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Tiananmen. O "Homem do Tanque" nasceu e morreu a 5 de junho — e tornou-se símbolo de um protesto maior do que ele /premium

Quem era, o que disse, o que lhe aconteceu? Ninguém sabe. Mas os que estavam em Pequim naquele dia coincidem num ponto: o "Homem do Tanque" serve para que ninguém se esqueça de Tiananmen.

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A fotografia foi tirada a 5 de junho de 1989, quando Pequim atravessava a ressaca do que tinha acontecido na noite de 3 para 4. Nessa noite, milhares de estudantes foram expulsos à força de tanques da Praça de Tiananmen e, pelo menos, centenas de pessoas foram mortas a tiro por toda a cidade. Na verdade, não é uma só fotografia, são várias: pelo menos quatro fotógrafos profissionais, Jeff Widener (Associated Press), Stuart Franklin (Magnum), Arthur Tsang (Reuters) e Charlie Cole (Newsweek), imortalizaram o momento em que um homem sozinho se coloca à frente de um tanque, como que impedindo-o de passar.

As imagens em vídeo, contudo, dão a real noção do momento. Um homem de camisa branca e com dois sacos de plástico na mão atravessa a estrada e põe-se em frente ao conjunto de tanques que segue pela Avenida Changan (ou seja, Avenida da Paz Eterna). Quando o tanque da frente pára, ele faz um gesto com a mão, como que a incitá-los a sair dali. O primeiro tanque tenta, então, desviar-se e contorná-lo, mas o homem dá alguns passos para o lado e volta a colocar-se à sua frente. Nova tentativa para o outro lado e a mesma dança acontece. Após alguns segundos em que o tempo parece congelar-se, o homem avança e sobe para cima do primeiro tanque, para falar com o condutor. Os jornais da altura citam testemunhas que dizem que terá dito algo como “Voltem para trás, parem de matar o meu povo” ou “Vocês só criaram problemas, a minha cidade está um caos por vossa causa”. A veracidade destes relatos, contudo, é mais frágil do que a imortalidade das imagens.

O momento tenso só terá terminado quando três pessoas decidiram correr, agarrar o homem e tirá-lo do meio da estrada. Quem era o homem que decidiu desafiar os tanques no meio da Avenida Changan? E aqueles que o retiraram de lá, seriam amigos ou inimigos? E o que foi feito do condutor do tanque, que conversou com ele? Trinta anos passados, todas estas perguntas continuam sem resposta.

Quem é e onde está o Homem do Tanque? “Parece a Quinta Dimensão, desapareceram todos”

Dois dias mais tarde, um editorial do Chicago Tribune — recuperado pela PBS para o seu documentário The Tank Man — refletia sobre aquela imagem: “Alguns observadores dizem que o homem era demasiado velho para ser um estudante. Talvez ele fosse simplesmente como todos nós — revoltado ao ver o que um governo tinha feito aos seus jovens, que queriam apenas liberdade. E, tal como aqueles estudantes que foram mutilados ou mortos ao combater os tanques e as tropas com pedras, garrafas e bombas caseiras, queria uma insígnia vermelha de coragem. Neste dia, o homem da camisa branca não a obteve, mas não foi menos corajoso por isso.”

"Para quem já viu agentes de segurança a agarrarem cidadãos chineses, sabe que eles são brutais. Torcem o braço, fazem a pessoa dobrar-se, dão alguns murros, pontapés… Por isso, para mim, acho que ele foi ajudado por quem estava à beira da estrada. Não estava a ser detido.”
Jan Wong, correspondente do Globe & Mail em Pequim que assistiu ao incidente

Já em 1989, portanto, se especulava sobre quem seria o Tank Man (“Homem do Tanque”), termo pelo qual ficou conhecido o anónimo. Pouco tempo depois, o tabloide britânico Sunday Express apressou-se a revelar aquela que cria ser a sua identidade: Wang Weillin, um chinês de 19 anos, filho de operários de Pequim. O relato, no entanto, parecia fraco. Ninguém conseguia confirmar essa informação, nem sequer os correspondentes no terreno. Robin Munro, investigador da Human Rights Watch que estava em Pequim quando ocorreu o massacre de Tiananmen, confessaria, anos depois, ao LA Times ter contactado o jornalista que escreveu a peça em causa: “Depois de conversar com o jornalista durante meia hora, decidi que a história não era fiável”, disse. “Parecia uma coincidência tão incrível, e também completamente improvável, que um jornalista sem qualquer experiência na China — e que, à altura, estava sentado em Londres — conseguisse identificar o Homem do Tanque tão facilmente.”

Se a identidade do Homem do Tanque permanece um mistério, aquilo que lhe aconteceu também. Jan Wong, correspondente do jornal canadiano Globe & Mail, estava a assistir ao incidente da varanda do seu hotel quando as três pessoas atravessaram a estrada e tiraram o homem dali. Para ela, com base naquilo a que assistiu, aquelas três pessoas quiseram ajudar: “Tendo em conta o timing, não creio que as forças de segurança conseguissem reagir tão depressa. Essa é a primeira razão”, explicou à PBS. “A segunda razão é a linguagem corporal. Para quem já viu agentes de segurança a agarrarem cidadãos chineses, sabe que eles são brutais. Torcem o braço, fazem a pessoa dobrar-se, dão alguns murros, pontapés… Por isso, para mim, acho que ele foi ajudado por quem estava à beira da estrada. Não estava a ser detido”, resumiu.

Em 1999, a jornalista norte-americana Barbara Walters perguntou ao Presidente chinês Jiang Zemin o que tinha acontecido ao homem da fotografia. “Não posso confirmar se foi preso ou não”, respondeu, em mandarim. “Mas acho que… nunca morto”, acrescentou, em inglês.

Certo é que, se o Homem do Tanque alguma vez tiver sido identificado pelas autoridades chinesas, não terá tido uma boa experiência. “Se eles souberem quem ele é, o mais certo é ele ter sido preso por obstrução aos militares”, resume ao Observador Al Pessin, antigo correspondente da Voice of America em Pequim durante Tiananmen. “O Jim Laurie [correspondente da ABC] conta uma história num documentário sobre como um homem que ele entrevistou foi detido e condenado a dez anos de prisão apenas por ter falado com um jornalista estrangeiro. E o Jim viu muita coisa, esteve na Guerra do Vietname… Mas sempre se sentiu muito mal por ter enviado este homem para a prisão. Portanto, se isto aconteceu a um homem apenas por ter conversado com um jornalista, podemos imaginar o que aconteceu ao homem que se pôs à frente de um tanque”, resume Pessin, num telefonema a partir dos Estados Unidos.

Jeff Widener, um dos fotógrafos que registou o momento do Homem do Tanque — e que viria a ser nomeado para um Prémio Pulitzer por ele —, resumiu assim as interrogações em torno daquele momento: “Questiono-me sobre o que lhe aconteceu, como toda a gente. Mas a grande questão para mim é, depois de um quarto de século passado, não só não sabemos quem ele é, como não sabemos onde estão os familiares dele. E o que aconteceu aos soldados do tanque? O que aconteceu ao condutor? Desapareceram da face da terra”, afirmou à BBC. “Aqueles tipos tinham vidas, tinham famílias… Onde estão? Onde está toda a gente? Parece a Quinta Dimensão, desapareceram todos.”

Um protesto em crescendo durante semanas, que uniu estudantes e trabalhadores

Vivo ou morto, preso ou em liberdade, anónimo ou identificado, uma coisa mantém-se de pé: o simbolismo daquela fotografia, 30 anos depois, continua a ser forte. “Uma das coisas interessantes daquela fotografia é que o homem traz consigo umas compras, o que nos indica que o mais provável era ser um homem comum. Não parece um estudante. Acho que isso diz muito sobre a sua coragem, mas também sobre o apoio que os estudantes tiveram”, reflete Al Pessin com o Observador.

[As memórias que o regime chinês quer esquecer]

Correspondente em Pequim da rádio Voice of America, Al estava de férias em Hong Kong quando o político Hu Yaobang morreu, a 15 de abril de 1989. Rapidamente percebeu que teria de regressar ao trabalho em breve, tendo em conta a mobilização que os estudantes estavam a criar após a morte do reformador e que foi durando semanas. Não tardou a que os estudantes ocupassem a Praça Tiananmen e iniciassem greves de fome: pediam eleições democráticas, imprensa livre, direito ao protesto. No final do mês de maio, os estudantes de Belas-Artes já tinham construído uma estátua a que chamaram “Deusa da Democracia”, uma espécie de Estátua da Liberdade improvisada com espuma e gesso.

Manifestação durante o funeral de Hu Yaobang, que deu origem aos protestos (CATHERINE HENRIETTE/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Robin Munro, o investigador da Human Rights Watch que estava no terreno a documentar as manifestações, não tem dúvidas de que essa greve de fome foi instrumental para que os “chineses comuns” se unissem em torno dos manifestantes. “No pico da greve de fome, a cada par de minutos havia um grevista a colapsar e as ambulâncias passavam a correr cima abaixo na avenida”, recordou o investigador à PBS. “Aquele espetáculo de estudantes a submeterem-se à fome pelo bem da Nação, aquela cena de sacrifício, tocou os corações dos habitantes de Pequim e eles saíram às ruas, centenas de milhares, para demonstrar apoio e solidariedade com os estudantes. Passaram a pensar neles como os ‘nossos’ estudantes.”

A ideia de que Tiananmen foi um protesto apenas composto pelos estudantes é, por isso, errada, acrescenta Pessin: “Lembro-me de um dia estarmos a conduzir até à Praça e as estradas estarem tão cheias de gente que o meu condutor nos levou por umas estradas secundárias. Aí, reparei que seguiam pessoas mais velhas, com cartazes nas mãos. Perguntei à minha colega, que falava melhor chinês do que eu, o que diziam aqueles cartazes. Ela respondeu, com surpresa: ‘Ó meu Deus, é um comité de trabalhadores de uma fábrica’. Andámos mais um pouco e cruzámo-nos com outro. E com outro. Foi então que percebi o que se estava a passar e parámos. Saímos para conversar com eles e, no final, disse ao meu condutor: ‘Vamos voltar para trás, para a redação. Já temos aqui a nossa história: há trabalhadores de todo o lado a juntarem-se às manifestações para apoiar os estudantes.”

Em Tiananmen, os protestos continuavam. Empunhavam-se cartazes — alguns até com frases em inglês, para tentar chegar aos media internacionais. Cantavam-se canções. Mantinha-se a greve de fome. Chegou maio. O mês passou inteiro e os protestos engrossaram: a certa altura, um milhão chegou a estar nas ruas de Pequim. Mas as autoridades chinesas, lideradas pelo primeiro-ministro Li Peng e o líder supremo Deng Xiaoping, mantinham um olho vigilante sobre os protestos. A repressão tardou, crê Al Pessin, em parte por causa da visita do líder soviético Mikhail Gorbachev, a meio de maio: “Era a normalização das relações sino-soviéticas e eles não queriam perturbar isso. Mas nós sabíamos que, quando a visita acabasse, só havia três hipóteses: uma resolução dos protestos, uma saída negociada com os estudantes ou repressão.”

Um dos manifestantes em Tiananmen motiva os colegas. Estávamos a 14 de maio de 1989 (CATHERINE HENRIETTE/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Os sinais iam apontando nesse sinal, recorda o jornalista — cujo trabalho na Voice of America tinha tremendo impacto pelo facto de ser dos poucos relatos internacionais a que muitos chineses tinham acesso, visto ser em mandarim. E a imposição da lei marcial não era o único sinal: “Costumávamos olhar para as declarações oficiais e, com base nas palavras utilizadas, dava para compreender o que se passava nos bastidores. No final de maio, começaram a utilizar bastante a palavra ‘caos’, que, na linguagem do Partido Comunista Chinês, é uma espécie de palavra de código como algo que se quer evitar a todo o custo”, recorda-se o norte-americano. “Portanto, eles estavam já a preparar as pessoas, e em particular os membros do partido, para a ideia de que ‘isto não é simplesmente um protesto de estudantes’.”

Estudantes em greve de fome em Tiananmen. A greve foi um dos fatores que contribuíram para que tantos chineses se juntassem aos estudantes (CATHERINE HENRIETTE/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Para além disso, os protestos espalhavam-se a outras cidades, embora menos noticiados, pela dificuldade de acesso dos correspondentes internacionais. “É por isso que a repressão veio: eles não queriam apenas retomar o controlo da Praça. É claro que é o centro político do país, que está na Cidade Proibida, etc. Mas quando eles falavam em ‘caos’, eles temiam o caos por todo o país. E, por isso, quiseram controlá-lo”, afirma Al Pessin, com a vantagem da distância de 30 anos que ajuda a compreender melhor o que se passou.

A repressão do movimento: “Quantos têm de morrer para podermos chamar ao que aconteceu um massacre? Um, dois, cem?”

Por temer que Tiananmen fosse mais do que um efémero suspiro da juventude e ao compreender que eram já muitos os anónimos que queriam ombrear com eles — talvez até fosse esse o caso do Homem do Tanque —, as autoridades chinesas reagiram. Foi na noite de 3 para 4 de junho que a ordem de mover os tanques foi dada. E não se ficou por aí: centenas foram mortos a tiro de Kalashnikov, sobretudo nas ruas secundárias, um pouco por toda a Pequim.

Estudantes falam com as tropas na noite de 3 de junho, antes da repressão (CATHERINE HENRIETTE/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Al Pessin tinha passado os dias na Praça Tiananmen e sabia, tal como pressentiam os próprios estudantes e outros jornalistas, que não tardaria até haver uma reação. Mas, naquela noite, o jornalista decidiu ir para casa, horas antes de os tanques começarem a avançar. “Lembro-me de estar com outro jornalista ao pé do obelisco da ‘Deusa da Democracia’ e de termos comentado: ‘Este é capaz de não ser o sítio mais seguro’. Fomos para debaixo de umas árvores, à beira da Praça. Mas, ao fim de algum tempo, como nada acontecia, voltei para casa. Acordei a meio da noite com um telefonema do meu editor, em Washington, a contar o que estava a acontecer.”

Mas se Al não estava lá no momento-chave, outros estiveram. Robin Munro, da Human Rights Watch, recorda que o ambiente no centro da Praça, entre os estudantes, era quase fúnebre. “Muitos estavam a escrever testamentos, sabiam que o fim estava a caminho. Estavam convencidos de que tinha acabado tudo e eu fiquei impressionado com a determinação deles face ao Armagedão que aí vinha”. Contudo, à medida que os tanques se posicionavam e pareciam preparados para avançar, alguns dos líderes estudantis — entre eles, o ativista e futuro Nobel da Paz Liau Xiaobo — apelaram à multidão para que abandonasse a Praça antes que houvesse um banho de sangue. “Eles pegaram no megafone, no microfone e disseram ‘Oiçam, temos de sair, senão vamos todos ser mortos sem necessidade. Haverá um banho de sangue na Praça a não ser que saiamos agora. Será um sacrifício em vão.’ Eles disseram: ‘Devemos preservar as nossas forças revolucionárias e não as desperdiçar aqui.’”

Assim foi. A maioria começou a sair e a dispersar. Mas nem essa ação evitou o massacre. A maior parte dos estudantes pode não ter morrido esmagada na própria Praça Tiananmen, como alguns apontam. Mas aquilo que se seguiu nas ruas de Pequim foi, de igual forma, um banho de sangue. “Só se ouvia ‘pum, pum, pum’, ‘cha, cha, cha’. Começámos a ouvir esses sons”, recordaria mais tarde Hayou Zhang, à altura um estudante de 18 anos, à BBC. “Depois começámos a ver as pessoas a sangrar e a serem levadas para os hospitais em volta. Pessoas a chorar, pessoas a gritar. Senti-me anestesiado. Era como se aquilo fosse para lá de qualquer compreensão.”

“À medida que ele ali permaneceu com o seu destacamento, nos degraus em frente ao Grande Salão do Povo, a autorização para disparar foi passada pelas fileiras. 'À altura, não é como se tivesse havido uma ordem direta, mas os tipos à nossa frente diziam aos que estavam atrás que, se aparecesse perigo, podíamos disparar. E que isso era uma ordem vinda de cima. Simplesmente foi passada de pessoa para pessoa’.”
Testemunho de um militar que estava em Tiananmen à jornalista Louisa Lim

Os relatos de quem esteve no local não deixam margem para dúvidas: os soldados tinham ordem para disparar. Isso mesmo confirmou um antigo militar à jornalista Louisa Lim, autora do livro People’s Republic of Amnesia: Tiananmen Revisited (sem edição em português, pode ser traduzido como República Popular da Amnésia: Tiananmen Revisitada): “À medida que ele ali permaneceu com o seu destacamento, nos degraus em frente ao Grande Salão do Povo, a autorização para disparar foi passada pelas fileiras. ‘À altura, não é como se tivesse havido uma ordem direta, mas os tipos à nossa frente diziam aos que estavam atrás que, se aparecesse perigo, podíamos disparar. E que isso era uma ordem vinda de cima. Simplesmente foi passada de pessoa para pessoa’.”

Se é certo que alguns dos manifestantes reagiram, atirando aos soldados pedras e tudo o mais que encontrassem, também não há dúvidas da brutalidade da repressão das tropas, reforçada pelo caos, pela confusão e pela falta de liderança militar. “Depois vieram os soldados, a disparar não apenas contra a multidão, mas até contra famílias que assistiam horrorizadas das varandas. As tropas dispararam contra as ambulâncias que resgatavam os feridos. O inverno caiu sobre a China e, em termos políticos, ainda não levantou”, refletia no domingo passado Nicholas Kristof, correspondente do New York Times em Pequim à altura.

Residentes de Pequim mostram uma bala disparada contra a sua casa na noite de 3 para 4 de junho ( MANUEL CENETA/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Ainda hoje, 30 anos passados, não se sabe ao certo quantos morreram naquela noite. As autoridades chinesas confirmaram 241 mortos, incluindo 23 soldados. A Cruz Vermelha deu uma estimativa inicial de mais de dois mil, que depois retirou. Um memorando diplomático do embaixador britânico chegou a colocar o número de mortos nos 10 mil.

“Houve uma controvérsia desde o início sobre o número de mortos. É impossível saber o número verdadeiro”, resume Al Pessin. Para o correspondente do Voice of America, contudo, isso não é o mais importante, tal como não são importantes as críticas dos que questionam o termo “Massacre de Tiananmen”: “Não interessa sequer se eles morreram na Praça, à volta da Praça ou as duas coisas. Quantos têm de morrer para podermos chamar ao que aconteceu um massacre? Um, dois, cem? Se tropas de um governo disparam contra civis, não tenho problemas em chamar a isso um massacre. E quem não quer chamar a isso Tiananmen, porque tecnicamente não foi na Praça, está a higienizar a História. É como chamar ‘eventos’ ao 11 de setembro. É uma palavra algo fraca para o que aconteceu.”

A amnésia sobre o Homem do Tanque (e Tiananmen) dentro da China: “É no Kosovo?”

É precisamente isso que as autoridades chinesas fazem atualmente quando se referem ao que aconteceu em Tiananmen — nas muito poucas vezes que o fazem —, usando o termo “o incidente de 4 de junho”.

Nas semanas após a repressão, à medida que iam sendo presos muitos dos manifestantes e a fotografia do “Homem do Tanque” ia sendo reproduzida menos e menos vezes nos órgãos de comunicação estrangeiros, o silêncio começou a impor-se na China. “As pessoas compreenderam a mensagem e passou a haver muito medo em Pequim, nessa altura”, recorda ao Observador Al Pessin. “Até mesmo quando se falava com algumas das pessoas que tinham estado envolvidas, elas começavam a repetir a propaganda do regime. Era como se tivessem corrigido o tom, porque estavam cheias de medo.”

“Não interessa sequer se eles morreram na Praça, à volta da Praça ou as duas coisas. Quantos têm de morrer para podermos chamar ao que aconteceu um massacre? Um, dois, cem? Se tropas de um governo disparam contra civis, não tenho problemas em chamar a isso um massacre. E quem não quer chamar a isso Tiananmen, porque tecnicamente não foi na Praça, está a higienizar a História. É como chamar ‘eventos’ ao 11 de setembro. É uma palavra algo fraca para o que aconteceu.”
Al Pessin, correspondente da Voice of America em Pequim à altura

Nos 10 dias seguintes, o jornalista começou a receber estranhos telefonemas na redação do Voice of America em Pequim. Sempre que dava o telejornal da noite, era habitual haver críticas e desmentidos das peças da rádio norte-americana, por serem escutadas por muitos chineses. Era então que o telefone tocava e alguém do outro lado dizia “Ouviste isso?”. A par desses telefonemas, outros ligavam para dizer: “É da Voice of America? Fuck you mother” — um insulto em inglês, com erro gramatical a acompanhar.

Não tardou a que Pessin recebesse ordem de expulsão do país. Com 72 horas de antecedência, ficou a saber que deveria sair do país a 17 de junho de 1989, como aconteceu. Estava, precisamente, a arrumar as suas coisas na redação da Voice of America quando o telefone voltou a tocar. “É da Voice of America?”, perguntaram. Al Pessin, chateado por pensar que aí vinha novo insulto, respondeu que sim, em tom brusco. “Não percas a coragem”, disse a voz do outro lado, em inglês. “Não percas tu a coragem”, respondeu o jornalista. “OK”, disse a mesma voz. “Foi um momento muito tocante para mim”, relembra agora o repórter. “É claro que eu estava frustrado por ter de ir embora, queria muito ficar e cobrir o que estava a acontecer até ao fim. Mas eu sou uma nota de rodapé naquilo que os chineses estavam a tentar fazer e naquilo que o governo chinês fez como resposta. A única coisa que posso dizer é que fui testemunha daquilo, como muitos outros”, justifica.

Na China de hoje, o silêncio sobre “o incidente de 4 de junho” impera. Aqueles que ousam falar do assunto abertamente são reprimidos. Ainda em abril de 2016, denuncia a Amnistia Internacional, um cidadão chinês foi condenado a três anos e meio de prisão por ter feito, a par de outros ativistas, uma edição especial de um licor chinês com o rótulo “Vinho de comemoração para promover o incidente de 4 de junho na internet”. Antes disso, em 2012, o pai de uma das vítimas de Tiananmen — um jovem que estava às compras numa rua distante da Praça e que foi morto a tiro pelas tropas — suicidou-se. O grupo das Mães de Tiananmen, a que pertencia, denunciou que há anos que a família lutava pelo reconhecimento das autoridades sobre a morte do filho e que aguardava por condolências públicas, que nunca chegaram.

A jornalista Louisa Lim chegou mesmo a fazer uma experiência para o seu livro acerca da “amnésia” sobre Tiananmen, que é bastante reveladora. Em várias universidades, mostrou aos estudantes a foto do Homem do Tanque e pediu-lhes para explicar que momento tinha sido aquele. Dos 100 inquiridos, apenas 15 responderam de forma acertada. “É na Coreia do Sul?”, perguntou-lhe um dos estudantes. “É no Kosovo?”, questionou outro.

A fotografia do Homem do Tanque na versão de Jeff Widener, que foi mostrada por Louisa Lim aos estudantes chineses (JEFF WIDENER/AP)

Em Pequim e no resto da China, a memória de Tiananmen está praticamente apagada — e os que recordam ou ouviram falar do assunto temem dizê-lo em voz alta. O Homem do Tanque, partilhado pelo resto do mundo, é ali ignorado. Enquanto o mundo recorda Tiananmen e o Homem do Tanque, a China continua a esquecê-los.

Mas o simbolismo da imagem permanece vivo. “Antes de 3 de junho, tivemos milhões de pessoas por toda a China nas ruas, a exigir pacificamente mais direitos, democracia, liberdade de imprensa, fim da corrupção”, reflete Robin Munro. “Depois de 4 de junho, o que temos? Um único homem, uma figura quase sacrificial, que assumiu o papel de falar por todos os que tinham sido silenciados.”

“Antes de 3 de junho, tivemos milhões de pessoas por toda a China nas ruas, a exigir pacificamente mais direitos, democracia, liberdade de imprensa, fim da corrupção. Depois de 4 de junho, o que temos? Um único homem, uma figura quase sacrificial, que assumiu o papel de falar por todos os que tinham sido silenciados.”
Robin Munro, investigador da Human Rights Watch que esteve em Tiananmen, sobre a foto do Homem do Tanque

Xiao Qiang, estudante chinês tornado ativista após Tiananmen e atual diretor do Laboratório de Contra-Poder da Universidade de Berkeley (EUA), recordou à PBS como todos os anos continua a receber telefonemas e emails de pessoas que lhe perguntam quem foi o Homem do Tanque e o que foi feito dele. “Não tenho essas respostas”, confessou no mesmo documentário. “Mas, de certa forma, o poder dessa história não está a enfraquecer com a passagem do tempo. O facto de não sabermos quem ele é tem fortalecido a história.

“Olhem para como as autoridades chinesas têm tentado apagar esta memória. Temporariamente, tiveram algum sucesso entre as gerações de chineses mais novos”, concedeu o ativista. “Mas, a longo-prazo, vão perder. Esta memória vai prevalecer. As fotografias estão em todo o lado, na internet, nas TVs satélite. Os chineses não esquecem os seus heróis e este herói irá inspirar os chineses uma vez mais.”

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