Está a circular nas redes sociais há cerca de duas semanas (desde os primeiros dias de agosto) um vídeo em que um bombeiro relata a forma como, rodeado por um “fogo fora de controlo”, conseguiu salvar uma criança de dentro de um carro apanhado pelas chamas. “Sou o Tiago. Sou bombeiro há 9 anos. Ontem por pouco não voltei”, começa por referir o alegado bombeiro, filmando-se numa zona onde estaria a lavrar um incêndio. Por trás, veem-se dois outros bombeiros a combater o fogo.

“O fogo estava fora de controlo, avançava por cinco frentes. Árvores a cair, animais a fugir. Num dos acessos encontrei um carro virado. Lá dentro um homem ferido gritava ‘a minha filha ainda está lá dentro, salve-a por favor.’ Voltei, quase sem ar, peguei na menina, que tremia com os olhos cheios de fumo. Consegui trazê-la, ela sobreviveu”, relata o bombeiro, acrescentando que ainda tentou socorreu o pai da criança, que acabou por não resistir aos ferimentos. “Mas quando voltei para o pai, já era tarde. Ele não resistiu, e aquele grito ainda está comigo. Hoje estou aqui com o uniforme ainda cheirando a fumo. Não quero palmas nem medalhas, só queria que dissesses ‘Força Tiago, que Deus te guarde’. Se esta história também te tocou, partilha com quem precisa”, diz o alegado bombeiro.

O vídeo começou a circular nas redes sociais — nomeadamente no Facebook — antes de Portugal ter registado a primeira morte decorrente dos incêndios florestais deste ano. Carlos Dâmaso, de 43 anos, morreu enquanto combatia as chamas na aldeia de Vila Franca do Deão, no concelho da Guarda. O corpo carbonizado do empresário agrícola (e ex-presidente da junta de freguesia daquela localidade) foi encontrado ao final da manhã de dia 15 de agosto numa das suas propriedades.

Entretanto, já há a lamentar uma segunda morte: a de um bombeiro da Covilhã que perdeu a vida quando o carro de combate às chamas em que seguia (com outros operacionais) se despistou na aldeia de São Francisco de Assis. 

Não há, no entanto, registo de qualquer morte de um civil nas circunstâncias descritas no vídeo pelo alegado bombeiro.

Para além de a história relatada não ser real, o bombeiro que surge no vídeo também não existe. O vídeo em causa foi gerado com recurso a Inteligência Artificial (IA) como, aliás, é visível no canto inferior direito, onde surge a inscrição em inglês ‘AIgenerated’. O Observador recorreu a dois sites de verificação de conteúdos gerados por IA e confirmou isso mesmo.

Conclusão

O vídeo no qual um bombeiro relata a forma como salvou uma criança durante os fogos (enquanto o pai da menina não resistiu e morreu no local) é falso. O vídeo em causa, que tem sido insistentemente partilhado nas redes sociais, foi foi gerado com recurso a Inteligência Artificial, como o Observador confirmou em dois sites de verificação de conteúdos gerados por IA.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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