Circula nas redes sociais uma publicação que dá conta de que um “responsável regional do Santander” abandonou o estúdio do Jornal da Noite, na SIC, “furioso” depois de um debate com o jornalista da RTP José Rodrigues dos Santos sobre “créditos e inflação”. A publicação é falsa, relata uma discussão que nunca aconteceu e repete uma fórmula já usada em muitas outras publicações falsas destinadas a promover supostas plataformas de investimentos.

“O que deveria ser um debate sobre créditos e inflação terminou em caos total. José Rodrigues dos Santos acusou o Banco de Portugal e o Santander de esconderem uma forma de ganho que enriquece as pessoas comuns à custa dos bancos”, lê-se na publicação, formatada como se fosse uma “notícia” escrita pelo jornalista Diogo Ferreira Nunes, que trabalhou durante vários anos no jornal Eco e que atualmente escreve sobre política de transportes em vários meios de comunicação portugueses.

“Cenas de choque no estúdio da SIC quando o responsável do Santander se recusou a responder e abandonou a transmissão”, diz o título da suposta notícia, que surge com a data de 29 de março de 2026 numa das versões da publicação consultadas pelo Observador e de 6 de abril de 2026 noutra.

Exemplo de publicação consultada pelo Observador no Facebook

A publicação conta, depois, que o “episódio de ontem do ‘Jornal da Noite’ com Rodrigo Guedes de Carvalho entrará para a história como o mais dramático de sempre a ser transmitido”, depois de uma discussão entre o economista Pedro Castro e Almeida, antigo presidente executivo do Santander, e o jornalista da RTP José Rodrigues dos Santos, apresentado na publicação como “o pivô conhecido por chamar os bois pelos nomes”.

A suposta notícia descreve depois uma discussão que “aqueceu quando o tema passou para o endividamento das famílias portuguesas”. Segue-se, depois, a “transcrição do diálogo que a SIC tentou interromper”.

O alegado diálogo começa com Rodrigo Guedes de Carvalho a perguntar ao dirigente do Santander se “é justo que as pessoas percam as suas casas devido às taxas de juro”. Depois, é atribuída a Pedro Castro e Almeida uma declaração em que o economista destaca que “o crédito é uma ferramenta de crescimento” e que “as pessoas têm de aprender a gerir as suas finanças e a poupar mais”.

Neste ponto da suposta conversa, José Rodrigues dos Santos interromperia a discussão para acusar Castro e Almeida de “defender os grandes bancos, como o Santander, enquanto as pessoas comuns sangram” e de “mentir aos portugueses”. A conversa rapidamente mudaria de rumo e José Rodrigues dos Santos é apresentado como estando a defender os portugueses e a acusar os bancos de esconderem verdadeiras formas de ganhar dinheiro. De seguida, a publicação coloca José Rodrigues dos Santos a apresentar “sistemas de negociação automatizados baseados em inteligência artificial” e a promover a plataforma “Vasto Câmbiante”, uma plataforma de investimentos que supostamente aproveitaria “as flutuações do mercado” para dar mais valor aos investidores.

“Você odeia isso, Pedro, porque se todos os portugueses começarem a usá-lo, os bancos perdem o seu poder. O segredo foi revelado”, teria dito José Rodrigues dos Santos. Depois, segundo a publicação, Pedro Castro e Almeida levantar-se-ia, gritando “não tolerarei isto” e saindo furiosamente do estúdio. A publicação acrescenta ainda frases que pertenceriam à notícia, dando conta da experiência de vários utilizadores satisfeitos com os grandes ganhos que obteriam na plataforma, apresentando exemplos concretos de como investir e ganhar dinheiro e ainda justificando tudo com declarações de especialistas como o economista Ricardo Arroja.

O problema? Tudo isto é falso.

Em primeiro lugar, há pormenores que não batem certo. Um debate no Jornal da Noite da SIC entre um economista e o pivô do Telejornal da RTP, concorrente direto daquele jornal, simplesmente não aconteceria. É habitual que nas televisões haja comentários e debates protagonizados por jornalistas da casa — ou, então, de jornais ou rádios —, mas nunca das outras estações de televisão.

Em segundo lugar, a “notícia” assinada pelo jornalista Diogo Ferreira Nunes também não existe. Uma pesquisa no Google Notícias pelo texto exato do primeiro parágrafo da notícia não devolve qualquer resultado. Indo diretamente à fonte, o resultado é o mesmo: basta consultar as páginas do Eco (onde o jornalista trabalhou até 2023); do Expresso, 24Notícias e Diário de Notícias (onde escreve como freelancer) ou do Público (onde participa no podcast “Sobre Carris”) para perceber que não há nenhuma notícia que corresponda a este texto.

Sobre este aspeto, há ainda dois fatores a ter em conta: por um lado, nem sequer há coerência entre as várias versões da publicação sobre a data da notícia; por outro lado, artigos supostamente assinados pelo jornalista Diogo Ferreira Nunes, particularmente procurando imitar o grafismo do Eco, já foram no passado usados para ilustrar publicações falsas que procuram promover plataformas de investimento.

Mas o fator que mais evidentemente mostra que se trata de uma publicação falsa é a referência à plataforma “Vasto Câmbiante”. Esta não é a primeira publicação falsa que procura promover esta suposta plataforma de investimentos com recurso a inteligência artificial. Em abril, já foram identificadas várias publicações manifestamente fraudulentas que procuravam promover esta plataforma. Uma delas alegava que António Lobo Antunes tinha deixado aos seus herdeiros um acesso a esta plataforma; outra que o governador do Banco de Portugal tinha abandonado um programa de televisão depois de ser acusado de querer esconder esta plataforma.

De resto, nem sequer é a primeira vez que surge uma publicação que associa Pedro Castro e Almeida e José Rodrigues dos Santos a esta situação. Também em abril, outra publicação falsa tinha alegado que o tal suposto debate na SIC entre os dois tinha terminado em violência física depois de o jornalista da RTP ter defendido o uso da plataforma “Vasto Câmbiante”.

Ao mesmo tempo, esta publicação falsa repete uma fórmula já vista em várias ocasiões no passado para promover plataformas de investimento. São muitos os fact-checks que pode encontrar no Observador sobre publicações que falam de alegadas entrevistas interrompidas a meio quando o entrevistado começa a tocar no tal ponto sensível — as plataformas de investimento altamente lucrativas que a banca tradicional quer, supostamente, esconder dos portugueses.

Conclusão

Trata-se de uma publicação manifestamente falsa. A notícia assinada por Diogo Ferreira Nunes não existe e a publicação repete a fórmula usada em várias outras publicações falsas para promover de forma fraudulenta esta e outras plataformas de investimento.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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