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Os livros de história, escritos na óptica ocidental, costumam atribuir a Erik o Vermelho a descoberta da Gronelândia, ainda que os inuit lá tivessem chegado quatro milénios e meio antes. Passados mais de mil anos sobre o desembarque dos primeiros vikings, o governo americano reclama para si a Gronelândia e assevera que ela será sua, sem que aos seus habitantes seja concedido voto na matéria e, se necessário, empregando a força.

A Gronelândia antes dos europeus

Os povos nativos da Gronelândia, do Alaska e das regiões árticas do Canadá e Sibéria Oriental costumavam ser designados no Ocidente como “esquimós”, termo que tem vindo a ser substituído pelo nome que estes povos dão a si mesmos: inuit, no caso dos que habitam o Novo Mundo, ou yupik, no caso dos que habitam a Sibéria Oriental. Na verdade, os inuit que hoje encontramos no continente americano e nas ilhas próximas são os herdeiros de três vagas sucessivas de migrantes, por vezes designados como paleo-inuit, que atravessaram o Estreito de Bering para leste e a que estão associadas três “culturas” distintas: a Saqqaq, cuja presença na Gronelândia vai de 2400 a.C. a 1300 a.C., a Dorset, que dominou entre 500 a.C. e 1000 d.C. e cuja presença na Gronelândia esteve limitada ao extremo noroeste; e a Thule (que está na origem dos modernos inuit), que surgiu no Alaska por volta de 1000 d.C. e chegou à Gronelândia dois séculos depois.

Dalbéra, Jean-Pierre

Urso a nadar, esculpido em marfim de morsa, cultura Dorset

Os povos da cultura Thule começaram por estabelecer-se no norte e noroeste da Gronelândia, pelo que os seus contactos com os vikings, que tinham colonizado a costa sudoeste da ilha a partir do final do século X, só tiveram lugar no século XIII e começaram por ter natureza esporádica, ocorrendo sobretudo no contexto de expedições de caça. Todavia, nos dois séculos seguintes, os inuit foram progredindo paulatinamente para sul, ao longo da costa ocidental, ao mesmo tempo que as colónias vikings começaram a declinar. Foi neste período que as interacções entre os dois grupos foram mais intensas – até que os últimos vikings se extinguiram e os inuit acabaram por dominar as costas ocidental e oriental (embora se tivessem retirado da costa norte). Deve realçar-se que os inuit, ainda que bem adaptados às agrestes condições do Árctico, ficaram sempre limitados à faixa litoral, por o seu modo de vida estar inteiramente assente nos recursos marinhos e por o interior da Gronelândia ser um deserto de gelo e rocha, quase desprovido de vida.

Evolução da presença das culturas Dorset e Thule e dos vikings na Gronelândia e no Canadá, 900-1500

Os vikings à conquista do Atlântico Norte

É usual – e justo – enaltecer a coragem dos navegadores portugueses do século XV ao aventurarem-se por mares desconhecidos em embarcações de modesta dimensão e parcos confortos e dispondo de tecnologia de navegação rudimentar. Porém, a partir do final do século VIII, os vikings levaram a cabo viagens no Atlântico Norte que recorreram a embarcações ainda mais pequenas, frágeis e desprotegidas face aos elementos do que as caravelas e naus dos Descobrimentos, e a tecnologias de navegação ainda mais incipientes do que as dos portugueses do final da Idade Média.

Como as expedições portuguesas fariam depois ao longo da costa ocidental de África, as explorações que levaram os vikings até à América do Norte também se fizeram por etapas e passaram pelo estabelecimento de colónias nas Ilhas Orkneys, nas Ilhas Shetland, nas Ilhas Faroe, na Islândia e na Gronelândia, por esta ordem. As Orkneys e as Shetland, não muito distantes da Escócia, eram habitadas pelos pictos, povo que os vikings subjugaram facilmente. No caso das Faroe e da Islândia, os vikings foram os primeiros colonizadores, mas não os descobridores – tal primazia coube a monges irlandeses, que terão chegado às Faroe no século VI e à Islândia no século VIII, ainda que a sua presença nestas paragens tenha sido muito pontual e efémera. Os vikings só adoptaram a navegação à vela em meados do século VIII, mas rapidamente se tornaram exímios no seu uso e estabeleceram colónias permanentes nas Ilhas Faroe, a partir de 825, e na Islândia, a partir de 874.

Jacques Lathion

Os vikings chegam à Islândia, quadro por Oscar Wergeland, 1877

É relevante precisar que a expansão para ocidente no Atlântico Norte foi levada a cabo pelos vikings originários da Noruega, ao passo que os vikings da Dinamarca rumaram a sul, estabelecendo-se na costa leste da Escócia e da Inglaterra e no noroeste de França, sobretudo na Normandia (cujo nome provém do termo em francês antigo para designar os “homens do Norte”) e, após contornarem a Península Ibérica, entraram no Mediterrâneo, tomando conta do terço meridional da Península Itálica, da Sicília e de Malta. Os vikings originários da Suécia expandiram-se para o Báltico e, subindo o curso dos rios que desaguam neste mar, estabeleceram-se no que é hoje a Ucrânia, a Bielo-Rússia e o Sudoeste da Rússia, assumiram o controlo de um amplo espaço de comércio que ia do Mar Báltico ao Mar Cáspio e serviram o Império Bizantino como mercenários.

Mapa da expansão viking, 800-1050

Erik o Vermelho, um pioneiro com sangue nas mãos

Erik Thorvaldsson, que ficou conhecido como Erik o Vermelho, o homem a quem é tradicionalmente, atribuída a descoberta da Gronelândia, nasceu na Noruega por volta de 950. O seu pai, Thorvald Asvaldsson (trineto de um irmão de Naddodd, o primeiro viking a aportar à Islândia), foi condenado ao exílio por volta de 960, “por causa de algumas mortes” (segundo rezam as crónicas, sem entrar em detalhes), e rumou para a Islândia com a sua família, instalando-se em Hornstrandir, no extremo noroeste da ilha. Após ter-se casado, Erik mudou-se para Haukadalur, mas não ficou aí durante muito tempo, pois, quando tinha à volta de 32 anos, foi, como o pai, condenado ao exílio por ter matado dois homens numa luta que teve início como uma pequena desavença entre vizinhos que degenerou em violência. Erik mudou-se para Öxney, noutra região da Islândia, e aí construiu uma casa, mas não tardou a envolver-se, mais uma vez, numa fera quezília: um certo Thorgest, ter-se-á recusado a devolver a Erik umas vigas de madeira que este confiara à sua guarda, o que levou a uma sarrafusca entre os grupos de Erik e de Thorgest e se saldou na morte de dois filhos deste último. É provável que Erik tenha ganho o seu cognome devido à cor do seu cabelo, mas a verdade é que o sangue que derramou também o poderia justificar.

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Página da saga de Erik o Vermelho, uma tradição oral vertida na forma escrita por um clérigo islandês do século XIII

A Thing, ou assembleia local, que servia para derimir conflitos e tomar decisões sobre a gestão da comunidade, decretou o banimento por três anos de Erik e dos seus cúmplices e Erik decidiu ir em busca de uma ilha que existiria a oeste da Islândia e que fora avistada por um certo Gunnbjörn Ulfsson cerca de um século antes. Ao que consta, Gunnbjörn (de quem se sabe muito pouco) não terá chegado a desembarcar (nem sequer é certo que a terra que avistou fosse, efectivamente, a Gronelândia), mas isso não impediu que o seu nome fosse atribuído, séculos mais tarde, ao pico mais elevado da Gronelândia, o Gunnbjørn Fjeld.

Gunnbjørn Fjeld

Erik chegou por volta de 982 ao sul da Gronelândia e aí passou os três anos de exílio a que fora condenado, gastos em explorações e na construção de uma casa. Findo o período de banimento, regressou à Islândia para anunciar a sua descoberta e tentar aliciar outros vikings a juntarem-se a si. Para este fim, decidiu “dourar a pílula”, designando o novo território como “Grœnland”, ou seja, “Terra Verde”.

“Erik o Vermelho chega à Gronelândia”, por Carl Rasmussen, 1875

Promessas de paraíso entre gelo, fogo e escarpas

Segundo Gwyn Jones, no clássico A history of the Vikings (1968, ed. revista 1984), o que motivou os noruegueses a navegarem para oeste, a colonizar a Islândia e a Gronelândia e a tentarem estabelecer-se na América foi a busca por terra arável e pastagens. Todavia, a Islândia e a Gronelândia tinham pouco a oferecer neste domínio, apesar de, por esta altura, o clima do Atlântico Norte (mas não o do resto do mundo, note-se) atravessar o “Período Quente Medieval” (950-1250), marcado por temperaturas invulgarmente amenas.

Na verdade, das colónias norueguesas no Atlântico Norte, apenas as Orkneys (colonizadas a partir de c.800) possuíam terras férteis; as Shetland tinham solos pobres e um clima ventoso, de forma que os noruegueses acabaram por desistir de tentar nelas criar gado bovino e optaram pelas ovelhas. O vento intenso era também um obstáculo à agricultura e à pecuária nas Faroe e na Islândia. Esta tinha o inconveniente adicional de a sua paisagem ser dominada por glaciares, vulcões e campos de lava. Os primeiros vikings a chegar à Islândia não estavam longe da verdade a quando baptizaram como Terra da Neve (Snaeland) e, depois, como Terra do Gelo (Ísland), embora “Terra de Fogo” também não lhe assentasse mal. Apesar da presença conspícua do gelo, da rocha e do fogo, existiam manchas de solos relativamente férteis, que, no início da colonização viking, estavam cobertas com florestas. Porém, este solos tinham uma fertilidade frágil e eram muito susceptíveis à erosão, pelo que a desflorestação, as práticas agrícolas inadequadas e o sobrepastoreio em poucas décadas converteram a maioria das manchas verdes num semideserto frio e desolado – condição que persiste até aos nossos dias.

Mapa da Islândia, por Willem Blaeu, 1630

Mesmo depois de desertificada pela acção humana, a Islândia era muito mais aprazível do que a Gronelândia, que se encontra, em 80% da sua área, coberta por uma camada de gelo que pode atingir dois a três quilómetros de espessura e com boa parte da área restante ocupada com afloramentos rochosos; também possui um clima ainda mais adverso do que a Islândia e que apenas autoriza o verde a quebrar a monotonia do branco, negro e cinzento durante o breve e fresco Verão e nas enseadas abrigadas. Só cerca de 0.5% da área da Gronelândia é classificável como “pastagem” e o conceito de “terra arável” dificilmente ali tem aplicação. Mesmo as espécies arbóreas e arbustivas mais rústicas e adaptadas ao frio têm dificuldade em medrar, de forma que a única área florestada da Gronelândia é uma estreita faixa de 15 km de comprimento aninhada no fundo do estreito vale de Qinngua, que é ladeado por montanhas de 1500 metros de altura, que o protegem dos ventos que sopram dos glaciares. A raquítica “floresta” de Qinngua é formada quase exclusivamente por uma espécie de bétula (a Betula pubescens) e outra de salgueiro (Salix glauca), com alguns espécimens da primeira a atingir sete ou oito metros de altura e a segunda a ficar-se pelo porte arbustivo.

Nas línguas latinas, o significado do topónimo derivado de “Grœnland” perdeu-se (o mesmo se passou com o derivado de “Ísland”), mas nas línguas germânicas a designação escolhida por Erik o Vermelho para a Gronelândia é um dos casos mais flagrantes de publicidade enganosa da história.

A única “floresta” da Gronelândia, no vale de Qinngua

As colónias vikings da Gronelândia

Atraídos pelo retrato favorável feito por Erik, 14 navios de vikings islandeses rumaram à “Terra Verde” em 985 e fundaram pequenas colónias nos fiordes mais abrigados da costa sudoeste da ilha. Nos anos seguintes, as quintas foram alastrando lentamente, dando origem a um “Assentamento Oriental” – na verdade no lado ocidental do extremo sul da ilha – e a um “Assentamento Ocidental”, 450 km a noroeste, na mesma costa. As estimativas para o número total de colonos no período de apogeu varia entre 2000 e 10.000 e, até hoje, foram identificados vestígios de mais de 600 quintas, ainda que nem todas tenham estado ocupadas simultaneamente – supõe-se que, em média, as quintas activas rondassem as 250.

Entretanto, por volta do ano 1000, Leif Erikson (c.970-c.1018/25), filho de Erik o Vermelho, numa viagem entre a Noruega e a Gronelândia, foi desviado da rota por uma tempestade e foi parar a uma costa desconhecida, que tem sido identificada com a Terra Nova e que Leif baptizou como Vinland, designação que os etimologistas debatem se faz referência a “vinho” ou a “pastagem”, que, no norueguês antigo são palavras homófonas.

Leif Erikson avista a América, por Christian Krohg, 1893

De qualquer modo, não sendo aquelas latitudes favoráveis às videiras, é possível que o nome aluda à abundância de algum tipo de baga susceptível de ser fermentada para produzir bebidas alcoólicas. Até hoje só foi encontrado um vestígio inequívoco do assentamento norueguês naquelas paragens: um pequeno e efémero povoado em L’Anse aux Meadows, no extremo norte da Terra Nova.

Os vikings exploraram também territórios próximos, a que deram o nome de Markland (“Terra das Florestas”), que é identificado com a Península do Labrador, e Helluland (“Terra das Pedras”), identificado com a Ilha de Baffin, e é possível que se tenham aventurado mais para sul ao longo da costa americana.

Rotas hipotéticas das navegações vikings no Novo Mundo

Vinland e o litoral americano que se estendia para sul ofereciam um clima mais ameno e terras férteis, mas estavam demasiado longe da Gronelândia para permitirem o estabelecimento de rotas regulares: os limitados conhecimentos de orientação marítima dos vikings forçavam-nos a navegar junto à costa, fazendo com que o trajecto entre a Gronelândia e Vinland tivesse 2000 milhas, distância desafiadora, naquelas latitudes, para os pequenos navios sem convés dos vikings. Por outro lado, ao contrário da Islândia (que nunca fora habitada) e da Gronelândia (que se encontrava praticamente desabitada há séculos quando os vikings chegaram), a costa do continente americano albergava densas populações indígenas, bem treinadas na arte da guerra, que reagiam energicamente à presença de intrusos – terá sido a conjugação de distância à base e de hostilidade dos indígenas que fez com que o povoado de L’Anse aux Meadows tenha sido abandonado ao fim de uma década.

Reconstituição do assentamento viking em L’Anse aux Meadows

Embora tenham desistido de estabelecer colónias na América, os vikings da Gronelândia continuaram, durante cerca de três séculos, a visitar o continente americano para se abastecerem de um recurso vital impossível de encontrar na Gronelândia ou na Islândia: madeira (se Trump sabe disto, é capaz de invocar o ressarcimento pela “pilhagem das florestas americanas” pelos gronelandeses como justificação para se apoderar da Gronelândia).

Quem aprecie os meandros e efabulações da “história alternativa” poderá entreter-se com a possibilidade de as colónias de vikings da Terra Nova terem vingado e acabado, pouco a pouco, por expandir-se para sul e para o interior, fazendo com que toda a América do Norte do século XXI desta realidade alternativa falasse uma variante de norueguês ou de islandês (a língua moderna mais próxima do norueguês antigo).

Na linha da história real, deram-se alterações políticas de relevo em 1261, quando os colonos gronelandeses decidiram abandonar o sistema de autogestão em que viviam e tornarem-se súbditos do rei da Noruega (os islandeses fizeram o mesmo em 1262-64). Este estatuto foi alterado em 1380, quando os imbróglios das sucessões dinásticas fizeram com que Olaf II da Dinamarca, que herdara este trono com seis anos de idade, se tornou também rei da Noruega, como Olaf IV, quando tinha dez anos. Olaf II/IV não teve muito tempo para desfrutar da dupla coroa, pois faleceu em 1387, com 17 anos, evento que a sua mãe, Margarida I da Dinamarca, aproveitou para puxar os cordelinhos da política nórdica de forma a instituir, nesse mesmo ano, a União de Kalmar, que agrupou as coroas da Noruega, Dinamarca e Suécia (que, à data, incluía parte do que é hoje a Finlândia) e extinguiu a linha sucessória masculina norueguesa. O primeiro monarca desta União foi, claro, Margarida I, que reinou até 1412.

A União de Kalmar, c.1400

Um penoso declínio

As considerações acima apresentadas sobre escassez de recursos, pobreza de solos, condições climáticas adversas e dificuldades de comunicação visam realçar quão árdua, periclitante e imprevisível era a vida humana em muitos pontos do planeta antes de a tecnologia e a logística modernas terem surgido – algo que a classe média dos países desenvolvidos do séculos XXI tende a esquecer, uma vez que vive numa bolha de abundância, conforto e previsibilidade: passa boa parte do seu tempo de trabalho e de lazer em ambiente climatizado; frequenta supermercados onde a maior angústia que enfrenta é decidir-se entre uma centena de variedades de cereais de pequeno-almoço; desloca-se em automóveis equipados com volante aquecido e bancos com massagem; alimenta os seus cães e gatos com comida enlatada que é superior, em termos de valor nutritivo, higiene e requinte, ao farnel do típico mineiro ou operário fabril do século XIX; e dispõe, no seu smartphone, de apps que lhe permitem instruir a sua “casa inteligente” para ligar o pavimento radiante uma hora antes do regresso ao lar e satisfazer um súbito apetite por comida tailandesa mediante a convocação instantânea de um solícito estafeta nepalês.

Nem sempre foi assim. Por exemplo, a Islândia, ainda que menos hostil do que a Gronelândia e mais próxima da Noruega, foi assolada por várias fomes devastadoras, resultantes de más colheitas devidas a meteorologia desfavorável ou a erupções vulcânicas que cobriam as terras agrícolas e as pastagens de cinzas tóxicas; a fome que se seguiu à erupção do vulcão Laki, em 1783, por exemplo, terá levado à morte de 20% da população da ilha.

Quanto à Gronelândia, não há prova mais eloquente da sua pouca adequação à vida humana que o facto de as primeiras vagas migratórias de paleo-inuit também terem acabado por se extinguir na ilha ou de se terem visto forçados a abandoná-la, o que explica que, nos primeiros tempos da colonização viking, não houvesse outros povos a residir na Gronelândia (embora pudessem visitá-la em expedições de caça). Uma vez que a agricultura era inviável na Gronelândia, os colonos vikings viviam do leite, queijo e manteiga fornecidos pela actividade pecuária, sustentada nas pastagens que medravam durante o Verão, e da caça a morsas, focas, ursos polares e alguns cetáceos; inexplicavelmente, tiravam pouco partido dos ricos recursos pesqueiros daqueles mares. Exportavam para a Noruega peles, coiros, lã e marfim, e de lá importavam cereais e produtos agrícolas, madeira, ferramentas e peças metálicas, armas, vidro e alfaias religiosas – a Islândia e a Gronelândia converteram-se ao cristianismo por volta do ano 1000 e em 1126 foi criada uma diocese e erguida uma catedral em Gardar.

Báculo e anel pertencentes a um dos bispos de Gardar, possivelmente o bispo Óláfr, que esteve à frente da diocese em 1246-80

As limitações biofísicas da Gronelândia faziam com que as colónias vivessem no limiar de subsistência e o termo do Período Quente Medieval, em meados do século XIII, agudizou as dificuldades. As temperaturas baixaram, o período em que as pastagens ficavam cobertas de neve e em que o gado tinha de ser mantido nos estábulos tornou-se mais longo, a navegação tornou-se mais arriscada e demorada, em resultado das tempestades mais frequentes e do aumento da densidade do gelo flutuante. Para somar a isto, o sobrepastoreio e o corte das raquíticas manchas arborizadas favoreceram a erosão e empobreceram ainda mais os solos; e, abatidas as últimas árvores e arbustos, as colónias ficaram sem lenha nem material para fabricar utensílios ou fazer reparações nas habitações e vedações.

Entretanto, na Europa, não só a voga das peças decorativas em marfim perdeu fulgor, como os artesãos passaram a ter mais fácil acesso a presas de elefante, que eram consideradas superiores às presas de morsa, que eram uma das principais exportações da ilha. Ao mesmo tempo, outra das principais exportações gronelandesas, as peles, começaram a sofrer forte concorrência das que provinham da Rússia e que estavam mais à mão. Para compor o descalabro, a partir de meados do século XIII, os inuit, que só pontualmente surgiam nestas paragens, começaram a ser uma presença regular e a aproximar-se; embora não existam muitos registos inequívocos de confrontos directos entre inuit e vikings, é provável que entrassem em competição pela caça.

Na mente dos governantes da União de Kalmar – em que a Noruega se tornara, entretanto, num parceiro menor – as remotas e cada vez menos relevantes colónias gronelandesas foram perdendo prioridade, até porque, em meados do século XIV, a Peste Negra e as suas prolongadas sequelas ofuscaram quaisquer outras preocupações. Em 1378, com o falecimento do bispo Álfr, a diocese gronelandesa de Gardar ficou vacante e assim se manteve, pois, embora fossem nomeados sucessivos bispos para esse posto (até 1537!), nenhum deles quis viajar para a Gronelândia. Na verdade, mesmo que quisesse ir ocupar o cargo, teria grande dificuldade em encontrar transporte, pois, em 1368, o navio real, que visitava a ilha todos os anos e era um dos esteios do comércio gronelandês, foi suspenso e, daí em diante, há apenas quatro registos de que navios particulares tivessem aportado à Gronelândia (em 1381, 1382, 1385 e 1406). O que é mais sintomático é que nenhum deles o fez de livre vontade: o seu destino era a Islândia e foram empurrados para ocidente por tempestades.

Morten Aamot Kristiansen

As regiões setentrionais segundo Abraham Ortelius, c.1570. Em meados do século XVI, o conhecimento cartográfico sobre as regiões árctica e sub-árctica oscilava entre o incipiente e o fantasioso. São de assinalar a imaginária massa de terra acima do paralelo 80, designada por “Septentrio” e com a indicação “aqui habitam pigmeus”; as duas Gronelândias (Groenlandt); a inversão (de oeste para leste) da representação da Islândia (Islant); e numerosas ilhas imaginárias a sul, a sudoeste e a oeste da Islândia

Um mistério não muito difícil de explicar

O último documento conhecido que foi encontrado nas colónias de Gronelândia é o registo de um casamento na igreja de Hvalsey, em 1408. A derradeira informação sobre as colónias que chegou à Islândia e à Noruega data de 1410 e foi trazida pelo navio que, em 1406, fora empurrado até à Gronelândia e lá se demorou quatro anos; noticiava que um certo Kolgrim fora acusado de feitiçaria e queimado na fogueira, por determinação do Thing, o que sugere que, apesar das privações, ainda havia energia e lenha para combater as práticas contrárias à fé cristã. Hoje supõe-se, com base nos vestígios arqueológicos, que os últimos habitantes terão perecido em meados do século XV.

Ruínas da igreja de Hvalsey, Gronelândia

Decorreria mais um século e meio até que, em 1605-07, o rei Cristiano IV da Dinamarca enviasse expedições à Gronelândia, com o intuito de saber o que acontecera aos seus súbditos e de reafirmar a posse daqueles territórios (entretanto, em 1537, a União de Kalmar fora dissolvida, apartando a Suécia da monarquia dual Dinamarca-Noruega). As expedições, que se defrontaram com muito gelo e tempo agreste, não encontraram descendentes das colónias vikings: apenas quintas abandonadas e um ou outro inuit, alguns deles vivendo nas ruínas das construções vikings.

No início do século XVII, as águas da Gronelândia começaram a ser demandadas por caçadores de baleias europeus (sobretudo holandeses e ingleses), mas as condições climatéricas – o Atlântico Norte atravessava o período mais intenso da “Pequena Idade do Gelo”, que se estenderia até ao início do século XIX – desencorajavam o restabelecimento de colónias, pelo que o único sinal visível do renascimento do interesse do reino da Dinamarca-Noruega pela Gronelândia se resumiu à adição ao brasão de armas, de um urso polar, que representava a ilha, o que ocorreu em meados do século XVII.

Brasão de armas da Dinamarca: O carneiro representa as Ilhas Faroe, o urso polar, a Gronelândia

A extinção das colónias vikings da Gronelândia foi, durante muito tempo, vista como um mistério, e suscitou variadas explicações, umas muito improváveis – a causa da sua perdição teria sido o abandono da fé cristã e das virtudes que lhe estão associadas – e outras com algum grau de razoabilidade – os vikings teriam sucumbido à peste, sido massacrados pelos inuit ou atacados por piratas vindos de outros países europeus. Os três capítulos que Jared Diamond dedica ao assunto no magistral Collapse: Why societies choose to fail or survive (2005) apresentam uma perspectiva mais plausível e fundamentada para o sucedido: os colonos terão morrido, paulatinamente, de frio e fome, por terem sido incapazes de se adaptarem às novas condições biofísicas, por terem adoptado práticas agropecuárias inadequadas e por terem insistido no apego a modos de subsistência e exploração de recursos naturais que tinham importado da Islândia (e que, por sua vez, tinham origem na Noruega) e que não eram aplicáveis às condições locais.

O papel da mentalidade obstinadamente conservadora dos colonos no seu declínio já tinha sido apontado por Gwyn Jones em A history of the Vikings e Diamond apresenta elementos de prova e argumentos persuasivos para apoiar esta hipótese. Segundo Diamond, o funesto destino dos colonos vikings terá resultado, em parte, da combinação do seu conservadorismo inato com o desprezo que nutriam pelos inuit, que designavam pejorativamente por skrælingjar (singular skrælingi), com o significado de “enfezados” ou “desgraçados” – termo que também aplicavam aos habitantes do continente americano.

Lápide funerária viking, Herjolfsnæs, Gronelândia

Ao longo de milhares de anos de vida no Árctico, os inuit tinham aperfeiçoado estratégias de sobrevivência para as condições extremas reinantes, mas o facto de os colonos verem os skrælingjar como uma raça sub-humana levou a que entendessem que nada teriam a aprender com eles. Por isso não adoptaram as técnicas de caça à foca e à baleia dos inuit; nem o seu vestuário e as suas botas de Inverno; nem os seus eficazes arpões, nem qualquer artefacto de pesca; nem os seus umiaks e kayaks, admiravelmente leves e manobráveis e cuja construção não requeria madeira, pois eram feitos de peles esticadas sobre um cavername de ossos de baleia; nem incluíram na sua dieta regular o peixe (uma importante componente da alimentação inuit), mesmo quando chegaram ao desespero de começarem a comer as suas últimas vacas (cascos incluídos) e os seus cães.

Há, finalmente, que considerar um factor que não terá ajudado à estabilidade e ao espírito de cooperação e entreajuda que são especialmente importantes para que uma comunidade seja estável e resista a crises: a violência que marcou a vida do fundador das colónias da Gronelândia parece ter tido continuação na vida daquelas comunidades, como atestam as sagas e os numerosos esqueletos exumados dos cemitérios da Gronelândia que apresentam indícios de terem sofrido uma morte violenta – a fama dos gronelandeses era tal que o primeiro bispo a ser nomeado para as colónias, em 1124, começou por recusar o cargo, invocando o carácter irascível e conflituoso daquelas gentes.

“Mapa Skåholt” (1570), da autoria do islandês Sigurd Stefansson. Merecem nota a designação “Skralinge Land” no continente americano, no canto inferior esquerdo, e o facto de a Gronelândia surgir conectada ao continente americano – mapas posteriores representam-na como ilha, mas só no final do século XIX foi possível confirmá-lo

A Gronelândia nos séculos XVIII e XIX

A moderna colonização dinamarquesa só foi iniciada em 1721 e, ainda assim, de forma tímida. A primeira tentativa de estabelecer uma colónia em Godthåb (hoje Nuuk, a capital gronelandesa) saldou-se na morte de todos os colonos, em resultado do escorbuto. Os dinamarqueses regressaram, mas, em 1733, foi a vez da varíola assolar a ilha. A introdução de ideias europeias parece ter tido sucesso, a julgar pelas várias missões protestantes criadas ao longo da costa sudoeste, mas a introdução de espécies animais e vegetais europeias somou fiasco atrás de fiasco, de forma que a natureza das principais exportações da ilha não divergiu muito do que fora no tempo dos vikings: peles, marfim e gordura de baleia e foca, na época com grande procura para fins de iluminação.

O sol da meia-noite na costa da Gronelândia, por Carl Rasmussen, 1872

No terceiro quartel do século XVIII, a companhia real que detinha o monopólio do comércio com a Gronelândia (a Kongelinge Grønlandske Handel ou KGH) acabou por reconhecer que era infrutífero desenvolver a agricultura e a mineração na ilha e que o seu “core business” (como hoje sói dizer-se) era mesmo a gordura de baleia e de foca. No plano social, a KGH também proibiu casamentos mistos entre funcionários seus e mulheres inuit e qualquer tentativa para tentar converter os inuit à vida urbana, quiçá por os julgar “incivilizáveis”.

A Doca Real da Gronelândia, em Copenhaga, em 1810, por N.I. Bredal

Em 1814, as potências vencedoras das Guerras Napoleónicas decidiram punir a Dinamarca por ter lutado ao lado de Napoleão e, através do Tratado de Kiel, impuseram a dissolução da monarquia dual Dinamarca-Noruega e “ofereceram” a Noruega à Suécia; porém, colocaram a Gronelândia e as outras colónias norueguesas sob a alçada da Dinamarca, o que pode parecer pouco lógico, mas talvez tenha pretendido evitar que a Suécia ficasse demasiado poderosa.

Porém, a soberania dinamarquesa sobre a Gronelândia viria a ser desafiada algumas décadas depois, com base no facto de a ocupação dinamarquesa estar restrita a alguns pontos apenas, o que faria do resto da ilha uma terra nullis, susceptível de ser reivindicada (na óptica dos países desenvolvidos, os inuit não contavam como ocupação humana, nem tinham nada a dizer sobre assuntos de soberania, ideia que persiste nalgumas cabeças do nosso tempo, ainda que não de forma explícita).

Danças tradicionais gronelandesas, por Carl Rasmussen (1841-1893)

A primeira manifestação séria de interesse pela Gronelândia veio dos EUA, em 1867, por iniciativa do Secretário de Estado William H. Seward, que acabara de concretizar a aquisição à Rússia (por 7.2 milhões de dólares) de outro vasto território árctico, o Alaska, e estaria acometido por aquilo a que hoje se designaria como um “shopping spree” (ver capítulo “A loucura de Seward” em Esta estrada leva a Clintonville ou a Trump City?). Na verdade, a proposta feita à Dinamarca incluiu também a cedência da Islândia e, num processo paralelo, foi também colocada a possibilidade de aquisição das Ilhas Virgens Dinamarquesas (ou Índias Ocidentais Dinamarquesas), no Caribe.

Estas ilhas, descobertas por Cristóvão Colombo em 1493 e assim nomeadas pelo beato navegador em referência a Santa Úrsula e à lenda das 11.000 virgens (o nome que lhes atribuiu foi “Santa Úrsula y las Once Mil Vírgenes”), tinham sido palco de várias revoltas de escravos que tinham acentuado o declínio das plantações, pelo que, em meados do século XIX se tinham tornado num fardo para as finanças do reino da Dinamarca. Estes factos e o escasso rendimento vindo da Gronelândia pesaram na decisão do Governo dinamarquês de vender estes territórios – o lote Gronelândia + Islândia por 5.5 milhões de dólares, as minúsculas Ilhas Virgens por 7.5 milhões, o que dá ideia de que ninguém, à data, via grande potencial em territórios constituídos por gelo e rochas, por mais extensos que fossem. Porém, nenhum dos negócios se concretizou, pois, após o Congresso dos EUA rejeitar a proposta de aquisição das Ilhas Virgens, Seward nem sequer submeteu a proposta de aquisição da Gronelândia e da Islândia.

Assinatura do tratado de aquisição do Alaska, com William H. Seward (sentado, com mapas no regaço) e o embaixador russo, o Barão de Stoeckl (de pé, com uma mão sobre o globo terrestre). Quadro por Emanuel Leutze, 1867

Na viragem dos século XIX-XX, o explorador americano Robert Peary fez várias expedições ao Árctico, que cobriram áreas nunca antes visitadas (por ocidentais, entenda-se) e permitiram grandes progressos na cartografia das ilhas árcticas canadianas e da Gronelândia. Esta audaciosa empresa não só trouxe fama a Peary como, nalgumas mentes, conferiu direitos aos EUA sobre esses territórios até então inexplorados. Na verdade, o próprio Peary tornar-se-ia num veemente defensor da posse da Gronelândia pelos EUA, que considerava decorrer inevitavelmente da Doutrina Monroe. Na verdade, quando esta esta doutrina foi enunciada, em 1823, pelo presidente James Monroe, dizia respeito à interdição de qualquer país não-americano de intervir em assuntos do continente americana, mas, desde então, fora sendo reinterpretada de forma a estabelecer que todo o continente americano (e ilhas adjacentes) era uma coutada exclusiva dos EUA (ver capítulo “EUA, 1823” em A história dos EUA enquanto polícia do mundo).

Robert Peary numa das suas expedições à Gronelândia

1900-1939: As disputas continuam

Assim sendo, não foi inesperado que os EUA voltassem a manifestar apetite pela Gronelândia em 1910, quiçá também embalados pela febre de expansão imperial que lhes permitira, no término do século XIX, assumir o controlo de Cuba, das Filipinas, de Porto Rico e do Hawaii (ver capítulos “Cuba, 1898”, “Filipinas, 1898”, “Porto Rico, 1900” e “Hawaii, 1893” em A história dos EUA enquanto polícia do mundo). Desta feita, os EUA não propuseram uma aquisição, mas uma troca assaz rebuscada: a Dinamarca receberia dos EUA as ilhas de Mindanao e Palawan, nas Filipinas, que poderia trocar com a Alemanha. Esta estava a tentar recuperar terreno na corrida à expansão ultramarina, na qual entrara tardiamente, por comparação com as outras potências, e, uma vez que África já tinha sido repartida, restava-lhe consolidar a sua presença no Pacífico, onde já obtivera, entre outros territórios e protectorados, parte da Nova Guiné, os arquipélagos de Bismarck, das Carolinas e das Marianas e parte dos arquipélagos de Samoa e de Salomão. Em troca de Mindanao e Palawan, a Alemanha devolveria à Dinamarca a região do Schleswig do Norte (Nordschleswig), que fizera parte da Dinamarca, como Jutlândia do Sul (Sønderjylland), até ser derrotada pela Prússia (aliada à Áustria) na Segunda Guerra do Schleswig, em 1864.

Este arranjo era demasiado retorcido para ser viável e nunca passou da fase embrionária, mas, em 1902, os EUA voltaram a apresentar uma proposta de aquisição das Ilhas Virgens. O parlamento dinamarquês rejeitou-a, mas, em 1917, os EUA voltaram à carga e, desta feita, tinham um motivo novo e ponderoso para justificar o seu apetite: estava-se a meio da I Guerra Mundial e as Ilhas Virgens estavam bem posicionadas para controlar a navegação que rumava ou provinha do recém-inaugurado Canal do Panamá, um ponto-chave do comércio internacional e da supremacia naval (ver capítulo “Panamá, 1903” em A história dos EUA enquanto polícia do mundo). O arranjo agora proposto à Dinamarca previa que, em troca da cedência das Ilhas Virgens, os EUA não levantariam objecções a que a Dinamarca assumisse o pleno domínio político e económico da Gronelândia. O “negócio” foi efectivado, o arquipélago do Caribe foi rebaptizado como Ilhas Virgens Americanas e a Dinamarca, invocando o exemplo da nova postura americana, solicitou às outras grandes potências e aos países com territórios circum-árcticos o reconhecimento da sua plena soberania sobre a Gronelândia.

31 de Março de 1917: Arriar da bandeira em Saint-Croix, nas Ilhas Virgens, numa parada militar que assinalou o fim da soberania dinamarquesa sobre o território

Quando a Grã-Bretanha se mostrou relutante em reconhecê-la e, em vez disso, reivindicou o direito a vetar uma eventual venda da Gronelândia a outra potência, os EUA, no espírito da Doutrina Monroe, fizeram saber que não estavam dispostos a aceitar que um país terceiro tivesse direito a interferir nessa hipotética transacção. Reconfortada por esta resposta dos EUA e pela anuência, formal ou tácita, das principais potências às suas reivindicações, em 1921 a Dinamarca proclamou formalmente a sua soberania sobre a Gronelândia.

Porém, o assunto Gronelândia não só não estava encerrado, como a contestação veio de uma direcção inesperada: em 1931, a Noruega reclamou a posse do que designou como a Terra de Erik o Vermelho (Eirik Raudes Land), na costa leste da Gronelândia, numa região remota e erma (até os inuit a tinham abandonado) situada c.1400 km a norte das paragens exploradas por Erik o Vermelho. Porém, mesmo que o território reivindicado correspondesse ao território descoberto por Erik, que sentido faria fundamentar a reivindicação numa descoberta ocorrida há nove séculos e meio e realizada por alguém que, embora nascido na Noruega, certamente não se identificava como súbdito norueguês? A pretensão da Noruega era tanto mais incongruente por este país ter reconhecido, em 1919, a soberania da Dinamarca sobre toda a ilha, através da Declaração Ihlen, em troca de a Dinamarca não se opor à revindicação de soberania feita pela Noruega sobre a ilha árctica de Spitsbergen.

A Noruega ainda estabeleceu na Eirik Raudes Land três estações meteorológicas, que acumulavam funções de apoio aos seus navios baleeiros, mas o Tribunal Permanente de Justiça Internacional, a que os dois países confiaram a arbitragem do caso, decidiu, em 1933, a favor da Dinamarca.

Noruegueses hasteiam a bandeira do seu país em Myggbukta, uma das três estações norueguesas na Eirik Raudes Land

O período como “território autogovernado”

Com a eclosão da II Guerra Mundial e, sobretudo, com a tomada da Dinamarca pela Alemanha, em Abril de 1940, e com a intensificação, a partir de meados de 1940, da Batalha do Atlântico, com os submarinos, os navios de superfície e os aviões alemães a tentarem, por todos os meios, interceptar os navios que abasteciam a Grã-Bretanha (e, a partir do Verão de 1941, também a URSS), a Gronelândia reassumiu um papel relevante na estratégia dos EUA.

As autoridades dinamarquesas na Gronelândia, concertadas com o embaixador dinamarquês em Washington e pretendendo evitar a ocupação da ilha quer pela Alemanha, quer pela Grã-Bretanha, quer pelo Canadá, assumiram o estatuto de “território autogovernado” e solicitaram a protecção dos EUA, que enviaram dois navios da Guarda Costeira para assumir o controlo da ilha, onde chegaram no final de Maio de 1940. Durante a guerra, a Gronelândia desempenhou importante papel como porto de escala, base da aviação aliada para missões de patrulha, resgate e salvamento e luta anti-submarina, base de orientação por feixes rádio para navegação marítima e aérea e ainda como fornecedora de criolite, um mineral raro (mas não uma “terra rara”) proveniente da mina de Ivittuut, que é usado na produção de alumínio, metal absolutamente vital para a indústria aeronáutica.

A mina de criolite de Ivittuut, Verão de 1940

Após o ataque japonês a Pearl Harbor a 7 de Dezembro de 1941, a Alemanha, numa intempestiva decisão de Hitler, declarou guerra aos EUA e o “território autogovernado” da Gronelândia, com meio milhar de dinamarqueses e cerca de 18.000 inuit, entrou formalmente no conflito.

Em 1942, sendo a informação meteorológica essencial para todos os envolvidos na Batalha do Atlântico, que estava então no seu auge, a Alemanha estabeleceu, secretamente, várias estações meteorológicas na Gronelândia ou em ilhas próximas. Nos dois anos seguintes, alemães e Aliados defrontaram-se na “Guerra Meteorológica do Atlântico Norte” (a que seria mais apropriado chamar Escaramuça Meteorológica do Atlântico Norte”), que chegou ao fim com a captura da derradeira estação meteorológica alemã na Gronelândia, a Edelweiss II, no nordeste da Gronelândia.

4 de Outubro de 1944: Soldados americanos capturam a guarnição alemã da estação meteorológica Edelweiss II

Este período de controlo de facto da Gronelândia pelos EUA contou, como se referiu acima, com a colaboração das autoridades locais gronelandesas e dos diplomatas dinamarqueses nos EUA, mas, na prática, não teria sido diferente se essa colaboração não existisse, de tal modo era superior o poderio americano e tal era a determinação americana em tomar conta da ilha.

Pode estabelecer-se um paralelismo com a utilização pelos EUA e pela Grã-Bretanha, a partir de Agosto de 1943, de aeroportos e portos dos Açores (uma peça tão central para a supremacia aeronaval no Atlântico quanto a Gronelândia). Esta contou com o assentimento de Salazar (apesar de ela ir contra a sua calculada política de neutralidade), mas o desenrolar dos acontecimentos não teria sido diferente se Salazar tivesse respondido negativamente ao pedido anglo-americano – os EUA e a Grã-Bretanha chegaram a desenhar um plano, a Operação Alacrity, para ocupar os Açores caso Portugal não acedesse ao seu pedido e é provável que, dada a disparidade de forças, a operação ficasse concluída em apenas algumas horas.

A Guerra Fria vista de uma ilha gelada

Terminada a II Guerra Mundial, a Dinamarca reassumiu formalmente o controlo da Gronelândia, mas a maioria das tropas americanas mantiveram-se na ilha, apesar das pressões das autoridades dinamarquesas para que regressassem a casa. Acontece que, ainda que as feridas da II Guerra Mundial não estivessem saradas, o Governo americano já estava a antever a Guerra Fria e, neste contexto, a Gronelândia e a Islândia tinham sido identificadas pelos estrategas americanos como dois territórios-chave na luta contra a URSS.

O povo islandês decidira, em 1944, separar-se da Dinamarca, mediante um referendo que deu uma vitória esmagadora a essa opção; porém, a independência política da Islândia não teria correspondência no plano militar, pois o governo islandês anuiu a que os EUA garantissem a defesa da Islândia e a presença americana na ilha manteve-se até 2006, embora a Islândia tivesse aderido à NATO logo em 1949.

No que toca à Gronelândia, os EUA voltaram à sua antiga pretensão: em 1946, propuseram à Dinamarca a compra da ilha, desta vez por 100 milhões de dólares (1000 milhões, a valores actuais). A Dinamarca recusou a oferta, mas acabou por ceder parcialmente à pressão americana em 1951, ao assinar o Tratado de Defesa Mútua da Gronelândia, que permitia aos EUA, não só manter as bases existentes, como instalar novas bases se tal fosse entendido como necessário para a segurança dos EUA.

Em 1955, os EUA deram início à construção de uma nova base no extremo noroeste da Gronelândia, quem sabe espicaçados por saberem que a URSS estava a desenvolver uma bomba de hidrogénio, cujo primeiro teste ocorreu nesse mesmo ano. A nova base americana foi erguida 1200 km a norte do Círculo Polar Árctico, no local onde, em 1943, os EUA tinham instalado uma estação meteorológica e não muito longe do local em que, em 1910, o explorador dinamarquês-gronelandês Knud Rasmussen estabelecera um entreposto comercial que baptizara como Thule, em alusão a Ultima Thule, uma ilha mítica no Atlântico Norte mencionada por cartógrafos gregos e romanos e que ganhou o significado de “lugar remoto”, “para lá do mundo conhecido”.

Os americanos adoptaram o nome de Thule para a sua nova base, embora os gronelandeses continuassem a designar o local pelo seu nome inuit: Pituffik. Em 2023, quando o controlo da base passou da United States Air Force para a United States Space Force, o nome da base foi alterado para Pituffik, em sinal de respeito pela cultura indígena em geral e pelos inuit que tinham sido desalojados em 1955 para instalar a base. Thule/Pituffik não só era (e é) a base americana com localização mais setentrional, como se converteu na mais importante base americana na Gronelândia, chegando, no auge da Guerra Fria, a albergar permanentemente cerca de 10.000 pessoas, das quais 6000 eram militares.

Base aérea de Pituffik (antiga Thule)

A ampla margem de manobra concedida pelo tratado de 1951 aos EUA, que assumiram, na prática, a jurisdição militar da Gronelândia, não foi suficiente para extinguir a ideia de comprar a ilha: em 1955, o estado-maior das Forças Armadas dos EUA enviou ao presidente Eisenhower um documento em que se defendia que só a aquisição da ilha poderia garantir o uso incondicional e ilimitado das bases pelos americanos. Em 1976 o vice-presidente Nelson Rockefeller (o presidente era então Gerald Ford) também propôs a aquisição, mas com uma sintomática mudança de ângulo, a que talvez não fosse estranha a íntima ligação de Rockefeller ao mundo dos negócios: desta feita, a justificação não era a segurança nacional, mas a exploração dos recursos minerais, ainda que, à data, o conhecimento sobre esta potencialidade fosse muito escasso.

A miragem da plena independência

Após o colapso da URSS, a presença americana na Gronelândia rarefez-se – das 17 bases que os EUA chegaram a manter em simultâneo, hoje apenas resta Thule/Pituffik e a guarnição desta está reduzida a pouco mais de uma centena de militares.

Entretanto, em 1953, a Dinamarca promovera a Gronelândia de colónia a província autónoma, tornando-a numa parte integrante do país. Em 1979, um referendo que deixou patente o desejo de autonomia dos gronelandeses encontrou correspondência no parlamento de Copenhaga, que atribuiu poder ao Governo gronelandês para decidir nos assuntos da ilha e reservou à Dinamarca as decisões de política externa e defesa – este estatuto autonómico seria reforçado após novo referendo em 2014. A autonomia da Gronelândia ficou bem evidente quando, em 1982, um referendo realizado na ilha ditou a sua saída da União Europeia, um resultado que terá sido determinado pelo receio de que o principal recurso da ilha, as pescas, fosse devassado pelas frotas de outros países da UE. As Ilhas Faroe, que também gozam de estatuto autónomo dentro da Dinamarca (desde 1948), também escolheram, em 2024, sair da UE. Deve realçar-se que a Dinamarca tem estado atenta às aspirações independentistas dos seus territórios ultramarinos: além do já mencionado referendo na Islândia, em 1944, que obteve voto favorável, também auscultou os habitantes das Ilhas Faroe, dois anos depois, sobre este assunto. Os faroeses deram resposta negativa, o que não significa que a pulsão independentista no arquipélago se tenha extinguido.

Tal como nas Faroe, havia (e há muitos) habitantes da Gronelândia para quem a autonomia não é suficiente, o que, em 2007, levou James P. Cain, então embaixador americano em Copenhaga, a sugerir, perante a visibilidade do movimento independentista, que os EUA deveriam estreitar cos laços com a Gronelândia para, na eventualidade de esta se separar da Dinamarca, assegurarem uma posição de primazia e manterem outras potências à distância. A miragem da plena independência ganhou solidez em 2009, quando a revisão do estatuto da região estabeleceu que aquela apenas depende de o povo gronelandês a votar favoravelmente em referendo.

Vale a pena referir que, apesar de quase três séculos como colónia dinamarquesa, a presença de dinamarqueses étnicos na população da Gronelândia se fica pelos 7.5%, face a 89.5% de inuit (a que se somam 1.1% de outros povos nórdicos e 1.9% de “outros”); e. embora o dinamarquês seja uma das línguas reconhecidas, a língua oficial da Gronelândia é o gronelandês ou kalaallisut, que é a dominante entre as três línguas inuit da ilha. E se, na língua inuit, “inuit” significa “pessoa” ou “ser humano”, o nome que designa a ilha em que vivem, “Kalaallit Nunaat” não é menos redundante, pois significa “terra dos kalaallit”, sendo “kalaallit” o termo que começou por designar a principal etnia inuit da Gronelândia, mas é hoje usado para designar todos os inuit da ilha.

Distribuição dos dialectos inuit

Em 2026, quando as potências ocidentais há muito concederam, a bem ou a mal, independência aos seus territórios ultramarinos, pode parecer insólito que a pequena Dinamarca tenha soberania sobre um território ultramarino cuja área é cerca de 50 vezes maior do que a sua – um quociente que supera o que existia, antes de 1974, entre as áreas das colónias ultramarinas portuguesas e de Portugal, que era de 22, e só é superado pelo que existiu, até 1960, entre as áreas do Congo Belga e da Bélgica, que era de 80. Hoje, a França ainda possui territórios ultramarinos significativos, mas os seus habitantes têm manifestado, através de referendos, a vontade de manter esse estatuto – e compreende-se que exista uma razão ponderosa para essa vontade: as suas finanças são cronicamente deficitárias e é a “metrópole” que colmata o buraco orçamental.

Nuuk, a capital da Gronelândia, tem uma modestíssima “skyline”, que seria certamente enriquecida por uma Trump Tower

A Gronelândia vive uma situação análoga: uma vez que os recursos minerais – em torno dos quais têm crescido as expectativas – se têm mantido, no seu essencial, inexplorados (o sector da mineração emprega apenas 0.3% da população activa), o sector da pesca é o principal exportador da ilha e o segundo empregador (15% da população activa). O maior empregador é a administração pública, que, em 2022, representava uns espantosos 44% da população activa. A debilidade da economia da Gronelândia faz com que as receitas arrecadadas pelo Governo de Nuuk apenas cubram metade das despesas, pelo que o Governo de Copenhaga é obrigado a transferir anualmente para a região cerca de 500 milhões de euros – cerca de 9000 euros por cada gronelandês. O PIB per capita da Gronelândia – 58.500 dólares em 2023 – está apenas um pouco abaixo do PIB dinamarquês – 68.800 dólares em 2023 – e pode parecer invejável aos habitantes da Europa meridional – 27.300 dólares em Portugal, no mesmo ano – mas seria bem inferior sem as transferências do Governo de Copenhaga e os gronelandeses estão bem conscientes disso.

Unidade de processamento de pescado em Itilleq, Gronelândia

A posição dos gronelandeses em relação à independência tem variado nas sondagens ao longo da última década: em 2016, 65% pronunciaram-se a favor da independência, valor que subiu para 68% em 2019; porém, em 2017, reflectindo a usual incongruência das massas, 78% declararam opor-se à independência se isso implicasse uma quebra no seu nível de vida (todos os povos do mundo, do Árctico aos trópicos, sonham com sol na eira e chuva no nabal e com um bolo mágico em que todas as fatias são grandes). Numa sondagem divulgada a 29 de Janeiro de 2025, 56% pronunciaram-se a favor da independência, 28% contra e 17% declararam não ter opinião formada; no que respeita à possibilidade de integração nos EUA, 6% manifestaram-se a favor, 85% contra e 9% disseram não ter opinião. Porém, quem sabe como se alterará esta posição se Donald Trump, o homem que crê que tudo é passível de transacção, propuser entregar 100.000 dólares a cada gronelandês se estes aceitarem ser integrados nos EUA?

Donald Trump entra em cena

As manifestações pontuais de interesse na Gronelândia pela parte de alguns militares e diplomatas americanos no decurso do século XXI teriam sido interpretadas como fantasias inócuas ou arrumadas na categoria das declarações grandiloquentes mas espúrias, que alguns grupos profissionais sentem necessidade de fazer para afirmar a sua própria relevância, não fosse Donald Trump ter irrompido na política americana e ter vencido as eleições presidenciais de 2016.

As ideias de intimidação, de conquista, de engrandecimento e de desrespeito pelas regras (algo que só os “suckers” e os “losers” seguem) são parte intrínseca da natureza de Trump e, embora seja improvável que tenha lido Mein Kampf, ou saiba o significado dos conceitos de Lebensraum e de Großgermanisches Reich, é natural que partilhe com próceres nacionalistas de outros tempos a ideia de que o seu país tem direito a apropriar-se de tudo o que possa reforçar a sua segurança e garantir a sua prosperidade – e tanto melhor se, ao mesmo tempo, garantir também a prosperidade da Trump Organization e do seu círculo de familiares e de parceiros de negócios.

Quando, em Agosto de 2019, expressou publicamente, pela primeira vez, a ideia de os EUA adquirirem a Gronelândia, Trump invocou razões estratégicas para a aquisição, sublinhou o facto de o legítimo soberano da ilha, a Dinamarca, usufruir da protecção militar dispensada gratuitamente pelos EUA; porém, logo a seguir, num dos ziguezagues que lhe são usuais, afirmou que a aquisição da Gronelândia “é, basicamente, um grande negócio imobiliário”.

Os gronelandeses não têm boas experiências com investimentos imobiliários grandiosos: o Blok P, em Nuuk, construído em 1965-66, era então o maior edifício em território dinamarquês e chegou a albergar 1% da população total da ilha, mas foi considerado tão disfuncional, ruinoso e nocivo para a saúde que foi demolido em 2012

Na altura, Trump deixou claro que, embora andasse a pensar sobre a Gronelândia, esta não era um assunto premente, e a maioria nos analistas políticos e dos peritos em geopolítica terá arrumado esta manifestação de apetite por expansão territorial nos muitos delírios inconsequentes que afloram fugazmente na mente de Trump e logo se extinguem. Porém, em Janeiro de 2025, após Trump tomar posse para o segundo mandato, tornou-se óbvio que, não só a compra da Gronelândia tinha galgado muitos lugares na sua hierarquia de prioridades, como o posicionamento da Administração Trump 2.0 em termos geopolíticos ganhara (face à Trump 1.0) um cunho mais agressivo, sobranceiro e prepotente, sobretudo para com os aliados tradicionais dos EUA, e proclamava abertamente o desprezo pela “ordem internacional baseada em regras”, de que, ironicamente, os próprios EUA tinham sido os principais e mais empenhados obreiros (ver capítulo “Terramoto geopolítico” em Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 1: Poder e dinheiro).

O que Trump mencionara em 2019 como vaga possibilidade de negócio, passou, desde Janeiro de 2025 – e com redobrada assertividade em Janeiro de 2026 – a ser referido como um imperativo da governação americana, que será concretizado, quer a Dinamarca queira ou não, e a bem ou a mal – estando implícito na segunda hipótese que Trump não exclui o recurso à força para se apropriar da Gronelândia. Acontece que, perante a “manifestação de interesse” de Trump em 2019, o Governo dinamarquês reagiu declarando que a Gronelândia não estava à venda e, desde Janeiro de 2025 que tem reiterado esta posição e deixado claro que só aos gronelandeses cabe decidir sobre o seu destino. O governo autónomo gronelandês tem secundado esta posição e o mesmo têm feito a União Europeia e, individualmente, as principais potências europeias – incluindo o Reino Unido.

[Declarações de Trump sobre a Gronelândia, 10.01.2026:]

É certo que a situação geopolítica mundial se alterou entre 2019 e 2025: apesar de toda a retórica e de todas as promessas de Trump de “fazer a América grande outra vez” e de tornar inatacável a posição dos EUA como superpotência n.º 1, desde 2017, quando Trump tomou posse pela primeira vez, a China não tem cessado de dilatar o seu poderio económico e militar e a sua influência geopolítica e de exibir céleres progressos tecnológicos. Se uma das obsessões de Trump, que o levou a iniciar, em Janeiro de 2025, uma “guerra tarifária” global, era reduzir a colossal dívida pública dos EUA e corrigir o enorme desequilíbrio nas relações comerciais com a China, o que 2025 trouxe foi um valor recorde na dívida pública dos EUA (cujo valor acumulado ascendia, no início de Dezembro passado, a 38.4 biliões de dólares) e um valor recorde no superavit comercial anual da China (1.2 biliões de dólares, um acréscimo de 20% face a 2024), uma vez que a diminuição registada nas exportações da China para os EUA foi largamente compensada pelo incremento das exportações para outros países.

A tendência ascendente no poderio económico e militar da China poderá vir a ser reforçada pelos aos formidáveis progressos que está a fazer em várias áreas tecnológicas de ponta. De acordo com o relatório de 2025 do Critical Technology Tracker, um programa de avaliação contínua do estado-da-arte em 74 áreas tecnológicas “críticas” ou “estratégicas”, que computa o número de artigos científicos e as citações que obtêm e que foi criado pelo Australian Strategic Policy Institute, no período 2003-07, os EUA dominavam 90% das áreas e a China apenas 5%; em 2025 os EUA dominaram 10% das áreas e a China teve primazia em 90%. É certo que esta avaliação está focada na quantidade e relevância da produção académica (artigos científicos publicados e respectivas citações), mas é provável que, mais tarde ou mais cedo, esta se materialize em inovações tecnológicas efectivas e com aplicações práticas e na sua entrada em produção e comercialização em massa.

Ao mesmo tempo, Putin, com quem Trump acreditava, presunçosamente, ter uma relação “especial” e que julgava poder controlar, tem revelado ser suficientemente astuto, determinado e escorregadio para continuar a fazer o que bem entende. Quanto à Índia, que era uma preciosa aliada dos EUA contra a China, mostrou, nos últimos tempos, ter uma agenda própria, por vezes em choque com os interesses americanos, sobretudo depois de Trump a ter castigado, intempestiva e arbitrariamente, com taxas aduaneiras exorbitantes.

Para a Gronelândia, rapidamente e em força!

Porém, a evolução da situação geopolítica mundial entre 2019 e 2025 não só não converteu a Gronelândia numa peça vital para a segurança dos EUA, como a invocação, neste caso específico, da “segurança nacional” é uma falácia que não resiste a uns momentos de reflexão.

Para começar, é preciso considerar que a distância em linha recta entre o extremo nordeste dos EUA e a Gronelândia é de 2000 km se considerarmos o extremo sul da ilha e de 3400 km se considerarmos o extremo norte; ora, se cada país decidisse que só estaria seguro se criasse uma zona-tampão de territórios “ocupados” num raio de 2000 ou 3400 km em torno de si, o mundo mergulharia numa espiral de reivindicações paranóicas e num conflito de todos contra todos.

O Árctico: a isotérmica dos 10º C em Julho (a linha vermelha) tem sido usada para definir o limite da região árctica

A argumentação da “segurança nacional” parece ter afinidades com a “mentalidade de cerco” subjacente ao desígnio de Vladimir Putin de ocupar, ou, pelo menos, reduzir ao estatuto de Estados-vassalos, os países europeus que, em tempos, fizeram parte do Império Russo e da URSS – Finlândia, Estónia, Letónia, Lituânia, Bielo-Rússia, Moldávia e, claro, Ucrânia (ver capítulo “Paradoxos russos” em De Kaliningrad a Petropavlovsk: A geografia da Rússia, um país que se diz “cercado”). A diferença para o período do imperialismo clássico, é que, neste, se entendia que a aquisição de território era um direito inato às grandes potências e, portanto, não necessitava de justificações, enquanto o imperialismo do século XXI sente-se obrigado a encobrir a sua cupidez e a sua paranóia com o nobre, abstracto e vago desígnio da “segurança nacional” – assim, o imperialismo de Putin disfarça-se sob a necessidade de impedir a expansão da NATO em direcção a Moscovo e de derrubar regimes nazis que odeiam visceralmente a Rússia.

Regressando ao pretexto da segurança nacional como razão para reivindicar a posse da Gronelândia, não poderia este servir também para que Trump reclamasse as numerosas ilhas árcticas canadianas, o arquipélago norueguês de Svalbard e a Islândia? E se a Gronelândia é indispensável à segurança dos EUA, não o será mais ainda para o Canadá, cuja Ilha de Ellesmere está separada da Gronelândia pelo Estreito de Nares, que, nalguns trechos tem apenas 25-30 km de largura? Na verdade, Canadá e Gronelândia partilham mesmo uma fronteira terrestre (a única fronteira terrestre da Gronelândia), com 1200 metros de extensão, na minúscula Ilha Hans (Tartupaluk, em inuit) no Estreito de Nares; a fronteira data de 2022, ano em que, após uma inconclusiva disputa pela posse da ilha, Ottawa e Copenhaga acordaram em dividi-la ao meio.

A aprazível e luxuriante Ilha Hans; ao fundo, a ilha canadiana de Ellesmere

Numa das ocasiões em que esgrimiu o argumento da segurança nacional para se apropriar da Gronelândia, Trump apresentou como justificação não querer “ter a Rússia nem a China como vizinhos” – que dizer então do Estreito de Bering, em que apenas 80 km separam a Península de Chukchi, no lado russo, da Península de Seward, no Alaska? A proximidade Rússia e EUA é ainda maior nas Ilhas Diomedes, situadas a meio do Estreito de Bering: a Diomedes Maior, que é território russo, dista menos de 4 km da Diomedes Menor, que é território americano (ver capítulo “Ilhas Diomedes” em De Kaliningrad a Petropavlovsk: A geografia da Rússia, um país que se diz “cercado”).

O Estreito de Bering, com as Ilhas Diomedes no centro

Por outro lado, mesmo que se admita que a presença militar dos EUA na Gronelândia é crucial para a segurança do país, a verdade é que 1) o único país que hoje tem presença militar na Gronelândia, para lá da Dinamarca, são os EUA; 2) ao abrigo do Tratado de Defesa Mútua da Gronelândia de 1951, os EUA têm direito a reforçar essa presença; 3) é improvável que a Dinamarca, aliada de longa data dos EUA e membro da NATO, levante objecções a esse reforço; 4) os EUA já tiveram muito mais bases, militares e equipamento na Gronelândia e foram eles que, por sua iniciativa, reduziram drasticamente a sua presença; 5) não há registo de militares ou empresas ou quaisquer entidades chinesas ou russas a operar no território da Gronelândia ou nas suas águas territoriais (ainda que seja verdade que Rússia e China têm incrementado a sua actividade no Árctico, à medida que o aquecimento do planeta aumentou a sua navegabilidade).

Esquadrilha de aviões de combate F-89 na base americana de Thule/Pituffik, em 1955

A invocação da Doutrina Monroe como justificação para a anexação da Gronelândia também é inválida: a essência da Doutrina Monroe não é a legitimação dos EUA como potência imperial, é a exclusão da intromissão de potências imperiais no continente americano. Acontece que a Doutrina Monroe foi sendo progressivamente desvirtuada pelos sucessivos ocupantes da Casa Branca, que a moldaram de acordo com as suas convicções e os seus interesses. Uma dessas distorções, que ficou conhecida como “Corolário Olney”, data de 1895, quando o Secretário de Estado Richard Olney entendeu que a Doutrina Monroe também conferia aos EUA o poder para arbitrar disputas fronteiriças entre países do continente americano. Em 1904, coube ao presidente Theodor Roosevelt formular o que ficou conhecido como “Corolário Roosevelt” e que justificava que os EUA se imiscuíssem nos assuntos internos  dos países do continente americano: “A ocorrência sistemática de ilicitudes ou a impotência podem conduzir a um deslaçamento generalizado do tecido civilizacional, que poderá obrigar […] à intervenção de um país civilizado e, no Hemisfério Ocidental, a adesão dos EUA à Doutrina Monroe poderá forçar os EUA, ainda que relutantemente, em casos flagrantes de ilicitude e impotência, a exercer o poder de policiamento internacional” (ver capítulo “República Dominicana, 1904” em A história dos EUA enquanto polícia do mundo).

A versão Roosevelt da Doutrina Monroe, segundo cartoon de Louis Dalrymple, publicado em 1905 na revista satírica americana Judge

Na verdade, Roosevelt já pusera em prática a sua interpretação abusiva da Doutrina Monroe antes de a formular – por exemplo, ao forçar, em 1903, a secessão da província colombiana do Panamá com o intuito de viabilizar o negócio do Canal do Panamá (que, diga-se de passagem, Donald Trump também já disse pretende reaver).

“Desaparece, homenzinho, e não me maces”: Theodore Roosevelt força a Colômbia a abrir mão do Panamá. Cartoon por Charles Green Bush, publicado no The New York World em 1903

A disputa pela supremacia global

Uma das novidades disruptivas de 2025 foi a consciencialização generalizada de que a inteligência artificial vai produzir alterações dramáticas em todas as dimensões da sociedade e que, consequentemente, o domínio do mundo caberá ao país (ou países) que conquistar a liderança na IA e nas tecnologias, indústrias e recursos que a sustentam. Na corrida à IA, as empresas que ocupam o top 10 são quase todas americanas, mas a China tem feito grandes progressos e, no que respeita a terras raras, indispensáveis ao fabrico de microprocessadores, vitais para a IA, tem a vantagem de possuir 40% das reservas mundiais e 80-90% da capacidade de refinação.

Os EUA, que já foram o maior produtor mundial de terras raras, desinteressaram-se desta actividade no final do século XX e só despertaram, sobressaltados, em 2018 – em 2023 já tinham conseguido ascender ao 2.º lugar do ranking, com 43.000 toneladas, mas a sua produção não chega a um quinto da produção da China (240.000 toneladas, numa produção mundial de 354.000 toneladas).

Produção de terras raras por país, 1994-2022

Além do papel no fabrico de microprocessadores, as terras raras são usadas em componentes electrónicos, catalisadores, lasers, baterias e magnetos (sem os quais não há geradores eólicos nem veículos eléctricos), bem como no fabrico de vidro e cerâmica, na refinação de petróleo e em produtos de polimento, pelo que a combinação da “transição energética”, da corrida à IA e da crescente incorporação de microprocessadores numa infinidade de gadgets de uso quotidiano irá incrementar grandemente a sua procura.

Procura mundial, passada e estimada, por terras raras, fraccionada por usos, 2010-2035

Em termos de reservas de terras raras, a seguir à China (44 milhões de toneladas), temos o Brasil (21 milhões), a Índia (6.9 milhões), a Austrália (5.7 milhões), a Rússia (3.8 milhões), o Vietnam (3.5 milhões), os EUA (1.9 milhões), a Gronelândia (1.5 milhões), a Tanzânia (0.9 milhões), a África do Sul (0.9 milhões) e o Canadá (0.8 milhões). Se consideramos que esta lista é dominada por rivais dos EUA e por países que os EUA de Trump têm vindo a alienar com a “guerra tarifária” e com tentativas de ingerência nos seus assuntos internos, compreende-se que a Gronelândia se torne, aos seus olhos, numa presa apetecível (para informação complementar sobre este assunto, ver Terras-raras, controlo de rotas e “fim da NATO”: O que é que a Gronelândia tem para ser o próximo alvo de Trump?).

Na sua primeira menção ao assunto, em 2019, Trump comentou que via a “transferência” da Gronelândia para os EUA como “um grande negócio imobiliário”, mas até Trump deve saber que, apesar do “green” no nome da ilha na língua inglesa, o clima, a geografia e a geologia não são propícios à construção de campos de golfe nem à criação de uma Riviera do Árctico. A invocação do argumento da segurança nacional é tão falaciosa como a invocação da “libertação do povo venezuelano” e o “combate ao tráfico de fentanil” o é no caso da intervenção na Venezuela, resta concluir que o que Trump realmente visa são os recursos minerais da Gronelândia.

Poderia pensar-se que, havendo um forte interesse do Governo dos EUA e de empresas americanas nestes recursos, seria possível chegar-se a um acordo para os explorar com os governos da Dinamarca e da Gronelândia – e estes já mostraram estar disponíveis para discutir os termos dessa exploração. Porém, quando essa abertura foi manifestada, Trump deixou claro, em entrevista ao The New York Times (09.01.2026), que a posse efectiva “é o que eu sinto que é psicologicamente necessário para ter sucesso. Penso que a posse nos dá uma coisa que não podes obter com um contrato de concessão ou um tratado. A posse dá-nos coisas e elementos que não podemos obter com a mera assinatura de um documento”. Estas palavras alteram a percepção sobre declarações anteriores de Trump em que ele, repetidamente, afirmou que “gostaria de fazer um acordo [deal], a bem, mas se não o fizermos a bem, fá-lo-emos a mal”. Trump gosta de apresentar-se como um mestre da negociação e ufana-se de ser autor de um superlativo manual nesse domínio, The art of the deal (1987), mas percebe-se que o entendimento que Trump tem dos “negócios” e “acordos” é similar ao de Tony Soprano.

Deve realçar-se que a excitação que rodeia os recursos naturais da Gronelândia não se restringe às terras raras – nos meios económicos, fala-se também de urânio e de combustíveis fósseis. As reservas de urânio da Gronelândia estão estimadas em 114.000 toneladas, ou seja, um pouco acima das reservas dos EUA (102.000 toneladas) e no limiar do top 10 das maiores reservas mundiais (deve realçar-se que as estimativas de reservas de terras raras variam apreciavelmente de fonte para fonte e de ano para ano). Quanto às reservas de combustíveis fósseis, ficam-se, para já, no domínio do “potencial”. Há relatórios que falam de “milhões de barris de petróleo” e de “milhões de metros cúbicos de gás natural”, mas sem avançar números concretos, e as prospecções realizadas até agora não produziram resultados muito encorajadores, de forma que a Gronelândia nem sequer costuma figurar nos rankings de reservas provadas. E mesmo que as reservas se revelem reais, é preciso considerar que a localização remota, o clima inclemente, a falta de luz durante o longo Inverno árctico e a topografia acidentada fazem os custos de exploração mais do que triplicar – são esses custos exorbitantes que explicam, em parte, o facto de as jazidas minerais confirmadas não terem sido ainda exploradas.

De qualquer modo, fica-se com a ideia de que boa parte da excitação em torno das alegadas riquezas no subsolo da Gronelândia tem menos a ver com dados rigorosos e estimativas fundamentadas do que com especulações febris em torno do que poderá esconder-se sob a espessa camada de gelo que cobre permanentemente 80% da ilha e com a perspectiva de esse gelo poder vir a desaparecer em breve.

Evolução da massa de gelo da Gronelândia, 2002-2016, em gigatoneladas

As “riquezas” da Gronelândia e as alterações climáticas

As pessoas e entidades que se opõem a que se tomem medidas para contrariar as alterações climáticas podem ser classificadas, consoante as suas motivações, em vários grupos, com apreciável grau de sobreposição entre si.

● Um grupo assaz numeroso é o dos que julgam que, ao perfilharem teorias ao arrepio do mais elementar senso comum, sinalizam a sua perspicácia e independência de espírito e se demarcam do rebanho dos que aceitam acriticamente todas as aldrabices que os media, as governantes e os cientistas – o “sistema”, enfim – lhes impingem. No fundo, este grupo rejeita a realidade do aquecimento global (ou das causas antrópicas que o geram) pela mesma razão por que outros grupos negam a esfericidade da Terra ou defendem que a ida do homem à Lua foi um encenação.

● Muitos são também os que, cativos da lógica maniqueísta, clubista e confrontacional das “guerras culturais”, entendem que, se a oposição ao aquecimento global é uma causa maior da esquerda woke, só pode ser uma abominação e, como tal, deve ser activa e energicamente combatida.

● Há também os que, aceitando que o aquecimento global é objectivamente real e que resulta em parte da actividade humana, depositam uma fé cega no capitalismo e na tecnologia e na sua capacidade de inovação e superação, pelo que não duvidam de que se encontrará uma solução airosa para o problema, tal como tem acontecido repetidamente ao longo da história. O seu argumento central é que, até agora, todos os profetas do apocalipse que anunciaram que o mundo iria acabar – devido à sobrepopulação, ao buraco na camada de ozono, às chuvas ácidas, à aplicação de pesticidas, ao cultivo de plantas geneticamente modificadas, etc. – se enganaram.

● Há ainda um grupo numeroso que, embora admita que o aquecimento global é real e que produzirá efeitos negativos, argumenta que o custo da implementação das medidas mitigadoras que são propostas pelos ambientalistas ultrapassará largamente os prejuízos decorrentes do aquecimento global. No fundo, este grupo acredita que o capitalismo é como uma bicicleta – se paramos de pedalar, estatelamo-nos – e que não só é fisicamente possível que o PIB global cresça ano após ano, até ao infinito, como esse desígnio é a mola-real da democracia e da felicidade, pelo que seria um erro crasso privarmo-nos de desfrutar de um nível superior de prosperidade só para evitar que algumas dunas e praias sejam engolidas pelo mar e que os ursos polares se extingam.

● No que respeita às empresas que se têm consagrado à extracção, processamento e comercialização de combustíveis fósseis, o seu móbil é óbvio: assegurar a continuidade do seu modelo de negócio e a maximização da remuneração dos seus accionistas, independentemente dos malefícios líquidos que tal possa trazer para a humanidade como um todo. Ainda que os elementos deste grupo, minúsculo mas extremamente poderoso, tenham vindo a aliciar pseudo-cientistas para produzirem artigos que negam que as alterações climáticas sejam reais e potencialmente prejudiciais e tenham manobrado habilmente para neutralizar todas as COPs sobre clima, é pouco relevante o que pensam realmente sobre o assunto, pois o seu foco não é o bem da humanidade mas o “business as usual” e são guiados não pela ética mas pelo calculismo e pela avidez. A sua postura não é muito diferente da dos líderes da indústria tabaqueira, que, estando plenamente conscientes dos malefícios do tabaco para a saúde, pagaram, durante décadas, a cientistas para defenderem o contrário e a “lobbistas” para emperrar qualquer legislação restritiva.

● Finalmente, temos os “empreendedores visionários”, que vêem no aquecimento global, não uma ameaça, mas uma oportunidade para novos negócios. Para este grupo, também ele minúsculo e extremamente poderoso, o eventual degelo do Árctico permite 1) a exploração de minérios e combustíveis fósseis que hoje se encontram “trancados” sob espessas camadas de gelo; 2) a abertura de novas e mais curtas rotas comerciais marítimas entre o Pacífico e o Atlântico; e 3) a expansão da actividade agrícola em direcção aos polos.

Não é relevante o que Donald Trump realmente pensa sobre ambiente, assunto sobre o qual nada sabe (ver capítulo “O ambientalista” em Donald Trump pelas suas próprias palavras) e nada quer aprender, já que está seguro de ser a autoridade máxima nesta área de conhecimento, ou em qualquer outra (ver capítulo “Um tipo muito esperto” em Donald Trump: Anatomia de um narcisista). O que importa são as posições que tem exprimido reiterada e assertivamente sobre o tema e as medidas que tem tomado, e essas são entusiasticamente favoráveis à continuação da extracção e queima de combustíveis e hostis às energias renováveis (em particular à energia eólica), aos veículos eléctricos e a quaisquer medidas de combate às alterações climáticas, que, aliás, considera serem “a maior aldrabice de sempre” (ver capítulo “Drill, drill, drill” em Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 1: Poder e dinheiro).

[“Dril, baby, drill”: Excerto do discurso de tomada de posse de Donald Trump, Washington, 20.01.2025:]

“Somos uma superpotência e vamos agir como uma superpotência”

Como já foi referido no capítulo “Trump 2.0” de Civilização ocidental: O Grande Cisma de 2025 d.C., uma das mais evidentes (e mais inquietantes) diferenças entre as duas administrações Trump é que, na segunda, Trump excluiu qualquer pessoa capaz de pensar pela sua própria cabeça . O seu principal critério de recrutamento não foi a competência, foi a fidelidade incondicional, a subserviência e, alguns casos, as conexões ao mundo dos negócios. Por outro lado, ao fim de quase uma década como líder incontestado e “kingmaker” do Partido Republicano, Trump conseguiu purgar a cúpula deste de todos os elementos com independência de espírito e coluna vertebral, ou que, meramente, perfilhassem uma visão moderada da política (ver capítulo “Como o Partido Republicano se tornou no partido de Trump” em Donald Trump pelas palavras dos seus correligionários). Assim, chegou-se a um ponto em que, por mais descabelados ou ultrajantes que sejam os seus planos e por mais incongruentes que sejam as suas declarações, Trump está seguro de que, salvo raras e efémeras excepções (que serão afastadas nas próximas eleições, ao perderem o apoio de Trump), os elementos da sua administração e os congressistas, governadores e mayors do Partido Republicano irão apoiá-lo sem vacilações, e de que os jornalistas e comentadores da Fox News e da Newsmax e os podcasters da MAGAsfera irão afinar pelo mesmo diapasão.

Veja-se, por exemplo, o que disse Stephen Miller, chefe de gabinete adjunto na Casa Branca, conselheiro de segurança interna (Homeland Security) e uma das figuras mais influentes da Administração Trump 2.0, em entrevista a Jake Tapper, na CNN, a 05.01.2026, a propósito das acções americanas na Venezuela e dos planos para a Gronelândia: “Podem dizer o que quiserem sobre cortesias [niceties] internacionais e outras minudências, mas nós vivemos no mundo real, que é governado pela força [Miller expressou esta ideia em triplicado, recorrendo aos quase-sinónimos “strength”, “force” e “power”]. São estas as leis de ferro do mundo desde o princípio do tempo. […] Por definição, somos nós que detemos o poder, porque temos as forças armadas americanas. […] Somos nós que definimos os termos e as condições. […] O presidente tem deixado claro ao longo dos últimos meses que são os EUA que devem controlar a Gronelândia, como parte do nosso sistema de segurança. […] Que direito tem a Dinamarca a controlar a Gronelândia? Qual é o fundamento da sua reclamação territorial? Com que fundamento é que a Gronelândia é uma colónia da Dinamarca? […] É óbvio que a Gronelândia deve fazer parte dos EUA. Não vale sequer a pena pensar ou falar sobre isto no contexto de operações militares. Ninguém vai confrontar militarmente os EUA sobre o futuro da Gronelândia. […] Os EUA estão a usar o seu poder a fim de garantir os nossos interesses no nosso hemisfério, sem necessidade de pedir desculpas. Somos uma superpotência, e, sob a orientação do presidente Trump, vamos agir como uma superpotência. É absurdo pensar que iríamos permitir que uma nação no nosso quintal das traseiras fornecesse os seus recursos aos nossos adversários mas não a nós. […] A essência da Doutrina Monroe e da Doutrina Trump é garantir os interesses nacionais da América [entenda-se: dos EUA][…] O futuro do mundo livre depende de a América [os EUA] ser capaz de fazer valer a nossa força e os nossos interesses, sem formular uma desculpa sequer. […] Se pararmos por um momento para reflectir, temos de reconhecer que o que testemunhámos nesta última semana sob a liderança do Presidente Trump é uma das maiores vitórias militares e de política externa na história deste país” [nota: a bem da clareza e da fluidez, na tradução acima podaram-se algumas excrescências e alisaram-se algumas passagens].

O Tio Sam, insatisfeito com o seu velho cavalo (a Doutrina Monroe), trocou-o por um meio de transporte mais moderno. Cartoon por Victor Gillam, publicado na revista satírica americana Judge de 17 de Setembro de 1898

“Nós governamos a selva”

No mesmo dia, 5 de Janeiro de 2026, o comentador Ben Shapiro, no podcast The Ben Shapiro Show, defendia que “isso da lei internacional não existe. É um disparate. E é um disparate porque não existe um mecanismo para a impor. Sabem o que é realmente a lei internacional? É a lei da selva. A verdade é que os fortes farão o que quiserem e os fracos farão o que têm de fazer. Esta é que é a lei das relações internacionais. Não há alternativa a isto. Todas as tentativas para encontrar alternativas falharam e é por isso que a autodefesa e umas forças armadas poderosas são necessárias para os Estados ocidentais e é por isso que uma América forte é melhor para o mundo”.

Um dia depois, Will Cain, analista político e apresentador televisivo, exprimiu ideia idêntica, quase palavra por palavra, no The Will Cain Show, na Fox News: “Isso da lei internacional não existe. É uma fachada, uma ficção que confere poder aos poderosos e o nega aos outros países. Na verdade, o que governa o mundo e sempre tem governado a humanidade é a lei da selva. É o poder. É a alavancagem [leverage]. E os EUA são a potência preeminente no nosso mundo. […] Houve um tempo em que se celebrava a conquista, em nome de Deus, do rei, da glória e dos americanos. Isso do território roubado não existe. Isso da lei internacional não existe. A única coisa que existe é a conquista. E se ela beneficia os americanos, avance-se com ela. Nós governamos a selva. Nós somos o leão”.

Um dia depois de Cain, o republicano Andy Ogles, eleito pelo Tennessee para a Câmara dos Representantes, demonstrou a afinação quase perfeita do Coro MAGA: “É essencial que tenhamos uma palavra a dizer na Gronelândia e que esta seja um protectorado dos EUA. Eles têm estado vinculados à Dinamarca – isso tem de acabar. Temos derramado mais sangue a proteger a Gronelândia do que os dinamarqueses. […] Nós somos o predador de topo no Hemisfério Ocidental”.

A Pax Americana, segundo J.S. Pughe, em cartoon publicado na revista Harper’s Weekly de Março de 1905. O rosto na proa do navio é o do presidente Theodor Roosevelt

Ogles já fizera declarações semelhantes sobre a Gronelândia um ano antes, no programa Mornings with Maria, com Maria Bartiromo, no canal Fox Business: “É rica em recursos. E quando assistimos ao aumento da actividade da Rússia e da China no Árctico e nas rotas de navegação, é preciso que os EUA se afirmem e digam, ‘Vejam lá, isto é o nosso quintal, isto é a nossa área de operação’. E nós, sejamos francos, somos o polícia-predador de topo”. Porém, na altura, ou passaram despercebidas, ou foram interpretadas como uma bravata inconsequente e rapidamente esquecidas.

A MAGAsfera – com Trump à cabeça – está constantemente a produzir proclamações ultrajantes, estultas ou lunáticas, mas no meio deste fervilhar desordenado, das contradições e incongruências, dos impulsos momentâneos, das fanfarronices, é possível discernir linhas mestras, temas recorrentes, obsessões, que, em conjunto, desenham uma mundividência, uma atitude perante a política, a sociedade e o mundo. Quando em 2019, Trump deixou transparecer, pela primeira vez, a vontade de abocanhar a Gronelândia, poucos o terão levado a sério, e os que o fizeram e exprimiram reprovação foram alvo de troça por terem mordido o isco e respondido ao que seria uma mera provocação pela parte de Trump. Agora tornou-se claro para todos que a ideia de anexar a Gronelândia não foi apenas um dos (frequentes) delírios passageiros de Trump – é um dos principais desígnios do actual Governo dos EUA e colhe a aprovação da cúpula da MAGAsfera.

Na verdade, estamos perante algo mais profundo: a convicção de que os EUA têm direito a apropriar-se unilateralmente da Gronelândia é só um caso particular da nova doutrina do Partido Republicano sobre relações internacionais, que já estava implícita no discurso sobranceiro do vice-presidente J.D. Vance na Conferência de Segurança de Munique, a 14 de Fevereiro de 2025, e que foi solidificada e formalizada na Estratégia de Segurança Nacional publicada pela Casa Branca a 4 de Dezembro de 2025.

O crescimento desmedido do Tio Sam forçou-o a ir ao alfaiate para que este lhe providencie roupas mais adequadas ao seu tamanho, mas recusa tomar o remédio contra a política expansionista que os médicos tentam impingir-lhe. Cartoon por John S. Pughe, publicado na revista satírica Puck a 5 de Setembro de 1900

Os EUA e a ordem internacional baseada em regras

No seu programa na CNN, GPS, a 11.01.2026, o comentador político Fareed Zakarya analisou a postura de Trump e do movimento MAGA em termos de política externa, sublinhando quanto esta diverge da tradição americana no pós-II Guerra Mundial. Zakarya sublinha que até no caso da Segunda Guerra do Iraque, usualmente vista como uma manifestação de unilateralismo americano e de arrogância imperial, George W. Bush procurou legitimar a sua actuação a nível interno, obtendo autorização do Congresso, e a nível externo, levando o caso ao Conselho de Segurança da ONU, consultando os países aliados e formando uma coligação internacional – neste processo os EUA promoveram muitas falsidades e cometeram erros trágicos, mas, ao menos, a Administração Bush tentou agir (ou dar a impressão de agir) de acordo com a ordem internacional baseada em regras.

Zakarya traça um retrato demasiado benigno da política externa americana pré-Trump, mas tem razão quando afirma que “o esforço para traduzir poder em legitimidade é o pilar secreto da primazia americana. […] O consentimento é o que transforma a hegemonia em liderança e a liderança num sistema que os outros Estados vêm como preferível às alternativas”. E a actuação dos EUA na Venezuela – e, poderíamos acrescentar, as intenções expressas em relação à Gronelândia –, no seu “absoluto desprezo pela lei, pelas alianças e pela diplomacia, marca uma ruptura na política externa americana”. Segundo Zakarya, a premissa deixou de ser que “o poder americano está ao serviço de princípios consensuais, que outros [povos] podem perfilhar, como sejam democracia, segurança colectiva, uma ordem fundada em regras”; a premissa é, agora, que “o poder confere direitos, governa porque pode”.

O historiador Niall Ferguson, que tem uma ideia ainda mais benigna do imperialismo americano do que Zakarya, lamentou amargamente, em Colosso: Ascensão e queda do Império Americano (2004), que os EUA tivessem vindo, nas últimas décadas do século XX, a mostrar crescente relutância em abraçar a sua vocação imperial e acusou os seus presidentes de “inverterem prematuramente os seus compromissos estrangeiros” e de fazerem dos EUA um “império em negação” (ver Uma coroa para o Tio Sam). É provável que Ferguson tenha ficado desconsolado com a posição isolacionista em tempos defendida por Trump e com as suas repetidas promessas de que, com ele, os militares americanos não iriam morrer em guerras em lugares remotos – a postura da Administração Trump 2.0 deve enchê-lo de júbilo.

A bordo do avião presidencial, Donald Trump exibe a ordem executiva que rebaptiza formalmente o Golfo do México como “Golfo da América, 09.02.2025

O jornal New York Post, a 08.01.2025, foi o primeiro a designar a atitude de Trump em termos de política externa como Doutrina Donroe, numa alusão à Doutrina Monroe, e Trump parece ter gostado da ideia, pois adoptou a designação, ainda que cuidando de fazer uma distinção: “A Doutrina Monroe é uma coisa muito importante mas nós superámo-la largamente, por uma grande margem mesmo. Agora chamam-lhe a Doutrina Donroe” (Trump tem uma necessidade infantil de se afirmar o melhor em todos os domínios e circunstâncias e, se se compara favoravelmente com Washington, Jefferson e Lincoln, não seria de esperar que não fosse capaz de superar um presidente de segunda linha como James Monroe).

Como já se viu atrás, a Doutrina Donroe tem algumas afinidades, não tanto com a Doutrina Monroe, como com as suas releituras posteriores, de cariz mais imperialista. A atitude imperial, sobranceira e prepotente que caracteriza a Doutrina Donroe está, pois, longe de ser novidade na política americana ou na política de outros países e Stephen Miller, Ben Shapiro e Will Cain têm alguma razão quando afirmam que o mundo tem sido governado, desde o início, pela lei do mais forte. Pelo menos, foi assim durante a maior parte da história da humanidade. Todavia, após a I Guerra Mundial, com a criação da Sociedade das Nações, cujo principal instigador foi o presidente americano Woodrow Wilson, iniciou-se um esforço para criar uma ordem internacional baseada em regras.

Manifesto da ONG League to Enforce Peace, publicado no The New York Times de 25 de Dezembro de 1918, promovendo a ideia de uma Sociedade das Nações como forma de assegurar a paz e a democracia universais; o manifesto propunha que “a união da força potencial de todos os membros funcionasse como uma ameaça permanente contra qualquer nação que ousasse perturbar a paz no mundo”

É certo que a eficácia da Sociedade das Nações se revelou muito limitada (logo para começar porque o Senado americano rejeitou que os EUA dela fizessem parte), mas, como escreve Mark Mazower em Governar o mundo (2012), “não é nos [seus] fracassos que devemos concentrar-nos, mas antes na sua influência duradoura. Foi um veículo de liderança mundial baseado em princípios morais e na igualdade formal dos Estados-membros” (ver Governar o mundo: Como havemos de viver juntos?).

Algo de semelhante pode dizer-se da ONU, criada após a cataclismo da II Guerra Mundial e cujo principal obreiro foram, mais uma vez, os EUA, que conseguiram que as regras da organização fossem escritas da “forma que mais servia os seus interesses nucleares e isentando-se das que os seus legisladores não gostavam” (Mazower). Apesar dos enviesamentos, das entorses estruturais (por exemplo, o direito de veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança), das manobras de bastidores e da hipocrisia, e de se ter revelado impotente quando mais era necessário que agisse, a ONU não deixa de ser, como a Sociedade das Nações, um passo na direcção certa. É certo que as regras da ordem internacional foram repetidamente violadas, subvertidas, torneadas ou ignoradas, mas mesmo os autocratas se davam ao trabalho de tentar criar a ilusão de que seguiam essas regras e as respeitavam.

O que a Doutrina Donroe traz de novo não é tanto o primado da força bruta como a dissolução da vontade de progredir em direcção a um mundo mais justo e decente; é admitir, sem rodeios nem eufemismos, que vivemos num mundo bestial, regido pela força bruta, e que escusamos de fingir que somos civilizados e movidos por valores superiores. A Doutrina Donroe é frontal e dispensa “cortesias” e “escrúpulos”: quem detém o poder das armas tem direito a redesenhar fronteiras a seu bel-prazer e apropriar-se de tudo o que desperte a sua cobiça.

Está de volta a “diplomacia da canhoneira” que floresceu na viragem dos séculos XIX-XX (e de que Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque foram notáveis precursores), mas com tecnologia bélica muito melhorada – seria mais apropriado chamar-lhe “diplomacia do porta-aviões nuclear” ou “diplomacia do míssil de cruzeiro”.

Theodore Roosevelt, secundado pelo poder da US Navy, zela pela ordem num Mar das Caraíbas convertido em “lago americano”. Cartoon de 1904 por William Allen Rogers

Se a tecnologia evoluiu tremendamente desde o tempo da “diplomacia da canhoeira”, já a sobranceria e o racismo que a ela estavam associadas pouco mudaram: quer Trump quer o seu círculo referem-se à aquisição da Gronelândia como uma questão a resolver entre os EUA e a Dinamarca, sem que os principais interessados – os gronelandeses – tenham algo a dizer, tal como acontecia na Era de Ouro dos impérios coloniais, em que a posse de ilhas, arquipélagos e penínsulas e o traçado de fronteiras eram negociados nas chancelarias da Europa, sem que embaixadores, ministros, generais e cartógrafos pensassem por um momento sequer nas implicações que os seus riscos nos mapas teriam sobre os “nativos”. É bem provável que parte da ligeireza com que Trump encara a “aquisição” da Gronelândia e da sua indiferença sobre o que os gronelandeses possam pensar da “transacção”, decorra menos de a ilha ser esparsamente habitada, do que do facto de 90% dos seus habitantes serem inuit.

Mas a Doutrina Donroe tem uma diferença substancial em relação à velha “diplomacia da canhoneira”: as vítimas desta eram, quase sempre, países “subdesenvolvidos”, civilizações “decadentes”, potentados regionais ou tribos de “selvagens”. Já a Doutrina Donroe pode tomar como alvo qualquer país, mesmo os que estão no escalão superior de sofisticação civilizacional e que têm sido firmes aliados dos EUA. Imagine-se o que é ter um “amigo” que, a qualquer momento, ao visitar a nossa casa, pode ser acometido por uma veneta e decidir que lhe dá jeito substituir o seu forno de micro-ondas ou se encanta com um jarrão que herdámos de uma tia-avó e, simplesmente, leva consigo aquilo de que precisa e que, se tentamos esboçar um protesto, invocando argumentos razoáveis, ameaça partir-nos todos os dentes.

O tempo dos predadores

Quem achava enigmática a atitude ambígua de Trump em relação à invasão russa da Ucrânia e os repetidos elogios a Putin tem agora a explicação perante os seus olhos. Trump tinha e tem reservas em relação à “operação militar especial” de Putin, mas estas não se prendem com os princípios (ou a falta deles) nem com o método de Putin, mas com o facto de Trump cobiçar as mesmas riquezas que Putin pretende: as terras raras, o urânio, o carvão, o petróleo, o gás natural, o ferro, o manganês, o titânio, o lítio e a grafite no subsolo da Ucrânia.

Trump sempre admirou em Putin a prepotência, a brutalidade expedita e a ausência de escrúpulos e sempre lhe invejou a forma como se faz obedecer sem uma vacilação pela máquina do Estado e como reduziu o povo russo à resignação e à passividade; e agora, com a sua autoconfiança inata exponenciada por estar permanentemente rodeado de sicofantas e bajuladores escolhidos a dedo, entendeu que era altura de imitar Putin. Não se tratou de uma mudança drástica no modus operandi, uma vez que Trump sempre se comportou como um bully, nas relações pessoais, nas relações sexuais, nos negócios e na política – digamos que a Doutrina Donroe representa simplesmente um incremento na agressividade, na insolência, na desfaçatez e no desprezo pelo que o resto do mundo possa dizer ou pensar.

É possível que a perspectiva que agora se abre de os EUA poderem assumir o controlo de colossais reservas de recursos minerais e energéticos (umas reais e outras imaginárias), através da tomada da Venezuela e da Gronelândia, leve Trump a ser generoso para com Putin, deixando de se opor a que este fique com um belo naco da Ucrânia – até porque os EUA, a troco de vagas promessas de “protecção” da Ucrânia, já asseguraram que esta lhe outorgará o estatuto de parceiro privilegiado na exploração dos recursos minerais da parte do território ucraniano que a Rússia não conseguir abocanhar. Na Grande Selva que é a Terra, há presas suficientes para saciar os três grandes predadores – EUA, Rússia e China –, só é preciso aplicar discrição na delimitação das zonas de influência de cada um. O que não significa, claro, que todas as áreas de influência tenham de ter tamanho equivalente – afinal os EUA são (por enquanto) o leão e a Rússia e a China devem respeitar a hierarquia.

A reafirmação da lei do mais forte como elemento central nas relações internacionais não pode ser dissociada do caldo de cultura ideológico que tem sido fomentado pelo movimento MAGA e, em maior ou menor medida, pela extrema-direita populista de outros países. A lei do mais forte está subjacente ao desprezo pelos “losers” e à glorificação do sucesso; ao apreço por líderes autoritários, que quebram o marasmo, “drenam o pântano”, atropelam as regras instituídas e “fazem acontecer coisas”; à visão da sociedade e dos seus subgrupos como uma alcateia comandada por um “macho-alfa”; à idolatria que rodeia o cyberbully-troll-empresário-visionário Elon Musk e o kickboxer-influencer-predador sexual Andrew Tate; ao entendimento transaccional das relações e da vida; e à ideia de que a empatia é “a fraqueza fundamental da civilização ocidental” (ver capítulos “A fraqueza fundamental da civilização ocidental” e “Sobre homens e lobos” em Civilização ocidental: Quando o crepúsculo desce).

Estas ideias não são novas, mas, com a ajuda da Internet e das redes sociais, converteram-se numa vaga avassaladora, que Trump mostrou ser capaz de “surfar” como poucos. O novato nas lides políticas que, em 2015, ninguém acreditava que tivesse a mais pequena hipótese de vencer as eleições primárias do Partido Republicano, desfruta hoje de um protagonismo e de uma capacidade disruptiva que nenhum presidente americano do pós-II Guerra Mundial esteve perto de alcançar. E, impelido pelo seu narcisismo patológico e pela sua insaciável necessidade de validação e inebriado com o seu poder para deixar o mundo em alvoroço ou em estupor, parece estar a ficar mais imprevisível e audacioso – ou desvairado – a cada mês que passa.

Numa entrevista de Trump ao The New York Times, publicada a 09.01.2026, a jornalista Katie Rogers fez a pergunta que, nas últimas semanas, deve ter ocorrido várias vezes a quem quer que acompanhe a actualidade internacional: “Considera que existem alguns freios ao seu poder no palco global?”. O presidente respondeu-lhe: “A minha própria moral. A minha própria mente. É a única coisa que pode parar-me”.

É difícil dizer o que é mais grotesco: a convicção de Trump de que não existem leis, instâncias ou instituições, americanos ou internacionais, que possam vinculá-lo ou restringi-lo; ou a ideia de que o mundo se sentirá tranquilizado por esse poder imenso ser guiado pelo superior juízo moral de Donald Trump.