloca com destreza um elástico azul em volta de um saco de plástico cheio de arroz e lhe dá um nó.

Patcharin, de 58 anos, não conhece os jogadores do Moo Pa, mas também ela chorou quando soube da notícia. “Fiquei em choque, só pensava na minha filha”, conta, apesar de a filha em questão já ser uma mulher adulta de 34 anos. “Vive em Banguecoque, é cantora. Anda à procura de um homem!”, conta Patcharin, soltando uma gargalhada sonora. Todos os dias esta professora de formação sai do seu trabalho (que atualmente é dar aulas numa prisão) e vem ter ao centro de imprensa. Veste a camisola amarela que alguns voluntários envergam, põe um lenço ao pescoço, veste um avental por cima e põe mãos à obra. “Cozinho, carrego coisas de um lado para o outro, faço o que for preciso”, conta a habitante de Chiang Rai. “Esta situação é nova e inesperada, tinha de vir.”

A professora Patcharin (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

De olhos postos na montanha, do outro lado da estrada, fala sobre as crianças, com ênfase nos que ainda estão encurralados: “Não os conheço, mas parecem bons rapazes: jogam futebol, o que é um bom hobby”, diz. “Espero que tenham hipóteses. Têm de ter um bom futuro e vir a ser boas pessoas”, remata, soltando nova gargalhada.

Nações Unidas no centro de imprensa de Pong Pha

Para além do amarelo das camisolas da maioria dos voluntários, outra cor dá nas vistas — o verde da farda escolar de alguns alunos do secundário que se juntaram aqui. Chanthima Sangchan, de 17 anos, e Jurarat Aphiwong, de 16, estão sentadas debaixo do placard onde são afixados os postais enviados de todo o país, com mensagens de força. No centro, um grande coração em vermelho tem as palavras Moo Pa escritas em tailandês, com um animal improvisado — um urso? um leão? — desenhado.

As duas alunas de Mae Sai são tímidas, de olhos no chão, mas aceitam traduzir o que dizem os postais. “Lutem!”, diz um, onde alguém desenhou 13 figuras presas num buraco, rodeadas de cor. “Vamos esperar por vocês”, diz outro. “Salvem-se”, pede uma terceira mensagem. “A minha mãe está muito preocupada com isto tudo”, conta Chanthima. Nem consegue imaginar como estariam os seus pais se fosse ela a ficar presa dentro daquela caverna — é “demasiado difícil”, diz. Jurarat, cujo aparelho colorido nos dentes não a impede de ser a mais sorridente do grupo, consola-a, sublinhando que os rapazes na gruta “são fortes”. “Sim, hoje já não é um problema tão grande”, responde a amiga. “Há dois dias isto parecia o fim do mundo. Agora já não.”

O quadro com postais com mensagens de apoio (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

Daqui a uma semana, as duas adolescentes têm exame geral, mas preferem estar aqui do que a estudar — e os pais apoiam a decisão. “Eles dizem-me ‘faz uma coisa boa’”, diz Chanthima. Piya Wat Korn concorda: “Já não tenho muitas aulas este ano. Estava em casa sem fazer nada, é bem melhor estar aqui”, explica o rapaz de 17 anos, que pede para ser tratado pela alcunha Blue. Embora só conheça de vista os rapazes do Moo Pa, pois andam em escolas diferentes, Blue está preocupado: “Quando me avisaram que eles estavam presos na gruta, pensei que era uma piada. Não estava tempo para aquela chuva. Lembro-me que nessa tarde não havia chuva nenhuma… Mas à noite choveu tanto, tanto!”

Nos tempos mortos, entre descarregar e transportar sacos com melancia e manga fresca cortada, os adolescentes entretêm-se com os seus telemóveis. Quase todos souberam da notícia do desaparecimento da equipa de futebol ou pelo Facebook, ou porque algum amigo lhes disse pelo telemóvel. Não conhecem Portugal, mas fazem muitas perguntas. “És do país do Cristiano Ronaldo?”, pergunta Chanthima, a voz ficando mais aguda com o entusiasmo. “Ó meu Deus, ele é tão bonito!”, diz, soltando um gritinho. Jurarat também mostra interesse: “Quantos voos apanhaste para chegar aqui? Posso adicionar-te no Instagram?”, pergunta, ao fim de algumas horas. Pedido de amizade aceite e é então que a adolescente diz, olhos nos olhos, com um sorriso rasgado: “Prazer em conhecer-te.”

Jurarat e Chanthima (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

O contacto com os jornalistas estrangeiros deixa a maioria dos habitantes de Mae Sai — muitos deles que nunca na vida foram sequer a Banguecoque — animados. Colocam nas mãos de todos pratos com noodles, bananas e oferecem café e bolos. A maioria não consegue falar inglês, mas tenta. Sentem-se gratos pela atenção de que têm sido alvo: “Obrigada ao mundo todo por ter vindo cá”, faz questão de dizer a socorrista Boonjira. São quase mil pessoas concentradas nesta cidade de 22 mil habitantes, conhecida por ser a cidade mais a Norte da Tailândia e ponto de passagem para os que querem atravessar a fronteira para Myanmar. Há câmaras por todo o lado, diretos a serem feitos em línguas como o finlandês ou o hindi e uma operação logística de monta.

Por aqui, nunca se viu nada assim — mas também em Mae Sai nunca se esteve à beira de uma tragédia (para já evitada) como a que pende por cima dos rapazes de Moo Pa e do seu treinador e antigo monge budista, Ekk. As equipas de resgate, do outro lado da estrada, continuarão esta terça-feira a fazer o seu trabalho para trazer de volta os que faltam. Perante a sombra da montanha de Doi Nang Non, todos dão o seu melhor e contribuem com o que podem, na esperança de que as próximas operações corram tão bem como a primeira — e agora como a segunda.

“Como podes ver, toda a Tailândia quer estes rapazes fora da gruta”, diz o bombeiro Aun. “Temos a unidade necessária para o conseguir”, acrescenta, antes de entrar na carrinha e seguir em nova viagem para a entrada da gruta de Tham Luang. Horas depois, já à noitinha, as esperanças ganham forma maior com o anúncio de que mais quatro rapazes foram retirados da gruta esta segunda-feira, numa operação bem sucedida. Sentados nas mesas do centro, rodeados de toda a comida que andaram a distribuir todo o dia e do lixo acumulado em volta, os voluntários sorriem.

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