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Vicente Wallentein já tinha feito teatro radiofónico, enquanto Rafael Medrado conheceu o realizador de "O Zé Faz 25" no dia em que chegou a Portugal
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▲Vicente Wallentein já tinha feito teatro radiofónico, enquanto Rafael Medrado conheceu o realizador de "O Zé Faz 25" no dia em que chegou a Portugal

▲Vicente Wallentein já tinha feito teatro radiofónico, enquanto Rafael Medrado conheceu o realizador de "O Zé Faz 25" no dia em que chegou a Portugal

Vicente Wallenstein e Rafael Medrado: o descendente arrojado e o pioneiro destemido

O primeiro cresceu no meio do teatro e estreou-se em televisão aos cinco anos. O segundo construiu uma carreira no Brasil antes de se mudar para Portugal. Ambos fazem parte do podcast "O Zé Faz 25".

Rafael Medrado chegou a Lisboa às 17 horas de uma segunda-feira e às 19 horas em ponto estava na ACT (Escola de Actores) para começar um curso de representação. “Estava lá também o Manuel [Pureza] que, no intervalo, me perguntou se queria fumar um cigarro”, conta ao Observador. Rafael Medrado acendeu o dito e ofereceu outro ao realizador. “Ele disse: ‘Ah, não, eu não fumo. Só vim cá fora para que me contes a tua história.’”

A ligação foi instantânea, tal como a admiração mútua, com Manuel Pureza a dar logo uma lista enorme de sugestões de teatro, cinema e nomes que o ator brasileiro teria mesmo de conhecer. Nove anos depois, o primeiro dirige o segundo em O Zé Faz 25 — o podcast de ficção que acompanha a investigação sobre o desaparecimento de José Valbom, um jovem de — lá está — 25 anos visto pela última vez na própria festa de aniversário, com episódios novos todas as terças-feiras.

Para Rafael Medrado, O Zé Faz 25 é o exemplo perfeito do trabalho de Manuel Pureza, o realizador. “Ele tem sempre um olhar muito fresco sobre o tempo e sobre as tendências que faz sentido seguir. É uma escolha voltar a saborear uma história através de imagens feitas na nossa cabeça.”

Na história,ele é Guedes, melhor amigo do protagonista desaparecido. “Há uma parte do passado do Guedes que o Zé desconhece e isso também faz com que ele se torne um suspeito. Por ser uma figura tão doida como o Zé, passa a ser também um ser perigoso porque não sabemos do que ele é capaz.”

O ator descreve a experiência como uma espécie de “jogo coletivo”. “Em vários momentos olhei para os meus colegas e estávamos todos a saborear aquilo como se tivéssemos 13 ou 14 anos.” Também Vicente Wallenstein viveu este trabalho — no qual é Delgado, namorado da irmã de Zé — com um entusiasmo diferente dos anteriores.

“O Manuel Pureza] tinha esta ideia de desenvolver uma série quase em formato Cluedo com a narrativa de um crime. Cada episódio seria focado numa das personagens suspeitas desse crime. Chegámos a ter alguns ensaios ainda antes da pandemia para desenvolver uma parte da escrita para que os atores dessem alguns inputs, mas, na minha opinião, ainda bem que não avançou porque acabamos por repescar um formato a que antigamente chamaríamos teatro radiofónico”, explica ao Observador.

O conceito não lhe era estranho já que o avô, Carlos Wallenstein, foi, não só ator, mas também dramaturgo. “Nos anos 70, 80 e 90 chegou a escrever várias peças para a RDP para serem representadas em formato radiofónico.”

Durante a pandemia, Vicente Wallenstein chegou a fazer parte de um grupo — Transmissão — que desenvolveu um ciclo de teatro radiofónico, uma parceria entre a associação de Wallenstein, As Crianças Loucas, e Um Coletivo, associação da Cátia Terrinca. “Com eles em Elvas e nós em Lisboa, acabámos por desenvolver esta programação, uma espécie de festival de teatro radiofónico.”

[o trailer de “O Zé Faz 25”:]

Vicente Wallenstein nasceu em Lisboa em julho de 1995 e dos primeiros anos de escola guarda uma recordação muito vívida. “Quando a minha avó ia buscar-me, apanhávamos um autocarro para casa dela, na Estefânia. Eu delirava sempre com os transportes públicos, tinha um fascínio grande porque a minha mãe ia sempre buscar-me de carro. E era um momento de ligação com a minha avó, que era uma pessoa muito importante para mim.”

Nessa altura, já passava grande parte das viagens a inventar histórias. “Eu era muito introvertido, metido no meu mundo e uma das coisas que fazia era imaginar as histórias das pessoas que via no autocarro. Ficava muito curioso com as figuras das pessoas mais velhas, que me pareciam enormes naquela fase, claro.”

Maria do Bom Sucesso, assim se chamava a avó que está presente em todas essas memórias, era professora de Português e Francês, e estava igualmente ligada ao teatro através do marido — dos quatro filhos que tiveram, um deles é o ator José Wallenstein e outro o músico Pedro Wallenstein.

Com quatro ou cinco anos, Vicente estreou-se em televisão na RTP1, na série Gente Feliz Com Lágrimas, realizada por Zeca Medeiros. Interpretava um dos filhos do casal composto por Miguel Guilherme e Ana Padrão. “A minha avó acabou por me levar a algumas gravações. Aquilo para mim era uma brincadeira, até porque habitava sobretudo a casa da família, não era propriamente uma participação com muitas falas.”

Cresceu rodeado de artistas, nos bastidores do teatro e da televisão. O fascínio foi aumentando com a idade e fazer parte do meio era quase uma inevitabilidade. Aos 11 anos participou numa curta-metragem de Cláudia Varejão e mais tarde fez alguns workshops.

Os tímidos transformados

Contrariamente a Wallenstein, Rafael Medrado é o primeiro ator da família. Nasceu em Salvador da Bahia, no Brasil, há 39 anos. Na escola, numa cerimónia de alfabetização — que celebrava o facto de as crianças já saberem ler e escrever —, teve de escolher aquela que via como a profissão do futuro. “Os meus colegas escolheram piloto de Fórmula 1, jogador de futebol e eu escolhi palhaço. Gostava daquela figura que, no espetáculo, era o mais ousado. Escolhi palhaço porque já era uma ideia ligada ao teatro.”

Com o irmão Vinícius, dois anos mais novo, e os amigos do condomínio e da rua, pintava linhas que delimitavam um campo e balizas no alcatrão para poderem passar o dia a jogar à bola. No bairro existia uma oficina de um estofador que era uma espécie de Meca para as crianças. “O dono era um senhor muito querido que nos deixava levar as sobras que tinha. Madeira, ferro, pregos, tecido, tudo servia para as nossas brincadeiras.”

▲ Ainda antes da pandemia, Vicente Wallenstein e os restantes atores já tinham tido reuniões para dar inputs sobre o texto

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Quando tinha cinco ou seis anos, Vicente Wallenstein mudou-se com a mãe e com o irmão, seis anos mais velho, para Cascais. Estudou no Centro Alfredo Pinheiro, uma escola inovadora naquela altura. “Era um projeto escolar que propunha uma espécie de ensino moderno. E digo ‘uma espécie’ porque algumas coisas se assemelhavam ao ensino tradicional e outras afastavam-se.”

Tinham atividades como expressão dramática, barro e até no ATL (Atelier de Tempos Livres) desenvolviam artes plásticas, como tecelagem. Além disso, apenas metade do dia era dedicado às disciplinas ditas normais.

Ainda assim, só no ensino secundário é que teve a certeza de que queria ser ator. “Nessa fase acabei por frequentar um workshop de teatro para jovens no Teatro da Garagem, que era lecionado pelo Nuno Nolasco. Estive lá dos 14 aos 18 anos. Aí percebi que era mesmo uma coisa que queria explorar porque, apesar de ser de frequência semanal, já estávamos a desenvolver linguagem teatral e a entender alguns conceitos.”

No final do nono ano chegou a ponderar seguir um curso profissional. Porém, apesar de ter sido exposto a uma data de experiências criativas e a uma escolaridade mais artística, os pais aconselharam-no a manter-se no percurso tradicional. “Acho que eles não estavam propriamente a querer desviar-me desse percurso, mas achavam que aquele não era o momento indicado para me especializar.”

Seguiu Ciências no décimo ano, mas a vertente de Artes continuou a pairar-lhe na cabeça. “Acabei por perceber: ‘Ok, vou acabar rapidamente o secundário para tentar fazer as provas para entrar na Escola Superior de Teatro e Cinema.”

Recorreu novamente a Nuno Nolasco para preparar a entrada no Conservatório e logo durante o curso estreou-se no teatro. “Tive a sorte e o privilégio de ser aluno do Álvaro Correia, que era diretor do departamento de teatro e, durante o segundo ano, tive com ele a cadeira de Interpretação. Na altura, ele encenava espetáculos no Teatro da Comuna e acabou por me convidar para integrar o elenco da peça Play Loud.”

Ficou surpreendido, não esperava começar a trabalhar tão cedo, mas desdobrou-se com entusiasmo. Durante o dia ia às aulas, à noite fazia o espetáculo com Cucha Carvalheiro, Lia Carvalho e Carlos Paulo. “Deu-me uma bagagem fenomenal para os projetos que vieram mais tarde.”

O menino tímido transformava-se em palco a cada sessão e essa perceção foi-lhe dando cada vez mais à vontade. “Foi também no Conservatório que, à medida que foi conquistando validação, se abriu um lado mais extrovertido.”

"Os meus pais e os meus tios não perceberam a minha escolha [de não escolher logo o curso de Teatro]. Na altura eu tinha uma namoradinha de escola e eles acharam que eu podia ter tido alguma desilusão amorosa", recorda Rafael Medrado.

Depois do ensino secundário, Rafael Medrado inscreveu-se no curso de Comunicação e Publicidade. “Isso, sim, foi uma questão para os meus pais e os meus tios. Sempre me apoiaram na representação, portanto não perceberam a minha escolha. Na altura eu tinha uma namoradinha de escola e eles acharam que eu podia ter tido alguma desilusão amorosa. Na verdade, eu achava que iria conseguir conciliar as duas coisas.”

E foi o que começou por fazer, inscrevendo-se num curso livre de teatro em simultâneo com as aulas na faculdade. Escolheu Publicidade não por uma questão financeira, mas por uma questão de oportunidades. “Eu não tinha muita noção do dinheiro, mas sabia que queria começar a trabalhar logo.”

Ironicamente, foi o curso de Teatro que lhe deu trabalho remunerado mais rapidamente. Fez um espetáculo numa companhia e foi convidado para fazer parte do elenco fixo, sendo pago por isso. “O teatro já exigia de mim responsabilidades porque eu era monitor de adolescentes, fazíamos apresentações em empresas e eu tinha de ter uma disponibilidade que concorria com a minha vocação para a Publicidade.” Seguiu-se um grande espetáculo, Os Cafajestes, que viajou pelo Brasil inteiro. “Ficamos em cena durante três anos, foi muito intenso.”

Estava então no quarto semestre da licenciatura e teve de explicar aos professores o que estava a acontecer. Teve sempre compreensão e apoio e concluiu o curso, embora fosse claro para todos que Publicidade não seria o futuro de Rafael Medrado. Fez um estágio curricular em duas agências e esse capítulo terminou aí.

Entendeu que, para se sentir seguro, precisava de trabalhar com ano e meio de antecedência e esse é um ritmo que tenta manter até hoje. “Fui-me organizando para ter sempre trabalho, bati a portas, nunca fiquei à espera de convites.” Garante que não teve pressa de entrar nos mundos do cinema ou da televisão. “No fim de Os Cafajestes fui convidado para uma novela da Globo, Araguaia, e recusei porque achei que era muito novo.”

Montou espetáculos, trabalhou textos, expandiu o conhecimento no mundo do teatro. Experimentou cinema e, quando estava mais do que confortável no mercado, virou a vida ao contrário e trocou o Brasil por Portugal.

Todas as paixões

No percurso de Vicente Wallenstein tudo aconteceu cedo. Quando terminou o curso, em 2016, criou a associação As Crianças Loucas. “Com um colega de turma, João Cachola, e outros amigos juntamo-nos com o objetivo de desenvolver um espetáculo, ainda sem a ideia clara de uma companhia, mas uma coisa acabou por levar à outra.”

Rafael Medrado tinha acabado de fazer um filme no Brasil e passava o tempo em voos de ida de volta para Madrid, Espanha, onde a mulher estava a fazer uma especialização. Quando isso terminou, o casal decidiu passar três meses em Portugal para passear, estudar e conhecer algumas coisas antes de regressar ao Brasil. Alugaram uma carrinha e fizeram o percurso entre as capitais espanhola e portuguesa.

No dia em que chegou, além de ter começado o curso na ACT, apaixonou-se por Lisboa. Passados os três meses que tinha definido para ficar, Rafael Medrado regressou ao Brasil para terminar um projeto. Foi também nessa altura que soube que tinha sido conseguido entrar no mestrado da Escola Superior de Teatro e Cinema, em Portugal.

Os dois anos do curso foram esticando e já vão em nove. Pelo meio nasceu uma filha, Beatriz, agora com três anos e meio. A mulher, Luana, é produtora cultural e também a história deles podia ser o enredo de um filme. “Ela tinha acabado de se mudar de São Paulo para a Bahia, era caloira na faculdade. Vi-a numa festa e disse a um amigo: ‘Nossa, que mulher maravilhosa’. Mas acabou aí, não fui falar com ela e passaram-se dez anos.”

Em 2015, no meio de milhares de pessoas no Carnaval de Salvador, reencontraram-se. “Ela veio na minha direção, linda, falou comigo e seguiu. Eu não tive reação, continuei parado, a sentir-me um idiota.” Luana procurou depois Rafael nas redes sociais e a história de amor nasceu. “Só demorou dez anos para acontecer”, brinca.

Ensaio de imprensa da peça ”Depois o Silêncio”, um texto de Arne Lygre, com direção de Álvaro Correia e interpretações de David Esteves, João Cachola e Vicente Wallenstein. Estreia a 26 de novembro no teatro da Comuna, Lisboa, 19 de novembro de 2015. JOÃO PORFÍRIO/LUSA

▲ Vicente Wallenstein nas peças "Mártir" e "Depois do Silêncio"

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Apesar de todos os projetos em que se envolveu desde cedo, Vicente Wallenstein sente que nunca conseguiu estabilizar-se financeiramente. “Há três anos decidi começar a dar aulas de teatro também e isso veio trazer-me alguma segurança, mas a verdade é que utopicamente gostaria de ser só ator.”

Dá aulas de expressão dramática em dois colégios e esse rendimento é o único que consegue ter como garantido.

“A sensação que tenho muitas vezes é que as únicas pessoas que conseguem realmente ter segurança financeira são as que estão constantemente a trabalhar em televisão. O teatro, na maior parte dos casos, não nos dá essa segurança. Permite-nos viver durante o tempinho em que estamos a fazer esse trabalho, mas não nos permite, se calhar, sobreviver durante os dois ou três meses seguintes até surgir outro trabalho”, lamenta.

Ainda assim, e apesar das frustrações inerentes à área, o nome de Vicente Wallenstein foi recentemente incluído na lista das European Shooting Stars de 2025, associada ao Festival Internacional de Cinema de Berlim. “Senti que foi uma janela de oportunidade para estabelecer alguns contactos que se abriu, com diretores de casting, produtores e realizadores internacionais. Mas dificilmente é mais do que isso.”

O seu currículo inclui títulos como Um Dia Frio, Matilha, 3 Mulheres ou O Teu Rosto Será o Último. Para a série sobre a história das Doce, Doce, interpretou uma personagem homossexual que faz também travestismo num clube noturno, sofrendo de todo o tipo de preconceitos que isso acarretava nos anos 80.

“Não era um mundo que me era muito próximo, portanto senti a responsabilidade de ter o máximo de conhecimento e de referências para poder fazer aquele papel. Acabou por ser muito especial.”

Rafael Medrado também sentiu que lhe faltava conhecimento quando, no filme Acenderam os Céus, interpretou uma personagem homossexual com HIV. “Tive de recorrer a uma coach para me guiar no processo. A orientação sexual nunca foi questão para mim, o que me pesava era aquela doença que eu não conhecia.”

Essa ajuda permitiu-lhe repensar a forma como preparava os seus trabalhos. “Era muito repetitivo e caótico. Depois percebi que preciso desta fase de alimentação em que tenho de ser uma esponja, há um momento em que não se produz nada, apenas se colhe.”

Quando vai para casa, Vicente Wallenstein consegue desligar-se desses papéis mais pesados, mas considera que eles o deixam a “fazer uma reflexão sobre a vida o tempo todo”. “Às vezes, frases que estamos a decorar para serem ditas, seja num espetáculo de teatro, numa série de televisão ou num filme, de repente, numa conversa que nada tem a ver parece é quase obrigatório que a frase saia porque ganha um significado por alguma coisa que nos disseram ou por alguma coisa que aconteceu.”

Acha que tem tendência para fazer papéis pesados e, quando isso acontece, a mãe costuma dizer-lhe que fica mais mal-disposto. Isso não acontecerá a partir de 24 de junho, quando a associação As Crianças Loucas estreia no Clube Estefânia um espetáculo, O Olho, do qual é produtor. Em julho começa os ensaios de uma produção dos Artistas Unidos e no próximo ano fará parte de uma série sobre a Marquesa de Alorna, A Marquesa.

Já Rafael Medrado integra o elenco da segunda temporada de Rabo de Peixe, que chegará à Netflix ainda este ano. Além disso, dá aulas de representação a jovens dos 15 aos 20 anos na In Impetus, em Lisboa, e tem vários projetos a preencherem-lhe os próximos meses. Mas, para já, estão ambos a saborear os episódios de O Zé Faz 25, à medida que se vão estreando. “É de uma riqueza que nem tínhamos noção quando gravámos”, garante Rafael Medrado.

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