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[Este é o sexto de doze artigos a propósito de O mundo criou o Ocidente, de Josephine Quinn. Os artigos anteriores podem ser lidos aqui:]

O Grande Cisma de 1054: antecedentes

Poderá haver quem entenda que a enredada e assanhada discussão em torno dos conceitos de “civilização” e de “Ocidente” é uma querela bizantina, que só poderá interessar a historiadores e lexicógrafos e que não tem qualquer reflexo fora da torre de marfim da academia. Na verdade, esta discussão está no centro da actualidade política e social e explica, em boa parte, a fractura que tem vindo a abrir-se nas sociedades ocidentais desde o início do presente século e que recebeu decisivo impulso a 20 de Janeiro de 2025, quando Donald Trump iniciou o seu segundo mandato como presidente dos EUA. Pode mesmo falar-se de um Segundo Grande Cisma, de consequências ainda mais profundas e vastas do que as do Grande Cisma de 1054, que dividiu a Cristandade entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa.

O Cisma de 1054 merece alguma atenção no contexto desta série de artigos, uma vez que torna evidente a subjectividade e a fluidez dos conceitos de “civilização” e de “Ocidente”. Apesar da recorrente associação de Ocidente a Cristandade, a verdade é que a religião cristã nasceu no Próximo Oriente e difundiu-se em seguida para a Ásia Menor, Cáucaso e África. As três primeiras entidades políticas a adoptar o cristianismo como religião oficial foram os reinos da Arménia, no ano 300, de Aksum (correspondendo parcialmente ao que é hoje a Etiópia e a Eritreia), no ano 325, e de Kartli ou Iveria (correspondendo parcialmente ao que é hoje a Geórgia), no ano 337.

O Império Romano, que começou por reprimir o cristianismo, acabou por o promover: os momentos decisivos nesse processo de cristianização foram a promulgação do Édito de Serdika (ou Édito da Tolerância), em 311, pelo qual o imperador Galério proibiu a perseguição dos praticantes da fé cristã; a promulgação do Édito de Milão, em 313, pelo qual Constantino I determinou que o cristianismo era uma das religiões aceites pelo Império (apesar da sua manifesta simpatia pelo cristianismo, Constantino só se faria baptizar no seu leito de morte, em 337); e a adopção do cristianismo como religião oficial do Império, em 380, no reinado do imperador Teodósio I (realce-se a gradação: tolerância, aceitação, oficialização).

Moeda de ouro cunhada em 389-90, ostentando na frente o imperador Teodósio I e no verso Teodósio I e o co-imperador Valentiniano II

O decreto de Teodósio acelerou a implantação do cristianismo no interior do Império, enquanto, na Europa, os “bárbaros” que viviam para lá das fronteiras se convertiam, na sua maioria, ao arianismo, uma “heresia” do cristianismo. Após a queda do Império Romano do Ocidente, o cristianismo – católico ou ortodoxo – continuou a ganhar conversos dentro das antigas fronteiras do império e foi espalhando-se, lentamente, para a Europa Central e Setentrional, conquistando terreno ao arianismo e ao paganismo.

A cristianização de França costuma ser fixada em 496, quando do baptismo de Clovis I, o primeiro rei dos francos, mas o processo só se completaria algumas décadas depois. A Inglaterra foi cristianizada no século VII (o primeiro missionário chegou em 595, o último rei anglo-saxão que resistia à cristianização morreu em combate em 686), embora tenha tido recaídas pontuais no paganismo com as invasões vikings do século X. No território da futura Alemanha o processo de cristianização iniciou-se no final do século V e só terminou no final do século VIII (e apenas graças ao uso da força pelos francos). A Dinamarca converteu-se em 965, por iniciativa do rei Harald Dente-Azul (patrono involuntário do bluetooth). Na Escandinávia, as primeiras tentativas de cristianização datam do século X, mas encontraram resistência e só obtiveram sucesso no século XII e, ainda assim, não abrangendo as regiões pouco povoadas no norte. Na Europa de Leste, a conversão envolveu alguma rivalidade entre as Igrejas de Roma e de Constantinopla: a norte, dominou a primeira, que obteve a conversão da Polónia em 966; já a Bulgária e o Rus’ de Kiev (correspondendo parcialmente à actual Ucrânia) entraram na órbita de Constantinopla em 870 e 988, respectivamente. Em 1387, a Igreja de Roma logrou a conversão da Lituânia (então bem mais vasta do que o país que hoje tem este nome), no que costuma ser visto como a conclusão da cristianização da Europa. O facto de este passo ter ocorrido quase um milénio depois de Arménia, Geórgia e Etiópia terem adoptado o cristianismo como religião do Estado ajuda a colocar em perspectiva a ideia da Europa como o continente cristão por excelência.

[Expansão do cristianismo, da origem ao presente:]

Entretanto, de forma a reforçar a autoridade do bispo de Roma sobre toda a igreja e a colocá-lo acima de todas leis, clericais ou seculares, foram sendo forjados documentos que atestavam eventos fantasiosos que apoiavam a tese da supremacia papal. Um dos mais relevantes ficou conhecido como “Doação de Constantino” e é um decreto, atribuído ao imperador Constantino, que transfere para o papa Silvestre I (bispo de Roma em 314-35) o poder sobre a cidade de Roma e sobre todo o Império Romano do Ocidente.

“A doação de Constantino” (c.1520-24), fresco atribuído a Gianfrancesco Penni ou a Giulio Romano, discípulos de Raffaello Sanzio, no Palácio Apostólico, Vaticano

A primeira versão da “Doação de Constantino” terá sido forjada em meados do século VIII, com o intuito de conferir uma posição de autoridade ao papa Estêvão II (papado: 752-57) nas suas negociações com Pepino III o Breve, rei dos francos (reinado: 751-68), a fim de obter deste apoio na luta contra o rei lombardo Astolfo, que conquistara Ravena, no norte de Itália.

Note-se que, entre 537 e a eleição de Estêvão II, o papado esteve parcialmente subjugado ao Império Bizantino, então a potência dominante na Península Itálica. Durante este período, conhecido como “Papado Bizantino”, os papas precisavam de ser confirmados pelo Imperador Romano do Oriente, o que explica a sucessão ininterrupta de papas de origem bizantina entre 578 e 752. Porém, em 752, as relações entre o bispo de Roma e o imperador de Constantinopla tinham azedado, devido a questões sucessórias e teológicas, e quando Estêvão II pediu ajuda contra Astolfo a Constantino V (reinado: 741-75), que recebeu o nada lisonjeiro cognome de “Coprónimo” (Kopronymus), este alegou estar assoberbado a combater o Califado Abássida. Esta resposta evasiva levou Estêvão II, em desespero, a recorrer a Pepino III, no que foi o início de uma relação privilegiada entre o bispo de Roma e os francos.

Pepino III já tinha recebido, em 751, a aprovação papal para ser coroado rei dos francos, ponde assim termo à dinastia merovíngia e dando início à dinastia carolíngia, mas a cumplicidade estabelecida entre Pepino III e o papa Estêvão II trouxe relevantes desenvolvimentos ao panorama europeu: 1) A expulsão dos lombardos da Península Itálica pelos francos; 2) A segunda coroação de Pepino III, em Paris, desta feita pela mão de Estêvão II (naquela que foi a primeira coroação efectuada por um papa), que, além de confirmar Pepino como rei dos francos o sagrou como “patrício romano” (Patricius Romanorum); e 3) A atribuição à Santa Sé, pela “Doação de Pepino”, de um conjunto de territórios italianos que ficaram conhecidos com Estados Papais. A aliança culminaria com a coroação, pelo papa Leão III, na Basílica de São Pedro, em Roma, no ano 800, do filho de Pepino III, Carlos Magno, como “Imperator Romanorum”, o primeiro a ostentar tal título, no Ocidente, desde o infortunado e insignificante Rómulo Augústulo.

A reacção do papa Estêvão II à tomada de Ravena pelos lombardos, embora possa parecer um detalhe na conturbada e obscura história da Europa no século VIII, acabou, pois, por revelar-se um momento decisivo no processo de clivagem entre os herdeiros ocidentais e orientais do Império Romano.

“A Doação de Pepino”: O abade Fulrad, emissário de Pepino III, entrega ao papa Estêvão II o documento que conferia ao Vaticano soberania sobre os Estados Papais

A Cristandade dividida

Se a fé cristã conhecera múltiplas variantes, secessões e polémicas teológicas desde a sua origem, no início do seu segundo milénio de existência estava claramente dividida entre dois polos, um centrado no patriarca (papa) de Roma e outro no patriarca de Constantinopla. As rivalidades e tensões que tinham vindo a acumular-se ao longo de séculos entre os dois polos (ver capítulo “A Europa e a herança greco-romana” em Civilização ocidental: Um conceito volátil) atingiram o zénite quando o papa Leão IX (1049-54) decidiu reclamar autoridade formal sobre os patriarcados orientais, invocando um excerto da “Doação de Constantino”, o que Miguel I Cerulário (1043-58), patriarca de Constantinopla, se recusou a aceitar.

O selo de chumbo usado por Miguel I, patriarca de Constantinopla

Além de, possivelmente, suspeitar que a “Doação de Constantino” não passava de um embuste criado para justificar a supremacia papal, Miguel I tinha outros motivos para não reconhecer a autoridade de Roma: não só o cristianismo nascera no Oriente, como os sete primeiros concílios ecuménicos que o tinham moldado – Niceia em 325 e 787, Constantinopla em 381, 553 e 680-81, Éfeso em 431 e Calcedónia em 451 – tinham todos decorrido sob a alçada do patriarcado de Constantinopla (no que é hoje o território da Turquia). Pelo seu lado, o papa poderia reivindicar o facto de a Igreja de Roma ter sido fundada por S. Pedro, a quem Jesus atribuíra, inequivocamente, a liderança dos fiéis (“Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”, Mateus 16:18), e de o poder de Constantinopla ter vindo a definhar em resultado do avanço do Islão no Mediterrâneo Oriental.

O mundo cristão dividido pelo Grande Cisma de 1054

Desta desavença resultou que os dois patriarcas se excomungaram mutuamente e a cristandade ficou dividida entre a Igreja Católica, correspondente à Europa Ocidental, e a Igreja Ortodoxa, englobando dois blocos: 1) os principados eslavos da Europa Oriental, correspondendo parcialmente ao que são hoje a Ucrânia, a Bielo-Rússia e a parte sudoeste da Rússia, e 2) o (minguante) Império Bizantino, que, à data compreendia os territórios das modernas Grécia e Turquia, parte dos Balcãs e do litoral do Mar Negro e ainda a Sicília e nacos do sul da Península Itálica. À data ninguém poderia antever as vastas e duradouras consequências da desavença entre Leão IX e Miguel I: afinal, a Cristandade andava enleada em disputas teológicas desde os seus primórdios, mas estas tendiam a circunscrever-se às cúpulas, enquanto a vida e as práticas religiosas dos cristãos comuns se mantinham inalteradas. Porém, esta cisão iria agravando-se aos poucos, apesar de várias tentativas de reconciliação, até se tornar irreversível. Para tal contribuiu decisivamente que, em 1204, a IV Cruzada tenha cercado, conquistado e pilhado Constantinopla, profanado e vandalizado igrejas e mosteiros ortodoxos, convertido estes ao culto latino e levado para a Europa as relíquias cristãs neles guardadas, bem mais numerosas e valiosas do que o acervo de que as igrejas europeias podiam ufanar-se (ainda que, claro, umas e outras não fossem mais do que piedosas contrafacções – ver Relíquias religiosas: Histórias de santos, rosas e caudas de jumento).

“Entrada dos cruzados em Constantinopla” (1840), por Eugène Delacroix

A causa formal para esta fractura tectónica foi, além do desentendimento sobre a extensão da autoridade formal do papa, uma polémica duplamente bizantina (i.e., no sentido literal e figurado do adjectivo), envolvendo minudências teológicas, em particular a respeitante ao relacionamento do Espírito Santo com os outros dois elementos da Santíssima Trindade (a chamada “controvérsia do filioque” ou da “procedência do Espírito Santo”) e detalhes nas práticas litúrgicas, nomeadamente se as hóstias da Eucaristia deveriam ser confeccionadas com pão ázimo (opção defendida por Roma) ou pão fermentado (opção defendida por Constantinopla).

Porém, o cisma decorreu também da luta pelo poder entre indivíduos e grupos de interesses e do facto de, uma vez desvanecido o efeito unificador do Império Romano, as culturas e as realidades socio-económicas associadas a Roma e a Constantinopla terem vindo a divergir progressivamente. Após a infame IV Cruzada, as cúpulas das duas igrejas ainda tentaram mais duas reaproximações, através dos concílios de Lyon (1272) e de Ferrara-Florença (1439), mas, por esta altura, a aversão aos “hereges” latinos já se entranhara nas massas ortodoxas e estas rejeitaram energicamente os acordos assinados pelos seus bispos.

A divisão da Cristandade em duas facções facilitou a expansão do Islão – embora ele mesmo fosse afligido desde a sua génese por dissensões internas – e a pressão do segundo sobre a primeira intensificou-se com a emergência do Império Otomano, a partir de 1299 (ver Turquia: Sete séculos entre sonhos e pesadelos). O expansionismo otomano acabaria por resultar na queda de Constantinopla e na extinção do já muito debilitado Império Romano do Oriente, em 1453. A conquista otomana do Próximo Oriente e dos Balcãs alterou o equilíbrio de forças entre as cristandades do Ocidente e do Oriente, uma vez que, embora os otomanos, dando provas de uma tolerância que os cristãos não praticavam, não forçassem os cristãos (nem os judeus) a converterem-se ao Islão, relegavam-nos para o estatuto de cidadãos de segunda classe no seio de um estado islâmico. Ainda assim, a aura do Império Romano do Oriente não se extinguiu com o seu fim formal, como atesta o facto de o seu carrasco, o sultão otomano Mehmed II, ter atribuído a si mesmo o título de Kaiser-i-Rum, isto é, “César dos Romanos” (ver capítulo “De Constantinopla a Viena” em Turquia: Sete séculos entre sonhos e pesadelos).

O cerco de Constantinopla em 1453, por Jean Le Tavernier

A queda de Constantinopla foi um momento simbólico no longo e penoso processo de declínio da Cristandade oriental e coincidiu no tempo com o “despertar” da Cristandade ocidental, onde as explorações marítimas de portugueses e espanhóis e o movimento Renascentista (Leonardo da Vinci nasceu um ano antes da queda de Constantinopla) marcavam o início de um movimento ascensional que iria prolongar-se por quase cinco séculos.

O Grande Cisma de 2025: antecedentes

Quase mil anos após o cisma de 1054, a relevância do cristianismo na civilização ocidental é uma sombra do que foi, não só por as modernas sociedades ocidentais se caracterizarem pelo laicismo (a religião está circunscrita, essencialmente, à esfera privada de cada cidadão), como por a percentagem de crentes se ter reduzido e por a maioria dos que se declaram crentes terem deixado de encarar a religião como eixo central da sua vida e das suas preocupações. Seria, pois, improvável que, no nosso tempo, se abrisse um cisma por causa de um “filioque”, da contestação da autoridade do papa para nomear bispos, ou de qualquer outra bagatela apenas compreensível a especialistas em teologia ou em direito canónico, e, menos ainda, que tal cisma tivesse amplas consequências sociais, culturais e geopolíticas. O cisma que está a abrir-se no Ocidente tem uma componente religiosa, como veremos adiante, mas esta está longe de ser a mais importante e há cristãos, agnósticos e ateus dos dois lados (ainda que a sua distribuição pelos dois campos não seja simétrica).

A fractura que está a abrir-se teve como sinal mais evidente as alterações na política externa dos EUA determinadas pela Administração Trump 2.0, que, em determinados assuntos, deu tratamento preferencial à Rússia, sua adversária histórica, e se afastou dos seus aliados históricos, deixando os líderes europeus numa situação análoga à vivida pelo papa Estêvão II, há quase 13 séculos, quando descobriu que já não poderia contar com o poderio do Império Bizantino para manter o statu quo na Europa Ocidental e, em particular, para expulsar invasores da Península Itálica.

Mas as mudanças em curso em 2025 não se cingem à geopolítica: envolvem toda uma mundividência e podem ser vistas como a reacção de sectores mais conservadores das sociedades ocidentais ao que interpretam como sendo os excessos das franjas mais progressistas (ver capítulo “A civilização ocidental como flagelo planetário” em Civilização ocidental: A Sociedade Internacional para a Supressão da Selvajaria). As divergências e atritos entre a deriva progressista e a reacção conservadora começou por ter as suas manifestações mais visíveis nos EUA (ver capítulo “As guerras culturais na América do século XXI” em Platão, Nietzsche e Mick Jagger: Entre guerras culturais e crises civilizacionais; capítulo “O wokismo como motor da polarização da sociedade americanas” e “A reacção conservadora ao wokismo” em “Todos os brancos são racistas”: O wokismo na América; e os artigos Irmãos inimigos na América pt.1: Será que Democratas e Republicanos ainda são capazes de viver juntos na mesma casa? e Irmãos inimigos na América pt.2: Poderão os vícios de um sistema eleitoral criado há 250 anos fazer implodir os EUA?) e, com a ajuda das redes (ditas) sociais e da formidável capacidade dos EUA para ditarem a agenda mediática e serem um foco irradiador de tendências e comportamentos em todos os planos da sociedade, alastrou ao resto do Ocidente.

Todavia, a ascensão do populismo de extrema-direita na Europa não pode ser visto como mero eco da alt-right americana (entretanto absorvida e reconfigurada pelo “trumpismo” e pelo movimento MAGA), uma vez que, ainda antes da emergência, em 2007, do Tea Party como facção extremista do Partido Republicano, ele já estava a fazer o seu caminho em França (Front National), em Itália (Lega Nord, Movimento Sociale Italiano, Alleanza Nazionale, etc.), na Bélgica (Vlaams Blok/Bloco Flamengo), na Holanda (Lijst Pim Fortuyn, Partij voor de Vrijheid/Partido pela Liberdade), na Áustria (Freiheitliche Partei Österreichs/Partido da Liberdade da Áustria) e, mais timidamente, na Alemanha (sobre a evolução destas correntes na Áustria e Alemanha ver capítulo “O que (não) aprendemos com a História” em Os homens e as mulheres que tornaram possível o III Reich: Monstros ou gente banal?), mais impulsionado pelas questões da imigração e do receio da “islamização da Europa” do que pelos temas das “guerras culturais” americanas, ainda com limitada expressão no lado de cá do Atlântico.

Em 1974, quando se candidatou pela primeira vez à presidência francesa, como representante da “direita que ousa dizer o seu nome”, Jean-Marie Le Pen, co-fundador da Front Nacional, realçava a sua juventude. Em 2007, quando o Tea Party foi fundado, Le Pen, então com 78 anos, candidatava-se à presidência da República Francesa pela quinta vez

A partir de 2016, com a eleição de Donald Trump para o seu primeiro mandato como presidente dos EUA, a extrema-direita populista global recebeu um forte impulso:

1) O inesperado e retumbante sucesso de Trump galvanizou os seus congéneres pelo mundo fora e incentivou-os a assumir posições mais radicais e a ter um discurso mais provocatório.

2) As agendas e a retórica da extrema-direita nos vários países tornaram-se mais similares entre si, com os EUA a importarem a teoria conspirativa da Grande Substituição, de origem francesa, e a Europa a importar fixações anti-woke vindas das “guerras culturais” americanas (nomeadamente as que envolvem a comunidade LGBTQ+).

3) Emergiu um espírito de “Internacional Populista”, com os líderes dos diferentes países a reunirem-se com frequência e a exprimirem em público o apoio mútuo, e com Steve Bannon, visto como um dos principais ideólogos do “trumpismo” (ver capítulo “Os que saíram da Casa Branca mas continuaram com Trump” em Donald Trump pelas palavras dos seus colaboradores mais próximos), a instalar-se em Itália para fomentar a criação de um supergrupo no Parlamento Europeu que reunisse todas as forças de extrema-direita, o que passaria por criar uma academia vocacionada para formar políticos de extrema-direita, tendo Bannon como “reitor”.

[Cenário do século XIII para a extrema-direita do século XXI: Reportagem da Deutsche Welle sobre a academia dirigida por Steve Bannon que iria funcionar no mosteiro cisterciano de Trisulti, em Itália:]

A derrota de Trump nas eleições presidenciais de 2020 não desmoralizou a extrema-direita global e a sua vitória nas eleições 2024, contra circunstâncias que, à partida, pareciam ser-lhe adversas, fez o entusiasmo redobrar. Mas é provável que nem sequer os seus apoiantes mais entusiásticos tivessem sido capazes de prever a sucessão de medidas que Trump tem vindo a tomar desde que tomou posse pela segunda vez, a 20 de Janeiro de 2025.

Trump 1.0

É inesperado que o presente processo de fractura civilizacional seja liderado por uma figura a quem, durante a maior parte da vida adulta, não se conheceu pensamento político digno desse nome, muito menos uma reflexão minimamente aprofundada sobre a história das civilizações. Donald Trump esteve, sucessivamente, registado como eleitor do Partido Republicano, do Reform Party e do Partido Democrata, regressando, em 2009, ao Partido Republicano. Em 1987, anunciou que seria candidato presidencial nas eleições do ano seguinte e voltou a ventilar esta possibilidade em relação às eleições de 2000 e 2012. Embora não tenha concretizado nenhuma destas candidaturas, não deixou de blasonar, referindo-se às eleições de 1988, que “se tivesse concorrido teria ganho”. Na mente de um narcisista patológico como Trump, trate-se de política, golfe, negócios ou processos judiciais, só há um desfecho possível, se o “jogo” for “limpo”: a vitória. Na visão onfalocêntrica de Trump, as derrotas só ocorrem quando os adversários fazem trapaça ou os juízes são corruptos, e até é possível obter vitórias em competições em que nem sequer se participou.

Em 2016, Trump apresentou-se, finalmente, às eleições presidenciais e, apesar de ser um outsider sem experiência política e de não contar, à partida, com apoios de vulto no Partido Republicano, cilindrou os adversários – que estavam longe de ser brilhantes – e nas eleições primárias (ver Donald Trump pelas palavras dos seus correligionários) e, depois, ainda mais inesperadamente, derrotou a candidata Democrata, Hillary Clinton (que reclamava possuir sólida experiência governativa mas nunca conseguiu dissipar a aura de elitismo e dissimulação que a envolvia).

Donald Trump e Mike Pence, em Julho de 2016, na Convenção Nacional Republicana, que os formalizou como candidatos do Partido Republicano à Casa Branca

Em 2016, Trump já expressou algumas ideias desgarradas: combater a imigração ilegal; reduzir o colossal deficit do Estado americano; fazer regressar aos EUA as indústrias que tinham fugido para países com salários mais baixos; devolver a prosperidade, a grandeza e o respeito internacional aos EUA, que descrevia sistematicamente como um país arruinado e entregue a gangs criminosos estrangeiros. Trump nunca aprofundou estas ideias, nunca deu sinal de ter meditado sobre elas ou de compreender o funcionamento da economia, da sociedade e da política, nos EUA e no mundo e, ano após ano, tem-se limitado a repetir slogans vazios, a divagar sobre as suas obsessões e a ameaçar com punições exemplares aqueles que toma como inimigos e que são, para começar, todos os que não lhe prestam culto (nisto, Trump não está longe do Deus do Antigo Testamento).

Esta amálgama de ideias fixas e verborreia ziguezagueante está longe de poder ser classificada como uma ideologia, mas foi suficiente para convencer o eleitor americano médio (ver Donald Trump pelas suas próprias palavras). Deve sublinhar-se que Trump, embora não tenha uma ideologia estruturada, possui um talento invulgar, aprimorado em muitos anos como estrela da trash TV, para dizer aquilo que as massas querem ouvir e explorar os seus medos, ilusões e anseios – e as massas, a partir do momento em que adoptaram a Internet, e em particular as redes (ditas) sociais, como fonte principal (ou até exclusiva) de informação sobre o mundo, tornaram-se mais susceptíveis ao ludíbrio mais rudimentar (ver Donald Trump: A verdade de quem diz 21 mentiras por dia e Donald Trump: A arte do ludíbrio na era digital).

Graças ao apreço incondicional – que, amiúde, atinge a idolatria – que granjeou junto das bases conservadoras, Trump conseguiu forçar as elites do Partido Republicano à submissão. Porém, no primeiro mandato, descobriria, com surpresa e irritação, que muitas das figuras com experiência governativa e impecáveis credenciais conservadoras que recrutara para o seu gabinete eram respeitadoras dos “formalismos” democráticos e do “due process” e ciosas da sua integridade, pelo que não se mostraram dispostas a anuir a todos os caprichos, infantilidades e desvarios do novo líder do Partido Republicano. A primeira administração Trump foi, portanto, marcada por constantes remodelações, obstrução interna, fugas de informação e comentários mordazes vindos dos membros do gabinete com quem se incompatibilizou (ver Donald Trump pelas palavras dos seus colaboradores mais próximos), o que, somado à pandemia de covid-19 e à oposição do Partido Democrático no Congresso, fez com que Trump não fosse capaz de concretizar boa parte dos seus intentos. Claro que isto só explica uma parte do semifracasso – a outra deve-se à sua personalidade errática e frívola e à sua incapacidade para compreender as funções presidenciais – ou, compreendo-as, para aceitar encaixar-se nelas.

Trump toma posse como 45.º presidente dos EUA, Washington DC, 20.01.2017

Trump 2.0

Quando Trump venceu as eleições presidenciais de 2024, os comentadores e politólogos foram quase unânimes em chamar a atenção para uma mudança fundamental: Trump dispunha agora de uma equipa sintonizada com ele. Esta constatação foi quase sempre anunciada em tom positivo, como se dela fosse resultar um Governo com maior discernimento, disciplina e eficácia, capaz de dar cumprimento às promessas eleitorais e projectar os EUA para um novo patamar de poderio e prosperidade.

É certo que Trump aprendeu a lição do primeiro mandato e, para o segundo, teve o cuidado de rodear-se exclusivamente de gente sem coluna vertebral, recrutada nos círculos do entretenimento televisivo, das artes marciais, do wrestling e dos negócios. Entre os muitos milionários em posições-chave na Administração Trump 2.0, nem todos estarão persuadidos da genialidade de Trump – aceitaram o cargo com o fito de obter vantagens para as suas empresas e para as empresas dos seus amigos, pelo que estão dispostos a apoiar Trump nas suas medidas mais insensatas e até a engolir alguns sapos. Recrutar um gabinete tendo por critério primordial a fidelidade incondicional tem uma séria desvantagem: leva a que se fique rodeado de incompetentes, medíocres, oportunistas e videirinhos.

Em 2025, Trump, como indivíduo, continua a não ter uma ideologia estruturada, já que a natureza desordenada, volátil e narcísica da sua personalidade não o permite (ver Donald Trump: Anatomia de um narcisista); em vez disso rege-se por uma amálgama de “interesses, conveniências, opiniões (pouco informadas), obsessões, embirrações, rancores e ódios” (ver capítulo “Onde se situa Trump no espectro político?” em Donald Trump: A arte do ludíbrio na era digital). Porém, tal não significa que o “trumpismo” e o seu braço executivo, a Administração Trump 2.0, não tenham uma orientação ideológica. Ao longo do primeiro mandato, Trump não só foi incorporando no seu discurso os receios, anseios, percepções e convicções dos seus apoiantes, como reconfigurou o Partido Republicano à sua imagem, deslocando-o para a extrema-direita, afastando os moderados e favorecendo as vozes estridentes e as posturas intransigentes, de forma que o partido e o movimento MAGA começaram a confundir-se.

Trump toma posse como 47.º presidente dos EUA, Washington DC, 20.01.2025

Um plano para reconfigurar os EUA (e a civilização ocidental)

A versão presente do “trumpismo” ganhou uma nova dimensão ao incorporar elementos e orientações do Project 2025, uma agenda hiperdetalhada, encomendada pelo think tank “conservador” Heritage Foundation, com o apoio de uma centena de organizações com o mesmo pendor ideológico. O Project 2025 é apresentado como um “projecto de transição presidencial”, que fornece orientações políticas e sugestões de nomes de confiança para preenchimento de postos de responsabilidade, não só no gabinete presidencial como em toda a administração federal, e tem como base a nona e mais recente versão do Mandate for Leadership, subintitulada The Conservative promise, um documento de 922 páginas que contou com o contributo de 400 peritos e consultores e foi publicado em Abril de 2023; o comediante Keenan Thompson apresentou o cartapácio, na Convenção Nacional Democrata de 2024, como sendo capaz de “matar um pequeno animal e a democracia ao mesmo tempo”.

Quando, em Julho de 2024, os mass media apontaram os numerosos vínculos entre o Project 2025 e o programa de Donald Trump, este, intuindo que as propostas mais radicais do Project 2025 poderiam afugentar eleitores moderados, apressou-se a demarcar-se dele: “Não sei nada sobre o Projecto 2025. Não faço ideia de quem está por trás dele. Discordo de algumas das coisas que dizem e outras coisas são absolutamente ridículas e pavorosas. Seja o que for que façam, desejo-lhes boa sorte, mas não tenho nada a ver com eles” (post na rede Truth Social, 05.07.2024).

Os mentirosos compulsivos raramente são mentirosos competentes e Trump não só não é excepção a esta regra como é um dos mentirosos mais ineptos de sempre (ver Donald Trump: A verdade de quem diz 21 mentiras por dia). A tentativa de Trump de se distanciar do Project 2025 não só está eivada de sonsice (não revela as “coisas” de que discorda e as que entende ser “absolutamente ridículas e pavorosas”), como o seu alheamento é cabalmente desmentido pelos factos:

1) Cerca de 140 (200, segundo outras fontes) dos redactores do Project 2025 tinham sido altos funcionários da primeira Administração Trump e seis deles tinham sido chefes de gabinete.

2) Paul Dans, director do Project 2025, estava entre estes últimos, tendo dirigido o Gabinete de Gestão de Pessoal, responsável pela gestão de recursos humanos da administração federal (cerca de dois milhões de trabalhadores). Dans foi demitido do Project 2025 em Julho de 2024, em circunstâncias não muito claras (há quem sugira que na sequência de uma investigação interna da Heritage Foundation sobre alegados casos de assédio e abuso de poder), mas, em meados de Março passado, numa entrevista ao jornal digital Politico – a primeira que concedeu desde a demissão da Heritage Foundation – Dans não conseguiu esconder o seu regozijo por a Administração Trump 2.0 estar a pôr em prática muito do que consta do Project 2025: “Na verdade, está a superar os meus sonhos mais delirantes. Não vai ser um caminho fácil. O Deep State vai recuperar o fôlego. Mas a forma como têm avançado e como perturbaram a ortodoxia e cativaram a imaginação das massas, sugere que vamos ter uns quatro anos magníficos”.

Paul Dans, a figura liderou o Project 2025

3) A equipa do Project 2025 manteve contactos regulares com a equipa da campanha de Trump e o próprio Dans declarou ter uma excelente relação com Trump.

4) Muitas das propostas do Project 2025 estão em linha ou coincidem com as da Agenda 47, o programa eleitoral de Trump (embora o Project 2025 fosse mais radical em alguns domínios).

5) O então candidato a vice-presidente, J.D. Vance, escreveu o prefácio de Dawn’s early light: Taking back Washington to save America (lançado em Setembro de 2024), um livro de Kevin Roberts, presidente da Heritage Foundation e mentor do Project 2025, e que faz diagnósticos e delineia planos de acção perfeitamente alinhados com o Project 2025; no prefácio, Vance não só tece rasgados elogios ao livro, como declara explicitamente a adesão integral ao ideário nele exposto.

6) O próprio Kevin Roberts declarou, em Janeiro de 2024, que o papel da Heritage Foundation era “institucionalizar o trumpismo”.

Kevin Roberts, presidente da Heritage Foundation, discursa numa conferência CPAC, na Hungria, em 2023

A estonteante sucessão de decretos presidenciais (“executive orders”), muitas de pendor marcadamente ideológico, que marcou as primeiras semanas da Administração Trump 2.0 confirmou plenamente a sobreposição entre o “trumpismo” e o Project 2025, como sublinharam várias publicações americanas, nomeadamente o jornal digital Politico.

Que não reste qualquer dúvida: o Project 2025 não é um mero instrumento burocrático destinado a facilitar a transição entre a Administração Biden e a Administração Trump 2.0 – é um plano minucioso de assalto ao poder e por trás da sua nebulosa de medidas está o grande desígnio ideológico de suster a (suposta) decadência dos EUA, o que requer acções em quatro frentes principais: “1) Recolocar a família no centro da vida americana e proteger as nossas crianças; 2) Desmantelar a administração estatal e devolver a autogovernação ao povo americano; 3) Defender a soberania, as fronteiras e as riquezas da nossa nação contra ameaças globais; 4) Assegurar os direitos individuais a uma vida livre que nos foram outorgados por Deus – aquilo a que a nossa Constituição designa como ‘as Bênçãos da Liberdade’” (in Mandate for leadership: The Conservative promise).

A Heritage Foundation e o Project 2025 são usualmente referidos como sendo “conservadores” ou até “ultraconservadores”. Porém, a bem do rigor, deveria usar-se antes uma palavra que esteve em grande voga em Portugal nos anos do PREC e, entretanto, caiu em desuso: “reaccionário”. O que a Heritage Foundation, o Project 2025 e o movimento MAGA pretendem não é preservar valores tradicionais, é reagir ao que interpretam como “ameaças civilizacionais” através de um movimento enérgico de retrocesso para um passado idílico que nunca existiu.

O mestre do xadrez 4D vs. O macaco do caos

Ao longo da década que Trump já leva na ribalta política, um dos espectáculos mais desconcertantes no espaço mediático é proporcionado pelos comentadores e politólogos inteligentes e sofisticados que se afadigam em interpretar todas as palavras e actos de Trump e da sua Administração como se ele fosse um estadista e um estratega consumado. Estes comentadores e politólogos, traídos pela sua própria inteligência e sofisticação, caem no equívoco de “sobreinterpretar” Trump, atribuindo-lhe subtilezas de raciocínio, dotes de intelecto e traços de carácter que ele não possui. Tome-se, por exemplo, Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia e uma autoridade em comércio internacional, que, reagindo à política tarifária da Casa Branca, afirmou, na plataforma online Substack, a 2 de Abril, que Trump “tinha enlouquecido de vez” (“has gone full-on crazy”). Deveremos depreender destas palavras que, antes de ter iniciado a guerra das tarifas, a actuação de Trump se tinha pautado pela sensatez e pela ponderação? Por outro lado, do lado do sector MAGA, há quem zombe dos que reprovam as decisões de Trump, sugerindo que o presidente “está a jogar xadrez 4D” e que não está ao alcance de meros mortais compreender os seus sofisticados lances.

Ilustração no Libro de los juegos (também conhecido como Libro del ajedrez, dados y tablas), compilado por ordem de Alfonso X de Castela, c.1283

Poupar-se-iam muitas horas de elucubrações infrutíferas em torno de Trump e do “trumpismo” se se tomasse como ponto de partida que:

● O “trumpismo” é uma para-ideologia que oscila violenta e imprevisivelmente ao sabor da configuração momentânea dos “interesses, conveniências, opiniões, obsessões, embirrações, rancores e ódios” da criatura Donald J. Trump (ver capítulo “Onde se situa Trump no espectro político?” em Donald Trump: A arte do ludíbrio na era digital).

● Trump não pensa nem age como um estadista nem como um estratega – será mais acertado vê-lo como um híbrido de empresário agressivo e sem escrúpulos e de capo mafioso, movendo-se permanentemente na fronteira entre a barganha e a intimidação. Noutras ocasiões, Trump comporta-se como um bully adolescente, cuja prepotência, crueldade e fanfarronice disfarçam mal uma necessidade desesperada de aprovação e respeito. Noutras ocasiões ainda – e num patamar ainda mais baixo de sofisticação – Trump age como um “silverback”, o gorila-patriarca empenhado em fornicar com todas as fêmeas e obter sinais conspícuos de submissão de todos os machos beta (ver Donald Trump: Anatomia de um narcisista).

● Trump é completamente néscio em todos os assuntos, sejam eles política aduaneira, epidemiologia, geopolítica, energia eólica ou teologia.

● A sua fama de negociador magistral é desmentida pela sua vacilante carreira empresarial e a sua aclamada obra The art of the deal não passa de um monturo de lugares comuns, piadas falhadas e chibanças, indistinguível dos milhares de livros que prometem ser a chave para o sucesso na vida e nos negócios e que atravancam as secções de “Gestão” e “Desenvolvimento Pessoal” das livrarias.

● O “pensamento” de Trump é o produto da fermentação dos seus caprichos infantis, das suas obsessões senis e das opiniões que ouviu do último membro da sua corte com quem falou ou do último comentador trumpólatra que ouviu na Fox News.

Abe McNatt

Donald Trump assinando decretos presidenciais na Sala Oval da Casa Branca 10.02.2025

No primeiro mandato de Trump, a sua equipa contou (pelo menos durante algum tempo) com vários “adultos” em funções-chave, que conseguiam dissuadi-lo dos seus intentos mais estapafúrdios ou arranjavam maneira de os inactivar ou esvaziar; porém, não resta nenhum “adulto” na presente Administração, constituída quase exclusivamente por cortesãos bajuladores, tolos presunçosos e oportunistas. Hoje, o controlo que o presidente-imperador Trump I tem sobre o Partido Republicano é tão completo que não há dúvida de que ele tem sempre a última palavra em todas as decisões emanadas da Casa Branca; ainda assim, seria um erro crasso ver a Administração Trump 2.0 como pura emanação dos caprichos de Donald J. Trump. Elas devem, antes, ser vistas como a resultante da colisão entre:

1) As ideias voláteis, pueris e incongruentes que borbulham na indisciplinada mente do presidente-imperador;

2) Os interesses da Trump Organization e das suas 250 subsidiárias, bem como de outros investimentos e empreendimentos comerciais de Donald J. Trump e da sua família, quer no mundo real quer no mundo virtual;

3) Os interesses dos parceiros de negócios de Trump e dos empresários e grupos de interesse a quem Trump deve favores;

4) O programa do Project 2025 para a tomada de poder pelo conservadorismo radical (ou reaccionarismo);

5) Os interesses dos empresários milionários que Trump nomeou para posições-chave no seu gabinete;

6) Os interesses dos meta-barões e outros hipermilionários que, desde o final de 2024, concluíram ser benéfico orbitar em torno de Trump;

7) A mundividência sectária e conspiracionista da franja radical do movimento MAGA;

8) A necessidade de não alienar o núcleo do eleitorado MAGA.

Nalguns momentos, estas oito forças agem todas no mesmo sentido; noutros momentos, anulam-se mutuamente; durante a maior parte do tempo, a sua resultante são trajectórias inesperadas. Apesar do muito fumo, atrito e ineficácia gerados por este sistema heteróclito, é evidente que este está a fazer os EUA deslocarem-se para a extrema-direita.

Donald Trump em 1985, com uma maqueta da Television City, um projecto imobiliário com 8000 apartamentos proposto para o West Side Yard, em Nova Iorque (e do qual Trump desistiu quando o mayor de Nova Iorque lhe recusou os benefícios fiscais pretendidos)

Em 2011, os técnicos informáticos da Netflix, pretendendo submeter a infraestrutura da empresa a um teste de esforço, criaram uma ferramenta informática que baptizaram como Chaos Monkey (“macaco do caos”) e que gera disrupção de forma aleatória, como se um símio desvairado entrasse num centro de dados e começasse a premir botões ao acaso, a arrancar cabos, a desligar servidores – a ideia desta simulação é recolher ensinamentos que permitam tornar a estrutura informática resistente a um ataque ou a uma falha potencialmente catastrófica. Os decretos presidenciais emanados do Governo dos EUA nos últimos meses não são peças de uma estratégia congeminada por “um génio muito estável” – são o resultado de haver um “macaco do caos” à solta na Sala Oval da Casa Branca, rasgando cortinas, derrubando o busto de Lincoln, defecando na “Resolute desk” e atirando excrementos à reprodução emoldurada da Declaração de Independência.

O presidente Ronald Reagan na “Resolute desk”, na Sala Oval da Casa Branca, 1988

A crise civilizacional que Huntington não previu

Quando, em meados da década de 1990, Samuel P. Huntington expendeu a sua  teoria do “choque de civilizações” (ver capítulo “O fim da história, o choque de civilizações e outros equívocos” em Civilização ocidental: Josephine Quinn desafia a visão tradicional da história?), apontou a China e o Islão como as ameaças com que o Ocidente deveria preocupar-se – compreende-se que tenha excluído a Rússia, já que, à data, esta caíra do patamar de superpotência para o de Estado falhado, sob a presidência de Boris Yeltsin, que converteu o desmantelamento das anquilosadas estruturas do Estado soviético numa orgia de corrupção, incompetência e dissipação. Huntington foi incapaz de prever que passadas três décadas, a maior ameaça à civilização ocidental vem do seu interior e, em particular, dos que dizem querer salvá-la.

Ao longo do século XXI, registou-se nos EUA e na Europa uma crescente polarização do debate político, que pode ser assim resumida, em termos muito simplistas: a atitude cada vez mais petulante e interventiva da esquerda woke, fazendo reivindicações extravagantes no domínio das causas identitárias e tentando controlar apertadamente o discurso no espaço público, foi interpretada pelos conservadores radicais como fazendo parte de um plano para corromper e desvirtuar os valores em que o Ocidente se alicerça.

Paralelamente a esta ofensiva dos “radicais de esquerda” no plano ideológico – as chamadas “guerras culturais” – os conservadores radicais identificaram duas outras ameaças contra a civilização ocidental. Uma é a invasão do Ocidente por massas de imigrantes, vindos de África, da Ásia e da América Latina, que, não só “roubam” os empregos aos cidadãos do país e sobrecarregam os serviços de saúde e a assistência social, como ameaçam diluir e corromper a identidade nacional, ou até mesmo suplantar demograficamente os “nativos”, por via da sua maior taxa de fertilidade, um temor acicatado pela teoria conspirativa da Grande Substituição, ou Grand Remplacement, popularizada pelo escritor Renaud Camus, que sustenta que são as elites ocidentais – dominadas por radicais de esquerda – que estão a promover activamente essa substituição. A outra grande ameaça ao Ocidente é o esgarçamento do tecido económico das antigas potências industriais sob o efeito da globalização, que fez as fábricas e os empregos fugirem para a China e para os países em desenvolvimento e empurrou os trabalhadores “de colarinho azul” ocidentais para o desemprego ou para o subemprego.

Renaud Camus, o escritor que popularizou a Teoria da Grande Substituição no livro homónimo de 2011, Le Grand Remplacement

O cenário de um Ocidente à beira do colapso é pouco realista, ainda que alguns receios e queixas dos cidadãos, confundidos e intimidados pela rapidez das mudanças, tenham fundamento e seja indesmentível que a relevância da Europa no palco global está a recuar. Por outro lado, mesmo que o “declínio civilizacional” fosse real, não seria muito plausível ver nele o resultado das maquinações da extrema-esquerda, já que esta, embora possa ter grande peso em certos meios académicos e artísticos, tem visto a sua representação nos Governos e parlamentos da maioria dos países ocidentais minguar desde que o “farol” da URSS se apagou, enquanto noutros países nunca chegou a ser relevante. Mas como as percepções e as narrativas se sobrepõem à realidade, a tríplice ameaça do wokismo, da imigração e da globalização e a concomitante sensação de que a civilização ocidental está em perigo têm, nas últimas duas décadas, impelido grandes massas de eleitorado a votar em forças de extrema-direita. A ideia de que o Ocidente precisa de ser salvo dos “radicais de esquerda” através de um não menos radical movimento de regresso aos valores fundamentais – família, pátria, Deus, autoridade – explica que Viktor Orbán, Robert Fico e Giorgia Meloni ocupem hoje o cargo de presidente ou primeiro-ministro; que Matteo Salvini seja vice-primeiro-ministro; que Marine Le Pen (ou o seu delfim, Jordan Bardella), Geert Wilders, Santiago Abascal e André Ventura contem com substancial representação nos respectivos parlamentos; e que algumas sondagens recentes indiquem que a Alternative für Deutschland e o Reform UK poderão ser os partidos mais votados nas próximas eleições na Alemanha e no Reino Unido, respectivamente.

Entre os líderes europeus de extrema-direita, Viktor Orbán é o mais bem sucedido: não só está no poder ininterruptamente desde 2010, como tem vindo a consolidar paulatinamente o seu poder, através de sucessivas revisões da Constituição, da intromissão no poder judicial e da sua conversão num instrumento do poder executivo e do controlo da comunicação social pública (reconvertida em máquina de propaganda do Governo) e no silenciamento de qualquer voz dissidente nos media privados. Todavia, a Hungria tem papel modesto no concerto das nações e, para mais, está parcialmente peada pela pertença à União Europeia, de cujos fundos o Governo de Orbán depende para modernizar o país e providenciar alguma prosperidade ao seu povo.

Pawel Kula

Jarosław Kaczyński, líder o partido PiS e o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán (à direita)

Nem Orbán nem qualquer outro líder europeu de extrema-direita têm um poder para influenciar a marcha da história que se compare ao de Donald Trump. Os EUA são a potência n.º 1 em termos de economia, tecnologia e poderio bélico e Trump é o líder incontestado (e idolatrado) do Partido Republicano e conta com maiorias Republicanas na Câmara dos Representantes, no Senado e no Supremo Tribunal de Justiça. Nos poucos meses que leva como 47.º presidente dos EUA, a torrente de decretos presidenciais que promulgou e as declarações que tem produzido (e que têm sido secundadas pela sua entourage) sugerem que a intenção de Trump e do movimento MAGA é a reconfiguração dos EUA e a abertura de um cisma na civilização ocidental.

Se a vitória de Trump nas eleições de 2016 já dera ânimo à extrema-direita nos outros países ocidentais e levara esta a assimilar algumas das causas e da retórica do “trumpismo”, o turbilhão de medidas e anúncios emanados da Casa Branca nos primeiros meses de 2025 têm tido um efeito galvanizador na alt-right europeia. Há comentadores de esquerda que se têm referido à extrema-direita europeia como a “quinta coluna de Trump e de Putin” (Daniel Oliveira, Expresso, 20.02.2025), mas a escolha de palavras não reflecte a realidade do fenómeno em curso. O termo “quinta coluna” refere-se a pequenos grupos de infiltrados que, mediante espionagem, sabotagem, atentados terroristas, propaganda subversiva e desinformação, tentam prejudicar e enfraquecer o país em que vivem em favor do país estrangeiro em cujo nome actuam. Ora, não há nada de clandestino, encoberto ou subterrâneo nos congéneres europeus da alt-right americana: estão formalmente constituídos como partidos políticos, agem dentro do quadro legal, não contestam o sistema parlamentar, aceitam (para já) as regras democráticas, actuam às claras, conquistaram nutrida representação parlamentar e integram o Governo ou preparam-se para o fazer em breve. Ao contrário da extrema-direita europeia da primeira metade do século XX, que possuía milícias armadas, cultivava o terrorismo e os confrontos nas ruas, eliminava fisicamente os líderes dos partidos adversários e, em muitos casos, chegou ao poder através de golpes de Estado ou do uso da violência e da intimidação para enviesar os resultados eleitorais em seu favor, a extrema-direita europeia do século XXI está a chegar ao poder em eleições justas e livres, que reflectem genuinamente a vontade popular.

Próximo artigo da série: Civilização Ocidental: Como salvá-la dos seus salvadores?