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Íris Redol trabalhou três dias como assistente de camarim no Teatro Maria Matos até ser dispensada
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▲Íris Redol trabalhou três dias como assistente de camarim no Teatro Maria Matos até ser dispensada

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲Íris Redol trabalhou três dias como assistente de camarim no Teatro Maria Matos até ser dispensada

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Trabalhadora no Teatro Maria Vitória diz que foi despedida por ser uma mulher trans e vai apresentar queixa

Assistente de camarim diz-se alvo de transfobia. Atriz do elenco diz que "toda a gente sabe que Íris foi despedida por ser trans". Dono do Maria Vitória não respondeu aos contactos do Observador.

Durante vários dias, Íris Redol, 26 anos, atravessou os bastidores do Maria Vitória, emblemático teatro de revista no Parque Mayer, em Lisboa. Era o seu primeiro trabalho como assistente de camarim e estava entusiasmada. “Estava a ir tudo muito bem. Recebi elogios, estava muito feliz, estava a gostar do que estava a fazer, estava a ser tudo ótimo… Até deixar de ser.”

A jovem diz ter sido despedida após três dias de trabalho completos, depois de se ter cruzado, pela primeira vez, com o diretor do teatro, Hélder Freire Costa. A causa? “Ser uma mulher trans”, acusa. Redol diz ter sido vítima de discriminação por parte do dono do teatro e vai apresentar queixa.

Tudo começou em meados de março, quando foi chamada para trabalhar como assistente de camarim no espetáculo E Ninguém Vai Preso?, em cena no Teatro Maria Vitória, para substituir Camila Fernandes, uma colega que conseguiu outro emprego e teve de abandonar o projeto. “Ela ficou de arranjar uma pessoa para a substituir. Como andei em moda e sabia que estava sem trabalho, chamou-me”, recorda. O trabalho era relativamente simples: implicava vestir o elenco no decorrer do espetáculo. Íris desliza o dedo no ecrã do telemóvel e percorre o documento com a sequência de passos que tinha de cumprir, muitos deles ilustrados com fotografias. “Era isto tudo, sempre, a mesma coisa em todas as sessões, pôr as roupas em certas posições, vestir atores”, exemplifica. Tinha também de fazer alguns ajustes, se necessário, pregar botões ou arranjar algo que se rasgasse ou rompesse durante a peça. Nada complexo para esta ribatejana formada em design de moda.

Nos primeiros dias, trabalhou acompanhada pela colega que a formou, até chegar ao dia em que fez as sessões sozinha. Era domingo e, depois da sessão da matiné, seguiu-se uma sessão noturna. “Já andava sozinha a fazer a minha vida, eu e o meu telefone contra o mundo”, conta. “Já tinha acompanhado a Camila, já tinha revisto tudo em casa.” O espetáculo da noite ia a meio quando entrou no camarim do ator Paulo Vasco, a pessoa que tinha de ajudar a vestir. O ator não estava sozinho, mas sim na companhia do empresário e histórico produtor do Maria Vitória.

“Estava lá o Hélder [Freire] Costa a falar com o Paulo Vasco. Eu, como tinha imensa coisa para fazer nem disse grande coisa, disse boa noite, com licença, perguntei ao Paulo Vasco se íamos vestir, vesti-o, e fui-me embora”, descreve. “Enquanto estava a vesti-lo, vi que o Hélder Costa olhou para mim, mas nunca tinha sido apresentada, não fiz caso. Já estou habituada a olhares, constantemente, e tinha imensa coisa para fazer ainda.” Os olhares a que Íris se refere, justifica, devem-se ao facto de ser uma mulher trans. “Só que as pessoas disfarçam sempre”, explica ao Observador. “Nunca fazem o que este fez.”

Dois dias depois, contava receber informações para saber como proceder à lavagem da roupa dos espetáculos — as récitas decorrem de quinta a domingo e “terça-feira é o dia para a lavandaria da roupa dos atores”, elucida. Mas foi surpreendida pela colega, que lhe disse, por telefone, que Íris “não precisava” de ir ao teatro. “Com uma voz um bocado atrapalhada disse-me que não era preciso eu ir e que combinávamos outro dia”, recorda.

▲ O Teatro Maria Vitória, no Parque Mayer, é um dos últimos redutos do teatro de revista na cidade de Lisboa. É, há vários anos, gerido pelo empresário e produtor Hélder Freire Costa

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

No dia seguinte, quarta-feira, Íris diz ter sido contactada pelo produtor do Maria Vitória, André Camilo, que a informou de que estaria despedida. A jovem diz que o produtor — que não respondeu às tentativas de contacto do Observador — lhe pediu desculpa. “Depois disse-me: ‘amanhã não é preciso vires mais porque o Hélder recusa-se a aceitar que tu és uma mulher, recusa-se a aceitar a tratar-te com o nome e não te quer mais a trabalhar aqui, não aceita o que tu és’”. A jovem relata que ficou em choque e sem reação: “Ele só me pedia desculpa, fiquei sem reação ao telefone”.

Tanto o Teatro Maria Vitória como Hélder Freire Costa não responderam aos vários pedidos de contacto do Observador. Na portaria do espaço, no Parque Mayer, remeteram todos os contactos por e-mail, mas nenhum foi respondido até à data de publicação deste artigo.

"Disse-me: 'amanhã não é preciso vires mais porque o Hélder recusa-se a aceitar que tu és uma mulher, recusa-se a aceitar a tratar-te com o nome e não te quer mais a trabalhar aqui, não aceita o que tu és'. Ele [produtor] só me pedia desculpa, fiquei sem reação ao telefone.”
Íris Redol, 26 anos, assistente de camarim

Ao jornal Nascer do Sol, o primeiro meio a reportar sobre o caso, Hélder Freire Costa justifica-se com o facto de “não ter sido consultado”, mas que “nem toda a gente serve para estar nos camarins”. “Os camarins têm valores”, acrescentou.

O dono do Maria Vitória confirma o encontro no camarim do ator, que descreve assim: “Um dia, fui confrontado com uma pessoa nos camarins com voz de homem. Cheguei ao camarim do Paulo Vasco – diretor de cena – e vejo uma pessoa quase com dois metros de altura, forte e que diz ao Paulo: ‘Então vamos vesti-lo?’. Eu fiquei: ‘Então mas o que é isto? O Carnaval já passou’. Deixei-o sair dali e perguntei ao Paulo quem era. Foi aí que ele me disse que era a nova assistente de camarim. Mas com autorização de quem?”, disse ao mesmo jornal. “Não entra aqui qualquer pessoa. Nos bastidores de qualquer teatro, não entram pessoas sem o patrão saber. As bailarinas podem estar despidas. Se se despem, têm de ter confiança com quem cá está. Entra assim uma pessoa e anda ali daquela forma? Isto é um teatro onde trabalharam as maiores figuras do nosso país. Isto não é uma palhaçada. Se é homem, tem de dizer que é homem, se é mulher tem de dizer que é mulher”.

Confrontada pelas declarações de Costa, Íris rebate: “Não é pela segurança das bailarinas, a questão claramente não é essa. Ele não gostou de ter uma pessoa trans a trabalhar ali”, diz ao Observador.

▲ Hélder Freire Costa, que há décadas gere o Maria Vitória e produz os espectáculos que sobem ao palco, recusou falar ao Observador

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Camila Fernandes, a assistente de camarim que indicou Íris para o trabalho, diz ao Observador que teve o cuidado de informar previamente a produção do Teatro Maria Vitória que seria substituída por uma pessoa trans. Explica porquê: “Já tinha consciência de que o Costa, por ser uma pessoa de idade e de outros tempos, era um pouco preconceituoso e com algumas questões. Achei por bem avisar o produtor [André Camilo] que uma pessoa me ia substituir era trans, se ele achava bem avisar o senhor Costa. Não sei como foi feita a abordagem, se foi avisado de antemão ou não, mas essa foi a razão de eu achar necessário fazê-lo”.

"Não faz o menor sentido uma pessoa completamente competente para fazer um trabalho ser demitida simplesmente por ser quem é."
Camila Fernandes, assistente de camarim

Segundo relata Fernandes, André Camilo só lhe terá respondido questionando sobre a  “responsabilidade” e “competência” da profissional em causa. Não havendo motivos de queixa, avançaram com a substituição. Agora, Camila sente-se “responsável” pelo desfecho e frisa que não quer esconder a sua “indignação”, nomeadamente perante os demais trabalhadores do teatro. “Demonstrei lá a todos a minha indignação perante a situação”, diz ao Observador. “Não faz o menor sentido, uma pessoa completamente competente para fazer um trabalho ser demitida simplesmente por ser quem é.”

O Observador sabe que o assunto tem gerado um clima de tensão no teatro no Parque Mayer, onde o espetáculo continua em cena. Íris diz ter recebido apoio de alguns elementos, vários de forma privada, e foi assim que soube que o tema foi tópico desde o momento em que se cruzou pela primeira vez com o dono do histórico teatro. “O Hélder Costa levantou barulho logo no domingo quando me viu, só que ninguém me disse nada porque estavam a tentar mudar as ideias até ao dia que eu tinha que voltar”, explica agora a este jornal.

Marta Gil, uma das atrizes que protagoniza E Ninguém Vai Preso?, é o único membro do elenco a pronunciar-se publicamente. “É uma situação triste e lamentável isto em 2025 acontecer num teatro que para mim é um sítio de liberdade, um sitio onde todos nós podemos ser o que quisermos, e isso não aconteceu”, diz ao Observador.

"Toda a gente daquele teatro me ouviu a dizer que o que estava a acontecer era um crime. Não se pode despedir uma pessoa por ela ser trans. Era isso que estava a acontecer e todos temos noção que foi por causa disso que ela foi despedida". 
Marta Gil, atriz do elenco

“Toda a gente sabe que o facto de a Íris ter sido despedida foi por ser trans e por não corresponder aos padrões do que o Sr. Costa acha que deve ser uma assistente de camarim num teatro como é o Teatro Maria Vitória”, garante.

A atriz confirma ao Observador que a hipótese de despedimento já circulava nos corredores desde o encontro entre a assistente e o diretor do teatro, mas que só na apresentação seguinte, a 27 março, dia mundial do teatro, é que a equipa foi informada do despedimento. “Tive uma grande discussão com um dos atores do teatro. Aliás, toda a gente daquele teatro me ouviu porque no corredor falei bastante alto a dizer que o que estava a acontecer era um crime. Não se pode despedir uma pessoa por ela ser trans. Era isso que estava a acontecer e todos temos noção que foi por causa disso que ela foi despedida.”

A atriz diz que falou com Hélder Freire Costa, por iniciativa própria, na sequência de declarações ao jornal Sol, que avançou com a notícia. “Essa minha comunicação não correu bem, tivemos uma pequena discussão e a partir daí o ambiente não está bom”, assume. “Há pessoas que não querem dar a cara neste tipo de coisas, há pessoas que ficam do lado do Sr. Costa porque dependem daquele teatro, têm ordenados para receber. Percebo tudo isso. Aliás, um dos motivos pelos quais não me fui embora é por toda uma equipa de bailarinos por quem tenho muito respeito. Faltam dois meses de trabalho e o facto de me ir embora, sendo a primeira figura do espetáculo, iria fazer com que eles tivessem de ter mais ensaios para encontrar uma pessoa para me substituir e os iria colocar numa situação péssima.”

▲ Marta Gil, ao centro, é uma das atrizes que protagoniza "E Ninguém Vai Preso?"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Estou ali, vou levar isto até ao fim, a não ser que me despeçam. Podem despedir-me e estão no direito de o fazer, mas não conseguia ficar calada numa situação destas”, justifica-se, ressalvando que o episódio “não invalida nada” do que Hélder Freire Costa “deu ao Parque Mayer e ao Maria Vitória”.  “Nada disto está posto em causa, mas esta atitude foi extremamente errada e, nos tempos que correm, ficar calada é compactuar. Foi por isso que decidi não ficar calada.”

Já saiu o quinto episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto episódio]

Assistente vai apresentar queixa por discriminação

O trabalho enquanto assistente de camarim na peça em questão deveria estender-se até junho. “Era um trabalho curto, mas não estava nada importada com isso porque estava a gostar tanto, estava-me a sentir tão bem e estava tão feliz por estar a fazer algo minimamente dentro da minha área, queria lá saber de estar a ganhar mal e que durasse pouco”, diz Íris Redol, que admite que vai apresentar queixa formal contra o empresário por discriminação no emprego.

▲ "Incomodou-lhe o meu tom de voz e o meu tamanho", acusa Íris Redol, que diz ter sido despedida do Teatro Maria Vitória, onde trabalhava como assistente de camarim, "por ser uma mulher trans"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O artigo 24 do Código do Trabalho, aprovado pela Lei n.º 7/2009, de 12 de fevereiro, consagra o “direito à igualdade no acesso a emprego e no trabalho”, e refere expressamente: “o trabalhador ou candidato a emprego tem direito a igualdade de oportunidades e de tratamento no que se refere ao acesso ao emprego, à formação e promoção ou carreira profissionais e às condições de trabalho, não podendo ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão, nomeadamente, de ascendência, idade, sexo, orientação sexual, identidade de género, estado civil, situação familiar, situação económica, instrução, origem ou condição social, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica ou raça, território de origem, língua, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical, devendo o Estado promover a igualdade de acesso a tais direitos”.

Ao Observador, Íris Redol diz ter reunido esta segunda-feira com a Opus Diversidades, uma ONG de defesa dos direitos humanos com especial incidência nas minorias sexuais e étnicas, para receber apoio jurídico.

"O meu trabalho estava a ser impecável, não tinha nada a apontar-me, foi só por existir. Incomodou-lhe o meu tom de voz e o meu tamanho (...) Não é pela segurança das bailarinas, a questão claramente não é essa. Ele [Hélder Freire Costa] não gostou de ter uma pessoa trans a trabalhar ali."
Íris Redol

“Não quero prejudicar ninguém porque só uma pessoa é que me fez mal, mas também não o vou deixar a rir-se. O meu trabalho estava a ser impecável, não tinha nada a apontar-me, foi só por existir”, defende. “Incomodou-lhe o meu tom de voz e o meu tamanho.” Sobre as declarações do empresário ao Sol, em que este diz que “hoje em dia, no teatro, muita gente é homossexual”, o que “nunca foi um problema” e que até tem “imensos amigos que o são”, Íris contesta: “O que eu senti estando lá dentro certo é: OK, podes ser [LGBT], mas não levantes muito a bandeira. E como eu por existir já é levantar uma bandeira por si só, foi o que foi”.

Até à data de publicação deste artigo, a jovem diz nunca ter falado com Hélder Costa sobre o assunto. Entretanto, colocou todas as suas redes sociais privadas e tem fugido às caixas de comentários. “Já li que era uma grande atriz de comédia. As pessoas não leem as notícias. Não sou atriz sequer.”

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