- O que é a culpa?
- É então uma construção social?
- O tipo de educação pode então explicar a culpa?
- É uma emoção que nasce connosco ou que se adquire?
- Porque sentimos culpa?
- Como se manifesta a culpa, na prática?
- A culpa é sinal de alguma perturbação mental?
- De que forma desestabiliza o equilíbrio emocional?
- Há pessoas mais propensas à culpa do que outras?
- Como lidar com tudo o que provoca?
Explicador
- O que é a culpa?
- É então uma construção social?
- O tipo de educação pode então explicar a culpa?
- É uma emoção que nasce connosco ou que se adquire?
- Porque sentimos culpa?
- Como se manifesta a culpa, na prática?
- A culpa é sinal de alguma perturbação mental?
- De que forma desestabiliza o equilíbrio emocional?
- Há pessoas mais propensas à culpa do que outras?
- Como lidar com tudo o que provoca?
Explicador
O que é a culpa?
“É uma emoção autoconsciente que surge quando a pessoa perceciona ter tido um determinado comportamento, no qual transgrediu um valor e/ou regra importante, seja moral, social ou pessoal”, explica a psicóloga clínica Cátia Rodrigues.
A emoção da culpa leva quem a sente a um comportamento reparador, ou seja, desejo de confessar, pedir desculpa, gestão de danos. Como, por exemplo, compensar os filhos por sentir culpa de ausências prolongadas, devido ao trabalho, com prendas, programas e atividades de que gostam.
Na igreja católica a ideia de culpa é particularmente forte [na imagem em cima: representação de Adão e Eva — culpados porque comeram o fruto proibido — a serem expulsos do paraíso, de acordo com a Bíblia].
É então uma construção social?
Sim, até porque a culpa é baseada em normas, regras e valores estabelecidos pela sociedade, como um todo. Por isso, o sentimento de culpa surge quando esses padrões de comportamento, normalizados como aceitáveis, são quebrados, não são respeitados.
“A emoção da culpa pode desenvolver-se através de um processo de socialização com os outros, onde a pessoa vai adquirindo valores, normas e regras”, diz a psicóloga. Estas aquisições são interiorizadas através da cultura, da educação, da família ou da religião e podem influenciar e formar a experiência de culpa. “Nesse sentido, as situações em que a pessoa interpreta ter tido um comportamento que causou dano podem ser moduladas social e culturalmente.”
Por exemplo, uma pessoa a quem, culturalmente, foi transmitido e interiorizado o valor da presença em família, ao faltar a um encontro familiar sente que não cumpriu, que transgrediu. Pode então sentir culpa e necessidade de se justificar.
Por outro lado, uma pessoa a quem foi transmitido e interiorizou a independência como um valor, faltar a um evento de família é considerado normal. Neste caso, pode não sentir culpa, uma vez que interpreta o seu comportamento como coerente com os seus valores, com o que lhe foi incutido.
O tipo de educação pode então explicar a culpa?
De forma isolada, não. No conjunto, sim. O desenvolvimento progressivo da culpa tem vários fatores. “A interação com as figuras educacionais pode ter alguma influência no desenvolvimento da culpa e na extensão em que ela é experienciada”, diz Cátia Rodrigues.
Num contexto educativo em que as falhas são percecionadas como graves, acompanhadas por punições ou castigos, a criança pode interiorizar que não pode falhar e, perante essas situações, pode surgir o desenvolvimento de uma culpa excessiva.
Por outro lado, em contextos educativos facilitadores do diálogo e compreensão, em que as falhas são percebidas como oportunidades de aprendizagem, reparação ou correção, a criança pode viver uma culpa adaptativa direcionada para um comportamento reparador.
É uma emoção que nasce connosco ou que se adquire?
A culpa não nasce com as pessoas. Começa a manifestar-se na infância, aproximadamente aos três anos. “Esta emoção decorre do desenvolvimento de processos cognitivos complexos (como a aquisição da noção do eu, consciência do outro, atribuições de causalidade do seu comportamento, capacidades de autorreflexão e autoavaliação) e da apreensão de padrões sociais, valores e regras.”
É, portanto, um desenvolvimento progressivo. A criança começa a perceber o que é certo e o que é errado, tal como as consequências das suas ações sobre os outros. “A criança sente culpa quando percebe que teve um comportamento que causou dano a outra pessoa”, diz Cátia Rodrigues. Por exemplo, quando desobedece a uma regra, parte um brinquedo ou magoa outra criança.
Porque sentimos culpa?
A pessoa sente culpa quando interpreta que agiu de forma incoerente com os seus valores ou regras sociais impostas que pretende seguir e não conseguiu. “Não é a situação ou o comportamento, em si, que influencia o sentimento de culpa, mas a forma como este é interpretado, tendo como referência os valores e/ou regras considerados importantes”, acrescenta a psicóloga Marisa Marques.
Depois da culpa, tenta-se agir. Depende de pessoa para pessoa, naturalmente. Assume-se a culpa de várias formas: tentando recuperar uma relacção, uma amizade, cooperando em ações altruístas para aliviar esse sentimento — como uma recolha de fundos, um donativo, a participação numa iniciativa social.
Como se manifesta a culpa, na prática?
A culpa pode manifestar-se ao nível cognitivo, emocional e comportamental. Através de tristeza e frustração, pensamentos negativos e desconfortáveis, apatia e baixa autoestima. Mesmo em termos físicos, a culpa pode provocar cansaço, insónias, perda de apetite, enxaquecas e problemas gastrointestinais.
Na dimensão cognitiva, segundo Cátia Rodrigues, podem aparecer pensamentos de autorreflexão e autoavaliação. Ou seja, pensamentos que questionam um comportamento errado que não devia ter acontecido. De ruminação também, isto é, pensamentos repetitivos sobre a situação.
“No domínio emocional podem surgir sentimentos de remorso, tensão e arrependimento. A componente comportamental pode expressar-se por ações reparadoras, como envolvimento em comportamentos para reparar ou compensar o dano, pedir desculpa, fazer confissões”, adianta a psicóloga clínica.
A culpa é sinal de alguma perturbação mental?
A culpa, por si só, não é sinal de perturbação mental. “No entanto, os sentimentos excessivos ou persistentes de culpa podem manifestar-se em algumas perturbações mentais”, diz Cátia Rodrigues.
Por si só, não é uma emoção destrutiva e incapacitante. Contudo, segundo os especialistas, a sua manifestação excessiva e prolongada pode originar sofrimento emocional significativo e interferir no funcionamento da pessoa em várias áreas da vida.
De que forma desestabiliza o equilíbrio emocional?
Quando a culpa se manifesta de forma persistente e excessiva, pode interferir no bem-estar emocional. De várias maneiras: o sofrimento e a frustação são alguns dos exemplos.
“Quando a culpa continua a persistir de forma exacerbada, com pensamentos repetitivos sobre o comportamento, emoções como tristeza, ansiedade e vergonha, pode levar ao desenvolvimento de sofrimento emocional significativo”, avisa a psicóloga Marisa Marques. Essa persistência, e até mesmo desproporcionalidade do sentimento de culpa, pode, em algumas situações, interferir no funcionamento da pessoa, levando ao isolamento, a evitar situações que façam recordar aquele acontecimento, a alterações no padrão de sono. Tudo isso tem impacto na saúde mental.
“Não existe uma perturbação mental específica de culpa, mas os padrões excessivos e inadequados de culpa podem estar presentes em alguns quadros clínicos, como depressão, Perturbação de Stress Pós-Traumático ou Perturbação Obsessivo-Compulsiva.”
Há pessoas mais propensas à culpa do que outras?
A culpa faz parte do reportório emocional das pessoas. Há, porém, diferenças de umas para as outras na forma como é vivida na sua intensidade e frequência. Por isso, sim, há umas mais predispostas do que outras.
Depende também dos contextos. “A pessoa que tendencialmente regula o seu comportamento por regras e/ou valores, que interiorizou como importantes, sente culpa perante situações em que interpreta ter tido um comportamento que os transgrediu”, diz a psicóloga Marisa Marques, acrescentando que algumas características, como perfecionismo, elevados níveis de exigência para com o próprio, autocriticismo ou necessidade de controlo podem levar a uma maior propensão para a resposta emocional de culpa.
Como lidar com tudo o que provoca?
A psicóloga Cátia Rodrigues dá alguns conselhos:
- Observar a emoção da culpa e os pensamentos associados, acolhendo-os sem julgamento, identificando a razão pela qual a culpa está a surgir;
- Evitar ou suprimir a culpa e os pensamentos tende a intensificá-los;
- Analisar a responsabilidade na situação;
- Reconhecer e aceitar a falha;
- Explorar e identificar aqueles que podem ser eventuais comportamentos reparadores, distinguindo o que está e o que não está sob o seu controlo;
- Aceitar que não se pode mudar o que aconteceu (passado), retirando as aprendizagens e, de forma gentil, direcionar a atenção para o momento presente e para aquilo que pode fazer;
- Praticar o auto perdão;
- Quando a culpa se torna excessiva e persistente, interferindo no bem-estar emocional, recorrer a um profissional de saúde.