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“Lumière, a Aventura Continua!”, de Thierry Frémaux
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“Lumière, a Aventura Continua!”, de Thierry Frémaux

“Lumière, a Aventura Continua!”, de Thierry Frémaux

Thierry Frémaux: “O cinema é uma arte ética, de maneira explícita e imanente”

O documentário “Lumière, a Aventura Continua!”, actualmente em exibição, resgata das origens do cinema a obra dos irmãos Louis e Auguste Lumière e a sua importância nos dias de hoje.

Delegado-geral do Festival de Cannes e director do Instituto Lumière, em Lyon, Thierry Frémaux, 65 anos, projecta o legado de Louis (1864-1948) e Auguste Lumière (1862-1954) num segundo filme sobre os inventores do cinematógrafo; um segundo convite, depois de Lumière! (2016), para sopesar a importância desta obra pioneira mas pouco vista e mal compreendida. Nos encontros da Unifrance, em Paris, Frémaux falou-nos da missão de tornar esta herança em património da humanidade. Lumière, a Aventura Continua! está nas salas após a passagem na Festa do Cinema Francês, em curso desde 2 de Outubro. É a prova de que “não há filmes velhos”: sabemos quando e onde o cinema começou, fomos moldados por ele, somos seus contemporâneos.

Comecemos pelo fim do genérico: Lumière, A Aventura Continua! é “um filme de Thierry Frémaux”. Mas quem assina este filme, afinal: o director do Instituto Lumière, o director-artístico do Festival de Cannes, o programador e crítico, o cinéfilo entusiasta de Lyon?
É uma boa questão que continuo a colocar-me a mim próprio. Digamos que este filme é, simplesmente, uma maneira de fazer o meu trabalho. Sou director do Instituto há muitos anos, a minha missão chama-se “irmãos Lumière” e “cinema Lumière”. Fazer o meu trabalho – e é isto que o torna fantástico – engloba tudo, os filmes, a cinefilia, a estética, a história do cinema. Há na minha missão uma parte de arqueologia, uma parte de história, mas também uma grande parte de estética. Quando comecei a trabalhar no Instituto, o cinema dos Lumière interessava-me apenas como espectador e cinéfilo. Fiquei depois com a “missão sagrada” de voltar a dizer, evidentemente, que devemos aos Lumière, para lá de todas as polémicas, a invenção do cinema, mas entendi que não podia ficar por aí. Havia outra coisa não menos importante a fazer: recolocar esses filmes no cinema, isto é, devolvê-los às salas. E torná-los acessíveis ao público pelos canais que temos ao nosso dispôr. Aliás, os Lumière tiveram, eles próprios, salas de cinema, até 1905, onde mostraram o que fizeram.

Raramente se fala disso: também na exibição foram pioneiros.
Extraordinário, não é? Acontece que, se exceptuarmos sessões de arquivos episódicas e a insistência com que Henri Langlois, nos anos 60, mostrou o cinema Lumière na Cinemateca Francesa, raramente vimos estes filmes como deve de ser. Um dos objectivos no Instituto é que estes filmes sejam vistos como obras cinematográficas por inteiro, não como “curiosidades”.

[o trailer de “Lumière, a Aventura Continua!”:]

Há nove anos, Lumière!, do qual este novo tomo é uma continuação, não tinha já esse desejo de ser um documentário contemporâneo, no sentido de não ficar limitado a uma ideia de museu?
Completamente, essa é a observação essencial. O que está em causa não é apenas devolver os filmes Lumière ao cinema. É sugerir às pessoas que saiam de casa e paguem um bilhete para ver os filmes deles, numa sala de cinema, da mesma forma que entramos numa livraria para comprar um livro de Faulkner ou de… É isto o meu trabalho. Tenho uma apetência por todos os cinemas. Uma vontade de ligar Lumière ao cinema de Bresson, de Kiarostami, de Chantal Akerman, de Agnès Varda… Na perspectiva da história da arte cinematográfica, estas ligações são interessantes. A literatura, a pintura, a música, não sabemos exactamente quando foram inventadas, nem por quem. Mas o cinema, sabemos. É o legado de Louis e Auguste. Você, eu, todos nós, somos “fabricados” pelo cinema de há 130 anos para cá. O século XX é o século do cinema. Há cerca de 2000 filmes Lumière: já tínhamos quase 1500 [que serviram de base a Lumière!], outros 500 foram restaurados ou continuam em processo de restauro. Conheço-os todos. Estão no Instituto. Mas quero devolvê-los, não são nossos, do museu, são de toda a gente. Os filmes sobre Nova Iorque são extraordinários. Os filmes da Argélia são extraordinários. Por tudo isto recuperei a citação de Varda, quando ela diz que, nos filmes Lumière, as pessoas que vemos não são os nossos ancestrais, os nossos avós e bisavós. Somos nós que vemos. É a humanidade.

Em 2016, já sabia que um segundo filme desta série acabaria por impôr-se?
Sabia que podíamos fazer uma dúzia deles, se quiséssemos. Lumière! é uma consequência directa de um espectáculo ao vivo de 90 minutos que eu animava, comentando as imagens. Entusiasmado por essas sessões, Bertrand Tavernier (1941-2021) persuadiu-me a fazer delas um filme. Outros filmes Lumière foram, entretanto, restaurados e alguns deles, que não foram considerados em Lumière!, são mesmo muito belos. Este segundo episódio, Lumière, a Aventura Continua!, não é feito com os títulos mais célebres — La Sortie de l’usine Lumière à Lyon, L’Arrivée d’un train en gare de La Ciotat, L’arroseur arrosé, etc — mas sim com obras completamente novas para os nossos olhos. E talvez um terceiro episódio se faça ainda, que isto funciona melhor com números ímpares.

"Louis Lumière percebeu aos 30 anos que havia algo de novo no enquadramento e no movimento, e que é uma linguagem. Digo isso no início do filme: os Lumière põem a câmara no comboio e nunca ninguém tinha captado esse ponto de vista. Nunca ninguém filmara de um comboio."

Lumière, a Aventura Continua! é, em grande parte, formado por filmes de viagens. E é muito mais lírico que o primeiro episódio, o tom tem outra gravidade.
Absolutamente. É um segundo episódio que exalta a qualidade dos Lumière-cineastas, na fotografia e no enquadramento, no foco e no movimento; tudo isto continua a dizer-nos que eles compreenderam o que estavam a fazer, percebendo, intuitivamente, que o cinema não era fotografia, mas sim outra coisa. E entretanto, entre Lumière! e Lumière, a Aventura Continua!, foi da morte do cinema que se voltou a falar, quando apareceu o Covid. Uma ameaça de morte real — não uma ideia dela, mais ou menos simbólica ou romântica. O cinema esteve em perigo, é um facto. Mas estamos em 2025 e, mesmo depois do Covid e do triunfo das plataformas na Internet, a invenção dos Lumière ainda anda por cá. Entrou num novo ciclo, depois das cinco etapas que os Lumière criaram: a indústria (é preciso dinheiro para fazer filmes), a técnica, a arte, as salas e o público.

Que é que eles não inventaram? Não inventaram a montagem, que essa é de Méliès, mas quase tudo o resto…
A montagem é Méliès, ponto assente. Mas também Thomas Edison fazia filmes na mesma altura. E estava longe de ser o único, muitos outros fizeram, só que não protegeram a invenção. De qualquer forma, é extraordinário notar hoje aquilo que nós, enquanto espectadores e cinéfilos, conseguimos reconhecer no cinema Lumière. Pierre-William Glenn, director de fotografia de Truffaut, Tavernier e muitos outros, disse-me certo dia: “Vês, este plano de Lumière, ou aquele, se eu quiser filmar isto hoje, faço igual. Coloco a câmara no mesmo sítio. Não consigo fazer melhor, o plano é assim. Mesmo com as câmaras sofisticadas de agora, vamos obter o mesmo resultado.” Daqui passo para o fim de Lumière, a Aventura Continua!, para o momento em que Coppola filma o remake contemporâneo de La Sortie de l’usine Lumière à Lyon — e o que é que aprendemos com ele? Que o cinema dos Lumière reensina a simplicidade aos artistas. E que a simplicidade dá a força. Tal como a verdade dá a beleza, pelo plano de cinema, pela transparência da captação da realidade. No fundo, é isso o cinema. Na literatura, Balzac informa-nos que vai falar do mundo. Com os Lumière, o cinema segue o mesmo caminho.

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Thierry Frémaux, delegado-geral do Festival de Cannes e director do Instituto Lumière

Getty Images

Na sua apaixonada viagem, Lumière, a Aventura Continua! volta a agitar a perspectiva cronológica que temos da história do cinema, pelos planos, pelos travellings, no mesmo sentido em que, por vezes, descobrimos um filme japonês dos anos 30 que, afinal, tem mais traços de modernidade do que um filme moderno dos anos 60. A história do cinema é elástica, dinâmica. Encontrou revelações destas no ato de descobrir os “novos” filmes dos Lumière, à medida que estes foram restaurados?
Muitas vezes. O travelling para trás em Argel, por exemplo. Ou o travelling à frente em Montreux. As panorâmicas. Tantos exemplos. Louis Lumière percebeu aos 30 anos que havia algo de novo no enquadramento e no movimento, e que é uma linguagem. Digo isso no início do filme: os Lumière põem a câmara no comboio e nunca ninguém tinha captado esse ponto de vista. Nunca ninguém filmara de um comboio.

Na América, Edwin S. Porter dá o seu contributo em The Great Train Robbery…
Mas lá está, vem depois: 1903. Nos filmes Lumière, há essa ideia de um cinema que, filosoficamente, está a acontecer. Onde foram eles buscar a ideia do comboio, por exemplo? De fotografias, da pintura? Ou foi só um gesto instintivo? Porque enviam depois os Lumière aqueles jovens operadores, mundo fora, à procura de um “atlas cinematográfico” que chega ao México, ao Japão e ao Vietname? É um mistério. Quis que este filme lançasse considerações mais globais sem deixar, pelo cinema dos Lumière, de colocar-nos questões elementares, como esta: onde é que eu ponho a câmara? Hoje em dia, qualquer pessoa faz um filme com um telemóvel. Mas quantos se perguntam onde é que se põe a câmara?

Tavernier costumava contar-me uma coisa que John Ford lhe disse quando ele o conheceu, em 1965: “Sei filmar tudo menos uma refeição à mesa. Nunca sei onde pôr a câmara”. É formidável. O lugar da câmara como questão essencial. Louis Lumière, o operador, colocava sempre a câmara no lugar certo. Como Ford, Raoul Walsh, William A. Wellman, que estão no patamar dos maiores. Agora que o cinema é uma prática social em perigo e que a estética é alterada pela Internet e pela Inteligência Artificial, é importante falar disto.

"À saída do século XIX, toda a gente pensa que o mundo caminha para um futuro formidável. Entre 1895 e 1900, é nisso que se acredita. E os filmes dos Lumière são disso prova. Há um imaginário-Lumière que nos mostra um mundo feliz, com famílias e crianças. O despontar da modernidade e a beleza da paisagem. A vontade de ver coisas novas, de descobrir outras paragens."

É importante separar o cinema da sua nova concorrência?
Mas é isso mesmo, é nesse ponto que estamos. O cinema é uma arte ética, de maneira explícita e imanente. Graças aos Lumière, somos obrigados a reflectir sobre isso cada vez que pegamos numa câmara para contar o mundo. A concorrência do cinema hoje é a Internet, a IA, as redes sociais, o streaming, em que se perdeu a responsabilidade das imagens. Os terroristas que filmam a sua própria barbárie não se sentem responsáveis pelas imagens dos seus actos. Mas o cinema bateu-se sempre contra a barbárie. Nunca filmou a morte. O cinema colocou-se sempre a questão daquilo que deve e não deve mostrar, como os filmes de Claude Lanzmann, que marcaram um território e disseram: há limites, e nos limites está a responsabilidade. Nos filmes de Lumière este aspecto está sempre presente. Nos seus “filmes colonialistas” — digamos assim, pois é isso que são — também vemos as crianças e as mulheres negras, e a forma como esses corpos se apoderam do que é filmado.

Durante décadas a fio, o homem conservador que era John Ford também foi identificado com clichés e enviesadas questões políticas quando, no fundo, era dos índios que ele estava perto, não dos cowboys…
…e Ford seria homenageado pela tribo Navajo. E fez alguns dos seus últimos filmes com um actor negro que se tornara seu amigo, Woody Strode.

Lumière! e Lumière, a Aventura Continua! também serviram para apurar a dinâmica de trabalho dos Lumière? Isto é: sabe-se que Louis era o operador, Auguste o inventor e o técnico, mas como é que o trabalho funcionava, de facto?
Para já, e além de tudo o que inventaram, os Lumière também deram origem à tradição dos “irmãos no cinema” que continuou com os Taviani, os Coen, os Dardenne, as irmãs Wachowski, entre tantos outros. Dos Taviani, por exemplo, nunca se soube com exactidão quem fazia o quê. Com os Dardenne, sabemos que fazem tudo em conjunto. Joel Coen sempre foi mais realizador do que o produtor e argumentista Ethan, embora tenham assinado tantos filmes em conjunto. Nos Lumière, sim, Louis era o operador, o mecânico, o físico. E Auguste era o biólogo, o médico, o inventor extraordinário. Durante a I Guerra Mundial, Auguste inventou, por exemplo, o “tulle gras”, a compressa estéril indicada para o tratamento de queimaduras. Salvou muitas vidas. Inventou um braço articulado para amputados.

O Louis era mais mecânico. Andava sempre com uma chave de fendas no bolso para consertar. No final da vida, quis inventar o sal colorido porque quando pomos sal no arroz, ele não se vê. Tinha esse espírito. Eles patentearam sempre as invenções sob os dois nomes. Louis e Auguste, Auguste e Louis. Sempre juntos. Nas invenções da imagem, é deles o 75mm. E é deles a invenção da fotografia a cores pelo autochrome, uma técnica esplêndida de 1903, que foi utilizada quase 30 anos, ate ao início dos anos 30. Digo-o às tantas no filme: à saída do século XIX, toda a gente pensa que o mundo caminha para um futuro formidável. Entre 1895 e 1900, é nisso que se acredita. E os filmes dos Lumière são disso prova. Há um imaginário-Lumière que nos mostra um mundo feliz, com famílias e crianças. O despontar da modernidade e a beleza da paisagem. A vontade de ver coisas novas, de descobrir outras paragens. Tudo isto dá forma a Lumière, a Aventura Continua!. Foram esperanças que não tardariam a desabar com o desenvolvimento do século XX.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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