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A pequena aldeia de Vila Franca do Deão ficou completamente cercada pelo incêndio
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▲ A pequena aldeia de Vila Franca do Deão ficou completamente cercada pelo incêndio

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲ A pequena aldeia de Vila Franca do Deão ficou completamente cercada pelo incêndio

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Vila Franca do Deão, a aldeia do amigo autarca que morreu apanhado pelo "vento que parecia o Diabo"

Carlos Dâmaso morreu a combater as chamas que ameaçavam as vacas do autarca que o derrotou nas últimas eleições. Mas Vila Franca do Deão é uma terra sem rivalidades, onde o fogo "deixou tudo ardido".

“Tinha começado há pouco. Há meia hora, para aí. E nós vimos daqui o fogo. Então, alguns agarrámos no trator da junta, outros nos carros, e fomo-nos pôr lá em baixo, a ver se o conseguíamos dominar.” Eram seis ou sete. Tudo “malta jovem” para os padrões de Vila Franca do Deão. A maioria tinha “30 e tal, 40 anos”, mas o mais novo entre eles era Hugo Raso. O jovem de 17 anos explica ao Observador que o grupo se deslocou com urgência para tentar acudir às vacas do atual presidente da junta. “Queríamos evitar que o fogo passasse aqui para cima, para a nossa aldeia. Não conseguimos, porque o vento era muito intenso e era mato de um lado, mato do outro.”

Ainda que na freguesia vizinha de Pêra do Moço estivesse a ser combatido nos últimos dias um incêndio de dimensão significativa, ali, a progressão das chamas, pela encosta do monte que separa as duas aldeias, ao início da manhã de sexta-feira, pareceu ter surpreendido os populares e o corpo de combate aos fogos na região. “Éramos só nós mesmo, os da aldeia. Estávamos com o trator da junta, que tem o kit de incêndio, e tínhamos lá pás e enxadas, mas não valeu a pena“, lamenta Hugo Raso.

O testemunho é dado cerca de 24 horas depois da morte de Carlos Dâmaso, que foi cercado pelo fogo numa zona remota da freguesia, ao lado de uma ribeira onde apenas há uma estreita e longa estrada de terra batida. “Eu e mais dois rapazes ficámos mais para trás a ver se não deixávamos passar as chamas e eles correram para a frente, porque o fogo já tinha passado para cima do caminho. Alguns fugiram para a frente com o trator e outros ficaram ali bloqueados no fumo. E, depois, foi aí que houve o desastre.”

▲ Dâmaso foi cercado pelo fogo enquanto salvava vacas de um amigo e rival político. A manada foi colocada numa zona de pasto que resistiu ao incêndio, mas o terreno envolvente ficou todo queimado.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Hugo Raso conta que, quando o seu grupo estava a chegar aos carros para sair do local, apareceu o rapaz que tinha seguido na outra direção com Carlos Dâmaso, “todo queimado nas costas“. Diogo Cecílio seria encaminhado em estado grave para a Unidade Local de Saúde Universitária de Coimbra — durante a noite chegou à aldeia a informação de que o enfermeiro de profissão mostrava sinais de melhoria e já falava. Contudo, além das duas vítimas, outro habitante da aldeia, que é militar da GNR, também se viu envolto nas chamas. “O GNR vinha para o pé de nós e o vento era cada vez mais forte de modo que ele estava a correr e as chamas a passar por cima dele. E nós: Corre Tiago! Corre Tiago! Ele ainda passou e está bem.”

Ao contrário de outros relatos, Hugo esclarece que Carlos Dâmaso não se separou do grupo para recuperar nenhuma viatura. “Ele foi a fugir do fogo que, por causa do vento, vinha com muita força.” E ainda que estivessem várias pessoas próximas do antigo autarca, ninguém o ouviu quando ficou para trás. Só souberam da sua morte depois de as chamas passarem e se terem apercebido que estava desaparecido. “O fumo era muito intenso e ele deve ter desmaiado, porque já não conseguia mais”, explica Hugo Raso.

Amândio, o braço direito de Dâmaso

Carlos Dâmaso foi eleito presidente da junta de Vila Franca do Deão em 2013, como candidato independente apoiado pelo Partido Socialista. Nos oito anos que serviu à frente da autarquia teve como seu braço direito Amândio Quintana. O octogenário diz ao Observador que não só perdeu um amigo, mas “um colega”. Perdeu-o para o fogo que “deixou tudo ardido”. Este ano fazia novamente parte da lista independente liderada por Dâmaso, que visava recuperar a freguesia com cerca de 150 eleitores. Amândio explica que, ao longo dos últimos quatro anos continuou envolvido com a junta, mas decidiu juntar-se à lista do candidato da oposição porque não se estava “a entender muito bem com o senhor presidente”, o atual autarca Pedro Prata.

▲ Amândio Quintana pertencia à lista de Carlos Dâmaso para a junta de freguesia de Vila Franca do Deão.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Ti Amândio”, como é conhecido pelos vizinhos, conta que a política também esteve na origem de “um desentendimento” que teve com o antigo autarca nas últimas autárquicas. “O Dâmaso fez uma lista do Chega e eu nunca iria para o Chega. Eu era do PS há 50 e tal anos, desde o 25 de Abril.” Mas “Ti Amândio” desdramatiza o diferendo entre os dois: “Fomos sempre amigos, não fomos rivais“. E o episódio que ditou a morte do antigo autarca também é prova de que os diferendos políticos na freguesia não se interpunham no sentimento de solidariedade dos locais: Carlos Dâmaso foi dos primeiros a deslocar-se em direção à linha da frente do fogo para proteger o gado do candidato que o superou nas últimas eleições.

A rápida intervenção dos populares não impediu as chamas de se acercarem da povoação e o combate ao fogo continuou pela noite dentro, até para lá das quatro da manhã. Já na manhã de sábado, “Ti Amândio” começou bem cedo a fazer um levantamento dos danos às suas propriedades. Arderam pelos menos quatro hectares de mato que lhe pertenciam e uma quantidade de lenha de castanheiro suficiente para encher uma dúzia de tratores, madeira essa que tinha cortado durante o inverno e guardava noutra propriedade.

“É uma tragédia. Nós temos grandes prejuízos em Vila Franca do Deão, mas o nome de uma pessoa não se paga. Deixou-se fugir a ajudar os amigos”, recorda desolado, assinalando que os populares “não tiveram o apoio de quase ninguém a não ser dos sapadores” do município da Guarda. “Só não ardemos nós porque não calhou.”

Manhã de levantamento das perdas

Nas primeiras horas da manhã de sábado, antes de o calor abafado regressar, alguns residentes espalharam-se pelo território de Vila Franca de Deão para apurar os danos do incêndio do dia anterior. Uns montados em tratores, outros em motas, e ainda alguns a pé. “Até era para trazer o trator, mas o melhor que fiz foi vir a pé, para apreciar bem de perto“, diz ao Observador um aldeão que carregava uma enxada às costas enquanto subia uma longa estrada alcatroada, em direção à zona mais elevada da freguesia. Até estranha, quando é questionado se conhecia Carlos Dâmaso. “Aqui toda a gente se conhece, não é? É uma aldeia pequenina.”

Mais em cima, na continuação da estrada de alcatrão, outra habitante idosa faz as contas àquilo que o fogo levou. Prejuízos? “Não se sabe, ainda nem fui ver tudo. Ainda não fui àquele outro prédio, além”, diz, apontado para uma zona menos elevada do monte. Numa manhã em que toda aldeia ainda digeria a tragédia do dia anterior, Olímpia Boa era das poucas pessoas que, entre momentos de maior emoção, conseguia mostrar alguma boa disposição. “Isto é a terra das Boas”, disse, sorrindo, segurando uma foice com uma mão e com a outra carregada de tomates.

Olímpia revela depois que é mulher de um “grande amigo” de Carlos Dâmaso, com quem se ia candidatar novamente à junta, o “Ti Amândio: “Não era a minha vontade, porque ele já tem 81 anos”. E foi precisamente a idade avançada que levou a própria Olímpia não se aventurar no combate às chamas. “Já tenho 76 anos, não podia ter ido combater os incêndios”, diz, assinalando que não se lembra ter passado por ali um fogo que chegasse tão perto das casas. Sobre o incidente de sexta-feira, acrescenta ainda que é também avó do militar da GNR que conseguiu escapar às chamas. “O vento parecia o Diabo, Nosso Senhor me perdoe”, lembra, enquanto atira um olhar de aflição para o céu.

▲ Na manhã a seguir ao incêndio, vários moradores saíram de casa para perceber a dimensão dos estragos. Olímpia [na última fotografia] encontrou parte das suas vinhas queimadas.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Capela mortuária espera corpo de Dâmaso

Manuel Rocha é um calceteiro de Penafiel, mas tem uma afinidade especial com a terra e o povo de Vila Franca de Deão. Conta orgulhosamente que é primo de Tino de Rans (com quem partilha a profissão) e que tem passado regularmente na aldeia porque esteve a trabalhar na renovação da capela da freguesia, que foi inaugurada quinta-feira. Manuel Rocha recorda ao Observador que, ainda esta semana, Carlos Dâmaso passou por ele e lhe disse de forma jocosa: “Ó calceteiro, vai meter pedra!” Ao início da manhã do próprio dia em que o antigo autarca morreu, tinham-se cruzado na Guarda. “Depois do almoço, quando cheguei à tua aldeia Vila Franca do Deão ouvi que havia um fogo muito grave e — a pior notícia — que tinhas falecido no meio do fogo. Nem queria acreditar“, relatou nas redes sociais.

Se o inchaço dos joelhos de Manuel Rocha o impediu de estar ativamente na linha da frente do combate às chamas, o calceteiro arranjou forma de prestar homenagem ao seu amigo de outra forma. Sabendo que muitos dos seus outros amigos da aldeia tinham ficado até de madrugada a tentar afastar as labaredas, Rocha levantou-se cedo para limpar a capela da freguesia. Ainda com as cerimónias fúnebres por marcar, o calceteiro preparou a câmara mortuária — com o seu empedrado à porta por estrear — para receber o corpo de Carlos Dâmaso, que ficou carbonizado. Ficou desiludido, ao ser informado que o velório pode vir a não se realizar. “Se calhar nem vem para aqui, devido ao estado do corpo”, diz, lamentando que isso aconteça porque garante que “a população quer vê-lo” antes do funeral.

▲ A capela que Manuel Rocha preparou, mas que pode não receber o corpo do "amigo" Dâmaso.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ao longo da manhã de sábado, familiares e amigos foram-se cruzando no largo que recebe quem chega a Vila Franca do Deão, onde todos os habitantes têm trato de proximidade. Entre os lamentos pela morte “do Dâmaso”, que deixa uma filha de 11 anos, reconhece-se que o desfecho trágico do incêndio que lavrou por toda a aldeia não aconteceu por falta de voluntarismo entre os locais: “Ninguém podia acudir ninguém“.

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