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ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

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Sobe, sobe, Rui Rio sobe. Sobe ao carro, sobe à varanda e sobe nas sondagens

No dia em que o PSD jogou a cartada final (e formal) de Tancos, Rio foi implacável com a dupla Centeno/Costa, que "baralha" de propósito os números. E mostrou, em Viana, que a onda laranja ainda vive

Artigo em atualização ao longo do dia de campanha

Sobe, sobe, Rui Rio sobe. Não, os jovens da JSD não cantam esta canção nas suas incursões de bandeira em riste pelas ruas de Portugal, mas podiam. Ao sétimo dia de estrada, Rui Rio não parou de subir. Subiu para o estribo do carro para acenar a quem ficava em terra quando acabou a mini (e frouxa) arruada em Barcelos, e voltou a subir para o estribo do carro quando acabou a — essa sim — grande arruada numa rua de Viana do Castelo. Pelo meio, fez melhor ainda: subiu para uma varanda, nessa rua de Viana, para acenar à onda laranja. Ao sétimo dia de estrada, a onda laranja provou que ainda vive. “Vitória, vitória, vitória!”, gritaram os militantes e simpatizantes cá em baixo, quando viram Rui Rio lá no alto.

A estrutura social-democrata mobilizou-se em Viana do Castelo e fez o que lhe competia: pintou de laranja uma rua inteira, que cantou e dançou ao som de um grupo de bombos e tambores. O entusiasmo era visível, e condizia com o entusiasmo que já se ia sentindo hoje na caravana laranja ainda a tarde ia a meio — e ainda as arruadas iam a meio gás. Em Barcelos, às 15h da tarde, com pouca gente nas ruas, nem a estrutura do partido foi suficiente para pintar o boneco pretendido. Mas os sorrisos não saiam da cara da comitiva. Porquê? Entre dentes, ia-se percebendo a justificação: a sondagem de logo à noite, dizem os “rumores”, é positiva…

E era. Afinal, a bomba Tancos pode ter mesmo surtido efeito. Segundo a sondagem da Pitagórica, divulgada pela TVI, JN e TSF pelas 20h, o PSD está já a apenas 6,4 pontos percentuais do PSD, com 28,9% contra 35,3% do PS. Ou seja, o PS está a descer e o PSD a subir. Para quem não gosta de sondagens, não liga a sondagens, e diz que todas as sondagens são manipuladas, “sobretudo as da Pitagórica”, como vai dizendo Rui Rio, desta vez não se pode queixar.

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Se Barcelos falhou, tendo sido uma arruada sem história, sem gente, e sem ser digna de nota, o mesmo não se pode dizer de Viana do Castelo, que cumpriu aquilo que se espera numa arruada. Apertado entre os candidatos a deputado pelo distrito, os militantes locais, os jotas, as bandeiras, os tambores, e quem mais houvesse, Rui Rio falou com os comerciantes e populares que encontrava. Se há coisa que Rio não faz é apelar diretamente ao voto: distribui lápis, mas mesmo quando do outro lado ouve dizer que o lápis vai servir para “pôr a cruzinha”, Rui Rio diz que não, porque a cruzinha faz-se com caneta. No meio da rua, Rio ouviu incentivos e queixas, mas sobretudo ouviu pedidos para “correr com ele”. “Não o deixe fazer o que ele quer, ele já anda doente das costas, ponha-o doente da cabeça e das pernas, que é o que precisa há muito tempo, ando farta de pagar impostos”, ouviu o líder do PSD duma popular. “Olhe pela gente, doutor Rui Rio”. Combinado.

Poucos metros bastaram para a imagem ficar registada: bandeiras ao alto, rua pintada de laranja e Rui Rio na varanda a acenar enquanto a multidão gritava o seu nome e gritava “vitória”. No dia em que o PSD jogou a cartada final (e formal) da saga Tancos, ao entregar o requerimento formal ao presidente da Assembleia da República a pedir para convocar uma reunião extraordinária da Comissão Permanente da Assembleia da República, a campanha do PSD soma pontos. Sobretudo depois de o PCP e o BE não se terem oposto à reunião da Permanente, e o PS ter acabado isolado na ideia de que isso é “instrumentalizar” as instituições.

Uma “aula” para Centeno, que “baralha os números de forma ridícula”

O dia tinha começado, contudo, com mais um episódio de outra série, a que chamamos de “Duelo de Centenos”. Mário Centeno, ministro das Finanças e candidato do PS pelo círculo de Lisboa, tinha acabado de dar uma conferência de imprensa no Largo do Rato, em Lisboa, para desconstruir os números do cenário macroeconómico do PSD e, a mais de 400 quilómetros de distância, Rui Rio não perdoava: Centeno “baralha os números de forma ridícula”, fá-lo  “propositadamente, para enganar as pessoas”, e António Costa nem sequer os domina. Pior ainda: “António Costa não tem noção nenhuma dos números”.

“É lamentável que alguém, que apesar de tudo é ministro das Finanças e se deve comportar tecnicamente acima de qualquer suspeita, baralhe os números todos de forma absolutamente ridícula”, começou por dizer o líder do PSD à margem de uma visita a uma adega cooperativa de Monção, onde assistiu a uma das etapas do processo de produção de vinho verde.

Mas, bem disposto, Rio até mostrou que tinha a solução para a baralhação de Centeno: uma aula do professor Joaquim Sarmento, o homem das Finanças do PSD, que até é professor de Finanças Públicas e que, portanto, melhor do que ninguém sabe explicar “ponto por ponto” o cenário macroeconómico do PSD. “O professor Joaquim Sarmento vai-lhe dar uma aula, que ele é que é professor, para ele saber ler o quadro macroeconómico do PSD”, disse.

Rui Rio não sabe se o facto de o PS estar a pôr Mário Centeno, na sede do PS, a comentar as contas do PSD, é ou não uma manobra de diversão para desviar atenções de outros temas, como Tancos, ou se é o PS a usar o seu ministro para procurar ganhos eleitoras, até “admite” que sim. O que Rui Rio sabe é que isso é mais uma prova do “desnorte” do PS, e uma prova de que, enquanto Centeno domina os números, mas os baralha, António Costa não os domina sequer: “não tem noção nenhuma” do que diz.

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E vai aos números: “Então o primeiro-ministro disse ontem que nós queremos baixar a carga fiscal em 3,7 mil milhões e ainda assim a receita fiscal cresce 2 mil milhões de euros? Está completamente fora dos números, não tem noção nenhuma… A receita, para nós, não sobe 2 mil milhões, sobe 5,4 mil milhões!”. Ou seja, Costa não foi rigoroso e acusou os sociais-democratas de quererem desequilibrar as contas usando números errados.

Para Rio, portanto, há uma leitura óbvia: “António Costa baralha os números porque não os domina, Mário Centeno domina mas baralha propositamente para enganar as pessoas”. Em causa está o facto de, nessa conferência de imprensa, Centeno ter dramatizado o discurso dizendo que o PSD se prepara para, com as contas “materialmente impossíveis” que apresenta, voltar a empurrar Portugal para o “procedimento por défices excessivos”.

Tancos não sai da campanha? “Só me limito a comentar o que o PS diz…”

Numa visita a uma adega de vinhos, e pouco depois de Rio pegar no copo para brindar, o líder do PSD também voltou a ser questionado pelo caso Tancos, para voltar a repetir o que tem dito sempre. Se Costa diz que não sabia, então ok, vale a “segunda hipótese”: não tem mão nos seus ministros em assuntos da maior gravidade. Rui Rio parte do princípio de que a SMS trocada entre Azeredo Lopes e o deputado socialista Tiago Barbosa Ribeiro é verdadeira, e, como tal, chega de prova para sustentar a ideia de que o então ministro da Defesa sabia da encenação do “achamento” das armas. Só se esse dado se alterar é que Rio admite estar enganado.

“Se o SMS não existe e foi inventado pelo Ministério Público, então tenho de racionalizar isto de outra forma”, disse, dando a entender que essa não é sequer uma hipótese provável. O ponto é: Rui Rio continua a dizer que não violou a presunção de inocência de ninguém, nem violou o segredo de justiça. “A partir do momento em que a acusação sai, deixa de estar em segredo de justiça”, disse.

E ponto final. Entre sorrisos, Rio vai dizendo que, por ele, até já não se estava a falar de Tancos na campanha. O PS é que não tira o tema da agenda… “Já dissemos todos o que tínhamos a dizer, o PSD fez as suas afirmações, tirou as suas ilações, as pessoas ouviram e dia 6 vão votar”. Pronto. “O PS é que insiste, insiste, está a correr atrás do pejuízo, obriga-me a voltar a dizer sempre a mesma coisa. Mas eu não saio da mesma coisa”.

Rui Rio parece imune aos ricochetes do PS no caso que foi o próprio Rui Rio que levou, bem quente, para a campanha. Por isso, um brinde. Com um copo meio cheio de Alvarinho, reserva de 2017, Rio brindou com o anfitrião da adega a boas premonições. “Que da próxima vez que vier cá, seja como primeiro-ministro, para ter ali o nome na placa”. E Rio levantou o copo: “Para ter uma placa”. E bota-abaixo.

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