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[Este é o oitavo de treze artigos a propósito de O mundo criou o Ocidente, de Josephine Quinn. Os artigos anteriores podem ser lidos aqui:]

Terramoto geopolítico

Foi a súbita inflexão na política externa dos EUA que fez os líderes mundiais e a opinião pública despertarem, estremunhados, para a realidade do Grande Cisma do Ocidente. O momento que anunciou com estrépito a “nova ordem mundial” teve lugar a 24 de Fevereiro de 2025, dia em que se assinalava o 3.º ano da invasão russa da Ucrânia; na Assembleia Geral da ONU, os EUA votaram ao lado da Rússia, da Bielo-Rússia, da Coreia do Norte, da Hungria e da Nicarágua (e também do Haiti e de alguns países africanos), contra a resolução ES-11-7, que tinha sido proposta pela União Europeia e condenava a actuação da Rússia e reafirmava a integridade territorial da Ucrânia.

A nova ordem mundial: Votação da Resolução ES-11-7, na Assembleia Geral da ONU, 24.02.2025: verde, a favor; castanho, contra; amarelo, abstenção; azul, ausente da votação

Este posicionamento dos EUA, rompendo com o que tinha sido a sua política externa desde 1945, já tinha tido alguns prenúncios, nomeadamente quando:

1) Os EUA encetaram negociações com a Rússia sobre a guerra na Ucrânia, sem que esta, a União Europeia ou qualquer país europeu fossem convidados a participar, e anunciaram, antes mesmo de as negociações se iniciarem, cedências às principais pretensões russas;

2) Trump rotulou Zelensky como “ditador” e culpou a Ucrânia pela invasão russa.

As delegações da Ucrânia (presidida por Volodymyr Zelensky) e dos EUA (presidida por J.D. Vance) encontram-se durante a Conferência de Segurança de Munique, 14.02.2025

Já as ameaças de anexação da Gronelândia e de recuperação do controlo do Canal do Panamá e a pressão para que o Canadá se torne no 51.º estado dos EUA sugerem um regresso a 1898, ano em que os EUA “libertaram” Cuba, Porto Rico e as Filipinas do jugo de Espanha (ver capítulo “Cuba 1898” e “Filipinas, 1899” em A história dos EUA enquanto polícia do mundo) e anexaram formalmente o Hawaii, que já estava, de facto, sob controlo dos EUA desde 1893 (ver capítulo “Hawaii, 1893” no mesmo artigo). Este acesso de imperialismo foi acerbamente exprobrado – até mesmo nos EUA – por ser protagonizado por um país nascido da revolta contra o domínio imperial britânico e inspirou um dos mais acutilantes cartoons de Louis Dalrymple, em que, “após muitos anos”, Britannia (a Grã-Bretanha), inchada de orgulho, dá as boas-vindas a Columbia (os EUA), como se fosse a reunião de uma mãe com uma filha desavinda que, após muitos anos, acabara por reconhecer a justeza do comportamento da mãe e imitara-o.

Britannia e Columbia reconciliadas, cartoon de Louis Dalrymple na revista satírica americana Puck de 15 de Junho de 1898

Pode também ver-se nas ambições de Trump um regresso a 1823, quando o presidente James Monroe proclamou a doutrina, que ficou associada ao seu nome, que estabelecia que todo o continente americano era uma “coutada” exclusiva dos EUA (ver capítulo “EUA, 1823” em A história dos EUA enquanto polícia do mundo; sobre o vínculo entre os EUA e o Canal do Panamá, ver “Panamá, 1903”, no mesmo artigo).

Estas três propostas/ameaças visando a Gronelândia, o Canadá e o Panamá, tal como a ideia lançada por Trump de os EUA “tomarem conta” da Faixa de Gaza e a converterem num resort de luxo (uma “Riviera do Médio Oriente”) e a pressão sobre a Ucrânia para que os EUA tenham acesso privilegiado aos recursos minerais do país, podem ter uma componente de provocação e de histrionismo e poderão nunca concretizar-se, mas não deixam de fornecer informações sobre o carácter de Trump e sobre o seu entendimento grosseiro, oportunista e transaccional das relações internacionais.

A “ordem liberal internacional”, ou “ordem internacional baseada em regras”, que tem vigorado, com vários percalços, desde 1945, foi, essencialmente, uma criação do Ocidente e, em particular, dos EUA, mas Trump parece disposto a revogá-la. Pior ainda, ao reivindicar a prerrogativa de agir no palco global da forma que entender ser conveniente aos interesses dos EUA (ou das empresas americanas), Trump sugere que o próprio conceito de direito internacional é, para ele, letra morta e que as relações entre nações voltam a ser regidas pela ancestral “lei do mais forte” – ideia consubstanciada no ataque lançado contra instalações nucleares iranianas a 21.06.2025. Há, porém, que reconhecer que os EUA têm um longo historial de interferência em assuntos que não lhes dizem respeito, estribado numa visão “excepcionalista” que lhes confere o papel de juiz e polícia das relações internacionais (ver A história dos EUA enquanto polícia do mundo).

Os EUA revelam a sua nova postura, belicista e expansionista, num cartoon de Louis Dalrymple na revista satírica americana Puck de 1 de Junho de 1898

O que há de novo na atitude da Administração Trump 2.0 é que a sua belicosidade e prepotência 1) não poupam aliados de longa data, 2) são movidas por uma animosidade aberta e 3) nem sequer tentam justificar-se através da invocação (ainda que capciosa ou hipócrita) do direito internacional. O Canadá, o país com que os EUA têm mantido (até agora) a relação mais estreita e cordial, foi rotulado pelo Secretário do Comércio, Howard Lutnick, como “um regime socialista” que, “basicamente, tem vindo a sugar a América durante décadas a fio”. O Secretário da Defesa, Peter Hegseth, decretou, em American Crusade (2020), que os chineses “são os vilões do nosso tempo” e que “a China comunista é o nosso maior inimigo geopolítico” e advertiu os EUA para estarem vigilantes quanto à crescente “influência chinesa nas universidades e nos media americanos”.

“American Crusade” (2020), de Peter Hegseth

Hegseth predisse que, se Trump perdesse a eleição de 2020, “a China comunista ascenderá e governará o mundo. A Europa render-se-á formalmente. Os islamistas obterão armas nucleares e tentarão limpar os EUA e Israel da face da Terra. A liberdade declinará e a tirania erguer-se-á”, mas, se Trump voltar a ser presidente, “a nossa economia de mercado florescerá e a China será incapaz de competir ou de fazer batota, como aconteceu com a URSS […] O socialismo será derrotado […] e a China comunista cairá e ficará a lamber as suas feridas durante mais duzentos anos. A Europa irá render-se [ao comunismo? ao islamismo?], mas subsistirão bolsas de resistência dos amantes da liberdade. Os islamistas nunca terão uma bomba nuclear e, se tentarem obtê-la, serão bombardeados de tal maneira que irão regredir até ao século VIII”. Não é difícil adivinhar que Hegseth terá estado entre os partidários do ataque americano ao Irão de 21.06.2025.

A ambição dos líderes americanos de submeter a China tem antecedentes históricos: neste cartoon publicado em 1898 na revista satírica americana Puck, a tesoura do “progresso” corta o rabicho das “tradições obsoletas”

Como seria de esperar, Hegseth partilha com Trump e as restantes elites MAGA a convicção de que Israel merece apoio incondicional: “Se não compreendem a relevância de Israel e porque tem papel central na história da civilização ocidental – de que a América é a mais grandiosa expressão – é porque vivem fora da história. A história da América está inextricavelmente ligada à história judaico-cristã e ao moderno Estado de Israel”. Os eventos recentes na geopolítica do Médio Oriente parecem corresponder à visão do Secretário da Defesa – resta saber se daí virá algum bem ao mundo.

A solteirona frígida e o macho-alfa fogoso

Se, segundo Hegseth, a Europa é uma entidade tíbia e inerme, na perspectiva de Trump, a Europa é um inimigo. Deixou-o claro quando, em Fevereiro de 2025, ao justificar a imposição de tarifas aduaneiras à União Europeia, o fez, não com base em dados de transacções comerciais e em regulamentos comerciais e aduaneiros, mas demonizando a União Europeia, entidade que, no seu entender, “foi criada para lixar os EUA. Sejamos honestos: A União Europeia foi criada para lixar os EUA. É esse o seu propósito. E têm feito um bom trabalho. Mas agora eu sou presidente”.

Como seria previsível, o Kremlin ficou exultante com a ruptura entre os EUA e o resto do bloco ocidental. No dia seguinte à primeira conversa telefónica entre Trump e Putin, a 12.02.2025, em que o Trump deixou indicações relevantes sobre a nova política externa americana, sobretudo no que respeita à Rússia e à Ucrânia, Dmitri Medvedev, ex-pseudo-presidente (2008-12), ex-primeiro ministro (2012-2020), actual vice-presidente do Conselho de Segurança da Federação Russa e o mais fiel e zeloso cão-de-fila de Putin, deu largas ao seu regozijo na rede social X: “A solteirona frígida Europa está consumida com ciúme e raiva. Não foi informada sobre a conversa telefónica entre Putin e Trump, nem consultada sobre o seu teor, nem sobre as declarações subsequentes. Isto mostra qual é o seu verdadeiro papel no mundo e quais as suas hipóteses de fisgar um bom marido. Não é surpreendente: o seu tempo já passou. É velha, feia e inútil” (13.02.2025).

Duas semanas depois (e já após o histórico desalinhamento dos EUA com o resto do Ocidente na votação na Assembleia Geral da ONU), era a vez de Sergey Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, declarar, em entrevista ao Krasnaya Zvezda (Estrela Vermelha), jornal oficial do Ministério da Defesa Russo, publicada a 02.03.2025: “Não quero ser anti-europeu. Mas a presente situação corrobora a ideia expressa por muitos historiadores. Durante os últimos 500 anos – quando o Ocidente tomou, aproximadamente, a forma que hoje lhe conhecemos, com algumas modificações, naturalmente – todas as tragédias do mundo tiveram origem na Europa ou decorreram de políticas europeias. As guerras de colonização, as Cruzadas, a Guerra da Crimeia, Napoleão, a I Guerra Mundial, Hitler. Se se olhar retrospectivamente para a história, os americanos não desempenharam qualquer papel sedicioso, muito menos ‘inflamatório’”. Só faltou a Lavrov dizer, como Rick Blaine (Humphrey Bogart) para o capitão Louis Renault (Claude Rains), no final de Casablanca, “Creio que isto é o princípio de uma bela amizade”.

Donald Trump recebe Sergey Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, na Sala Oval da Casa Branca, 10.05.2017

Entretanto, como seria expectável, já houve arrufos no idílio Rússia-EUA. Trump contava, na sua mente narcísica, que o seu proverbial talento negocial, a sua “relação especial” com Putin e a sua reputação de “tough guy”, aliados ao formidável poderio dos EUA, levariam Rússia e Ucrânia a assinar rapidamente um acordo de paz (de preferência um que não interfira com o acesso privilegiado dos EUA aos recursos minerais ucranianos), o que lhe valeria o Prémio Nobel da Paz. Porém, Trump já tem dado vários sinais de exaspero e até de desorientação perante as manobras dilatórias e as evasivas de Putin, que é um “jogador” muito mais astuto, frio e calculista do que o autor de The art of the deal. Por outro lado, a Rússia e a China, que sendo “aliadas” oportunistas do Irão, não viram com bons olhos o ataque americano às instalações nucleares iranianas.

O “soft power” é para “sissies”

Durante a maior parte da história da civilização, o poder das nações foi medido sobretudo pelo hard power, ou seja, os recursos bélicos que possuíam e a capacidade de os projectar, mas a nova ordem mundial nascida da conclusão da II Guerra Mundial deu maior relevância ao soft power. Ainda que o termo só tenha sido cunhado no final da década de 1980, pelo politólogo americano Joseph Nye, o soft power sempre foi uma das forças que modelou a história – basta pensar na Itália do Renascimento, que, embora nem sequer existisse como país e estivesse tão fragmentada do ponto de vista geopolítico que o seu poder militar era modesto (estando, por isso, sujeita a constantes ingerências das potências europeias), exerceu uma tremenda influência no resto da Europa através da sua formidável produção artística e cultural. De forma muito sintética e simplista, pode dizer-se que o hard power é o poder da coerção e o soft power o poder da sedução e da persuasão – em Soft power: The means to success in world politics (2004), Nye sublinhou que “a sedução é sempre mais eficaz que a coerção e há muitos valores, como a democracia, os direitos humanos e as oportunidades individuais que são extremamente sedutores”.

Apesar de terem emergido da II Guerra Mundial como potência n.º1 em termos de hard power (a URSS estrebuchou sempre por se guindar ao nível dos EUA e acabou, nesse esforço, por implodir ingloriamente em 1991), os EUA apostaram mais do que qualquer outra nação no soft power. Através dos filmes de Hollywood, das séries televisivas, dos comic books, dos produtos emblemáticos da sua indústria alimentar (com a Coca-Cola à cabeça), do desporto (sobretudo o baseball), da música pop, do jazz, das Selecções do Reader’s Digest, das universidades e de uma infinidade de outros produtos, artefactos e instituições culturais (no sentido mais amplo do termo); através de abstracções como a liberdade de expressão e a democracia (dois domínios em que os EUA tinham sido pioneiros) e o “American dream” e a “Terra da Oportunidade”; e através de programas internacionais de assistência financeira (a começar pelo Plano Marshall, em 1948) e humanitária (nomeadamente com a USAID, fundada em 1961), os EUA conseguiram, sem necessidade de recorrer a canhoneiras nem a porta-aviões, trazer povos e nações para a sua órbita – ou, pelo menos, impedir que fossem atraídos para a órbita da URSS. E mantiveram esta aposta no soft power independentemente de o presidente ser Democrata ou Republicano e de ser um “falcão” ou uma “pomba”.

Ajuda externa providenciada pelos EUA, em milhares de milhões de dólares (ajustados à inflação), 1946-2022

Esse tempo parece ter terminado com a Administração Trump 2.0. Donald J. Trump possui um entendimento rudimentar das relações (as internacionais e as humanas), preza muito menos a sedução do que o poder da força bruta e do dinheiro (sintetizou, celebremente, a sua estratégia de sedução feminina na cavalheiresca frase “grab them by the pussy”) e vê o mundo em termos estritamente materialistas e transaccionais, pelo que terá olhado para os 50.000-60.000 milhões de dólares enterrados anualmente pelos EUA em “shitholes” (a elegante designação que Trump dá aos países menos desenvolvidos), sem obter nada de palpável em troca, e terá pensado que se tratava de mais um exemplo da forma como os EUA são tratados injustamente e “comidos” pelo resto do mundo (é um dos seus refrões favoritos – e também um dos mais distantes da realidade). Talvez tenha também pensado, na sua perspectiva de macho-alfa, que soft power é coisa para sissies (o termo americano para rapazes ou homens débeis, tíbios, assustadiços, pouco viris – enfim, “mariquinhas”) e que a nação-alfa entre as nações-alfa que são os EUA deve conquistar o respeito universal pelo hard power.

Destino e volume da ajuda externa dos EUA em 2022 (“B” designa o “billion” anglo-saxónico, correspondente a “milhar de milhão” na terminologia da Europa continental

Trump está a tentar desmantelar por completo a USAID – o mais poderoso instrumento de soft power dos EUA, providenciando auxílio humanitário a cerca de 20 milhões de pessoas em todo o mundo – apesar de tal requerer aprovação do Congresso, que não foi obtida. O principal cúmplice de Trump no encerramento da USAID foi Elon Musk, que sobre ela lavrou um veredicto sumário: “É uma organização criminosa. É tempo de ela morrer” (rede social X, 02.02.2025). Deve sublinhar-se que, ainda que os EUA tenham sido, ao longo das últimas décadas, o maior doador de ajuda externa em termos absolutos, quando se consideram os contributos per capita, os EUA surgem em 10.º lugar de uma lista liderada pela Noruega, e quando se considera o contributo como percentagem do PIB, o dos EUA é de 0.22%, metade do 10.º país do ranking, a Irlanda (0.45%) e um quinto do primeiro país do ranking, a Noruega (1.07%).

Outra vítima da desistência de Trump do recurso ao soft power foi a Radio Free Europe, criada em 1949 como forma de contrariar a influência comunista na Europa de Leste e difundir os valores americanos. A suspensão do financiamento, decretada por Trump, à Radio Free Europe (e à Radio Free Asia) pode significar o fim de um agente histórico no combate à opressão e ao autoritarismo em todo o mundo.

Anúncio à Radio Free Europe e à Radio Free Asia, 1951

Deve também realçar-se que estas mudanças abruptas têm como enquadramento vários anos de estagnação do investimento dos EUA em soft power, coincidindo com um crescente empenhamento da China. Há 15 anos, a China nem sequer figurava no top 10 dos índices de soft power, mas em 2025 arrebatou o 2.º lugar ao Reino Unido no ranking Global Soft Power da Brand Finance, e é previsível que, devido aos cortes na ajuda internacional determinados por Trump, a China esteja muito perto de ultrapassar também os EUA. Tudo indica que na Administração Trump 2.0, que tem promovido a ideia de que os EUA estão envolvidos numa luta titânica com a China pela supremacia mundial, ninguém compreende que um factor crucial nessa disputa é a conquista da boa-vontade dos outros países. Já Pequim parece estar bem consciente disto.

Outro sinal do desprezo da Trump pelo “soft power” é a retirada unilateral dos EUA de vários tratados, acordos e organizações internacionais, alguns deles negociados arduamente pelos seus antecessores na Casa Branca. Já o tinha feito no seu primeiro mandato, com a Parceria Trans-Pacífica (que visava circunscrever a influência económica da China na Ásia-Pacífico), o acordo nuclear com o Irão (de cujo restabelecimento faz agora uma bandeira, apresentando-se como solucionador de um problema por ele mesmo criado), o Tratado de Limitação de Mísseis Nucleares de Médio Alcance, o Acordo do Clima de Paris, o Conselho de Direitos Humanos da ONU e a UNESCO. No segundo mandato, Trump reiterou as saídas do Acordo do Clima de Paris e do Conselho de Direitos Humanos da ONU (que tinham sido revertidas por Joe Biden), somou-lhes a saída da Organização Mundial de Saúde e ameaça abandonar a Organização Mundial de Comércio. Trump prometeu voltar a fazer dos EUA um país respeitado no mundo, mas é duvidoso que o abandono intempestivo de tratados, acordos e organizações internacionais fomente uma imagem de integridade, honorabilidade e confiança.

Comércio livre: o legado de Adam Smith

As erráticas medidas e declarações no domínio aduaneiro emanadas de Trump e da sua administração nos primeiros meses de governação não só estão a revelar-se contraproducentes, quer para os EUA, quer para o resto do mundo, como são contrárias aos princípios de comércio livre que permitiram a prosperidade da civilização ocidental, que estão na base do mundo moderno e que os EUA promoveram empenhadamente pelo menos desde 1945 (para um resumo do historial das oscilações dos EUA e restantes países entre o comércio livre e o proteccionismo, ver Cinco séculos de comércio livre e proteccionismo, parte 1: 1498-1580, Um Portugal vs. Holanda com quatro séculos e outros duelos: Comércio livre e proteccionismo, parte 2, Em inglês nos entendemos (ou não): Comércio livre e proteccionismo, parte 3 e O século XX mercantil, entre Washington e Lisboa: Comércio livre e proteccionismo, parte 4).

É relevante recordar que os EUA, tal como as grandes potências europeias, quando entenderam que o livre comércio convinha aos seus interesses, chegaram a recorrer ao seu superior poderio bélico para arrancar alguns países ao seu isolamento, forçando-os a assinar tratados comerciais e a abrir os seus portos a navios estrangeiros – um dos casos mais notórios foi o Tratado de Kanagawa, imposto ao Japão, em 1853-54, por uma (modesta) esquadra americana, comandada pelo comodoro Matthew C. Perry (ver capítulo “Japão, 1853” em A história dos EUA enquanto polícia do mundo e capítulo “Baía de Edo, 1853: Comércio livre à força” em Em inglês nos entendemos (ou não): Comércio livre e proteccionismo, parte 3).

A esquadra do comodoro Matthew C. Perry na Baía de Tóquio, em 1854, por Hibata Ōsuke, c.1854-58

Se o capitalismo e o livre comércio são dois pilares da civilização ocidental, o escocês Adam Smith (1723-1790) é, seguramente um dos pensadores a quem ela mais deve, nomeadamente através das teorias expendidas nos livros An inquiry into the nature and causes of the wealth of nations (1776, A riqueza das nações) e The theory of moral sentiments (1759, A teoria dos sentimentos morais). Smith tende a ser visto pela esquerda como arauto do capitalismo selvagem e da desregulação e a sua metáfora da “mão invisível” – que, numa formulação sintética, defende que o funcionamento livre do mercado produz sempre os melhores resultados para todos – costuma ser apontada (depreciativamente pela esquerda, entusiasticamente pelo ultraliberalismo) como expoente da crença de que o Estado deve abster-se de interferir na economia.

Acontece que Smith recorreu à metáfora da “mão invisível” não para censurar, em abstracto, a interferência do Estado na economia, mas os efeitos negativos do favorecimento das elites empresariais pelo Estado . Como sugere o economista Paul Sagar no artigo “The real Adam Smith” (publicado na revista Aeon, 2018), a “‘mão invisível’ foi originalmente invocada [por Adam Smith] não para chamar a atenção para a interferência do Estado, mas para a sua captura” pelos interesses de uma elite, em prejuízo do bem comum. Para Smith, a imposição de taxas aduaneiras serve para proteger os monopólios dos empresários nacionais, que podem continuar a vender os seus produtos de qualidade inferior e/ou preço superior aos cidadãos do país, sem receio da concorrência externa e sem necessidade de se esforçarem para melhorar a sua eficiência e a sua competitividade.

Adam Smith, num retrato póstumo por autor anónimo, c.1800

Mas, como sublinhou Adam Smith, as tarifas não se limitam a adulterar os fluxos comerciais e gerar ineficiências; também dão ensejo a que os governantes exerçam poderes discricionários, distribuindo isenções, incentivos e penalizações de forma a favorecer os seus apoiantes e financiadores e a prejudicar os seus adversários. É precisamente a isso que estamos hoje a assistir nos EUA, em que, após a imposição de tarifas “recíprocas”, definidas país a país (e calculadas por uma fórmula absurda, que nada tem a ver com reciprocidade tarifária) e depois suspensas, revogadas ou renegociadas, Trump decretou excepções para alguns grupos de produtos, como sejam smartphones, computadores e artigos electrónicos similares. Quem saberá dizer se estas excepções foram decididas em função do bem da nação ou dos interesses de empresários do sector tecnológico, ou até do interesse da família Trump, que, através do operador de telecomunicações móveis Trump Mobile (criado em Janeiro passado) também irá comercializar smartphones?

A Trump Mobile anuncia que o smartphone Gold T1 (à venda, por 499 dólares, a partir de Setembro) é fabricado nos EUA, mas os especialistas do sector são unânimes em rejeitar a ideia de que a indústria americana seja capaz de fabricar um smartphone de fio a pavio, e muito menos por um preço capaz de competir com aparelhos análogos fabricados na China

Por outro lado, as tarifas podem ser usadas como moeda de troca em negócios que favoreçam directamente os interesses dos governantes ou da sua entourage noutros sectores de actividade. Veja-se o caso do Vietnam, país em que 30% do PIB depende das exportações para os EUA e que a disparatada fórmula da Administração Trump “contemplou” com uma tarifa de 46%. Como seria de esperar, o Governo vietnamita, perante esta séria ameaça à sua economia, mostrou, de imediato, abertura para negociar com a Administração americana. Porém, nem todas as cedências feitas pelo Vietnam têm a ver com o comércio entre o Vietnam e os EUA: uma delas foi abrir uma excepção legislativa de forma a autorizar a operação no Vietnam, sem necessidade de um parceiro local, da rede de satélites Starlink, que é propriedade de Elon Musk; outra foi aprovar em tempo-relâmpago um projecto de 1500 milhões de dólares da Trump Organization que envolve a construção de um resort de luxo acoplado a um campo de golfe em Hung Yen.

Enquanto numa situação geral de tarifas reduzidas o comércio internacional se processa de acordo com as regras de mercado e os governantes não têm forma de dele tirar dividendos pessoais, uma guerra tarifária é uma oportunidade de ouro para os governantes manipularem o mercado em função dos seus interesses económicos, das suas perspectivas eleitorais e das inimizades e simpatias.

Alheio às mais elementares noções de integridade e de sentido de Estado e à possibilidade de haver modalidades de interacção humana para lá de infligir humilhação ou ser humilhado, Trump está deliciado com o ambiente de incerteza e receio criado pela sua errática política aduaneira – Karoline Leavitt, a secretária de imprensa da Casa Branca, anunciou, com empáfia, que “os líderes empresariais americanos estão a suplicar para se encontrarem com o presidente e a suplicar para serem recebidos na Casa Branca para falarem com ele, pois sabem que ele é o negociador-chefe e que está a fazer bons negócios em nome do operário americano” (03.06.2025).

A oposição à imposição de taxas aduaneiras elevadas, por estas fomentarem a ineficiência da produção nacional e abrirem oportunidades para corromper governantes tem sido recorrente na política americana, como atesta um cartoon de 1909 por cartoon por Udo J. Keppler, 1909, intitulado “Se queres ver-te livre de mosquitos, drena o pântano onde eles se criam”, em que se denunciam alguns dos males gerados pelas taxas aduaneiras: “senadores subsidiados”, “monopólios protegidos”, “sobreprotecção de indústrias incipientes”.

“Se queres ver-te livre de mosquitos, drena o pântano onde eles se criam”, cartoon por Udo J. Keppler, 1909

Comércio livre: o legado de David Ricardo

A seguir a Adam Smith, o pensador que mais contribuiu para moldar os conceitos de capitalismo e de comércio livre foi David Ricardo (1772-1823), o que explica que se tenha tornado num dos ódios de estimação de Peter Navarro, que foi director do Gabinete de Comércio e Política Industrial da Casa Branca durante o primeiro mandato de Trump e agora é conselheiro para o comércio e indústria da Administração Trump 2.0. Navarro tem sido um dos principais instigadores da política tarifária de Trump e, possivelmente, também da aversão do presidente à China, uma vez que é autor, entre uma vintena de livros, de seis obras sobre a China, com títulos elucidativos, como The coming China Wars: Where they will be fought, how they can be won (2006, As próximas guerras com a China: Onde serão travadas e como poderão ser ganhas) e Death by China: Confronting the dragon: A global call for action (2011, Morte pela China: Enfrentar o dragão: Um apelo global à acção). Navarro até pode ter razão quando acusa a China de inundar os EUA com uma “enxurrada de produtos contrafeitos”, mas tal não justifica a animosidade figadal que nutre em relação à China e que o leva a salpicar os seus livros com comentários sinófobos (supostamente) da autoria do economista Ron Vara – que não tem existência real e cujo nome é um anagrama de “Navarro”, o que sugere que se trata de um estratagema cobarde (e infantil) de Navarro para evitar ser acusado de racismo.

“Um deles tem de recuar”: De um lado, o Tio Sam, representando a “civilização”, o “comércio” e o “progresso”, do outro, “400 milhões de bárbaros”. Cartoon publicado na revista satírica americana Judge, 1900

Navarro, que é um dos mais ferozes adversários do comércio livre e da globalização (que considera serem responsáveis pelo declínio da economia americana), tem vindo, há anos, a propagar a tese de que “Ricardo está morto”. Por exemplo, numa palestra no Institute of Politics, na Universidade de Harvard, em Abril de 2019, Navarro argumentou que a tese de Ricardo, um ardente defensor dos benefícios do comércio livre, “deixou de ter qualquer relevância num mercado global dominado por espionagem industrial, vigarice descontrolada, furto de propriedade intelectual, transferência de tecnologia forçada, capitalismo de Estado e desequilíbrios cambiais”. Em 2016, Adam Davidson, num artigo na revista The New Yorker sobre Navarro, afirmava que “mesmo seguindo as indicações de Navarro, não conseguiu encontrar um único economista que concordasse com ele”; porém, Navarro está convencido que é o resto do mundo que está equivocado, pelo que, na palestra em Harvard, advertiu os alunos de que “parte da sabedoria convencional que irão aprender em Harvard está, na melhor das hipóteses, desactualizada e, na pior das hipóteses, é enganosa”, e encorajou os outros economistas enclausurados na “torre de marfim”, a “reimaginarem e refazerem os seus modelos de comércio, de forma a que se ajustem melhor ao mundo real do comércio internacional e às dificuldades vividas, não pelos que vivem em Cambridge, Manhattan, Bona ou Bruxelas, mas nas cidades fabris e da América e nos ranchos e quintas deste grande país”. Navarro rematou a intervenção com estas palavras: “Ricardo está mesmo morto. Com o presidente Trump, demos vivas ao comércio livre, justo e equilibrado”.

David Ricardo, retratado c.1821 por Thomas Phillips

Na sua primeira passagem pela Casa Branca, foi Navarro quem incentivou Trump a, em 2018, enveredar pela subida de tarifas aduaneiras e, quando questionado sobre a eventualidade de os parceiros comerciais tomarem medida simétrica, retorquiu: “Não acredito que qualquer país retalie”. A previsão de Navarro não se verificou – e o mesmo está a acontecer em 2025. Para mais, os economistas conceituados – algo que Navarro está longe de ser – têm sido unânimes na reprovação da presente guerra tarifária espoletada por Trump e Navarro e até os multimilionários que apoiam Trump têm vindo a mostrar-se críticos (o mais veemente tem sido Elon Musk, que, no seu usual registo acintoso e grosseiro, rotulou Navarro como “um verdadeiro imbecil” e “mais burro que um saco de tijolos”).

Comércio livre: a Era de Ouro da América

Uma prova adicional da incongruência e inconsequência da actuação de Trump no domínio do comércio internacional está no facto de, apesar de, desde 2016 (pelo menos), acusar repetidamente a China de “vigarice” e “manipulação” nas suas relações comerciais com os EUA, só no segundo mandato, a 2 de Abril de 2025, assinou uma ordem executiva (que entrou em vigor a 2 de Maio) extinguindo a chamada “de minimis exemption”, uma disposição que isentava de taxas alfandegárias encomendas com valor inferior a 800 dólares que entrem nos EUA e que, com o aumento da popularidade do comércio online, se transformou na porta de entrada para um avassalador volume de artigos low cost fabricados na China. Quando, em 2015, o Trade Facilitation and Trade Enforcement Act elevou o valor limite para a isenção de 200 para 800 dólares (um dos mais altos do mundo), o número de encomendas enviadas da China para os EUA ao abrigo da “de minimis exemption” foi de 134 milhões, mas em 2024 foi de 1360 milhões, boa parte delas correspondentes a mercadoria adquirida na Shein e na Temu por particulares (ver A China, da austeridade de Mao à cornucópia da Shein).

GettyImages-2208599699 Bloomberg via Getty Images

Centro de distribuição da Shein em Whitestown, Indiana, EUA

Quem se guie pela racionalidade, perguntar-se-á por que razão não agiu Trump logo que tomou posse em 2016, repondo o limite de 200 dólares ou acabando com a isenção. Todavia, Trump não é guiado pela racionalidade mas pelo seu carácter narcisista e caprichoso, e também por uma irresistível pulsão performativa que o faz querer ser o foco de eventos que suscitem o espanto e a admiração das massas. Por outro lado, também convém ter presente que, embora Trump se gabe incessantemente de ser um génio dos negócios, coleccionou neste domínio numerosos fiascos; a carreira em que realmente teve sucesso foi a de entertainer na trash TV e foram os truques de manipulação de massas que aperfeiçoou em The Apprentice que lhe abriram as portas da Casa Branca.

Comprovando este diagnóstico, Trump veio, entretanto, anunciar que as conversações para a redução de taxas aduaneiras entre os EUA e a China estão no bom caminho, o que, no seu entender, é uma excelente notícia, como se a guerra tarifária não tivesse sido desencadeada por ele – o bombeiro-pirómano congratula-se por ter extinguido o fogo que ateou. No meio destes avanços e recuos, Trump parece ter esquecido que garantira aos americanos que as suas taxas aduaneiras seriam uma cornucópia de benesses, permitindo eliminar o imposto sobre o rendimento, restringir a imigração ilegal e o tráfico de drogas, criar empregos na indústria, diminuir o deficit do Governo federal, baixar o preço dos alimentos, subsidiar as creches e promover a paz global (e, quiçá, combater o refluxo gastro-esofágico e a disfunção eréctil).

A extrema-direita e a extrema-esquerda têm em comum, entre outros pontos (como a propensão para o autoritarismo), um entendimento tacanho, anacrónico e equivocado do funcionamento da economia (e, em particular, do comércio internacional), que está acorrentado a mundividências que tiveram algum curso no século XIX. Não é por acaso que Trump tem invocado como inspiração para a sua política aduaneira o Republicano William McKinley, que, enquanto congressista, impulsionou o Tariff Act de 1890 (conhecido como McKinley Act), que aumentou a taxa média sobre produtos importados de 38% (um valor excepcionalmente alta, pelos padrões vigentes no mundo ocidental nos últimos 80 anos) para 50%.

Os Democratas conseguiram reverter parte destes aumentos nos anos seguintes, mas quando McKinley se tornou presidente dos EUA, em 1897, voltou à carga com a sua sanha proteccionista e conseguiu impor o Dingley Act (1897), que determinou a subida das taxas aduaneiras para um nível médio de 52%. Embora Trump não o mencione, é possível que também os desígnios expansionistas que revelou em relação ao Canadá e à Gronelândia se inspirem em McKinley, uma vez que foi durante o mandato presidencial deste que os EUA anexaram o Hawaii, se apoderaram das colónias espanholas de Cuba, Filipinas, Porto Rico e Guam e obtiveram o controlo de parte do arquipélago de Samoa (actualmente a Samoa Americana). Até o discurso de tomada de posse de Trump, a 20.01.2025 – “A Era de Ouro da América começa neste preciso momento. A partir deste dia, o nosso país florescerá e será novamente respeitado pelo mundo fora. Seremos a inveja de todas as outras nações e não permitiremos que continuem a aproveitar-se de nós” – ecoa as palavras de ordem da campanha para a reeleição de McKinley, em 1900: “Prosperidade em casa, prestígio no estrangeiro”.

Cartaz da campanha para a reeleição de William McKinley, em 1900. McKinley obteria um segundo mandato, mas foi assassinado poucos dias depois da tomada de posse

Invocar o exemplo da política aduaneira de McKinley é absurdo ainda por outra razão: a estrutura da receita tributária do Governo federal do século XXI nada tem a ver com a do final do século XIX. Entre a declaração de independência dos EUA e o início da I Guerra Mundial, a receita proveio quase exclusivamente das taxas aduaneiras; com a entrada dos EUA na guerra, os impostos sobre rendimentos (de indivíduos ou de empresas) ganhou súbito protagonismo; a receita de origem aduaneira voltou a ganhar peso durante a Grande Depressão, quando todos os países impuseram taxas aduaneiras altas; com a entrada dos EUA na II Guerra Mundial, o contributo do imposto sobre rendimentos aumentou vertiginosamente; desde o termo da II Guerra Mundial, o peso das taxas aduaneiras foi tornando-se cada vez menor, sendo o grosso das receitas provenientes dos impostos sobre rendimentos e das contribuições para a Segurança Social (“payroll tax”, repartida entre empregadores e empregados).

Evolução das receitas do Governo federal dos EUA consoante o tipo de imposto, expresso como percentagem do PIB, 1792-2016: amarelo, taxas aduaneiras; vermelho, impostos sobre rendimentos; cinzento, contribuições para a Segurança Social

A profunda incompreensão dos regimes de extrema-direita e extrema-esquerda sobre o funcionamento da economia explica que, embora uns e outros façam promessas de prosperidade inaudita, acabem por promover o declínio económico ou até a condenar sucessivas gerações dos seus cidadãos a vidas de privações e esqualidez (cf. Cuba, Venezuela, Coreia do Norte, a Albânia de Hoxha). Trump garantiu que as suas taxas aduaneiras, trariam de volta aos EUA milhões de empregos industriais, mas o que conseguiu até agora deixar os EUA e no resto do mundo num tal estado de incerteza e ansiedade que a confiança dos consumidores e dos empresários teve uma queda generalizada.

Ironicamente, na sua argumentação em prol do aumento das taxas aduaneiras, Trump sempre invocou à cabeça a defesa da indústria automóvel americana e dos operários americanos – ora estes parecem ser a principal vítima da política aduaneira de Trump, com várias marcas americanas (e também estrangeiras) a anunciar a suspensão ou a redução da actividade das unidades fabris situadas no território dos EUA. Dir-se-ia que Trump e os seus conselheiros económicos vivem na década de 1950, quando a indústria automóvel dos EUA estava no apogeu e a incorporação de componentes de origem estrangeira era negligenciável – ora, no mundo globalizado de 2025, as cadeias de fornecimento são um emaranhado que conecta dezenas de países e tentar criar uma indústria automóvel inteiramente independente do exterior requereria a reconfiguração de todo o tecido industrial do país, o que, por sua vez obrigaria a investimentos colossais ao longo de muitos anos – findos os quais se concluiria, provavelmente, que o automóvel fabricado integralmente na América veria o seu preço duplicar face à situação presente.

Chevrolet Bel Air Convertible de 1957, um símbolo da Era de Ouro da indústria automóvel dos EUA, que Trump crê que será capaz de fazer regressar mediante a aplicação de taxas aduaneiras

“Um acordo comercial verdadeiramente extraordinário”

O comércio internacional assenta na estabilidade das regras e na confiança mútua. Mesmo que, por hipótese, a “guerra das tarifas” acabe por reconduzir as taxas aduaneiras entre os EUA e o resto do mundo a valores similares aos que vigoravam antes de Trump ter decidido, abrupta, irracional e unilateralmente, abrir as hostilidades, a credibilidade dos EUA no palco internacional foi seriamente abalada. Mesmo que as nações “suplicantes” (ou que acorreram a “lamber o cu” dos EUA, na graciosa formulação do próprio Trump) firmem um novo acordo aduaneiro com os EUA, que garantias têm elas de que a Administração Trump irá respeitá-lo?

Trump justificou a intempestiva subida das taxas nas transacções com México e Canadá (os dois primeiros alvos da “guerra tarifária”) com o facto de a situação vigente ser extremamente desfavorável aos EUA. Porém, tal situação decorria do USMCA (US-Mexico-Canada Agreement), acordo que substituiu o NAFTA (North America Free Trade Agreement, de 1994) e que foi negociado por… Donald J. Trump e por este descrito como “o mais importante acordo comercial que os EUA alguma vez fizeram”, em contraste com o NAFTA, “o pior acordo comercial jamais feito”. Na apresentação do acordo, no jardim da Casa Branca, a 01.10.2018, Trump alongou-se em (auto)elogios ditirâmbicos: “um acordo espantoso para muitas pessoas”, “um acordo verdadeiramente extraordinário”, “o mais moderno, actualizado e equilibrado da história do nosso país”, “um grande, grande acordo para os nossos agricultores”, “uma nova alvorada para a indústria automóvel americana e para o operário americano”, um acordo que iria gerar “muitos mais empregos para os americanos – e empregos altamente qualificados”.

SHEALAH CRAIGHEAD

Assinatura do USMCA por Enrique Peña Nieto, presidente do México, Donald Trump e Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá (da esquerda para a direita), durante uma cimeira do G20 em Buenos Aires, a 30.11.2018

Na ocasião, Trump também se gabou dos novos acordos comerciais, muito mais vantajosos para os EUA, que negociara (brilhantemente) com a Coreia do Sul e que estava a negociar (brilhantemente) com o Japão, a Índia e a União Europeia, substituindo acordos anteriores que rotulou de “desastrosos”.

Cuidar dos desvalidos é “socialismo”?

Ainda que os primeiros exemplos de medidas estatais de protecção social, provenham da Ásia – mais precisamente da Índia do imperador Ashoka (reinado: 268-232 a.C.) e da China do imperador Wen (reinado: 180-157 a.C.) – foi no Ocidente que se desenvolveu o conceito de Estado social na moderna acepção da palavra, por iniciativa do chanceler alemão Otto von Bismarck (no cargo entre 1871 e 1890). Foi também no Ocidente que, ao longo da primeira metade do século XX, se foi generalizando a adopção de políticas destinadas a nivelar as desigualdades de rendimentos e riqueza na sociedade e a tentar assegurar a todos condições de vida dignas, processo que ganhou forte ímpeto no pós-II Guerra Mundial.

As políticas que pretendem assegurar a todos os membros da sociedade uma vida digna recorrem essencialmente a dois tipos de medidas: a progressividade dos impostos e as transferências sociais. A sua evolução no Ocidente ao longo dos séculos XX e XXI tem sido diversa: enquanto a despesa do Estado em medidas de protecção social tem vindo a crescer consistentemente, em resultado, entre outros factores, do envelhecimento da população e da crescente sofisticação e custo dos cuidados de saúde, já a progressividade dos impostos e a repartição do rendimento entre capital e trabalho têm oscilado ao sabor do contexto sociopolítico e da orientação ideológica dos governos.

No pós-II Guerra Mundial, os EUA registaram uma evolução favorável no sentido do aplanamento das desigualdades entre os cidadãos e de uma deslocação do equilíbrio entre a remuneração do trabalho e do capital em favor do primeiro (que, desde a Revolução Industrial, se encontrava numa posição desfavorável). Porém, a partir do início da década de 1960, a tendência genérica tem sido de declínio da remuneração do trabalho e do aumento da desigualdade de rendimentos (ver capítulos “A financeirização da economia” e “A ascensão do capitalismo de casino” em Maus trabalhos: O que são, de onde vêm e que consequências têm?).

Remuneração do trabalho como percentagem do produto nos EUA, 1947-2016. Merece destaque o facto de as recessões económicas, assinaladas como barras verticais cinzentas, resultarem sempre numa quebra da remuneração do trabalho

Retrato da desigualdade económica nos EUA. A azul, proporção entre o rendimento dos 10% mais ricos e a mediana; a verde, índice de Gini; a amarelo, percentagem da riqueza total na posse do escalão 1% mais rico; a violeta, percentagem do rendimento total auferido pelo escalão 1% mais rico; a vermelho, percentagem de agregados familiares em que o rendimento disponível é inferior a 50% da mediana

Nos EUA, em termos genéricos, o Partido Republicano tem vindo a mostrar-se mais favorável às empresas, enquanto o Partido Democrático é mais inclinado a defender os escalões com menores rendimentos, mas é preciso tomar em consideração que o entendimento que os EUA têm do Estado social diverge do que prevalece em quase toda a Europa – pelos padrões americanos, as típicas medidas de protecção social postas em prática por um governo do PSD em Portugal ou por um governo da CDU na Alemanha seriam denunciadas como “socialistas”, ou até “comunistas”, e suscitariam rejeição por boa parte da população.

No seu primeiro mandato, Trump reforçou – como seria de esperar de um governo da ala direita Republicana e de um presidente que lidera um império empresarial – a deslocação da distribuição do rendimento entre trabalho e capital em favor do segundo: através do Tax Cuts and Jobs Act (2017), o imposto sobre as empresas foi cortado de 35% para 20%. Trump também determinou cortes de impostos que beneficiaram apreciavelmente os mais ricos e poucos benefícios trouxeram aos menos ricos. O orçamento que o Governo apresentou, e que Trump baptizou, infantilmente, como Big Beautiful Bill, vai na mesma direcção: prevê cortes nos impostos para os milionários que poderão exceder os 5 biliões (5.000.000.000.000) de dólares, baixando a taxa do escalão de rendimentos mais alto de 39.6% para 37%, introduzindo novas deduções fiscais para os rendimentos mais elevados e criando, dilatando ou prorrogando várias outras deduções, isenções, benefícios e “escapatórias” fiscais. Ora, como Trump há muito que elegeu como uma das principais prioridades a drástica redução do deficit do Estado americano, estas perdas de receitas teriam de ser compensadas por cortes noutras áreas – acontece que o Big Beautiful Bill prevê cortes substanciais em programas que visam a sustentabilidade ambiental e que beneficiam os segmentos mais desfavorecidos, como o Medicaid e o SNAP (Supplemental Nutrition Assistance Program), fundamental para a subsistência das família com menores rendimentos e para a promoção de dietas mais saudáveis (particularmente importante num país a braços com uma imparável epidemia de obesidade). Porém, estes estão longe de ser suficientes para compensar os cortes nos impostos e o aumento dos gastos no sector militar, pelo que o Big Beautiful Bill irá incrementar o deficit do Estado americano em 2.4 a 3.0 biliões (milhões de milhões) de dólares.

As iniquidades e contradições do orçamento tiveram o condão de:

1) Abrir brechas no apoio Republicano a Trump, por contrariar a política Republicana de controlo do deficit e as promessas feitas por Trump e por privar de assistência médica milhões de trabalhadores. Até o senador Republicano Josh Hawley, um populista e um entusiástico apoiante de Trump que ficou célebre por incitar a turba que atacou o Capitólio a 6 de Janeiro de 2021, classificou o orçamento como “moralmente errado e politicamente suicida”.

U.S. Senate Photographic Studio, Rebecca Hammel

Josh Hawley, senador pelo Missouri, é um dos Republicanos que se opõem ao Big Beautiful Bill

2) Provocar o fim da aliança com Elon Musk, que deu largas à sua fúria por, por um lado, o acréscimo do deficit tornar irrisórias as poupanças de 165.000 milhões de dólares que Musk reclama ter obtido com o DoGE; por outro lado, por o orçamento ser, em seu entender, prejudicial à economia americana. Num tweet de 28.06.2025, Musk acusou o Big Beautiful Bill de “destruir milhões de postos de trabalho na América e causar imensos danos estratégicos à economia deste país! Absolutamente insano e destrutivo”. Mas é a frase seguinte do tweet que revela a verdadeira razão de agravo de Musk: “Dá benesses às indústrias do passado, ao mesmo tempo que prejudica gravemente as indústrias do futuro”. As “indústrias do futuro” a que Musk se refere é a sua Tesla, que vê desaparecer os incentivos à aquisição de veículos eléctricos. No fundo, a ruptura entre Musk e Trump pode ser assim resumida: Musk, sabendo do temperamento volúvel de Trump e da sua aversão a tudo o que é eléctrico, entendeu que a melhor estratégia seria apoiá-lo e tentar insinuar-se na sua entourage, confiando que seria capaz de domar, ou, pelo menos, influenciar Trump de forma a daí tirar benefícios. E, agora, após ter gasto 200 ou 300 milhões na campanha de Trump, de ter usado a rede social X e a sua influência e prestígio para angariar votos para Trump e de ter visto a sua associação a Trump prejudicar a imagem e as receitas das suas empresas, Musk percebeu o que deveria saber desde o princípio: que Trump não é domesticável nem influenciável e não faz ideia do que significa a palavra “gratidão”.

O que o Project 2025 pensa da tributação

Uma vez que o Project 2025 parece ser a matriz que orienta a parte da actuação da Administração Trump 2.0 que não decorre das venetas e obsessões do presidente (ver capítulo “Um plano para reconfigurar os EUA (e a civilização ocidental)” em Civilização ocidental: O Grande Cisma de 2025 d.C.), vale a pena atentar nas orientações que o documento fornece no domínio tributário. Entre elas está a redução dos impostos sobre as empresas (o nosso IRC) e a progressiva substituição do imposto sobre os rendimentos individuais (o nosso IRS) por um imposto sobre o consumo (o nosso IVA), o que, claro, prejudica os que têm menores rendimentos, que estão “condenados” a despender todo o seu rendimento no consumo indispensável à sua subsistência.

É antiga a polémica sobre qual a mais eficaz, adequada e justa repartição da tributação, como atesta este cartoon de 1933 por Clifford K. Berryman, em que o Tio Sam quer seguir pela via da “general sales tax” (análoga ao IVA), mas o Congresso tenta dissuadi-lo

Enquanto o imposto sobre os rendimentos não é extinto, preconiza o Project 2025, será esvaziado de quase todo o seu carácter progressivo: passará a ter apenas dois escalões, com os rendimentos anuais até 168.000 dólares a serem taxados a 15% e os rendimentos acima desse valor a serem taxados a 30%. A combinação destas medidas traduz-se, na prática, por uma regressão das políticas de redistribuição de rendimentos para os padrões em vigor há um século e, logo, num alargamento do fosso entre pobres e ricos.

É indispensável sublinhar que 1) Os EUA já são o 2.º país mais desigual da OCDE (após impostos e transferências sociais), só sendo superado pelo Chile; 2) A taxa média de imposto sobre rendimentos efectivamente paga pelos 400 americanos mais ricos é metade do que era há 50 anos, enquanto a taxa média paga pelos 90% de americanos na base da pirâmide pouco se alterou nos últimos 50 anos, tendo mesmo subido ligeiramente.

Distribuição de rendimentos por escalões, nos países desenvolvidos da América do Norte e Oceânia

“Vamos todos acabar por morrer”

A 30 de Maio de 2025, num “town hall” (uma saudável tradição americana em que os eleitos respondem presencialmente a questões dos eleitores) em Parkersburg, Iowa, Joni Ernst, senadora Republicana eleita por este estado, foi confrontada por uma cidadã que argumentou que o Big Beautiful Bill tentava compensar os cortes nos impostos dos mais ricos com cortes na assistência médica aos mais pobres (estima-se que 15 milhões de pessoas percam a protecção de saúde de que hoje gozam), em resultado dos quais iriam morrer pessoas (há estimativas que apontam para 50.000 mortes adicionais). Ernst retorquiu: “Bem, vamos todos acabar por morrer”. Como seria expectável, a resposta de Ernst suscitou reacções de condenação por todo o país, que levaram a senadora a, no dia seguinte, colocar um vídeo no Instagram, que, nos primeiros segundos, parecia ser uma retractação: “Olá a todos. Quero usar esta oportunidade para apresentar as minhas sinceras desculpas por uma afirmação que fiz ontem no meu ‘town hall’”. Porém, o tom aparentemente contrito logo deu lugar à condescendência e ao sarcasmo: “Fiz uma suposição incorrecta: a de que todas as pessoas no auditório compreendiam que… sim, vamos todos acabar por morrer. Portanto, peço-vos desculpa e estou muito, muito feliz por não ter chegado a abordar o tema da Fada dos Dentes. Porém, para todos os que desejem conhecer a vida eterna, exorto-vos a abraçar o Nosso Senhor e Nosso Salvador, Jesus Cristo”.

[Vídeo colocado no Instagram por Joni Ernst a 31.05.2025:]

Há quem acuse os políticos de serem hipócritas inveterados, mestres da dissimulação, pantomineiros consumados, mas a política também tem momentos de candura inadvertida, resultantes de estultícia, inconsciência ou arrogância. Num momento esmiúçam-se alíneas num orçamento de Estado e adicionam-se e subtraem-se parcelas, no momento seguinte descobre-se quão empedernido pode ser um coração ou quanto negrume se acoita nas dobras da alma humana. Dada a polarização e turbulência hoje reinantes na política americana, não é possível prever se a resposta de Ernst no “town hall” e o vídeo subsequente irão custar-lhe a reeleição; mas é possível que alguns cristãos tenham visto a sua fé num Deus omnisciente, omnipotente, justo e misericordioso abalada por, logo após ter invocado o nome de Jesus, Ernst não ter sido fulminada por um relâmpago caído de um céu imaculadamente azul.

Este episódio pode parecer ser um “fait divers”, mas não é. É sintoma do estado de degradação da política; do crescente alheamento das elites (empresariais, políticas e académicas, à esquerda e à direita) em relação à realidade da vida das massas; de a “self-righteousness” e o acinte se terem tornado (com o inestimável contributo das redes sociais) na atitude-padrão no relacionamento humano; da frieza e do autocentramento que se instalaram no coração da sociedade do século XXI.

A miragem da fortuna

Um dos contributos de Trump para o fomento da desigualdade económica têm sido as medidas tomadas em prol dos criptoactivos, essa obnóxia ramificação do capitalismo financeiro. Sob a sua aparência reluzente e hiper-sofisticada, os criptoactivos não são mais do que a actualização, legalização e institucionalização do velho esquema da fraude em pirâmide (ver capítulo “A ascensão do capitalismo de casino” em Maus trabalhos: O que são, de onde vêm e que consequências têm?). Estas transacções não produzem qualquer bem palpável nem prestam qualquer serviço e assentam no mesmo princípio dos jogos de azar: permitir a um punhado de felizardos (ou a uns “chosen few” com acesso a informação privilegiada) fazer fortuna rápida, sem esforço nem mérito, à custa de vultosas perdas pela parte de uma multidão de néscios, ingénuos e mal-avisados. No fundo, o negócio dos criptoactivos está em sintonia com o conceito “o vencedor fica com tudo” e com a visão do mundo como uma selva, onde triunfam os mais fortes, os mais matreiros e os menos escrupulosos, perspectivas que são assaz populares em muitos círculos das redes (ditas) sociais. Muitos influencers digitais – maioritariamente jovens “machos-alfa com elevado teor de testosterona” – ufanam-se de sustentar o seu ostentatório trem de vida com os proveitos dos seus astutos investimentos em criptoactivos e chegam mesmo a, num acto de grande generosidade, a partilhar o seu know-how com os “seguidores”, através de cursos (pagos) de enriquecimento rápido. Porém, eles mesmos não têm a mais vaga ideia da natureza e do modo de funcionamento dos criptoactivos e os seus rendimentos não provêm dos seus investimentos mas do que as empresas do ramo lhes pagam para publicitar os seus miraculosos “produtos financeiros” junto das suas legiões de “seguidores”.

[Windoh, um dos influencers portugueses com mais seguidores (1.7 milhões no YouTube, 800.000 no Instagram), discorre sobre os seus investimentos em criptomoedas:]

Como se não bastasse o seu papel como promotores da desigualdade, os criptoactivos são também um meio privilegiado para a prática da corrupção e para o branqueamento de capitais obtidos mediante actividades ilícitas.

Uma das medidas de Trump neste domínio foi dissolver o grupo do Departamento de Justiça responsável pela investigação de actividades criminosas envolvendo criptoactivos. Outra foi nomear Paul S. Atkins, que co-dirigiu a Token Alliance, um grupo de lobbying pró-criptoactivos, para liderar a Securities and Exchange Comission (SEC), entidade análoga à “nossa” Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), que tem por missão supervisionar os mercados de instrumentos financeiros, escrutinar os agentes que neles operam e zelar pela salvaguarda dos investidores. Entretanto, a SEC já arquivou várias investigações que corriam na SEC contra várias empresas de criptoactivos, como a Coinbase, a Kraken, a Ripple e a Robinhood. Por coincidência, estas quatro firmas estão entre as empresas de criptoactivos que contribuíram generosamente para a cerimónia de tomada de posse de Trump.

Paul S. Atkins, presidente da Securities and Exchange Comission

A desregulação do sector dos criptoactivos promovida pela Administração Trump seria, por si só, uma opção contestável, por fomentar a especulação e o ludíbrio, mas ganha contornos de escândalo ético quando se considera que o próprio Trump tem fortes interesses pessoais nesse sector, já que, três dias antes de tomar posse como 47.º presidente dos EUA, lançou a sua própria memecoin, a $Trump. Ora, não só as “memecoins” são uma variante ainda mais volátil e obscura das criptomoedas, como a opacidade inerente a estes “instrumentos financeiros” permite que empresas, grupos de pressão, governos estrangeiros ou quem quer que pretenda obter leis e decisões favoráveis do Governo dos EUA tenham à sua disposição um meio expedito e discreto para subornar o presidente. Apenas um dia após o lançamento da $Trump, o seu valor de mercado agregado subira de zero para 27.000 milhões de dólares, fazendo a fortuna pessoal de Trump dilatar-se em 20.000 milhões de dólares – sublinhe-se: apenas num dia e sem que, no processo, de natureza estritamente especulativa, tenha sido criada qualquer riqueza, bem-estar ou conhecimento, ainda que os aficionados deste esquema especulativo gostem de se lhe referir como “indústria das criptomoedas”. Dois dias após o lançamento da $Trump, a sua esposa lançou a sua própria memecoin, $Melania, mas tem tido menos sorte, pois, após uma euforia em seu torno no dia do seu lançamento, despenhou-se quase tão depressa como subiu, e tem-se mantido com cotações consistentemente baixas desde então.

Entretanto, a cotação da $Trump também foi declinando, o que levou Trump a tentar reavivar o interesse nela, promovendo um jantar de gala, a 22.05.2025, num dos seus clubes de golfe, cujo acesso foi restrito às 220 pessoas que mais investissem na $Trump – evento que o promotor descreveu como “o convite mais exclusivo do mundo” e a senadora democrata Elizabeth Warren descreveu, mais justamente, como “uma orgia de corrupção”. Boa parte dos eleitos pertenciam ao universo dos criptoactivos – empresários do ramo, influencers, investidores – e o seu propósito (para lá de promover os seus próprios criptoactivos) parece ter sido a oportunidade de ter acesso privilegiado ao homem mais poderoso do mundo; se era esse o objectivo, gorou-se, pois Trump limitou-se a fazer um breve discurso de circunstância e retirou-se apressadamente.

Se fosse necessário reunir mais provas da venalidade dos esquemas da família Trump envolvendo criptoactivos, bastaria lembrar o que Donald Trump disse sobre criptomoedas a 07.07.2021, na Fox News: “A bitcoin parece-me ser simplesmente uma fraude. Não gosto dela porque é mais uma moeda a competir contra o dólar”. A 31.08.2021, na Fox News: “Potencialmente, é um desastre à espera de acontecer. Se calhar são uma falsificação. Quem sabe o que elas são?”. A 04.10.2021, na Yahoo Finance: “Sou um grande fã do dólar, sou um grande fã da nossa moeda, não quero que outras moedas apareçam e prejudiquem ou desvalorizem o dólar […] Acho que são uma coisa muito perigosa”. Claro que isto foi antes de os seus amigos versados em tecnologia lhe terem explicado como poderia ganhar fortunas sem esforço, monetizando a devoção da “MAGA crowd” e a posição de “pessoa mais importante do mundo a quem todos querem ter acesso” que é inerente ao cargo de presidente dos EUA.

[Donald Trump Jr. defende a legitimidade da $Trump e vaticina que os criptoactivos serão “sem dúvida, o futuro das finanças, o futuro do sector bancário”:]

Trump comporta-se neste e noutros domínios não como o presidente de uma moderna democracia, sujeito ao escrutínio público, mas como um déspota de outras eras, uma criatura que paira acima da lei e da ética e em que a governação do país e os negócios pessoais se confundem. A maior parte dos seus fiéis recusa-se a ver o óbvio e Mike Johnson, speaker da Câmara dos Representantes (equivalente ao nosso presidente da Assembleia da República), que cultiva uma farisaica aura de rectidão e pudicícia, quando confrontado por um jornalista com os negócios da família Trump tartamudeou que “há autoridades que… agentes da polícia… regras éticas… não sou um perito nisso. A minha competência diz respeito à Câmara [dos Representantes]”; após esta desajeitada manobra de evasão, lembrou os (repetidamente alegados e nunca provados) negócios que a família Biden teria feito na sombra para os contrastar com os negócios de Trump, que “seja o que for que […] esteja a fazer, está a fazê-lo abertamente, não está a tentar ocultá-lo”, como se as violações da lei e da ética se tornassem legítimas por serem cometidas às claras.

A porta escancarada entre a Casa Branca e Mar-a-Lago

Ao longo do séculos XX e XXI, os regimes democráticos foram desenvolvendo mecanismos de escrutínio dos governantes e dos altos funcionários da administração, de forma a incrementar a transparência e lisura dos procedimentos, a privilegiar a prestação de contas (“accountability”) e a combater a corrupção, o tráfico de influências, o nepotismo, o peculato e o abuso de confiança. Esse escrutínio pode começar antes mesmo da nomeação, através da audição dos candidatos e da rejeição dos que estão enredados em manifestos conflitos de interesses, e prossegue através da obrigação da apresentação regular de declarações de rendimentos e bens. Os países ocidentais – e em particular a União Europeia – têm tentado difundir esta prática aos países com os quais estabelecem acordos e parcerias, mas a Administração Trump 2.0 (tal como a Trump 1.0) não só não tem mostrado qualquer empenho nesse domínio – a perspectiva grosseiramente materialista que Trump tem das relações internacionais não contempla a exportação de valores civilizacionais e instituições democráticas – como ela própria se tornou num paradigma obsceno da promiscuidade entre dinheiro e poder no Governo dos EUA.

O actual gabinete de Trump inclui 13 pessoas cuja fortuna pessoal excede os 1000 milhões de dólares, algumas delas ocupando cargos que representam um flagrante conflito de interesses com a actividade empresarial a que se dedicam; outras não possuem quaisquer qualificações para o cargo que ocupam, nem sequer vocação ou afinidade, o que sugere que são meras testas-de-ferro e que as decisões relevantes serão tomadas em função de interesses ocultos. Para tornar tudo mais sórdido, pelo menos 30 dos nomeados por Trump contribuíram generosamente para a sua campanha eleitoral. Um dos casos mais flagrantes é o da Secretária da Educação, Linda McMahon, que, em conjunto com o esposo, Vince McMahon, doou 37 milhões de dólares à campanha de Trump, ainda que Linda não tenha formação, experiência profissional ou conhecimentos no domínio da educação e a área de actividade a que se tem consagrado (com indiscutível sucesso) seja a promoção de eventos de wrestling. Existem também óbvios conflitos de interesses no seio da Administração Trump no domínio da supervisão das (ditas) redes sociais e da inteligência artificial foram tratados, mas esses já foram tratados, respectivamente, no capítulo “As redes sociais não são domesticáveis” em História para amanhã pt.2: Migrações, sustentabilidade e redes sociais e no capítulo “IA: Em frente, a todo o vapor!” em História para amanhã pt.3: A inteligência artificial é uma ameaça?.

Outros nomeados por Trump para o seu Governo fizeram donativos para as cerimónias da sua tomada de posse, que tiveram um custo de 239 milhões de dólares, quatro vezes mais do que a tomada de posse de Joe Biden, em 2021, e 5.4 vezes mais do que a de Barack Obama, em 2013, ou que a de George W. Bush, em 2005. O maior contributo para a cerimónia de tomada de posse veio de Warren Stephens, fundador e CEO do banco de investimento Stephens Inc. (28 escritórios espalhados pelo mundo, 1200 funcionários) e detentor de uma fortuna pessoal avaliada em 3400 milhões de dólares, que foi recompensado com a nomeação como embaixador no Reino Unido.

Joyce N. Boghosian

Warren Stephens (ao centro) toma posse como embaixador dos EUA no Reino Unido, na Sala Oval da Casa Branca, 30.04.2025

Elon Musk, que doou 250-290 milhões de dólares para a campanha de Trump, foi nomeado (oficiosamente) para dirigir o Departamento de Eficiência Governamental (DoGE, na sigla inglesa), e, quando os negócios da Tesla começaram a sofrer devido à sua gestão do DoGE e às suas intervenções de cariz político, teve o respaldo de Trump. A 11.03.2025, Trump fez instalar um showroom temporário da Tesla nos jardins da Casa Branca e encarregou-se ele mesmo de propagandear as virtudes dos veículos (“Everything’s computer!”), enquanto o Secretário do Comércio, Howard Lutnick, numa entrevista à Fox News, a 19.03.2025, exortou os americanos a adquirirem acções da Tesla nestes termos: “Comprem [acções da] Tesla! É incrível que as acções deste fulano estejam tão baratas! Nunca voltarão a estar tão baratas!”.

[Trump numa “perninha” como vendedor da “Tesler”, nos jardins da Casa Branca:]

Aos milionários, lobbyists e CEOs e membros de conselhos de administração e de gabinetes jurídicos de grandes empresas nomeados por Trump para posições-chave da sua Administração, há que somar os milionários que, não tendo sido nomeados para um lugar na Administração Trump, passaram a orbitar em torno de Trump desde que ganhou as eleições de 2024, tendo, alguns deles, sido recompensados com lugares na primeira fila na cerimónia de tomada de posse. Esta expressão pública de apoio a Trump pelos magnatas resultou, possivelmente, de terem concluído que, atendendo à natureza obstinada e rancorosa de Trump, ao poder discricionário de que dispõe e ao seu anúncio de que iria usar a máquina do Estado para perseguir quem lhe fez frente ou lhe desagradou, seria preferível ser seu “amigo”.

Negócios das Arábias

A política externa de Trump pode parecer errática quando analisada do ponto de vista dos interesses de longo prazo dos EUA, mas ganha contornos mais lógicos e perceptíveis quando examinada pelo prisma do favorecimento do império empresarial de Trump e da sua família, bem como das empresas e milionários que o têm apoiado. O facto de Trump ter escolhido a Arábia Saudita, o Qatar e os Emirados Árabes Unidos e para a sua primeira visita de Estado como 47.º presidente dos EUA (não contando com a deslocação a Roma para o funeral do papa Francisco) é revelador não só de desprezo pelos aliados tradicionais e pelos vizinhos dos EUA (as primeiras visitas de Estado do presidente costumam contemplar o Reino Unido, o Canadá ou o México, mas, em 2017, Trump também escolheu a Arábia Saudita como primeiro destino oficial), como do seu escasso interesse pela resolução do (cada vez mais insolúvel e cruento) conflito israelo-palestiniano, que requereria antes visitas a Israel, Jordânia e Egipto.

Mohammed bin Salman, príncipe-herdeiro da Arábia Saudita, Donald Trump e Ahmed al-Sharaa, presidente da Síria, em Riyadh, Maio de 2025

A visita de Trump às petromonarquias do Golfo Pérsico (ou “Arábico”, como Trump propôs que fosse rebaptizado) parece ter sido motivada pela realização de negócios de alto coturno. A Casa Branca anunciou que foram firmados contratos no valor de 2 biliões (2.000.000.000.000) de dólares entre os três países visitados e empresas americanas, mas não é despiciendo que parte apreciável desta quantia diga respeito a empresas dos milionários recém-convertidos ao “trumpismo”. Vários dos proprietários ou CEOs das empresas beneficiadas – Elon Musk (Starlink), Sam Altman (OpenAI), Alex Karp (Palantir); Jensen Huang (Nvidia), et al. – estiveram na Península Arábica ao mesmo tempo que Trump e, se dúvida houvesse, este fez questão de explicitar que tais negócios nunca teriam sido possíveis se ele não tivesse sido eleito presidente. Tal observação é também válida para os empreendimentos que a Trump Organization negociou pela mesma altura, com os mesmos países: Eric e Donald Trump Jr., que assumiram oficialmente, durante a presidência do pai, as rédeas da Trump Organization, tinham estado, poucos dias antes, nos mesmos países da Península Arábica, a fim de acordar a construção de uma vultosa carteira de projectos imobiliários, nomeadamente mega-torres em Riyadh e Jeddah, na Arábia Saudita (duas Trump Towers), e em Dubai City, nos EAU (um Trump International Hotel & Tower), bem como resorts de luxo no Qatar (Trump International Golf Club & Villas) e nos EAU (onde a Trump Organization já detém um empreendimento similar).

[A visita de Trump, em Maio de 2025, à Arábia Saudita. Nota: não é um vídeo satírico, é a perspectiva oficial da Casa Branca:]

A estes projectos imobiliários somou-se um acordo que levará um fundo de investimento do Abu Dhabi a investir 2000 milhões de dólares na “stablecoin” USD1, da World Liberty Financial (WLF), uma empresa de criptoactivos na órbita do império empresarial da família Trump. Por coincidência, a WLF foi co-fundada por Zach Witkoff, filho de Steven Witkoff, magnata do imobiliário que actualmente é o enviado especial do presidente para o Médio Oriente, função que acumula (não-oficialmente) com a de enviado do presidente junto de Vladimir Putin. E, em mais uma coincidência, a família real do Qatar decidiu, espontaneamente, oferecer um Boeing 747 de luxo ao presidente dos EUA – que reverterá para a Biblioteca Presidencial Donald J. Trump após o termo do mandato – o que Trump achou ser perfeitamente natural e merecido, mas suscitou um coro de reprovação que, excepcionalmente, incluiu apoiantes indefectíveis de Trump, como o senador Ted Cruz ou a influencer Laura Loomer.

[A visita de Trump, em Maio de 2025, ao Qatar:]

A distribuição de “liberalidades” à família Trump pela parte de príncipes árabes não começou com a Administração Trump 2.0. Entre 2017 e 2021, Jared Kushner, genro de Donald Trump, foi presença assídua nos palácios das dinastias reinantes da Península Arábica, na qualidade de conselheiro sénior da Casa Branca e de principal representante de Trump no processo de paz do Médio Oriente (função para a qual não tinha qualquer qualificação prévia). Seis meses após Kushner cessar funções na Casa Branca, a sociedade de investimento por si fundada e liderada, a Affinity Partners, recebeu 2000 milhões de dólares de um fundo de investimento do Estado saudita, embora fosse, à data, uma empresa “de vão de escada”, sem dimensão nem curriculum.

Em Maio de 2025, poucos dias depois do retorno da comitiva presidencial aos EUA, Donald Trump Jr. regressou à Península Arábica, como convidado do Qatar Economic Forum, e interveio numa sessão a que deu, inicialmente, o incrivelmente cândido título “Monetizing MAGA: Investing in Trump’s America” (“A monetização do MAGA: Investir na América de Trump”), que depois alterou para um extremamente vago “Investing in America” (“Investir na América”), quiçá por alguém lhe ter feito ver que era preciso preservar algumas aparências e que escusava de tornar demasiado explícito que nada separa a presidência de Donald Trump dos negócios da família Trump e que para fazer negócios nos EUA de hoje é muito recomendável estabelecer relações cordiais com a tribo MAGA e, em particular, com os membros do clã Trump.

[A visita de Trump, em Maio de 2025, aos Emirados Árabes Unidos:]

“L’État c’est moi”

Na Casa Branca de 2025, poder e dinheiro são grandezas facilmente interconversíveis e freneticamente mercadejadas e os padrões de prestação de contas (“accountability”) parecem ter recuado até ao reinado de Luís XIV ou ter ficado alinhados com os de regimes actuais que funcionam em moldes pré-modernos, como as petromonarquias do Golfo ou a Rússia de Putin.

Luís XIV, retratado c.1701-02 por Hyacinthe Rigaud. Embora não haja qualquer prova de que Luís XIV tenha proferido a frase “L’État c’est moi”, esta tem-lhe sido associada, uma vez que ele é o mais famoso dos monarcas absolutistas

A língua russa tem, talvez não por acaso, um vocábulo apropriado para descrever o estado de corrupção generalizada, em que tudo – rigorosamente tudo – pode ser vendido e comprado: “prodazhnost”. No sentido estrito, “prodazhnost” significa “vendabilidade” ou “disponibilidade para venda/compra”, mas costuma ser usado com um sentido mais amplo e depreciativo, como semi-sinónimo de “korruptsiia”; mas enquanto esta última equivale à nossa “corrupção”, “prodazhnost” designa o mergulho de todo um país na venalidade sem freio, um colapso dos valores, a dissolução do estado de direito, a extinção da dignidade.

Já em Outubro de 2019, num artigo na revista Foreign Politics, intitulado “Ukrainian corruption is Trump’s native language”, Marci Shore, professora de história das ideias na Universidade de Yale e reconhecida especialista em autoritarismo, associava a Administração Trump a “prodazhnost” e citava Kant: “Tudo o que tem um preço pode ser substituído por qualquer coisa equivalente; pelo contrário, tudo o que está acima de qualquer preço e, portanto, não admite um equivalente, possui uma dignidade (Fundamentação da metafísica dos costumes  — Grundlegung zur Metaphysik der Sitten —, 1785).

Se, por absurdo, Donald Trump, se lançasse à leitura da Fundamentação da metafísica dos costumes, certamente ficaria perplexo perante esta passagem, pois a sua experiência tem-lhe dado bastas provas de que a dignidade pode ser comprada: inúmeras figuras do Partido Republicano com quem, em tempos, teve feiíssimas pelejas, acabaram por esquecer todo os agravos e torpezas e vir comer à sua mão, após concluírem que, nos EUA, à direita do Partido Democrata, não é possível ter-se uma carreira política se não se contar com a aprovação de Trump; muitos deles tornaram-se, inclusive, membros do seu gabinete. Trump encaixa-se na definição de “cínico” dada por Lord Darlington, personagem de Lady Windermere’s fan, de Oscar Wilde: “um homem que conhece o preço de tudo, mas não sabe o valor de nada”. Quanto à palavra “prodazhnost”, embora Trump fale amiúde com Putin, é improvável que o presidente russo alguma vez a refira e, a existir uma equivalente na língua árabe, também não será Mohammed bin Salman a trazê-la à colação.

Curiosamente, a prova mais óbvia de que Trump é incapaz de distinguir a função de presidente dos EUA dos caprichos, interesses e inclinações do indivíduo e empresário Donald J. Trump, emergiu do azedar da relação com Elon Musk. A 5 de Junho, com as recriminações mútuas a tornarem-se cada vez mais ácidas, Trump lavrou na rede Truth Social uma ameaça bem explícita: “A forma mais fácil de poupar no nosso orçamento – muitos milhares de milhões de dólares – é pôr termo aos contratos e subsídios governamentais a Elon. Sempre me surpreendeu que Biden não o tenha feito!”.

Para Trump, o aparelho de Estado não está ao serviço do povo americano e do bem comum, mas das venetas do presidente. Assim sendo, é legítimo suspeitar, por exemplo, de que o ataque americano às instalações nucleares iranianas terá sido menos o resultado de uma ponderosa deliberação sobre a ordem política global, do que uma demonstração de força destinada a fazer esquecer a decepcionante parada militar que teve lugar a 14.06.2025, em Washington D.C., para comemorar o 250.º aniversário do Exército americano e (por coincidência) o 79.º aniversário de Trump, em relação à qual Trump alimentara grandes expectativas e que acabou por ser uma cerimónia fruste, enfadonha (como atestam os rostos de Trump e da sua comitiva), destituída de grandiosidade, que suscitou uma modesta afluência de público e que deixou Trump ficar mal perante os outros grandes machos-alfa da política mundial, Vladimir Putin, Kim Jong-un e Xi Jinping. Claro que, imerso no seu irredutível narcisismo, Trump é incapaz de compreender que, desde o termo da II Guerra Mundial, a exibição espaventosa de poderio bélico deixou de fazer parte dos hábitos das democracias liberais e tem sido cultivada exclusivamente pelos autocratas.

Vadim Savitsky

Pyongyang, 23.07.2023: Parada militar assinalando o Dia da Vitória na Grande Guerra de Libertação da Pátria, designação dada na Coreia do Norte à assinatura do armistício que pôs termo à guerra entre as duas Coreias, em 1953

“Sei muito mais do que ele sobre juros”

Desde que iniciou o seu segundo mandato, Trump tem vindo a pôr reiteradamente em causa a independência do banco central dos EUA, a Reserva Federal (informalmente referida como “Fed”), ameaçando demitir o seu presidente, Jerome Powell, por este não baixar as taxas de juro tão rápida e pronunciadamente como Trump desejaria. A 29.04.2025, discursando no Macomb Community College, acusou Powell de “não estar a fazer um bom trabalho. Gostaria de ser simpático e respeitoso para com o Fed. É suposto que eu o deixe fazer o que tem a fazer, mas sei muito mais do que ele sobre juros, acreditem em mim”. Entretanto, na rede Truth Social, já rotulara Powell de “louco” e atribuíra-lhe a alcunha de “Mr. Too Late” (“Sr. Tarde Demais). Na verdade, as críticas de Trump a Powell (que foi nomeado por Trump) começaram logo após o segundo ter assumido funções, em 2018, e pelas mesmas razões: a manutenção de taxas de juro altas pela Reserva Federal. Trump tem continuado a ameaçar demitir Powell, ainda que este esteja perto do fim do mandato (ver Trump diz que, afinal, poderá mudar de ideais e (tentar) demitir o líder do banco central).

2 de Novembro de 2017, Casa Branca: Donald Trump nomeia Jerome Powell presidente da Reserva Federal, substituindo Janet Yellen

De pouco ou nada tem servido que Powell tenha apresentado fundamentação racional para a sua actuação e tenha lembrado que a autonomia da Reserva Federal em relação ao poder executivo permite que as suas decisões sejam fundadas em dados económicos e visem “o benefício de todos os americanos” no longo prazo, em vez de atenderem aos momentâneos interesses políticos dos governantes. A autonomia do banco central em relação ao Governo é uma marca das democracias liberais de modelo ocidental, onde começou a ganhar força há cerca de um século – para contraponto, tomem-se os exemplos da República Popular da China, onde o banco central é controlado pelo Partido Comunista Chinês, ou da Turquia, em que o banco central tem cedido às pressões do presidente-sultão Recep Tayyip Erdoğan e tem conduzido uma política monetária determinada pelo calculismo político, que tem sido ruinosa para a economia turca.

Como explicou o reputado economista americano Kenneth Rogoff, “Boa parte do poder do dólar provém da reputação de termos uma política sólida, estável e previsível, da independência da Reserva Federal em relação a pressões políticas, da confiança em nós como superpotência mundial. Não é possível destruir tudo isso e esperar que o dólar não seja afectado”. E, com efeito, a taxa de câmbio euro/dólar, após ter caído para valores próximos da paridade entre Dezembro de 2024 e Fevereiro de 2025, tem mostrado tendência ascensional desde que Trump tomou posse e regista, no final de Junho, um valor de 1.15, que não era atingido desde o final de 2021.

“Drill, drill, drill”

No mundo ocidental, os EUA foram um dos primeiros países em que o Estado tomou medidas efectivas para a conservação dos valores naturais, iniciativa que costuma ser creditada a Theodore Roosevelt (presidente entre 1901 e 1909), que criou os Serviços Florestais dos EUA e cinco parques nacionais, mas que já tivera momentos marcantes em 1872, com a criação do Parque Nacional de Yellowstone, e em 1890, com a criação do Parque Nacional da Sequoia e o Parque Nacional de Yosemite.

Library of Congress

Cartaz de 1938, promovendo o Parque Nacional de Yellowstone

Os EUA foram também pioneiros ao estabelecer, em 1970, a Environmental Protection Agency (EPA), um organismo estatal de defesa do ambiente com autonomia em relação à Administração federal. Os restantes países ocidentais acabaram, com maior ou menor desfasamento, por tomar medidas análogas, destinadas a minorar efeitos negativos do crescimento económico e assegurar a observância de padrões de qualidade ambiental e a protecção de espécies, ecossistemas e paisagens – compreende-se que a tendência tenha nascido no Ocidente, pois foi a primeira região do mundo a industrializar-se maciçamente. Em contraste com o Ocidente, a URSS e seus satélites e a China comunista adoptaram, até quase ao final do século XX, um modelo de desenvolvimento completamente alheio a preocupações de cariz ambiental (ver capítulo “Sob a bandeira verde do comunismo” em Como a pequena Greta salvou o planeta).

A protecção do ambiente sempre viveu – e viverá – numa relação de tensão com as pressões desenvolvimentistas provenientes do meio empresarial e com a tendência dos governantes para agradar a um eleitorado sempre ávido de desfrutar de mais bens e serviços; contudo, de uma forma geral, na civilização ocidental a tendência dominante tem sido a de um progressivo apertar das regras de protecção ambiental, mesmo que estas se afigurem insuficientes para, no longo prazo, assegurar a preservação dos sistemas naturais.

Donald Trump nunca ocultou a sua visceral oposição a qualquer obstáculo ou restrição de cariz ambiental à actividade económica (ver capítulo “O ambientalista” em Donald Trump pelas suas próprias palavras) e a sua segunda Administração parece empenhada em reverter as conquistas do último meio século em termos de políticas de ambiente e em dar cumprimento à palavra de ordem da alt-right “drill, drill, drill” (“perfura, perfura, perfura”), que reclama carta branca para a exploração de combustíveis fósseis em territórios com valores ambientais e culturais protegidos.

Lee Zeldin, o administrador da EPA nomeado por Trump, alterou a regulamentação de forma a baixar os padrões de qualidade do ar e da água, afirmou que a missão da sua agência era “baixar o custo de comprar um automóvel, aquecer a casa ou operar uma empresa” (desideratos mais compreensíveis num ministro da Economia) e anunciou a intenção de reavaliar as provas científicas que determinam que as emissões de gases com efeito de estufa são uma ameaça à humanidade. Não é inesperado, já que Zeldin apoia Trump desde que este iniciou a sua carreira política, tem expressado dúvidas sobre a gravidade das alterações climáticas e, em 2018, assumiu posição crítica relativamente ao Acordo do Clima de Paris.

SHEALAH CRAIGHEAD

Lee Zeldin e Trump na Sala Oval da Casa Branca, em 2018, quando Zeldin era membro da Câmara dos Representantes pelo estado de Nova Iorque

Trump não precisou de esperar pelos resultados desta reavaliação, pois sempre esteve firmemente convicto de que as alterações climáticas são um embuste (possivelmente promovido pela China), e voltou a retirar os EUA do Acordo do Clima de Paris. Entretanto, a própria EPA tem sido vítima do programa de “emagrecimento do Estado”, mediante cortes no financiamento e despedimentos em massa – tudo leva a crer que a missão de Zeldin na EPA é análoga à de Linda McMahon no Departamento e Educação: supervisionar o desmantelamento da sua própria agência.

O curso de acção do presente governo dos EUA pode ser visto como o regresso triunfal da “economia do cowboy”, que é movida pela ganância, pelo consumismo infrene, pela crença de que os recursos do planeta são infinitos e pela maximização dos lucros a curto prazo, mesmo que à custa de penúrias e calamidades futuras. Este modelo de desenvolvimento tem o seu negativo na “economia do astronauta”, que é norteada pela concepção da Terra como uma nave espacial – ambos os conceitos foram cunhados em 1966 pelo economista Kenneth Boulding, no ensaio “The economics of the coming spaceship Earth”.

Paradoxalmente, a adopção da “economia de cowboy”, propugnada pelos autoproclamados defensores da civilização ocidental, constitui hoje a maior ameaça à continuidade dessa civilização (se não contarmos com a eventualidade de uma guerra nuclear). A “economia de cowboy” conduzirá, no longo prazo, a um planeta exaurido, erodido, contaminado e atravancado de lixo, em que o quotidiano do Homo sapiens, em vez de atingir os padrões estratosféricos de prosperidade, cosmopolitismo, bem-estar e ócio que governantes e “marqueteiros” prometem, voltará a aproximar-se da vida “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”, descrita por Thomas Hobbes no Leviathan.

Próximo artigo da série: Civilização Ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 2: Religião