Há poucos dias, o jornal britânico The Guardian publicou um artigo através do qual lançava a questão: há alguém a ver os programas da Apple TV+? A pergunta é pertinente, dado o investimento que a empresa americana tem feito no audiovisual (com alegado prejuízo de mil milhões de dólares ao ano) e com a plataforma de streaming muito longe dos primeiros lugares no ranking de assinantes (a Netflix ultrapassa os 300 milhões, a empresa liderada por Tim Cook tem pouco mais de 10% desse número).
Apesar disso — ou precisamente a justificar essa aritmética — há outro elemento importante no artigo, e é esse o principal foco destes dias: a Apple TV+ tem conseguido ser aquilo que a Netflix havia representado nos primeiros anos de produção própria, ou seja, no tempo de House Of Cards: uma concentração de talento e de propostas arriscadas. Ainda acontece o ocasional choque no sistema, com produções como Baby Reindeer ou Adolescência (curiosamente ou não, ambas são produções britânicas), mas falta o novo, o refrescante e aquele importante passo em frente às cegas, que praticamente desapareceu da Netflix. A Apple TV+ tem-se chegado à frente nesse campeonato e esta quarta-feira, 26 de março, estreia-se mais uma série para o comprovar: chama-se The Studio.
O que torna a Apple TV+ tão especial hoje em dia é o risco. Claro que, apesar do prejuízo, tudo é calculado e é óbvio que o serviço de streaming é uma peça usada para marcar posição, para acumular prestígio. O que vier depois é lucro. A estratégia não tem funcionado para angariar muito mais subscritores – apesar da assinatura, que em Portugal custa 9,99€ por mês, estar em linha com os preços de outras operadoras — mas tem conseguido resultados criativos. Basta atentar no catálogo.
[o trailer de “The Studio”:]
A melhor série distópica/ficção científica? Severance. A melhor ideia inspirada no vazio de Perdidos desde o fim de Perdidos? Silo. A melhor série sobre parentalidade e que é, em simultâneo, uma grande série de terror? The Changeling. Uma grande série sobre as casas de moda do século XX? The New Look. Um thriller sem tretas? Hijack. E claro, Slow Horses, absolutamente genial. Um bom drama? Pachinko. E ainda há Ted Lasso, Lessons in Chemistry, Criminal Record, City On Fire, Disclaimer e, para não se complicar mais as coisas, Prime Target. Há também TV mainstream muito bem feita, com The Morning Show. E agora há The Studio, a melhor comédia de televisão que verá nos próximos tempos.
A filosofia tem sido sempre esta e assim continua: pagar aos melhores para fazerem o melhor. Claro que, por vezes, o resultado fica aquém, é um dos perigos quando o filtro não é fazer aquilo que o público quer, mas aquilo que quem recebe o dinheiro imaginou. Seth Rogen e Evan Goldberg viveram para este momento. Para quem tem hoje mais de quarenta anos e viu o primeiro a estrear-se em Freaks & Geeks, no início do século, e depois a continuar carreira junto de Judd Apatow e respetiva trupe, até descolar graças à parceria criativa com o amigo de infância Evan Goldberg, este é uma espécie de momento que aguardávamos sem o sabermos: é uma série sobre a indústria em que trabalham. The Studio é uma espécie de segundo grande triunfo de dois dos melhores criadores de comédia deste século.
▲ Ike Barinholtz, Seth Rogen (sentados) Kathryn Hahn e Chase Sui Wonders (em pé): uma cena em que acompanhamos o funcionamento do estúdio de Hollywood retratado na série
Fizeram-se notar com a primeira das tais grandes vitórias: o argumento de Superbad, filme de 2007 que é, ainda hoje, uma comédia insuperável sobre o fim da escola secundária. Continuaram com Alta Pedrada (2008), Isto é o Fim (2013), Uma Entrevista de Loucos (2014), falharam em coisas como Green Hornet e desenvolveram para televisão séries como Preacher, The Boys, o spin-off Gen V e até têm o dedo em Invincible. The Studio é a mais recente aventura, uma co-criação com Peter Huyck, Alex Gregory e Frida Perez. Onde quer que estejam metidos, mesmo quando falham, imprimem saudável e desafiante risco, mesmo que já venha mastigado por anos a apurar códigos e métodos. O humor de Rogen e Goldberg é particular e tem o dom de ter sido formado pela mesma cultura popular de quem lhes vê as criações. Há mais quem o faça, mas não com esta ausência total de medo em mostrar referências e inspirações: eles admitem que quase foram educados pela televisão e pelo cinema.
É precisamente isso que vem ao de cima em The Studio, uma comédia em volta de uma produtora na Hollywood contemporânea. Não é um estúdio em declínio, não é um estúdio encostado às glórias do passado e, muito menos, um estúdio à procura de uma voz ou uma ideia. Tudo isso está seguro, como é realçado nas entrelinhas do primeiro episódio, quando Matt Remick (Seth Rogen) é convidado para ser o novo diretor da empresa, depois da sua mentora, Amy (Catherine O’Hara), ter sido despedida: o estúdio só precisa de alguém que não complique, que não meta a arte à frente do entretenimento. As coisas vão bem, estão prestes a comprar os direitos da marca Kool-Aid para fazer uma história que ganhe milhões — se Barbie conseguiu fazê-lo, porque não tentar com uma bebida colorida? Só precisam de alguém com a história certa.
O primeiro episódio gira à volta de Matt e da respetiva demanda pela tal história que faça a diferença. Acontece que Matt Remick não é bem a pessoa certa para o trabalho, ele sempre se viu como alguém capaz de fazer as coisas sem cedências, sem compromissos. E, por gostar muito de cinema — especialmente de cinema de autor — vê-se com legitimidade para dar sugestões aos autores, realizadores e atores. Ou seja, ele acha que consegue fazer aquilo que o mercado há décadas diz que não funciona. E está disposto a pôr essa ideia em prática, até ao momento que toda a gente à sua volta – e quem lhe paga o ordenado, um executivo brilhantemente interpretado por Bryan Cranston – o confronta com a situação e o próprio nem pestaneja em ceder. O primeiro episódio é engenhoso em mostrar esta fácil derrota de Remick, o idealista que é vencido pela própria vontade.
The Studio acontece numa falsa vertigem, através da qual as coisas parecem mais rápidas do que realmente são. Os diálogos são ágeis, as personagens estão sempre a correr de um lado para o outro: Matt tenta sacar Wes Anderson através do agente, este recomenda Nicholas Stoller – que já tem um ideia em como adaptar Kool-Aid; Matt e Sal (o seu braço direito, Ike Barinholtz) têm uma reunião com Stoller e a ideia é muita boa; mas logo a seguir Matt tem uma reunião com Martin Scorsese (mesmo), que lhe vende uma ideia que os deixa na dúvida; Matt tenta vender essa ideia aos colegas, depois quer levá-la à personagem de Cranston. Enfim, nós corremos a acompanhar tudo isto.
Desastre? Não, nada disso. The Studio faz parecer epopeias destas como o dia-a-dia em Hollywood. Provavelmente é mesmo assim. E como há dinheiro da Apple, há dinheiro para pagar várias participações especiais. Já falámos em Stoller e Scorsese, mas aqui está apenas a ponta do icebergue. Também tem Rebecca Hall, Zac Effron, Sarah Polley, Paul Dano, Ramy Youssef, Anthony Mackie, Steve Buscemi, Olivia Wilde, Adam Scott, Greta Lee e muitos outros.
▲ Na série vemos Seth Rogen como Matt Remick entre participações especiais como as de Ron Howard, Bryan Cranston, Rebecca Hall e Olivia Wilde, num elenco que também conta com Bryan Cranston
O melhor, contudo, está para vir nos episódios seguintes. Quando a série desenvolve mais a ideia de situações e histórias que se ouvem da Hollywood real: pessoas que se querem onde não são chamadas, que interferem com tudo, mesmo que “seja só uma coisinha”, conversas indesejadas, exigências que são feitas a realizadores ou a montadores a quem é pedido que sejam cortados pedaços de um filme. The Studio não apresenta soluções para angústias da indústria audiovisual. Apresenta, isso sim, episódios inspirados por factos e experiências concertas, explorando-as de uma forma refrescante, do ponto de vista de um homem que acredita nos ideais, que os defende e que, aos poucos, vai caindo nas tentações da sua posição: a roupa, a coleção de carros, as decisões empresariais, toda uma sequência lógica de atitudes ilógicas.
Para o excelente resultado final muito contribui o elenco talentoso que aceitou trabalhar com Seth Rogen, composto pelo já mencionados Ike Barinholtz, Catherine O’Hara, Chase Sui Wonders e Kathryn Hahn (que começa quase todas as cenas a dizer “isso vai tornar o meu trabalho tão mais difícil”). São eles que vão moldando as mudanças que acontecem na vida e nas decisões de Remick, são eles que as geram e gradualmente as vão impondo, ainda que sem forçar, com subtileza, com classe, com mestria na escrita do argumento.
The Studio é uma boa sátira sobre Hollywood e, noutro nível, sobre o capitalismo do star system. Mas é, sobretudo, uma excelente comédia. Seth Rogen e Evan Goldberg (e companhia) deram bom uso ao dinheiro da Apple. Criaram este pedaço de humor que nem tínhamos percebido que fazia tanta falta. Reconhecemos o tema e o universo, ainda que não seja o nosso habitat. Temos ideias sobre o que se passa em Hollywood, sobretudo temos preconceitos, mas na essência é-nos tudo bastante abstrato: como funciona a indústria cinematográfica a partir dos olhos do diretor de um estúdio? É um comboio de dinheiro, que se move a uma velocidade alucinante e quando cada episódio pára, gera-se um efeito de conclusão que é mais do que suficiente para a forma como hoje vemos televisão. Não há truques para seguirmos em frente para o episódio seguinte. Não é uma questão de cliffhangers. Continuamos porque queremos. Tal como a Apple TV+ vai, muito provavelmente, continuar a dar prejuízo, mas em princípio também vai continuar a fazer televisão de referência.