Os Filhos da Droga. O título é por de mais familiar a quem quer que já andasse por aqui nos anos 80 ou 90. Estava escrito na lombada de um livro que existia em muitas estantes, em muitas casas. E mesmo quando não estava, pairava como uma espada sobre a cabeça das gerações que, então, cresciam e se tentavam fazer gente. Relatava as experiências de Christiane Vera Felscherinow – aliás, Christiane F. – pelas ruas de Berlim: as primeiras drogas aos 12 anos de idade, a heroína aos 13, a prostituição aos 14, depois das aulas, para pagar o vício, e a prisão aos 15, acusada de consumo e tráfico.
O livro, escrito, na verdade, por Kai Herrmann e Horst Rieck, dois jornalistas da revista Stern que, impressionados pelo depoimento da adolescente no tribunal, lhe pediram uma entrevista de duas horas que acabaria por se prolongar por dois meses, saiu em 1978 e venderia mais de sete milhões de exemplares só na Alemanha, permanecendo em primeiro lugar do top de vendas durante quase dois anos completos.
Em Portugal, foi publicado originalmente pelo Círculo de Leitores em 1981, o mesmo ano em que estreava a adaptação ao cinema: “Wir Kinder vom Bahnhof Zoo”, a estreia do realizador Ulrich Edel na longa-metragem e, igualmente, um êxito global e um dos mais bem-sucedidos filmes alemães de sempre no exterior, sucesso explicado provavelmente pelo choque de uma abordagem quase documental, explícita, e alavancado pela colaboração da super-estrela David Bowie.
[o trailer da adaptação de 1981:]
“Heroes” era o tema principal da banda sonora, Bowie vivia à época em Berlim, a mesma Berlim onde a heroína então aparecia como droga da moda. Ele mesmo foi um heroinómano e aconteceu ser durante um concerto dele que a jovem Christiane experimentou o primeiro “xuto”. (A heroína, a propósito, deve provavelmente o nome a “heroisch”, “heróico”, o adjetivo então usado por quem a usava para descrever a sensação de euforia provocada pelas primeiras trips. “We can be heroes / just for one day.”)
É esta história que conhece uma nova versão em 2021, agora em formato de minissérie de oito episódios. Produzida pela Amazon Prime, estreia entre nós na HBO Portugal com o título internacional: “We Children from Bahnhof Zoo” – à letra: “Nós, Crianças do Zoo Bahnhof”, ou seja, uma tradução para o inglês do título original do livro em que, aparentemente, o tradutor abandonou a meio [a tradução completa seria algo como “Nós, (as) Crianças da Estação de Comboio do Zoo”]. No entanto, à tradução literal não corresponde uma adaptação fiel; antes, uma versão que toma assumidamente algumas liberdades.
[o trailer de “We Children from Bahnhof Zoo”:]
https://www.youtube.com/watch?v=Jrm9pgnKpj0
Criada por Oliver Berben, Annette Hess, Linda Brieda e Sophie von Uslar e realizada por Philipp Kadelbach, “We Children from Bahnhof Zoo” traz uma leitura estilizada e poética da história de Christiane F. e do seu grupo de amigos, dos processos de desestruturação familiar, abandono e revolta de cada um deles, à inevitável queda no abismo. Estamos na Berlim dos anos 70, mas podíamos estar em qualquer outra grande cidade do mundo, em 2021.
Respeita-se os edifícios de então, a indumentária, os automóveis, a tecnologia, todos os elementos de “época”, mas a série não se compraz em qualquer espécie de reconstituição histórica ou viagem no tempo. As vicissitudes de estarmos em Berlim, a cidade dividida e isolada, símbolo da Guerra Fria, são apenas afloradas aqui e ali e, pelo contrário, procura-se, deliberadamente um não-datamento e uma confusão com os nossos dias (a gigantesca interpretação da discoteca Sound é, a esse respeito, particularmente sintomática). É uma pista de dança hoje – e a música que ouvimos, ali como na restante banda sonora, genialmente importada do presente. Sim, Bowie ainda mora aqui, mas, seguindo a lógica de “Peaky Blinders”, há pop contemporânea escolhida a dedo para fazer todo o sentido como som de um passado não ultrapassado.
Da Sound até à zona envolvente da estação de comboios do Zoo de Berlim, onde se irão prostituir, é uma caminhada rápida e inexorável. Chrisitane, Babsi, Stella, Axel, Michi e Benno são, de um modo geral, filhos de classe perfeitamente média, quando não alta, que vão cair em desgraça sem que a sociedade alemã se aperceba – e essa é a culpa de que não se consegue livrar nem entender.
Sem produzir especiais juízos de valor sobre os atos das suas personagens, “We Children from Bahnhof Zoo” opta por uma representação fortemente estilizada dos acontecimentos, preferindo o símbolo à descrição literal e minuciosa da queda: o primeiro xuto de Christiane, no concerto de Bowie, trazido numa bandeja de prata por uma figura mascarada, ou a morte de Babsi numa espécie de ascensão à felicidade tal como ela a imagina, carregada pelo DJ que nunca lhe ligou coisíssima alguma, são, a esse respeito, notáveis exemplos. Andamos em territórios “gender fluid” em mais do que um sentido, flirtando entre realidade, trip e sonho, passado e presente, tempo da história e tempo do espectador. O resultado é belo e económico numa narrativa que, na verdade, ao dia de hoje e tendo em conta a notoriedade do livro que a inspira, pouco poderia aspirar a surpreender.
Fica, porém, a dúvida se estes novos “Filhos da Droga” não estarão a embelezar demasiado o que não tem qualquer hipótese de ser belo. A degradação humana causada pela heroína nada tem de telegénico e quem quer que tente levar o tema ao ecrã tem de lidar com esse problema. Contudo, Philipp Kadelbach e os criadores da série fazem algumas opções bastante questionáveis. A mais gritante chama-se casting. O que ali vemos não é um grupo de crianças, como o título original pungentemente lhes chama, ou sequer de adolescentes, que era o que, de facto, eram, mas de jovens de 20 anos, universitários, um grupo de amigos que se diria saído dum programa Erasmus. Jana McKinnon, a protagonista, tem 22 anos e não parece menos do que isso, contra os 13/14 da personagem que representa; os atores do grupo de amigos rondam todos os vintes – e, mais uma vez, é isso que parecem. Em sentido contrário, os pais de Christiane parecem amigos apenas ligeiramente mais velhos: Angelina Häntsch, que faz de mãe, tem 36 anos; o pai, Sebastian Urzendowsky, os mesmos 36.
▲ Será que estes novos “Filhos da Droga” estarão a embelezar demasiado o que não é belo. A degradação humana causada pela heroína não é telegénico e quem leva o tema ao ecrã tem de lidar com isso
Mike Kraus / Soap Images / mike@soapimages.com
Seria muito chocante ver crianças ou adolescentes a drogarem-se com heroína e a prostituírem-se? Sem dúvida, mas é esse o ponto, não é? Foi isso que tornou tão chocante, revelador e importante Filhos da Droga, ao longo de duas décadas em que, fundamentalmente, pairou sobre as nossas cabeças como aviso sobre o que nos aconteceria se, alguma vez, também decidíssemos sentir-nos como heróis. Só por um bocadinho.
O resultado dessa escolha não é bom. Retira poder à tragédia e credibilidade ao drama (ninguém compra que aqueles são os pais da “pequena” Christiane – para já não falar da falta da mais ténue semelhança física entre mãe e filha). Por outro lado, anula o sentimento de absurdo que algumas cenas teriam, como a festa de anos para crianças, com balões e apitos, que a família de uma das jovens às tantas organiza, desconhecendo em absoluto que as “crianças” para quem preparou o bolo são já, na verdade, prostitutos e junkies que a sociedade berlinense alimenta e de que se alimenta. Acresce o excesso de estilo – é ver a cena em que os cinco amigos sobreviventes vão, de preto e cheios de sex appeal, desfilando em slow motion para o funeral do amigo que uma overdose acaba de levar desta para melhor.
Todavia, ao contrário do que acaba de suceder a Axel, no desenvolvimento das personagens não se apostou propriamente na dose – e é pena. Ao fim de quase oito horas de drama, ficamos com as mesmas vítimas que nos foram dadas nos primeiros minutos, vagas relações amorosas entre elas e uma protagonista que é descrita pelos amigos como “corajosa” e a pessoa mais “incrível” que já conheceram e a quem, na verdade, a única ação reveladora de carácter que lhe vemos fazer é profundamente egoísta e de consequências dramáticas para Babsi.
Será que Christiane F., esta Christiane F. em particular, tem então ainda alguma coisa para dizer ao mundo, depois de esse mundo já ter descoberto, nos anos 90, as abomináveis consequências do uso da heroína? É provável que sim. Apesar do embelezamento, traz a história a uma nova geração, num tempo em que as drogas matam mais do que nunca – só nos Estados Unidos, são 60 mil pessoas por ano, 35 mil das quais por heroína. Depois de alguns anos de decréscimo, o consumo da “H”, petit nom que lhe dão as personagens da série, volta a subir em flecha, impulsionado pela mistura com analgésicos legais e opiáceos baratos como o fentanil e o carfentanil, capazes de, em pequenas quantidades, pôr a dormir elefantes de seis toneladas.
Ao contrário do que o final da série possa sugerir, ao épico som de “Dog Days are Over” de Florence + The Machine, Christiane F. nunca se libertou do uso das drogas pesadas. Está viva, o que só de si é uma boa notícia, tem 58 anos e, em 2013, lançou novo livro – Mein Zweites Leben, A Minha Segunda Vida, desta feita com ajuda da jornalista Sonja Vukovic – em que relata o que se passou nas décadas seguintes, recaídas incluídas. Mas “We Children from Bahnhof Zoo” é, tudo somado, uma boa série, que volta a provar, depois de “Dark”, o vigor da atual produção televisiva alemã.
Todavia, se alguém nos perguntar, diremos sem hesitação: para estes assuntos, é favor consultar “Trainspotting”. Do alto dos seus 25 anos (28, contando a data de publicação do livro original), permanece sem rival.
Alexandre Borges é escritor e argumentista