Testámos tecnologia num salto de 60 metros em queda livre (e correu tudo bem)

20 Março 2018266

Há auriculares e smartwatches que aguentam mesmo todos os desportos? Demos um salto de bungee jumping - 60 metros em queda livre. Veja o vídeo na nossa nova rubrica: "Não Teste Isto em Casa".

Andámos, corremos e dançámos. Mas tudo isso era pouco. A Samsung diz que os wearables (tecnologia que se veste) que vende para desporto — os relógios inteligentes Gear Fit 2 Pro e Gear Sport, e os auriculares sem fios Gear Icon X (2018) — são os melhores do mercado. Quisemos pô-los à prova. Mesmo à prova. Solução? Testá-los praticando um desporto extremo: bungee jumping (salto em queda livre com uma corda elástica). Seriam os auriculares suficientemente ergonómicos para não saltarem dos ouvidos numa queda livre de 60 metros? A resposta foi gravada em vídeo (não saltaram, mas vale a pena ver de qualquer forma). É a nova rubrica em vídeo do Observador. Chama-se “Não Teste Isto em Casa” e vai levar ao limite os produtos tecnológicos vendidos em Portugal.

[Veja aqui o primeiro episódio de “Não Teste Isto em Casa”, a nova rubrica do Observador que testa a tecnologia ao limite]

Quanto à forma como estes gadgets vestíveis se comportaram enquanto andámos, corremos e dançámos, concluímos que são boa companhia para quem pratica desporto, mas não estão isentos de defeitos. Os detalhes estão explicados abaixo.

Como se comportam estes “wearables” em queda livre?

Fomos ao Elevador da Boca do Vento, em Almada, numa manhã de sábado. Objetivo: descobrir se estes wearables funcionavam em todos os desportos. Já sabíamos que em corrida e até numa pista de dança são bons auxiliares para quem quer medir, literalmente, cada passo que dá. Mas como se comportariam o Gear Fit 2 Pro e o Gear Sport a medir batimentos cardíacos numa situação extrema? A maior dúvida residia nos auriculares: eram ergonómicos o suficiente para não saltarem dos ouvidos? Mesmo quando abanámos a cabeça, além de confortáveis, não saíram do sítio.

Eram 9h30 quando nos começámos a equipar para esta análise ao limite. Já com um wearable em cada pulso, fomos vendo como os batimentos cardíacos subiam em tempo real. Apesar de tanto o Gear Fit 2 Pro como o Gear Sport medirem a pulsação, não davam resultados iguais. Contudo, foi fácil perceber que a ansiedade acelerava o coração sempre que se olhava para a ponte onde ia decorrer o salto.

Câmaras nos braços, pés e cabeça. “Querem ser os primeiros?” Resposta rápida: “Se calhar é melhor ver alguém a saltar primeiro para perceber o que vai acontecer”. Vimos um dos participantes a fazer o salto  antes de nós e os batimentos cardíacos subiram ainda mais. Neste momento, já não havia muita volta a dar. Estava tudo preparado para sermos os seguintes. A única coisa que faltava? Pôr os auriculares. A música escolhida foi a “Cavalgada das Valquírias”, de Wagner (não foi para sermos pseudo-intelectuais ou fãs do Apocalipse Now). Foi a primeira que achámos que seria adequada ao momento e não violava os direitos de autor para o vídeo.

Nos relógios inteligentes, tivemos de escolher uma atividade física na app que vem com os smartwatches. Havia abdominais, jogging e até natação — contudo, bungee jumping não era uma delas. A opção seria “Outros exercícios” ou então abrir a aplicação dos batimentos cardíacos e definir a contagem para “em tempo real” (o aviso de “pode gastar mais bateria esta opção” não ia ser, de longe, a maior preocupação de um salto de uma ponte).

O resto está no vídeo. Conseguimos saltar à terceira contagem, com muita fé — não no Cristo Rei que se via na paisagem, mas na corda que estava amarrada aos pés. A música continuou a tocar, embora fosse abafada pelos gritos. E os auriculares não saltaram dos ouvidos. Já a contagem dos batimentos cardíacos mostrou valores diferentes em cada dispositivo. No entanto, esteve sempre a funcionar. Segundo o Gear Sport, demos setes passos e perdemos 30 calorias no salto, o que mostra o quão indicativos são estes sensores.

Testámos três equipamentos no primeiro episódio do “Não Teste Isto em Casa”. Um surpreendeu, os outros mostraram algo importante: os valores destes auxiliares tecnológicos de desporto são meramente indicativos. Mas mesmo depois de praticarmos um desporto mais radical, continuaram a funcionar.

Os auriculares de desporto Gear Icon X (2018)

Este é dos wearables mais interessantes que está no mercado. É focado no desporto, mas é mais do que um companheiro de jogging. O Gear Icon X (2018) é a nova versão dos auriculares sem fios da Samsung lançados em 2016. Melhoram praticamente em todos os aspetos: no controlo por toque, na bateria e na caixa para guardá-los (a nova versão é mais pequena e ergonómica).

Ao contrário dos AirPods (os phones wireless da Apple), os Icon X têm uma memória interna de quatro gigabytes para guardar música e são pensados para quem não quer andar sempre com o smartphone. O controlo é feito por toque no pequeno painel tátil dos auriculares. Nem sempre é fiável, mas funciona. Depois de decorados os gestos — como aumentar o volume e parar a canção –, revelam-se bastantes úteis. Mas, por vezes, não funcionam corretamente: o utilizador quer avançar uma canção em vez de aumentar o volume e ele faz o contrário. Mesmo assim, são uma solução prática e elegante para este tipo de equipamento.

Quanto ao design, é semelhante aos comuns auriculares que entram no ouvido (os in-ear) em vez dos que encaixam na orelha (os on-ear), como os Airpods. No nosso caso, mostraram ser dos headphones mais confortáveis que alguma vez experimentámos. Não se pode dizer isso para todos os utilizadores. Quem não tem um canal auditivo que permita utilizar este tipo de auricular, não vai gostar (houve um jornalista na redação que não conseguiu sequer encaixá-los nos ouvidos). Mas, como se vê no vídeo, quando os pusemos nem com um salto de uma ponte saltaram.

Gear IconX (2018)

A favor

  • Tamanho
  • Conforto
  • Bateria

Contra

  • Comandos táteis pouco fiáveis
  • Caixa para guardar não ter informação da bateria

O que mais nos surpreendeu foi a bateria. As sete horas prometidas a dar música foram cumpridas (chegámos até a conseguir mais). Aqui, um dos pontos principais é o facto de a caixa para guardar os Icon X funcionar também como uma bateria portátil, com um máximo de mais três cargas. Facilmente chegámos aos três dias de autonomia. Como o carregamento é feito  por USB-C, não foi necessário andar a trocar cabos ou mudar tomadas. O único ponto fraco é não haver uma maneira simples de perceber quanto resta da bateria na caixa de armazenamento — nem pela aplicação própria para smartphone é possível saber, apesar de este mostrar a bateria de cada auricular. Por exemplo: podia ter mais um indicador luminoso, mas não tem.

Como qualquer equipamento Bluetooth, os Gear Icon X podem ser difíceis de emparelhar com um smartphone. Esperava-se também que a ligação com os outros wearables fosse mais eficiente. Quando ligados ao smartwatch Gear Sport, a aplicação para ver a lista de canções é pouco amiga do utilizador. Mesmo utilizando o smartphone, a aplicação dos Gear Icon X não permite ao utilizador criar playlists, por exemplo.

O problema do emparelhamento não fica por aqui. Convém não esquecer que estes headphones são assumidamente virados para desporto e não para entretenimento. Sim, transmitem o som reproduzido por um smartphone sem precisarem de fios, mas se o objetivo for ver um vídeo, o som não está sincronizado com a imagem, atrasa. Outro dos pontos é que (pelo menos oficialmente) não é possível ligar este equipamento a um computador. Neste ponto, os AirPods continuam a ser mais interessantes (ligam facilmente a computadores Mac e permitem reprodução de som de vídeo em simultâneo).

Por fim, analisámos a qualidade do som. Sejamos práticos: não são auriculares para melómanos. A qualidade de som é boa, mas não se compara a nenhuns headphones tradicionais. Nalgumas canções, notámos que os sons mais graves não se fazem sentir como noutros equipamentos. Mesmo assim, para quem procura uns headphones sem fios para ouvir música ou podcasts — e também tem o problema das “orelhas quentes” nos auscultadores tradicionais (os que são ao estilo de bandolete) — este dispositivo é eficiente além do desporto.

Principais características:
4 gb memória interna
Autonomia: até 7 horas (caixa para guardar tem mais bateria)
Ligação por Bluetooth, controlo por toque, microfone para chamadas, acelerómetro e sensor de proximidade
PVP: 229,99 euros

A pulseira electrónica Gear Fit 2 Pro

É um relógio? É uma pulseira? Não, é uma smartband (pulseira inteligente). Na prática, é um aparelho intermédio entre um monitor de atividade e um smartwatch. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que, além de registar todos os dados de atividade física no dia a dia, também tem um ecrã táctil rectangular que diz as horas e permite aceder a pequenas aplicações. Além de relógio, também permite ver no pulso a meteorologia e medir quantas chávenas de café se bebe por dia. O Gear Fit 2 Pro é atualmente das smartbands mais interessantes do mercado, graças ao design ergonómico e ao peso — mas tem muitos defeitos.

Começando pela bateria: este gadget tem um design irreverente e é confortável de utilizar, mas teve de ser carregado no final de cada dia (e já em modo de poupança de bateria). Para carregar, é preciso utilizar a base que vem com este dispositivo, que é pouco prática. Liga-se por USB ao computador, mas o encaixe na base é por contacto com pontas de metal, por vezes não encaixou à primeira tentativa. Em suma, o design é bom, mas pouco prático.

Gear Fit 2 Pro

A favor

  • Design ergonómico

Contra

  • Preço
  • Ecrã tátil
  • Fiabilidade sensores
  • Falta de apps e falta de interacção com apps no smartphone

Quanto aos sensores de movimento, o equipamento conta os passos e até auxilia em exercícios, mas é claramente para quem é apaixonado por desporto (e queira uma pequena ajuda tecnológica). Como comprovámos no salto de bungee jumping, a medição dos batimentos por segundos não é (de longe) a mais fiável. Já a contagem dos passos e os modos de exercícios são interessantes, mas não são fiáveis. Exemplo: num dos dias, levámo-lo para uma discoteca. Bastou um pequeno pé de dança para se sentir a vibração do equipamento no pulso. Qual era o aviso? “Bom ritmo”, mas associado à atividade de jogging.

Já a performance do equipamento, deixou também a desejar. É um gadget que vai dar nas vistas, mas é caro para o que faz. Na prática, é um relógio com mais funções, mas que tem controlos pouco intuitivos. O ecrã tátil falha por vezes ao percorrer o menu (um deslize foi interpretado pelo equipamento como um toque mais do que uma vez). Já na opção de receber notificações de aplicações do smartphone (de SMS ou push de notícias), poucas foram as vezes em que realmente substituiu a necessidade de tirar o telemóvel do bolso. O facto de não deixar facilmente responder a mensagem escritas e não ter compatibilidade com WhatsApp mostrou que este dispositivo tem ainda que melhorar.

Por cerca de 230 euros, e atendendo ao que se esperava (no mínimo) deste equipamento, principalmente comparando com o Gear Sport, deixou a desejar pela fiabilidade e bateria. Apesar destes defeitos, e a pensar em quem procura um auxiliar eletrónico para atividade desportiva (principalmente para correr), este é um equipamento a pensar (mas vejam a concorrência, principalmente graças ao preço). Ou então, que se dê o salto para um smartwatch.

Principais características:
Gear Fit 2 Pro
4 gb memória interna
Autonomia: até 3 dias
Ligação por Bluetooth, Acelerómetro, barómetro, giroscópio e sensor de Batimentos Cardíacos
PVP: 229,99 euros

O relógio inteligente Gear Sport

O negócio dos smartwatches está a crescer, é um facto (muito devido ao Apple Watch), e o Gear Sport é um exemplo claro disso. É muito parecido com o Gear S3 (o smartwatch topo de gama da Samsung). Em que é que muda? É mais leve e pequeno. É do tamanho de um relógio comum (tanto que é possível utilizar a bracelete de outros relógios). Além disso, por ser direccionado para desporto, é mais resistente à água e ao choque. Mesmo assim, é um smartwatch elegante que dá para utilizar em situações formais e informais.

Em relação ao Gear Fit 2 Pro, é em tudo melhor. Por ser um smartwatch, tem todas as funções de uma smartband e ainda tem aplicações nativas, como pequenos jogos. Além do ecrã tátil, há uma roda à volta do visor que permite percorrer o menu juntamente com dois botões laterais para seleccionar e retroceder. A configuração é simples e até é possível responder a SMS’s só através do smartwatch.

O sistema operativo da Samsung tem ainda alguns defeitos, que são claramente fruto da não massificação destes equipamentos. É difícil encontrar apps na loja dos Gear (também não há muitas) e a ligação às aplicações existentes no smartwatch nem sempre é a melhor. Um dos exemplos é o Google Maps. Apesar de mostrar as notificações, não deixa receber os alertas do percurso. Em relação às notificações do WhatsApp e à música que se pode guardar (algo que demora bastante tempo, porque é feito por Wi-Fi), há bastante espaço para melhorar.

Gear Sport

A favor

  • Duração da bateria (e base de carregamento por indução)
  • Tamanho
  • Ecrã táctil
  • Roda para controlar menu

Contra

  • Preço
  • Falta de aplicações
  • Ausência de som
  • Falta de apps e falta de interacção com apps no smartphone

A bateria surpreendeu: conseguimos que aguentasse até três dias. A dock para carregar não tem fios e a única crítica é que se liga ao carregador por micro-USB. Por acaso, na altura em que o experimentámos, estávamos a testar também um smartphone com carregador igual, mas o Gear IconX (2018) já vem com a nova entrada de USB-C. É um pormenor, mas que além de significar mais fios na mesa de cabeceira, faz pensar se este smartwatch é pensado para o futuro.

Por ser focado para desporto, foi nessa vertente que lhe demos mais atenção. Tanto como auxiliar de jogging e até de natação, tem uma interface que vai acompanhando cada exercício e que se mostrou bastante mais fiável do que o Gear Fit 2 Pro. Quando ao medidor de batimentos cardíacos, também não é o mais fiável. Depois do salto, fomos comprovar com uma máquina própria e podemos afirmar que o Gear Sport é mais fiável, mas claramente deve ser tido em conta apenas como indicador.

Outro dos defeitos que é preciso salientar é a ausência de colunas de som. Quando quer alertar o utilizador, vibra. E é isto. Uma coisa tão simples como configurar um alarme sonoro (algo que até um Casio dos anos 1980 consegue fazer), não é possível. Nem um “bip bip bip”. Nada. É um pormenor, mas que se esperava num relógio gadget que custa 350 euros.

Mesmo com defeitos, o Gear Sport é um smartwatch que mostra um mercado que pode substituir os relógios tradicionais. O preço é alto, mas é um equipamento competente, discreto e um gadget que pode ser não só um auxiliar no desporto, mas também no dia a dia.

Principais características:
Gear Sport
4 gb memória interna
Autonomia: até 3 dias
Ligação por Bluetooth, Acelerómetro, barómetro, giróscopio e sensor de Batimentos Cardíacos
PVP: 349,99 euros

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