Uma série de publicações que corre nas redes sociais garante que um piloto norte-americano foi capturado pela Guarda Revolucionária Islâmica e a milícia paramilitar Basij, uma novidade que teria sido anunciada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi. Embora sejam muitos os internautas a espalhar esta ideia, as versões divergem e as fotografias que acompanham a suposta notícia também.

No caso da publicação que aqui analisamos, o utilizador do Facebook alega que o soldado capturado é o piloto do caça F-15 dos Estados Unidos (F-35, diz o texto) que foi abatido na sexta-feira passada pelo Irão. E publica uma fotografia que parece mostrar um soldado ferido, rodeado pelos supostos elementos das forças iranianas.

Acontece que não há qualquer notícia de isso ter acontecido, nem houve, desde logo, qualquer anúncio oficial da parte do Irão sobre a suposta captura do soldado norte-americano. A origem da fotografia é duvidosa: não foi usada por órgãos de comunicação social ou por páginas credíveis, incluindo páginas dos governos norte-americano ou iraniano.

A busca feita pelo Observador feita com recurso a três ferramentas de pesquisa reversa (pela origem da imagem) devolve resultados encontrados apenas nas redes sociais, em perfis desconhecidos. E as publicações contextualizam a imagem sempre de forma contraditória: há quem alegue que a fotografia é do soldado alegadamente capturado, quem garanta que foi tirada antes de ser libertado, quem acredite que a imagem foi retirada de um filme ou foi alterada digitalmente. Mas nenhuma notícia ou fonte oficial usa a imagem ou a relaciona com a notícia do piloto do avião norte-americano.

O que aconteceu de facto, como foi amplamente noticiado, foi que o avião F-15E foi abatido no dia 3 de abril, tendo ambos os tripulantes — o piloto e o oficial de armas — sido ejetados (como explicava aqui o Observador, isto foi uma opção do piloto, que recorreu ao sofisticado sistema de ejeção do caça para que ambos pudessem escapar vivos — o sistema projeta o ocupante do assento a uma velocidade de cerca de 200 metros por segundo, implicando uma elevada probabilidade de fraturas na coluna vertebral e outros ferimentos).

Mas se o piloto foi rapidamente resgatado, o coronel “altamente respeitado”, nas palavras de Donald Trump, que o acompanhava passou mais de 24 horas escondido na região montanhosa de Zagros, no sul e oeste do Irão, em que o avião caiu. A 5 de abril, domingo, Donald Trump anunciava que também este tripulante tinha sido encontrado, escrevendo na rede social Truth Social: “ENCONTRÁMO-LO! O exército norte-americano enviou dezenas de aviões, armados com as armas mais letais do mundo, para o encontrar. Está ferido, mas ficará bem”.

“Este bravo guerreiro esteve atrás das linhas inimigas nas perigosas montanhas do Irão, a ser caçado pelos nossos inimigos, que estavam a ficar mais e mais perto a cada hora. Esta é a primeira vez na história militar que dois pilotos norte-americanos são resgatados, separadamente, no coração do território inimigo”, acrescentou o Presidente dos EUA.

Como explicava a Time aqui, de acordo com fontes militares americanas, o soldado usou o seu treino SERE (cujos princípios se traduzem em português por Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga) para fugir à captura durante um dia e meio, enquanto se encontrava a algumas milhas do piloto com “centenas” de elementos das forças iranianas espalhados “por todo o lado”. Pelo meio, teve de escalar uma encosta de 2.100 metros, equipado com pouco mais do que uma pistola e um dispositivo de comunicação.

“Era como procurar uma agulha num palheiro, mas neste caso tratava-se de uma alma americana corajosa dentro de uma fenda na montanha”, descreveu um oficial norte-americano ao jornal Axios, para explicar a complexidade da operação de resgate e o tempo que o militar passou sozinho. A operação de resgate foi conduzida por uma unidade de fuzileiros das forças especiais, contando com um amplo apoio aéreo, tendo a Guarda Revolucionária Islâmica enviado forças, que acabaram por ser alvos de ataques dos EUA, para tentar impedir o resgate.

Conclusão

As publicações que falam num soldado capturado são falsas. Não há indicações oficiais do Irão ou dos EUA nesse sentido, nem nenhuma fonte oficial partilhou a fotografia em causa. Existe, sim, notícia de que os dois militares que seguiam no F-15E abatido foram resgatados em território iraniano.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

IFCN Badge