Apesar de ter sido em grande parte um homem dos bastidores da administração Trump, o rosto de Stephen Miller, o novo chefe de gabinete do Presidente dos Estados Unidos, é bastante conhecido. Quanto mais não seja, graças a posters espalhados em Washington, desde que começaram os protestos contra os agentes ICE e as políticas anti-imigração, que imprimem a cara de Miller e lhe juntam a frase “o fascismo não é bonito”.
O novo chefe de gabinete de Trump, que vem substituir Susie Wiles, é anunciado dias depois do balde de água fria que foram, para os republicanos, as eleições intercalares norte-americanas e parece vir em sentido contrário às lições que intuitivamente se poderiam retirar. Se os eleitores pareceram demonstrar a sua desilusão com a administração Trump e viraram a agulha para os democratas, Miller é não só um dos principais rostos da linha dura que acompanha Trump, como o homem definido como o arquiteto das mais agressivas políticas contra a imigração desta administração.
O Wall Street Journal escreveu aliás, após a derrota republicana, que Trump terá admitido que as políticas de imigração de Miller foram “longe demais”, depois de a primeira dama, Melania Trump, também se ter queixado das deportações de pessoas que conheceria; em locais com predominância de eleitores latinos, a viragem para os democratas foi avassaladora.
Ainda assim, com 41 anos, Stephen Miller, que era até agora vice-chefe do gabinete, é amplamente descrito como um dos homens mais influentes não só da administração Trump, mas do país. É, de resto, um dos conselheiros com mais “longevidade” da era Trump: resistindo à dança frequente de conselheiros e adjuntos, ou até de cargos mais altos, Miller trabalha com Trump desde a sua primeira campanha presidencial, em 2016, tendo começado por escrever discursos para o Presidente.
Stephen Miller, nascido em 1985 e criado na democrata Califórnia, é ele próprio descendente de imigrantes, mais concretamente neto de refugiados judeus. Começou a participar em programas conservadores de rádio e em colunas de jornais ainda enquanto adolescente, mas já com opiniões fervorosas; ganhou estatuto depois de defender três estudantes brancos da sua universidade, a Duke University, acusados falsamente por uma mulher negra de violação; chegou a trabalhar como assessor no Senado e nos gabinetes dos elementos do conservador Tea Party e tornou-se uma figura conhecida entre os republicanos mais radicais, sobretudo nas questões das guerras culturais.
Mas foi no consulado de Trump que conquistou o estatuto de figura nacional. Em 2019, disse ao Washington Post que sentiu um “choque elétrico na alma” quando este anunciou a sua primeira candidatura à Presidência. Começaria depois a participar nos comícios e a discursar regularmente antes de Trump.
“Coloca vidas em risco”. A defesa do ICE e a desilusão da família
O estilo agressivo e as opiniões vistas como extremistas, sobretudo no que toca à imigração, foram uma desilusão para pelo menos parte da família, que esperava que mudasse e se tornasse mais moderado. “Entristece-nos ainda mais dada a aventura dos nossos antepassados”, chegou a dizer ao Expresso um tio de Miller, David Glosser. “Chegaram aqui fugidos do autoritarismo czarista. É o mesmo sonho americano que muitos dos recém-chegados de hoje procuram. O meu sobrinho é, simplesmente, um hipócrita.”
Com o trabalho na administração Trump, onde conquistou o título de vice-chefe de gabinete adjunto para políticas públicas e segurança interna, Miller tornou-se o poster das políticas de imigração, incluindo a proibição de cidadãos de países de maiorias muçulmanas entrarem no país ou a separação de famílias na fronteira, e um dos maiores defensores da atuação dos agentes do ICE.
“Repatriámos imigrantes ilegais a um ritmo nunca visto na nossa História”, disse este ano, numa conferência de imprensa na Casa Branca. “A todos os agentes do ICE digo: têm imunidade federal. Qualquer um que impeça o vosso trabalho está a cometer um crime”, citava aqui a PBS.
Pouco depois, em janeiro deste ano, quando dois agentes do ICE balearam e mataram o enfermeiro Alex Pretti, de 37 anos, em Minneapolis, Miller acusou nas redes sociais a vítima de ser “um terrorista doméstico” e um “assassino”, recorda a BBC neste perfil. Depois de as imagens da morte de Pretti terem revelado que este, apesar de ter uma arma, não ameaçou os agentes antes de ser atingido por dez balas, Miller admitiu que os agentes poderiam não ter “seguido o protocolo” adequado.
Na sequência desse episódio, o congressista democrata Don Beyer, da Virgínia, escreveria nas redes sociais o que muitos críticos de Miller pensam: “É um fanático enlouquecido e sedento por sangue, e as suas políticas colocam vidas em risco todos os dias em que ele permanece no poder.”
Aprovação das políticas de Miller caiu. Mas o lema é “nunca recuar”
Em maio, como recorda a BBC, foi Miller o responsável por exigir que as autoridades intensificassem a detenção e deportação de imigrantes sem documentação, tendo revelado publicamente que o governo norte-americano teria estabelecido a meta de três mil prisões por dia. E tem defendido essas políticas com um argumento: é o que os eleitores, que elegeram Trump por uma segunda vez, quiseram.
Ainda assim, a aprovação dos eleitores sobre as políticas de imigração caiu para 39%, segundo uma sondagem da Reuters-Ipsos — e 58% acreditam que as táticas adotadas foram “longe demais”. O próprio Trump chegou a admitir, após as mortes de Alex Pretti e Renee Good (outra norte-americana morta pelo ICE), que seria preciso um “toque mais suave” nestas políticas.
Com o protagonismo assumido nestas matérias, à BBC o estratega conservador que trabalhou em ambas as campanhas presidenciais de Trump Bryan Lanza colocava Miller como “arquiteto da política de deportação em massa”. Nesse artigo, escrito em fevereiro deste ano, antecipava uma conclusão para estas intercalares: “Só saberemos em novembro se a culpa é dele. Os eleitores, no fim das contas, podem ser implacáveis.” A mesma fonte considerou Miller “central para a psique de Trump”, com um lema: “Sempre avançar com força; nunca recuar”.
Numa entrevista à CNN aqui citada, o próprio Miller pareceu reconhecer isso mesmo, aplicado à força dos Estados Unidos: “Somos um superpoder. E com o Presidente Trump, vamos comportar-nos como um superpoder”. Nesse caso, falava da possibilidade de os Estados Unidos tomarem o controlo da Gronelândia à força. “Vivemos no mundo real, que é governado pela força, pelo poder”.
O papel de Miller é agora descrito como uma espécie de peça tão próxima de Trump que “interpreta as ideias do Presidente e executa-as como iniciativas políticas”, fazendo também de ponte de ligação entre a Casa Branca e o Capitólio. Sendo sobretudo um homem de bastidores, tem ganhado notoriedade sobretudo neste segundo mandato — uma sondagem do YouGov, conduzida em setembro de 2025, atribuía-lhe uma notoriedade de 50%, mas uma popularidade de apenas 18%.
Também a mulher de Miller, Katie, é uma fervorosa apoiante de Trump, tendo trabalhado durante o primeiro mandato no Departamento de Segurança Interna e defendido publicamente a anexação da Gronelândia. Chegou a dizer que tinha sido enviada à fronteira dos Estados Unidos para ver as separações de famílias pelos seus olhos — “estavam a tentar que tivesse mais compaixão, mas não funcionou”. Tem agora o podcast The Katie Miller, com o objetivo de “reunir mulheres conservadoras”.
Em vários perfis, Miller é referido como um “vilão” para a esquerda norte-americana e como alguém “admirado e temido” no universo Trump. O democrata Gavin Newsom passou mesmo a referir-se publicamente a Miller como “Voldemort” — o aterrador vilão da saga de Harry Potter.
“Incrivelmente poderoso” e “em esteroides”
Seja ou não um ativo eleitoral, o que é dado como certo, ouça quem se ouvir, é a lealdade que Miller tem demonstrado para com Trump, incluindo nos anos em que o atual Presidente esteve afastado do poder, durante o mandato de Joe Biden.
“Na primeira administração Trump, Stephen Miller era um conselheiro sénior. Era incrivelmente poderoso. Tinha a confiança do Presidente. Mas neste mandato, é isso em esteróides. É difícil exagerar ao dizer quão influente é Miller neste mandato e quão poderoso e importante ele é”, explicava aqui a jornalista da The Atlantic Ashley Parker.
E descrevia a aliança Trump-Miller como “um emparelhamento natural de dois indivíduos que pensam da mesma forma sobre imigração. Não é que Miller tenha tido de puxar Trump para a direita ou para o extremo, mas providenciou uma espécie de moldura intelectual, entendimento das políticas e filosofia destas visões que Trump intuía, mas originalmente talvez não fosse capaz de articular”.
“Stephen Miller serviu fielmente o presidente Trump por anos porque é inteligente, trabalhador e leal. Stephen articula todas as áreas do governo para garantir que cada política, externa e interna, seja implementada em ritmo recorde. Os resultados do último ano falam por si”, dizia a então porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, à BBC.
Quando as mensagens de Trump e os seus conselheiros sobre um ataque aos rebeldes houthis do Iémen foram acidentalmente partilhadas com um jornalista da revista The Atlantic, Miller aparecia no centro do processo de decisão, sempre em defesa das opiniões de Trump. “Pelo que ouvi, o presidente foi claro: sinal verde“, escreveu numa conversa que incluía nomes de topo na administração como JD Vance, Pete Hegseth ou Marco Rubio.
“Aos meus colegas que acham que é possível convencer Donald Trump de que Stephen Miller é um peso para ele, desejo boa sorte”, chegou a dizer o senador Lindsey Graham, citado pela BBC, quando questionado sobre a importância de Miller para esta administração, onde conquista agora uma posição ainda mais relevante. “Quando o relógio bater meia-noite na era Trump, algumas pessoas sairão pela porta junto com Donald Trump. Stephen Miller estará nesse grupo.”
[Duarte Lima chega ao Brasil 45 horas antes de Rosalina Ribeiro ser assassinada. Tinha encontro marcado com a milionária no Rio de Janeiro mas aterra em Belo Horizonte. Na reconstituição dos movimentos dele, a polícia percebe que o advogado nunca usou o telemóvel pessoal no Brasil. Mas foram detetados contactos a partir de dois telefones portugueses e um suiço. Um deles liga várias vezes para a casa da milionária. Já pode ouvir o terceiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]