O texto publicado na rede social Facebook é atribuído a Jacques Attali, um economista francês que foi conselheiro de François Mitterrand, presidente francês entre 1981 e 1995. Sob o título “A seleção de idiotas será feita por si mesma”, o autor escreve alegadamente sobre como a sociedade deve lidar com a população mais idosa.

“No futuro, será uma questão de encontrar uma forma de reduzir a população. Vamos começar pelos velhos porque, depois de ter mais de 60-65 anos, o homem vive mais do que produz e custa caro à sociedade. Os fracos e depois os inúteis que não contribuem com nada para a sociedade porque haverá cada vez mais e, principalmente, finalmente, os estúpidos. A eutanásia dirigida a estes grupos; a eutanásia deve ser um instrumento essencial das nossas sociedades futuras, em todos os casos”, lê-se na publicação que está a ser partilhada nas redes sociais por vários utilizadores e em várias línguas — além do português, há, também, publicações semelhantes em inglês e em espanhol, por exemplo.

Este texto aparece identificado como sendo um excerto da obra “Breve história do futuro”. De facto, Attali é o autor de um livro com este título em que relata a “história” dos próximos 50 anos, baseando-se nos factos e contexto atuais e a partir de tudo o que sabemos da História e da Ciência. “Será que é possível caminhar rumo à abundância, erradicar a pobreza, possibilitar a cada um desfrutar equitativamente dos proveitos da tecnologia, preservar a liberdade dos seus próprios excessos como os dos seus inimigos, deixar às gerações vindouras um ambiente mais bem protegido, dar origem, a partir de todas as sabedorias do mundo, a novas formas de viver e de criar juntos?”, questiona-se o autor.

A publicação refere também que a obra é de 2009, o que suscita logo dúvidas, uma vez que esta informação não só diverge em cada uma dessas publicações, como constatou a AFP, como o verdadeiro livro de Attali foi publicado pela primeira vez em 2006. Mesmo assim, nalgumas destas publicações, o conteúdo do texto é mesmo aproveitado para estabelecer uma ligação com a pandemia de Covid-19, cujo vírus só se disseminou internacionalmente em 2020. Nessas, afirma-se mesmo que o autor previu a pandemia.

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Jacques Attali é economista e, de facto, foi assessor do presidente francês François Mitterrand e é autor vários trabalhos na área da sociologia, já escreveu romances, biografias e até mesmo livros infantis.

A AFP não encontrou nos seus textos o conteúdo literal da referida publicação. Mas encontrou uma referência a este tema numa entrevista que ele deu a Michel Salomon, e que acabou num livro de entrevistas chamado “L’Avenir de la vie”, editado em 1980. Ainda assim, essa referência não corresponde ao que o autor defende, segundo o próprio:

Este texto [que anda a circular nas redes] é totalmente inventado”, justificou Attali à AFP em abril de 2021. “Não se aproxima em nada do texto inicial. É como dizer que escrevi ‘Mein Kampf’ [‘Minha luta’, o livro de Adolf Hitler]”, disse o economista.

No livro de entrevistas de Salomon, Jacques Attali respondeu à pergunta: “É possível e desejável viver 120 anos?”. E a sua resposta, mais próxima com a publicação, foi: “Mas assim que passamos dos 60/65 anos, o homem vive mais tempo do que produz e então custa mais à sociedade”. Attali também defendeu a ideia de que, “do ponto de vista da sociedade, é preferível que a máquina humana pare abruptamente ao invés de se deteriorar gradualmente”.

O antigo conselheiro de Mitterrand explica que, “na própria lógica da sociedade industrial, o objetivo não será prolongar a expectativa de vida, mas fazer com que, num determinado período, o homem viva o melhor possível, mas de tal forma que as despesas de saúde sejam as mais baixas possíveis em termos de custos coletivos”.

No livro, o economista conclui (tradução livre): “A eutanásia será um dos instrumentos essenciais das nossas sociedades futuras em todos os casos. Numa lógica socialista, para começar, o problema é o seguinte: a lógica socialista é a liberdade e a liberdade fundamental é o suicídio; consequentemente, o direito ao suicídio direto ou indireto é um valor absoluto neste tipo de sociedade. Numa sociedade capitalista, as máquinas de matar, as próteses que tornarão possível eliminar a vida quando ela for insuportável demais ou economicamente muito cara, aparecerão e serão uma prática comum. Acredito, portanto, que a eutanásia, seja como um valor de liberdade ou como uma mercadoria, será uma das regras da sociedade do futuro.”

Esta não é a primeira vez que atribuem a Attali a defesa da eutanásia a partir dos 65 anos. Um tribunal francês condenou mesmo uma revista médica por difamação, em 1985, por ter afirmado o mesmo. À AFP, Attali lamentou: “Como sempre, sou acusado de desejar algo que eu apenas prevejo e denuncio.”

Conclusão:

Jacques Attali escreveu o livro “Breve História do Futuro”, onde prevê que a eutanásia será um instrumento das sociedades futuras “em todos os casos”, funcionando como “um valor de liberdade” ou mesmo uma “mercadoria”. Numa entrevista em que lhe perguntaram seria “possível e desejável viver 120 anos?”, o economista considerou que a partir dos 60/65 anos, “o homem vive mais tempo do que produz e então custa mais à sociedade”. Além do texto que assinou não corresponder ao excerto que circula nas redes sociais, o próprio autor já declarou que estas afirmações são falsas e que já não é a primeira vez que é acusado de “desejar” aquilo que prevê ou denuncia.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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